Tão longe, tão perto

POR GERSON NOGUEIRA

Uma noite mágica: há 55 anos, Pelé vestia a camisa do Remo no Baenão  completamente lotado | remo | ge

Com Pelé, a gente foi feliz e não sabia. Vivemos uma era em que, apesar das distâncias e da comunicação precária, os ídolos eram mais acessíveis. Talvez até porque o conceito de idolatria ainda estava em construção. Os próprios ídolos não sabiam de seu poder e magnetismo. E, claro, não havia ainda o arsenal de ferramentas de marketing para monetizar as emoções.

São reflexões que normalmente faço sobre a complexa relação entre os craques de futebol e torcida. Nos anos 1950 e 1960, auge da majestade de Pelé no planeta bola, o torcedor não tinha o fanatismo que marca as reações atuais. Os excessos não existiam. Os jogadores conviviam pacificamente, apesar da fama, com o cidadão comum.

Eram tempos que permitiam a um astro da magnitude de Pelé sair tranquilamente à rua em Santos ou qualquer outra cidade. Desfrutava da paz que cerca as pessoas normais. A sociedade midiática que conhecemos ainda levaria décadas para nascer e transformar tudo em superposição de imagens, nem sempre verdadeiras.

Situação oposta aos dias atuais, quando é inimaginável ter contato direto com superastros, como Messi e Cristiano Ronaldo, verdadeiras marcas ambulantes, cercadas de cuidados e rigorosos aparatos de segurança.

Quando esteve em Belém pela primeira vez, já famoso mundialmente pelas diabruras que aprontava ao lado de Coutinho, goleando qualquer time que se pusesse à sua frente, os relatos descrevem um cara que papeava no hall do hotel e não se furtava a um autógrafo.

Era 1965, os Beatles já enlouqueciam fãs do rock mundo afora, mas o futebol tinha suas leis e uma etiqueta que permitia a adoração não invasiva. Eram gestos encabulados, de quem quer chegar junto sem incomodar.

Naquelas turnês que cortavam o Brasil de ponta a ponta, Pelé veio parar em Belém. Abril de 1965. Amistoso noturno num Evandro Almeida socado de gente. O Rei não negou fogo. Fez cinco dos gols da surra de 9 a 4 que o Peixe desfechou sobre um aguerrido Remo.

Antes do prélio, vestiu a camisa azulina e entrou no gramado tributando o dono da casa, para delírio da massa que se acotovelava nas arquibancadas. O torcedor parecia não acreditar: o Rei do futebol vestindo a camiseta azul-marinho ao lado dos companheiros trajados com o alvo manto peixeiro.

Pelé retribuía a gentileza da diretoria remista, que lhe entregou um ramo de flores e uma placa alusiva à visita. Em campo, feito um azougue, ele expôs os motivos de ser reverenciado como o maior jogador da época, bicampeão mundial interclubes e bicampeão mundial com a Seleção.

O Remo foi, como todos os sparrings do Santos de então, um coadjuvante na partida. Os gols que iam saindo aos borbotões não entristeciam a torcida. Muito pelo contrário, cada gol de Pelé era aplaudido freneticamente. Havia a plena consciência de uma noite especial e única.

A felicidade de estar presenciando uma atuação de gala do Rei produziu um milagre: fez com que, pela primeira e última vez, o torcedor azulino vibrar com gols marcados contra o próprio time do coração.

O mesmo enlevo se repetiu em 1968, na Curuzu, mas o Rei desta feita foi mais econômico. Fez apenas um gol na vitória de 3 a 1 sobre o Papão de Quarenta, embora a apresentação tenha sido igualmente aplaudida pela galera, indiferente à derrota alviceleste.

Era moleque, morava em Baião ainda, por isso não acompanhei a passagem do Rei por aqui. Mas, pelo testemunho de amigos (como Edyr Augusto) que estavam lá, é possível reavivar memórias tão ricas, dos tempos em que um timaço de futebol dava espetáculo generosamente em cada cidade visitada. Os 80 anos do Rei merecem todas as reverências possíveis.

