Abaixo o regime militar

Por André Forastieri

O Brasil é o 11º país com maiores gastos militares. Em 2015 chegou a R$ 31,9 bilhões. Era 1,3% do PIB. Dilma foi então pra Suécia, posar para foto dentro de um caça. O ministro da defesa da época, Jaques Wagner, comemorou “economia” na compra desses 36 aviões suecos para nossa Aeronáutica. O projeto total estava orçado em R$ 5 bilhões. “A presidente Dilma ficou satisfeita com a negociação bem sucedida”, disse Wagner.

Quem substituiu Wagner? Não importa. É um dos ministérios que deveriam deixar de existir.

Função de militar é matar, e o Brasil não tem inimigos. Não precisamos de exército, marinha ou aeronáutica. Deveriam ser abolidos. Não faria a menor diferença.

Melhor: faria grande diferença para o bem. Na América Latina, não há país mais civilizado que a Costa Rica. Por várias razões, e a principal é que a Costa Rica aboliu as forças armadas em sua constituição de 1949. Tem uma guarda civil e uma guarda rural e só.

Ninguém diga que aquele canto do mundo é tranquilo. A América Central já enfrentou de tudo. Ditadores, guerrilheiros, narcotraficantes, mafiosos, multinacionais que mandavam em países inteiros. A Costa Rica ali no olho do furacão e, em mais de seis décadas, sempre manteve seu rumoada de exército.

O que iam gastar com “defesa”, investiram onde mais importava — no ataque aos seus principais problemas. Hoje a Costa Rica tem alto índice de alfabetização, meio-ambiente superprotegido, pontua bem em todos os principais índices do bem viver planetário. Não é um país rico, nem de longe, mas em média vive-se com mais paz lá que em qualquer outro lugar da América Latina. Inclusive o Brasil, claro.

Desarmar o Estado ajuda a desarmar o espírito? No Brasil, ao contrário, temos armas para todo lado. O governo federal tem as Forças Armadas, os Estados têm polícias militares, cidades suas polícias civis, bandidos suas metrancas, e cidadãos particulares seu revólver no porta-luva.

Temos até nossa própria indústria bélica. Frequentemente temos a vergonha de ver tanques brasileiros usados por ditaduras diversas contra manifestantes pacíficos. Com tudo isso, e sem inimigos, o Brasil vive uma violência sem fim.

Quando o dinheiro está sobrando, desperdício passa batido. Agora que o cobertor está curto, há que focar no que importa e cortar o resto. Avião de caça modernex, num país sem guerra nem inimigos, é a própria definição do supérfluo. O Brasil corta investimento em escola, hospital, segurança, aposentadoria, salário-desemprego. Mas temos R$ 5 bilhões sobrando para importar aviões de caça, para “proteger nossas fronteiras”?

Se o Brasil abrisse mão de suas forças armadas, quem iria guardar nossas fronteiras? A pergunta é outra: que país é capaz de invadir e ocupar um lugar do tamanho do Brasil, com 200 milhões de habitantes? Nenhum. No século 21, as nações se digladiam por outros meios. Cérebros valem mais que balas. Inovação mais que avião.

O Brasil podia ter uma boa polícia federal, um timezinho de forças especiais bem treinadas, e um abraço. Baita economia. Mas não. Trocamos Geisel e Figueiredo por FHC e Lula e Dilma, gente que foi perseguida pelos militares, e mesmo assim mantiveram tudo igual. 

Desconfio que nós brasileiros, estamos prontos para seguir o exemplo da Costa Rica. O Brasil, infelizmente, não está. Pelo menos em uma coisa evoluímos bastante. Como diz o amigo Edson Aran: eu sou do tempo em que o militar é que demitia o presidente…

MILICOS 2021

O texto acima é de outubro de 2015. Era ruim, piorou bastante. Naquela época, tínhamos menos de 2 mil militares cedidos para cargos civis no governo federal. Hoje são mais de 6 mil. 

