El Pibe, Diez, Dios… gênio eterno

POR GERSON NOGUEIRA

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Acompanhei ontem, com o coração partido, a repercussão da morte de Diego Maradona. Entrei no ar no programa Linha de Passe da Rádio Clube com dificuldade para manter a voz firme, sem trair o sentimento. Era um ídolo indo embora, como poucos paridos pelo futebol. Maior personagem desse esporte em todos os tempos, único em grandeza e fragilidade, imenso e menino, desassombrado e errante.

Junto com Cruyff, outro boleiro politizado, Diego combinava as jogadas de habilidade, dribles improváveis e excepcional domínio da bola com uma noção humanista que o futebol raras vezes viu em seus ídolos.

Vi alguns reparos à suposta “politização” da morte de Dieguito, coisa típica de quem nunca deu muita bola para a vida que ele levou fora dos campos do mundo. Foi ele o primeiro a levantar a voz contra os desmandos da Fifa, apontando diretamente as tramoias de Havelange e Blatter, inimigos que teve a honra de enfrentar – e vencer.

Falastrão, indomável, arrebatado, valente. Para seus compatriotas, chamá-lo de santo ou deus é absolutamente normal. Ele pairou sempre naquela faixa-limite entre terra e céu, humano e fantástico.

Poderia falar aqui do gênio, abaixo apenas de Pelé, comparável a Garrincha pela conquista de uma Copa, mas o papo aqui é sobre o homem. Alguém disse que ele foi o mais humano dos craques imortais, por jamais esconder fraquezas e vícios. Personificou a perfeição em seu estado mais imperfeito.

Revolucionário, rebelde, intenso. Maradona sempre se posicionou, sempre teve lado, jamais fugiu a uma opinião. Desafiava, com prazer, o coro dos contentes e conformistas. Vindo de um dos distritos mais humildes do país, sempre esteve perfilado ao lado dos mais fracos.

Jamais negou apoio a quem precisava de conforto. Em palavras, abraçou calorosamente Ronaldinho Gaúcho quando o viu ser preso no Paraguai. Amigo (incondicional) dos amigos. Grande cara.  

A comoção domina a Argentina, que lhe presta o tributo que nunca o país reservou a ninguém depois de Evita Perón. Indócil, era uma espécie de ídolo punk do futebol, um Heleno de Freitas mais graduado. O mundo também chora e o glorifica, como na capa do L’Équipe.

Em 2010, tive a honra de vê-lo em ação. Infelizmente não como boleiro, mas na condição de técnico da Argentina na Copa da África do Sul. Fui ver a estreia contra a Coreia do Sul, no Soccer City. Não queria bem ver o jogo, mas apenas ter a chance de ver a fera mais ou menos de perto.

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Maradona tinha como ídolo o brasileiro Rivellino, a quem dedica sua autobiografia “Yo Soy El Diego De La Gente”. “Foi um dos maiores de todos os tempos, e quando eu digo isso as pessoas ficam surpresas. Não sei o porquê. Era a elegância e a rebeldia em pessoa para entrar em um campo de futebol. As coisas que me contam de Rivellino são incríveis. Ele também se rebelava contra os poderosos”, escreveu.

Amigo pessoal do craque, Careca conta que presenciou Maradona se ajoelhar e beijar o pé esquerdo de Rivellino em um encontro entre os três. Riva sempre soube retribuir tanto carinho: quando Diego se recuperava do vício de cocaína, escreveu cartas dando força a El Pibe.

O escritor e poeta Eduardo Galeano cravou a descrição definitiva sobre ele: “Maradona foi um deus sujo e pecador, o mais humano dos deuses”. E esmiuçou a tese: “Qualquer um poderia reconhecer nele uma síntese ambulante de fraquezas humanas, ou pelo menos masculinas: mulherengo, ganancioso, bêbado, trapaceiro, mentiroso, presunçoso, irresponsável. Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam”.

Sempre antenado, poucas horas depois da morte de Galeano, em abril de 2015, Maradona o homenageou nas páginas do jornal La Nación: “Obrigado por me ensinar a ler futebol. Obrigado por lutar como um 5 no meio do campo. Obrigado por me compreender, também. Obrigado, Eduardo Galeano: a equipe precisa de muitos como você”.

Sempre gostei de anotar episódios da vida de Maradona, um esquerdista militante, outsider por natureza, amigo de figuras execradas pelo mundo político conservador. Era fã assumido de Fidel, Lula, Chávez. Tatuou a imagem do Che no braço, típico gesto do eterno subversivo.

Por esses caprichos dos deuses, Diego parte no mesmo dia da morte de Fidel. “Para mí fue como un segundo padre, porque me aconsejó, me abrió las puertas de Cuba cuando en Argentina había clínicas que me la cerraban, no querían la muerte de Maradona. Y Fidel me las abrió de corazón”. A partir de agora, todo 25 de novembro será lembrado duplamente pela vida e morte de uma dupla revolucionária, Fidel e Diego.

Orgulhoso de suas raízes, Maradona declarou certo dia à revista do maior movimento de favelas da Argentina: “Sou e serei favelado toda a minha vida”. Sobre Lula, preso em 2018, disse que era amigo do ex-presidente brasileiro e que não traía, nem mentia, nem nos piores momentos. 

Na abertura da Copa de 2014, em Itaquera, Maradona estava ao lado da jornalista Mônica Bergamo, da Folha. Ontem, ela lembrou no Twitter da indignação dele quando viu Dilma ser hostilizada grosseiramente por parte da torcida. “Absurdo, absurdo”, repetia Diego, inconformado.

Um homem solidário e generoso, que não escondia suas origens e convicções, fraquezas e paixões. Essa sinceridade tornou Diego muito maior perante o mundo. Extrapolou por completo as quatro linhas, avançou resoluto em direção à glória que é concedida apenas aos super-heróis.

Obrigado por tudo, Don Diego. Nós que amamos tanto futebol temos uma dívida eterna com você.

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Adiós, Maradona

“Gênio e louco. Audaz e autodestrutivo. Cordial e bruto. Gigante e diminuto. Técnico e intuitivo. Homem de média baixa, deus do futebol. Diego Armando Maradona era assim: um paradoxo ambulante. A contradição personificada. Eu o vi ganhar sozinho, acompanhado de 10 coadjuvantes, a Copa do Mundo de 1986. Hoje o ‘compadrito’ Maradona passou pro andar de cima. O céu (ou o inferno) que se prepare. Vai ter bagunça por lá. Vai ter show de bola. Vai ter gol de placa. Depois vai ter ‘fiesta’ com ingredientes lícitos e ilícitos. Porque vida e morte pro Dieguito, ah, só se forem pra valer”.

Iran de Souza, jornalista

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 26)

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