Enfim, o Baixinho faz um golaço como senador

Romário (Pode-RJ) apresentou esta semana um projeto de lei para impedir que o sistema desportivo do Brasil puna atletas que se manifestem politicamente. A iniciativa tem a ver com a advertência que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) aplicou em Carol Solberg por dizer “Fora, Bolsonaro” em entrevista após uma partida de vôlei de praia. Não deixa de ser um gesto surpreendente. Romário, ao contrário do craque inquieto dos gramados, é um político de posições conservadoras.

Mas, a essa altura, o que importa é que a proposta acrescenta um artigo libertário à Lei Pelé: “Nenhum atleta poderá ser punido com as penalidades previstas neste artigo ou enquadrado em qualquer infração disciplinar devido a uma manifestação de natureza política, salvo se houver ofensa direta e expressa, durante a disputa de uma competição, a um de seus participantes, patrocinadores ou organizadores”

Pelo projeto, nenhum regulamento, como o do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, manejado para punir Carol, pode ser arguido para impedir o exercício de um direito constitucional. “Qualquer mácula ou obstáculo que se oponha de maneira injustificada e absoluta, seja sob a forma de contrato ou por regulamento esportivo vinculante entre as partes, é nula de pleno direito, por ferir de maneira frontal um direito fundamental indisponível e impossível de ser transacionado”, diz a proposição, protocolada sob o número 5004/2020. Sem dúvida, um golaço do Baixinho.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, a partir das 22h, na RBATV. Em destaque, os jogos da dupla Re-Pa na Série C. Participações de Valmir Rodrigues e deste escriba baionense. Direção de Toninho Costa.

Falcão marca presença em Belém e dá treino funcional

Com a esperada presença de desportistas, personalidades e artistas paraenses, o craque Falcão participa nesta terça-feira (27), às 19h, da inauguração da Arena Belém, licenciada da marca do “Rei das Quadras”. O evento terá também um treino funcional, criado pelo maior jogador de futsal de todos os tempos. A arena Belém contará com duas atividades licenciadas pelo ex-jogador: uma escolinha de futsal e outra de society para crianças, nas categorias masculino e feminino, de 6 a 17 anos.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 25)

Leandro anuncia saída, elogia diretoria do Papão e critica Hélio

Com 100% de aproveitamento, Leandro Niehues se despede do Paysandu e  desabafa contra Hélio dos Anjos

Depois de ter sido demitido em fevereiro, ser recontratado em setembro, Leandro Niehues está de saída para o Operário-PR. Após comandar interinamente o time na vitória por 1 a 0 sobre o Treze, neste sábado, o auxiliar técnico anunciou que está deixando o Papão para assumir uma função na comissão técnica do Fantasma, hoje dirigido por Matheus Costa, que deixou o PSC no começo da semana. Curitibano, ele poderá, assim, ficar mais próximo da família.

“É uma decisão minha. Era uma coisa que eu sempre pedia, que era poder estar um pouco mais perto da minha casa trabalhando. Fiquei muito tempo longe de casa, longe dos meus filhos. Sempre pedia para poder trabalhar com futebol mais perto de casa. Talvez o povo do Pará não tenha noção, mas o Operário-PR está a 100 km de Curitiba, então eu praticamente vou estar trabalhando em casa”, resumiu.

Antes de anunciar a saída, Leandro Niehues ainda rebateu críticas que haviam sido direcionadas à atual diretoria. O auxiliar desmentiu Hélio dos Anjos nas críticas ao presidente Ricardo Gluck Paul, ao executivo Felipe Albuquerque, ao gerente Eder Delarice e ao vice-presidente Maurício Ettinger.

“O que é verdade tem que ser dito. […] No início do projeto se precisava de um auxiliar da casa, fui convidado, vim e aqui conheci Felipe, Eder e toda essa diretoria. Deixar muito claro, porque é uma situação que foi deixada por todos os treinadores que passaram e foi muito questionada, muito falada. Em todo o tempo que estou aqui, desde Brigatti [em 2019], na sequência Léo Condé, uma pessoa maravilhosa; depois a vinda do próprio professor Hélio, que diga-se de passagem foi uma indicação do Felipe Albuquerque, que estava há praticamente um ano sem trabalhar; e agora na minha volta: nunca, em nenhum momento, houve interferência de diretoria, de Felipe, Eder, Maurício, quem quer que seja, a pedir a escalação de nenhum jogador. Não tenho que fazer média com ninguém até porque estou saindo do clube. Acho importante que as verdades sejam ditas”, garantiu.

