Bolsonaro agora ameaça a vacinação

Por Moisés Mendes

Bolsonaro fez esta semana uma declaração previsível, mas de alto risco, no momento em que chegam ao Brasil os componentes para as primeiras doses da vacina chinesa.

Incomodado com o fato de que Dória Júnior se fortalece como líder da imunização, Bolsonaro disse o seguinte:

“Se tiver um efeito colateral ou um problema qualquer já sabem que não vão cobrar de mim”.

A frase é uma tentativa de aviso de que ele não teria responsabilidade nenhuma com a vacinação.

Claro que terá. Ele não quer compromissos com a CoronaVac, por causa de Dória e porque pretende resumi-la a um projeto estadual. Bolsonaro já boicotou a CoronaVac. Mas a vacinação no país estará sob responsabilidade do governo federal.

Governantes de todo o mundo são responsáveis por ações de saúde pública e mais ainda na pandemia. Mas o negacionista acha que não tem responsabilidades nem pelo descontrole da peste subestimada por seu governo.

O que a frase de Bolsonaro quer dizer não precisa de tradução, mas é bom que se reafirme a crueldade contida no alerta.

Bolsonaro sugere que as pessoas pensem que acontecerão problemas. Que não pensem na possibilidade de solução, depois de um ano de medo e de clausura, mas em complicações.

Ao sugerir que pensem nessa hipótese, o sujeito acaba por atiçar possíveis sabotadores. Por que falar em problemas e efeitos colaterais? Que tipo de problema?

A vacinação pode ser sabotada de várias formas, começando pelo esforço de Bolsonaro para que não exista. O Bolsonaro da cloroquina nunca demonstrou interesse pelas vacinas.

A sabotagem da extrema direita protegida pelo bolsonarismo pode ser por ação física (tanto que os estoques das primeiras doses estão em local mantido sob segredo), como pode ser por ação virtual.

Não é preciso ser vidente para saber que, a partir do início da vacinação, irão se espalhar pelo Brasil mais notícias falsas sobre efeitos colaterais graves.

O ensaio sobre esses ‘efeitos’ já existe, com as fake news divulgadas há muito tempo. O sistema de produção e propagação de mentiras somente será adaptado ao início da imunização.

É constrangedor perceber que muita gente ao redor de todos nós acredita em pelo menos um desses boatos.

Bolsonaro já domina esse ambiente e por isso patrocina o clima para que se amplie a desconfiança e que acaba por mexer com a motivação de sabotadores.

A pandemia escancara a face sombria de uma parcela não tão pequena de brasileiros. Bolsonaro aproveita-se desse caráter coletivo que o sustenta e oferece pretexto para os que também desprezam a vacina.

Como consolo, podem até dizer que essa é uma realidade mundial do negacionismo e do fascismo sem fronteiras.

Até pode ser, mas a grande maioria dos países não tem nada parecido com um Bolsonaro, nem com o eleitorado que inventou Bolsonaro.

O Ministério Público sabe que a vacinação no Brasil já está sendo sabotada, por falas, por atos e por fatos criminosos.

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