Forasta News: debaixo dos panos

Por André Forastieri

No início de janeiro, quatro ex-seminaristas acusaram o arcebispo de Belém, Alberto Taveira Correia, de abuso sexual. O Fantástico revelou, a Polícia Civil do Pará investiga, e a CNBB disse que estranha muito, dado o “comportamento ilibado e cordial” de Alberto.

Talvez este seja o primeiro caso brasileiro a ser investigado dentro das novas regras do Vaticano para investigar acusações de pedofilia. A Igreja Católica promete mais transparência e rigor. Esta reportagem da BBC detalha o caso, e deixa claro que não há motivos para celebrar.

Em 2014 fez barulho aquele filme, Spotlight, sobre padres pedófilos. Ganhou Oscar. No mesmo ano, saiu um documento da ONU que exigia que Roma mudasse drasticamente de política.

Pedia que a Igreja explicite as acusações de pedofilia contra sacerdotes; entregue-os às autoridades policiais de cada país, para investigação no local; em caso de crime comprovado, expulse-os.
O papa Francisco, popstar e unanimidade, é sorridente e simpático. Dispensa pompa, fala sem firulas. Prometeu na época enfrentar com rigor o problema da pedofilia pandêmica no clero. 

Criou uma comissão de experts para lidar com a questão. Quando você não quer resolver nada, crie uma comissão. São milhares de casos comprovados, e sabe-se lá quantos outros que nunca vieram à luz. Tem um que é especialmente esclarecedor de como a Igreja opera.

No dia 21 de agosto de 2013, o Vaticano trocou o núncio papal na República Dominicana, monsenhor Josef Wesolowski, sem nenhuma explicação.

No dia 4 de setembro, um porta voz do Vaticano comunicou à imprensa que uma investigação interna estava sendo conduzida. A imprensa dominicana acusava o diplomata de pagar garotos menores para fazerem sexo com ele, num bairro no centro histórico de Santo Domingo.
“Jusepe” chegou a levar até cinco garotos para as festinhas. Um engraxate de 13 anos diz que o monsenhor filmava tudo no celular. Wesoloswki tinha 65 anos então.

Era o enviado do papa a Santo Domingo há cinco anos, para onde foi enviado por Bento 16. Foi ordenado em 1972, pelo igualmente polonês Karol Wojtyla, depois papa João Paulo II. 

No dia 13 de janeiro de 2014, o Vaticano anunciou que Wesolowski enfrentaria dois julgamentos, um canônico, outro criminal. Onde? No Vaticano. No primeiro, o pior que pode acontecer é deixar de ser sacerdote. No segundo, poderia até cumprir pena. Onde? Dentro do próprio Vaticano. Depois de ser julgado pelos colegas…

Wesolowski morreu no dia 28 de agosto de 2015. Estava livre. O julgamento iria começar quando ele foi internado.

A Igreja agiu em segredo. Não explicitou as acusações contra  Wesolowski. Não o entregou às autoridades do país onde os crimes aconteceram para investigação no próprio local, para que confrontasse seus acusadores. Sumiu com ele da República Dominicana. Anunciou uma investigação genericamente, e foi tudo para debaixo dos panos. 

Em 2019, anos de estudos da comissão e tal, Francisco finalmente decretou o novo conjunto de regras para lidar com acusações de pedofilia.

O papa é só papo. Existem organizações de vítimas de pedofilia da Igreja nos quatro cantos do planeta. 

No finzinho de 2020, uma comissão independente publicou relatório com 6.500 casos de abusos cometidos pelo clero. No mundo? Não, só na França… 

Uma das mais barulhentas ONGs, italiana, ali na porta de São Pedro, é a Rete L’Abuso. Reúne mais de 900 vítimas. Seu fundador, Francesco Zanardi, diz o que dizem todas: as novas medidas introduzidas pela Igreja não são eficazes.

Francisco pode se julgar infalível em questões de doutrina, como garante a própria. Mas até outro dia era Jorge Bergoglio, bispo argentino, e sabe muito bem que jamais enfrentará os padres pedófilos. Porque não pode, não quer.

Não quer porque obedecer aos ditames mínimos da moralidade exige expor as entranhas da Igreja ao escárnio público, e abaixar a cabeça para poderes civis e laicos, e portanto mutáveis, permeáveis às pressões sociais. Impensável, se você crê que sua organização, na pessoa de cada sacerdote, é a única representante na Terra de um ser eterno, onipresente, onisciente e onipotente. 

E não pode por causa do celibato imposto a padres e freiras, que não mudará jamais. 

Engraçado que segue o coro progressista contra o conservadorismo dos evangélicos, supostamente muito mais nocivo que o dos católicos. Mas quando se trata de sexo, a vida do clero crente é bem mais arejada.

E este ódio ao sexo, que faz parte do próprio DNA da Igreja Católica, permeia o próprio ar que respiramos, nos países católicos. É combustível para o preconceito, a ignorância, o machismo, a violência. E para… a morte de 9000 bebês.

Reza o provérbio: não há perversão pior que a abstinência. Decidir não fazer sexo pelo resto da vida é como decidir não enxergar, não ouvir, não pensar. Vai contra o que há de mais precioso e atávico na vida. Vai contra a própria vida. Uma entidade que exige a castidade de seus integrantes atrairá uma quantidade desproporcional de pervertidos.

O arcebispo Alberto pode perfeitamente ser inocente. Jamais saberemos de fato, porque a Igreja não quer, e quando se trata da Igreja, os poderes e polícias passam pano.

Mas o problema vai muito além desta acusação específica. Padres não podem ter uma vida sexual natural, saudável e aberta – heterossexual ou homossexual. O ódio ao sexo alimenta a perversão. A Igreja não vai mudar. A pedofilia permanecerá. É inevitável.

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