“Trabalhei aqui um ano, voltei no início 2020, com o Hélio dos Anjos. Tudo o que eu pude fazer foi feito da melhor maneira possível, mas chegou determinado momento que ele viu em mim uma pessoa que não agradava, mas nunca me disse isso. A prova é que na véspera dele pedir a minha demissão, eu estava em um churrasco na casa dele. Não posso esconder: não era contra mim. Ele queria atingir outras pessoas no clube e sabia que eu era pessoa de confiança dessa diretoria, que ele queria atingir. Não foi legal, porque nisso eu fiquei praticamente quatro meses em casa. Todo mundo precisa trabalhar e foram tempos difíceis”, afirmou Leandro.

Niehues fez questão de elogiar a contratação de João Brigatti. “Tenho convicção que o Brigatti vai fazer um bom trabalho. Os números dele são inquestionáveis. Desde a primeira passagem na Ponte, Sampaio Corrêa, aqui conosco… então acredito que o Paysandu está em boas mãos”.

Leandro Niehues deixa o Paysandu com 100% de aproveitamento em 2020. Ele assumiu interinamente a equipe em duas oportunidade: contra o Ferroviário, pela 7ª rodada (vitória por 2 a 0); e neste sábado, diante do Treze.

100% de aproveitamento
– Evidente que deixa a gente feliz. Somos seres humanos, até tem que ter um pouco de cuidado de não deixar a vaidade se sobrepor, mas a gente fica feliz, ainda mais duas vitórias da maneira que foram, fora de casa, em momentos que, por situações diferentes, a vitória era extremamente necessária. Contra o Ferroviário, pelo momento conturbado pela saída do outro profissional, que acabou conturbando o ambiente, e até na parte de jogo tivemos que mudar um pouco, fazer mais ajustes até do que fizemos com a saída do Matheus, que também era um momento ruim pelos resultados não estarem acontecendo. Mas o ambiente era bom, o trabalho era bom, haja visto que a gente sempre falava que acreditava nesse grupo”.

Após goleada, Bonamigo faz contas para garantir classificação

Remo 5×0 Imperatriz-MA (Tcharlles, Gustavo Ermel e Hélio Borges)

Após a goleada de 5 a 0 diante do Imperatriz, o técnico Paulo Bonamigo destacou a concentração do Remo para construir a goleada. A fragilidade do adversário – lanterna do Grupo A e com apenas três jogadores no banco de reservas – aumentou a responsabilidade azulina, porém o Leão teve tranquilidade para construir o resultado elástico em casa.

“Acho que a gente fica satisfeito. A responsabilidade que o grupo tinha de vencer… O futebol, quando se tem 11 contra 11, a responsabilidade te paralisa, coloca um peso de ter que resolver o mais rápido possível. Gostei, foram muitos pontos positivos desse jogo, principalmente dentro dos conceitos, das ideias de jogo de trabalhar muito forte pelos corredores. Voltamos a ser muito fortes. É continuar trabalhando. Tem jogos em que a gente não vai ter uma certa facilidade como foi nesse”, observou o técnico.

Em seguida, Bonamigo demonstrou preocupação com os próximos compromissos. “A competição é difícil e a nossa cabeça já está no Vila Nova, no próximo domingo. A gente sabe que é um grande concorrente e temos que fazer, sem dúvida, uma partida mais equilibrada do que a que fizemos hoje”.
Contra o Imperatriz, Bonamigo fez as cinco substituições a que tinha direito, procurando dar rodagem a jogadores como o atacante Salatiel, último contratado e que atuou durante todo o segundo tempo. Bonamigo comemorou o aproveitamento dos atacantes no embate diante dos maranhenses.

“Estamos, a cada jogo, procurando ganhar jogadores. O foco é muito dentro do elenco, sempre fortalecendo o espírito de equipe. Foi importante o Ermel ter feito o gol, isso vai dar um nível de confiança maior pra partida seguinte. O Hélio fez gol, o Tcharlles fez dois, isso faz com que ele tenha uma nova motivação dentro da competição, nós vamos precisar. Independente de quem jogar, os atletas têm que dar sempre o melhor nos 90 minutos”, analisou.

