Um trabalho sob desconfiança

POR GERSON NOGUEIRA

Vinícius Eutrópio, técnico do Paysandu — Foto: Ascom Paysandu

Depois do pífio desempenho do PSC contra o Botafogo paraibano, a pergunta que se impõe é: o time tem condições de render mais, apesar das limitações óbvias? É possível que sim. Boas apresentações foram raras na temporada, mas na final do Parazão contra a Tuna o rendimento foi muito acima do esperado, o que permite imaginar que nem tudo está perdido.

Na ocasião, pressionado pelas circunstâncias, necessitando golear para ficar com o título, o PSC foi intenso e eficiente na maior parte do jogo. Algo que não se tinha visto antes e que, curiosamente, não se viu depois.

Pelas afirmações de Vinícius Eutrópio após a derrota para o Botafogo, o caminho para adquirir competitividade será longo e árduo. O técnico não conseguiu sequer ler corretamente o que se viu em campo. Limitou-se a repetir o clichê de que o adversário veio jogar “por uma bola”.

Além de pouco criativo, Eutrópio não analisou bem a atuação de seu time, o que pode vir a ser um problema ao longo da competição. Explicar o vexame com o fato de o PSC ter enfrentado um adversário que veio para explorar erros é de um primarismo assustador.

Qualquer time, em qualquer campeonato, atua sempre no sentido de se beneficiar de eventuais falhas do oponente. Futebol é assim desde que a bola é redonda. O técnico, que treina a equipe há pouco mais de três semanas, teve tempo para corrigir erros e ajustar a marcação.

Causa surpresa a insistência com titulares que não conseguiram render no Campeonato Paraense. O lateral Bruno Collaço e os volantes Paulinho e Ratinho não se consolidaram contra adversários mais modestos no Estadual. É óbvio que teriam problemas contra times da Série C.

No caso da lateral esquerda, há um reserva qualificado pedindo passagem. Diego Matos, ágil e técnico, é uma opção natural para a posição. No meio-campo, Eutrópio terá que buscar alternativas para a produção deficiente e insatisfatória da dupla titular.

Caso consiga descobrir alternativas no elenco, o time tende a melhorar em relação aos dois jogos realizados no Brasileiro. No primeiro, a desorganização deu o tom. No segundo, em casa, faltou pegada e sobrou distanciamento entre os setores.

A insegurança começou pela linha de defesa, onde Perema e Denilson pareciam estar se conhecendo ali naquela noite. Erros de posicionamento, saídas equivocadas e dificuldade de recuperação comprometeram o trabalho defensivo. Os laterais jogaram no mesmo nível ruim.

Com a saída do artilheiro Gabriel Barbosa, anunciada ontem, Eutrópio perde uma boa alternativa para mudar a rotação do ataque. Nas circunstâncias atuais, o mais recomendável é investir em talento.

Para começar, Jhonnatan, João Paulo, Diego Matos e Ari Moura, os mais técnicos do elenco, deveriam ser priorizados na escalação para o difícil confronto de sábado com a Jacuipense, em Salvador.

Copa América: diferenças que aumentam os riscos

Na iminência da chamada terceira onda da pandemia no país, o governo abraçou a causa da realização da Copa América, depois que o torneio foi inviabilizado na Colômbia e na Argentina. A oposição a essa clara imprudência é vista por alguns como incoerência ou hipocrisia. Entendem, como diz a Conmebol, que será seguido o mesmo protocolo adotado na Libertadores e nas Eliminatórias da Copa 2022. Não é verdade.

É fato óbvio que Eliminatórias não deveriam ocorrer no formato atual, em ida e volta, enquanto o continente é assolado duramente pela pandemia. Ainda assim, é um torneio com características diferentes da Copa América.

O acesso ao Mundial do Catar consiste em jogos que ocorrem em cada país, por vez, com a presença de uma delegação visitante – como ontem, em Assunção, para o jogo Paraguai e Brasil. Isso implica na presença de uma comitiva de 50 pessoas, além de árbitros e delegados.

Na Libertadores, a situação se repete. As delegações passam apenas dois dias no local da partida, com um contingente máximo de 50 pessoas. Depois dos jogos, os times voltam para o país de origem.

Cenário inteiramente contrário do que veremos na Copa América. Cerca de 800 pessoas irão se deslocar de nove países, além do estafe da Conmebol e profissionais de arbitragens de toda a América do Sul.

Junte-se a isso dirigentes de empresas parceiras e o total de visitantes chegará a mais de 2 mil pessoas viajando para o Brasil. O torneio vai de 13 de junho a 10 de julho, com quatro cidades-sede (Rio, Brasília, Cuiabá e Goiânia) e deslocamentos constantes por avião para cumprir os 28 jogos.

Não há termo de equivalência com competições que impõem partidas isoladas em determinado país. Piora ainda mais o quadro a ausência de um protocolo sanitário específico para a Copa América.

Os protocolos das Eliminatórias e Libertadores não serão empregados no torneio continental. Em documento preliminar, a Conmebol chegou a divulgar que usaria o sistema da NBA: criaria uma bolha para resguardar os jogadores. Prometeu, ainda, vacina para todos os participantes, fato já desmentido pelo ministro da Saúde do Brasil.

Para arrematar, não custa lembrar que o Flamengo foi vítima de surto durante passagem pelo Equador no ano passado. Neste ano, o Grêmio passou pelo mesmo perrengue. O Independiente trouxe jogadores infectados para um jogo em Salvador, pela Sul-Americana.

O episódio mais recente envolveu o River Plate, que ficou sem goleiro para enfrentar o Santa Fé. A delegação sofreu um surto generalizado. E se isso ocorrer durante a Copa, em hotéis comuns para atletas, árbitros, dirigentes e parceiros?

A agressividade das novas variantes é de conhecimento público e o Brasil tem hoje média de 2 mil óbitos/dia. O risco é maior do que sinalizam a posição da Conmebol e a decisão do governo brasileiro, cujos cuidados com a pandemia obviamente não podem ser levados a sério.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 09)

Um comentário em “Um trabalho sob desconfiança

  1. O mais patético da derrota para o Botafogo (PB), além do péssimo e descompromissado desempenho do time, foi a contumaz e esfarrapada desculpa dos “professores” do futebol brasileiro.
    Em entrevista ao final do jogo, Vinícius Eutropio declarou da dificuldade de enfrentar adversário que vêm jogar por “uma bola”. Deveria retificar a declaração, pois foram “duas bolas”. Nada disse sobre seu time, que jogou por “nenhuma” bola.
    Quanto à anunciada “barca”, prometida para desatracar do trapiche Curuzu, sugere-se seja substituída por uma “balsa” !!!

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