O alto preço de um castigo

POR GERSON NOGUEIRA

Rafael Jansen, Salatiel e Dioguinho

O Remo vive um drama terrível na semana da primeira partida da final da Série C. Tem 11 jogadores em tratamento, após diagnóstico positivo de covid-19. O técnico Paulo Bonamigo também está contaminado, assim como o auxiliar João Neto. Não se trata de coincidência ou falta de sorte. É castigo. Um alto preço a pagar pela negligência na observação dos cuidados básicos em relação à pandemia.

Na noite de 10 de janeiro, horas depois da conquista do acesso à Série B, quase todos os jogadores compareceram aos festejos da torcida na Doca de Souza Franco. Nenhum usava máscara. Abraçados, todos pularam, cantaram, beberam e confraternizaram com torcedores por algumas horas. Deslize imperdoável para um clube que sempre zelou pela segurança de seus atletas e funcionários.

Às vésperas do jogo com o Londrina pela rodada final da 2ª fase da Série C veio o resultado dos testes: seis atletas estavam com covid – Salatiel, Marlon, Mimica, Carlos Alberto, Gelson e Augusto. O técnico Bonamigo e seu auxiliar direto, também. Para dirigir o time no sábado foi designado o auxiliar João Neto. As ausências foram determinantes para a derrota.

Ontem, quando se contabilizava o peso das seis baixas para a primeira batalha da decisão com o Vila Nova (GO), estourou nova bomba: mais cinco jogadores haviam testado positivo para covid. Os titulares Rafael Jansen e Charles, mais Warley, Dioguinho e Ronald. João Neto, que havia substituído Bonamigo à beira do campo contra o Londrina, também está contaminado. E há sempre o risco de novas baixas.

Sem 11 atletas fica praticamente inviável montar uma equipe em condições de encarar a decisão do campeonato. A reação imediata da diretoria foi entrar com um pedido de adiamento do primeiro jogo da final, previsto para sábado. É improvável, porém, que a CBF acate a reivindicação. O critério adotado é de só cancelar ou adiar jogos quando um dos times dispõe de menos de 13 jogadores no elenco.

Além dos 11 infectados, o Remo tem ainda três atletas lesionados – Lucas Siqueira, Júlio Rusch e Dudu Mandai. Tcharlles estaria com suspeita da doença. Restam no elenco 15 atletas, o que garantiria a realização do jogo, segundo o procedimento adotado pela CBF.

Em função do ocorrido, profissionais do departamento médico teriam se revoltado e manifestado a intenção de deixar o clube. A reação é perfeitamente compreensível ante a irresponsabilidade que envolveu a presença de profissionais do futebol azulino na festança da Doca.

A pandemia entrou na chamada segunda onda na Região Norte e é grande o risco de contágio em aglomerações, ainda mais quando ninguém usa máscaras de proteção. O mais grave é que os jogadores foram autorizados a prestigiar a comemoração. Uma atitude que tem mais a ver com o fervor dos torcedores do que com a seriedade exigida de profissionais.

Por conta da contaminação e dos desfalques, o Remo fica na iminência de perder um título tão importante e especial, 15 anos depois da primeira conquista. Não há premiação financeira, mas é preciso levar em conta o valor da marca e o prejuízo à imagem do clube.

Caso o primeiro jogo da final seja confirmado para sábado (23), o mais provável time do Leão será: Vinícius; Ricardo Luz, Fredson, Gilberto Alemão e Lailson; Pingo, Lucas (Júlio Rusch), Felipe Gedoz e Eduardo Ramos; Hélio Borges e Tcharlles.

Os deuses também choram

“Um dia chegou na Manhattan dos Trópicos o maior goleiro do Brasil, da seleção, abalando bicolores, azulinos, frêmito na própria floresta, para ali jogar e brilhar. E o garoto viu Castilho na varanda, num fim de tarde, chorar dores de amor a seu confessor”.

A revelação é do jornalista e escritor paraense Palmério Dória em postagem no Twitter, ontem. Sempre mordaz, ele dedicou ontem um dedo de prosa à lembrança de um episódio de sua adolescência, quando sonhava em ser goleiro do Papão.

Castilho, o homem da leiteria, um dos maiores goleiros da história do Fluminense, foi também ídolo bicolor nos anos 60. E chorou copiosamente de paixão amorosa, deixando o moleque Palmério impressionado diante daquela cena inusitada.

Esse episódio foi mencionado, com mais detalhes, por Nelson Maués em seu belíssimo e delicioso livro “De Mosqueiro a Xangai”, lançado há dois anos e que ainda vai merecer uma resenha aqui na coluna.

Os passos do Papão sob nova direção

Maurício Ettinger assumiu ontem, oficialmente, a presidência do PSC e já adotou medidas práticas. Livrou-se do executivo Felipe Albuquerque e dispensou o técnico João Brigatti. A partir de agora, começa a busca por um novo treinador, outro executivo e a imediata reformulação do elenco.

Presume-se que o desmanche será amplo, com a dispensa de pelo menos 15 jogadores. Os novos dirigentes avaliam que o grupo de atletas rendeu o que era possível nas duas temporadas. Grande parte chegou ao clube em 2019 e disputou a Série C sob o comando de Hélio dos Anjos.

Em entrevista, Ettinger mostrou otimismo, ambição e visão de longo curso. Quer unificar correntes do clube para iniciar um trabalho de recuperação, que permita o acesso à Série B em 2022 e à Série A em 2023.

Não ficou preso aos problemas do passado, preferindo projetar um Papão novamente fortalecido e capaz de buscar os títulos de todas as competições que disputar. Os desafios são imensos, a começar pela insatisfação do torcedor, mas sonhar alto é um bom começo.

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 19)

2 comentários em “O alto preço de um castigo

  1. O amadorismo está nas vísceras do futebol brasileiro. O interessante e risível é que a cada nova direção o papo (furado, é claro) é o de que o clube vai ter uma administração profissional, com diretores competentes e especialistas em gestão. Balela. Ganhando ou perdendo o título a imagem do clube já foi chamuscada por esse episódio.

    Curtir

  2. Eu não quero saber de blá blá blá, quero resultados, títulos e um futebol competente, eficiente e objetivo.
    Chega um momento que conversa fiada e falta de compromisso com o torcedor Bicolor encontra seu limite.
    O prejuízo financeiro além da possibilidade de ter, caso ocorra a volta da torcida aos estádios, uma receita de bilheteria como a muita não se vê, o motivo são os jogos contra dois gigantes do futebol, Cruzeiro e Botafogo, são irreparáveis.
    A nefasta administração anterior não merece elogios.
    É minha opinião.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s