Bonamigo faz as contas pela classificação à próxima fase da Terceirona e considera que mais duas vitórias garantem a classificação. O comandante azulino enfatizou a necessidade de contar com um grupo enxuto contra o Vila, um adversário direto na briga pela vaga à próxima fase.

“Temos um objetivo macro, que é uma subida de divisão. Temos as metas a pequeno prazo, que é a classificação e, pra isso, nós precisamos somar pontos, fazer vitória. Talvez com duas já possibilita, nesses próximos seis, uma classificação. Pra isso temos que continuar trabalhando forte. Uma semana pra gente ter a condição de intensidade, espírito de marcar forte. Estamos crescendo em cima do que a gente está colocando como ideia de jogo”.

Kappa lança camisa pelos 115 anos do Leão

Camisa 4 do Remo 2020 Kappa - 115 anos

Na noite deste sábado (24/10), os jogadores do Clube do Remo surpreenderam o Fenômeno Azul na entrada em campo para a partida contra o Imperatriz (MA) no Mangueirão, despertando atenção para uma nova camisa. Trata-se do manto azulino em homenagem aos 115 anos de fundação do clube.

O anúncio de lançamento define o modelo de uniforme: “A camisa feita de história, costurada com glórias e triunfos, tingida pelo azul mais bonito do planeta. Hoje jogamos com o novo fardamento de um fenômeno. Apresentamos a nova camisa comemorativa de 115 anos do Mais Querido”.

“O conceito da camisa tem como proposta homenagear os 115 anos do Clube do Remo. Todos os detalhes que compõem a peça foram cuidadosamente desenvolvidos após extensa pesquisa que resultou em uma peça única, que retrata a trajetória do maior e mais vitorioso clube da Amazônia. A concepção, estética e pesquisa foram realizados, assim como no recém lançado 3º uniforme, alusivo aos 185 anos da Cabanagem”, explicou o diretor do departamento, Renan Bezerra.

Como Pelé é eterno mesmo que um dia seja desprezado em favor de um Beckham

O ex-jogador Pelé - Sandro Baebler /Hublot via Getty Images

Por Rodrigo Mattos

Era uma tarde de setembro de 2009 quando Pelé desembarcou no aeroporto de Copenhague. Participaria ali da campanha do Rio de Janeiro para ser sede da Olimpíada de 2016. Chegou como sempre cercado por fotógrafos, repórteres, assessores, ajudantes, um séquito. Em seu caminho, surgiu um pai dinamarquês com três filhos, todos trajando a camisa do Milan. O pai ficou eufórico com a presença de Pelé e imediatamente levou os filhos para pegarem autógrafos com o Rei. Bem, os garotos não estavam tão animados.

Com suas camisas do Milan, eles estavam ali para pegar autógrafos de Beckham que chegaria no mesmo aeroporto e atuava no time italiano. O pai forçou os garotos a pegar os autógrafos enquanto explicava a importância de Pelé. A cara dos garotos era de contrariedade. Minha recordação daquela cena foi comprovada quando encontrei uma foto com os meninos olhando assustados enquanto o Rei dava autógrafos em suas camisas.

É um reflexo de como as gerações mais jovens valorizam os jogadores que estão na frente dos seus olhos, dos feitos que podem testemunhar. É absolutamente compreensível que os torcedores mais jovens entendam que nunca existiu um jogador tão genial quanto Messi, ou que Cristiano Ronaldo é o atacante fisicamente mais completo do jogo.

Não são poucas as imagens de Pelé disponíveis que poderão ser mostradas nos seus 80 anos festejados na sexta-feira. Mas não têm a mesma qualidade das transmissões atuais, não têm o mesmo dinamismo do futebol de hoje. Já era difícil convencer um garoto de 2009 a assistir àqueles lances, imagine agora em plena era do videogame.

Resta a tradição oral e escrita para manter o Rei seu trono. São as celebrações redundantes na imprensa pelos 80 anos de Pelé, são as referências feitas por jogadores e técnicos atuais como Neymar a sua grandiosidade, são os títulos marcados em sua trajetória.

Em 2020, a geração atual já lembra até aquele Beckham como passado. Um bom jogador que ficou para trás. Mas sempre haverá um pai para explicar aos filhos quem foi Pelé.