Muitos ocupam os principais cargos de decisão, inclusive como ministros, com os resultados que vemos e choramos.

O Brasil tem o 14º maior efetivo mundial de militares do planeta. Os soldos e generosas pensões das Forças Armadas consomem 80% de seus gastos. Não nos protegem de ninguém. 

O orçamento militar de 2021 é MUITO maior que em 2015: R$ 82,53 bilhões.

E o orçamento para investimentos militares em 2021 é R$ 8,3 bilhões, o que significa 22% do orçamento total do governo federal pra investimentos.

LEIA

Este perfil de Pedro Castillo, que venceu a aliança centro-direita-fascistas no Peru. Pro bem e pro mal, ele é a cara da latinoamerica hispano-hablante campônia-carola.

Vai dar certo? Vai dar merda? Melhor apostar em um professor primário que na filha do Fujimori.

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Acompanhe sempre a Maria Cristina Fernandes, nossa melhor analista política, no Valor Econômico. Esses dias ela explicava porque os militares de lugares como França e EUA estão botando as manguinhas de fora.

Nossos milicos daqui estão surfando a mesma onda da extremíssima direita. Eles têm muito poder e grana a perder, caso Bolsonaro seja derrotado em 2022.

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E leia a nova pesquisa do Poder 360, com intenções de voto pra 2022. A boa notícia é que, se a eleição fosse hoje, Lula, Ciro, Dória e Huck venceriam Bozo.

A péssima notícia é: no pior destes cenários, ele ainda tem 35% das intenções. Isso com pandemia grassando, 10 milhões de empresas fechadas em 2020, quebradeira generalizada e fome na rua.

Em 2022, com um auxílio generoso pros pobres, e o país vacinado (contra os esforços do governo, claro), arrisca ele estar com bem mais de 35%.

Se a gente der mole, arrisca ser reeleito.

Conhecendo o Brasil, pressinto que daremos mole.

Rezo a São Malatesta pra que me prove errado.

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Roblox é um dos games mais populares entre as crianças do planeta. Mas ele pode estar criando uma geração de fascistas…

OUÇA

O álbum-tributo à banda que bateu no fascismo – o militar, o cotidiano, o emocional – com a mais aguda combinação de arte e acidez. É “The Problem of Leisure: A Tribute to Andy Gill and Gang of Four”. 

Celebra os 40 anos da banda, e a morte de Gill, que participou do planejamento do disco antes de morrer, um ano e meio atrás.

Só gravação nova, de gente como Idles, Gary Numan, Tom Morello & Serj Tankian, Warpaint, Dandy Warhols, Killing Joke. Tem um corinho infantil fofo na versão de Flea e John Frusciante pra “Not Great Men”… e os suecos The Sounds mandando uma fidelíssima, sarcástica, raivosa “I Love A Man In a Uniform”.

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Brian Eno, da organização global pela mudança radicalmente democrática Progressive International, e ex-Roxy Music / artista produtor por aí – Bowie, Talking Heads, U2 – criou uma rádio. +

50 edições! Festa no podcast! Trilha só com músicas dos anos 50, e a preciosa presença do amigo Álvaro Pereira Junior contando suas aventuras atrás das vacinas que os políticos teimam em nos negar.

ASSISTA

Filmes sobre regimes militares, fascismo, ditaduras. Mostre para os seus filhos, sobrinhas, netos.

“Terra e Liberdade” do Ken Loach. “O Ódio”, com o Vincent Cassel. “Roma, Cidade Aberta”, do Rosselini. “American History X”. “Julgamento em Nuremberg”. “Starship Troopers”. Todos os do Costa-Gavras.

E “V de Vingança”.

VOCÊ SABE

O povo não deve temer o governo – o governo deve temer o povo.

3 comentários em “Abaixo o regime militar

  1. Retornando, depois de longo tempo, ao nosso boteco virtual. Esperando aqui para bebericar, os velhos baluartes: Valentim, Jorge Amorim, Daniel, Cláudio do Colúmbia, Rocildo, Harold. O Boêmio voltou!

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