A narrativa televisual do Círio

Por Regina Alves (*), em O Liberal

Exposição sobre o Círio de Nazaré reúne 40 imagens de fotógrafos da  Prefeitura de Belém - REDEPARÁ

A televisão chegou a Belém em 30 de setembro de 1961, em pleno clima do Círio, que seria dia 8 de outubro. A TV Marajoara Canal 2 ficava no Largo de Nazaré e mostrou logo a que vinha: tirou do estúdio para a rua um enorme videoteipe – dois metros de altura e 800 quilos -, instalou o caminhão de externa ao lado da praça e uma câmera no ângulo oposto. Isso garantiria as imagens da chegada do Círio à Basílica. Para cobrir a romaria, apenas um cinegrafista, com uma câmera de cerca de 70 quilos e filme mudo.

O cinegrafista Rubens Onetti filmou a saída da Sé e outros trechos do percurso, como a queima dos fogos do Sindicato dos Estivadores. Cada 100 pés de filme rendiam apenas dois minutos e meio de imagens, eram despachados para a emissora, revelados e iam ao ar tão logo os sonoplastas, treinados na escola das radionovelas, colocavam música e ruídos – como os de foguetório – para compor a trilha do primeiro Círio televisual do Pará.

Ousadia, improviso, criatividade são da essência do trabalho da televisão e abriram caminhos naqueles tempos de tão grandes dificuldades técnicas. A mediação instalada heroicamente pela TV Marajoara em 1961 marcou também a história do Círio, que passava a ter uma visibilidade inédita. O anúncio da externa trazia a promessa: “RM e TV se associam para que todos vejam o Círio”

As Lojas RM pertenciam a Romulo Maiorana que, 15 anos depois, assistiria à passagem da romaria na TV Liberal. O jornalista já construíra um sólido grupo de comunicação com rádios e jornal e, apaixonado pelo Círio, cumpria a promessa de transmiti-lo totalmente em cores, pela primeira vez.

A TV Liberal, inaugurada havia cinco meses, passaria a se destacar na cobertura da festa e, em 1997, colocou a transmissão simultânea da romaria na internet. Esse foi um evento decisivo. Os avanços da comunicação permitiam cumprir a promessa original da TV e, principalmente, abriam-se novas formas de celebração e participação, evidenciadas pelos e-mails que não paravam de chegar à TV Liberal.

Nos países mais distantes havia Círio naquele domingo. Da Alemanha, um grupo contava que ia almoçar pato no tucupi (o pato era búlgaro, mas o tucupi e o jambu eram paraenses!). Todos estavam emocionados, muitos diziam “estar em casa”, outros pediam e agradeciam graças. A celebração dos ausentes se ampliou quando as mídias permitiram a participação ao vivo nas transmissões.

Em 2009, padre Vladian Alves, de Roma, denominou uma nova categoria criada pela tecnologia, ao declarar-se um “peregrino on-line”. Na evolução, smartphones permitem autonomia na criação de narrativas pessoais sobre a festa, principalmente veiculadas nas redes sociais.

Os registros das transmissões do Círio são importantes para a história da festa e da própria TV paraense. Na externa da Marajoara, que foi perdida, como todo o acervo do Canal 2, começava a crônica da narrativa televisual do Círio de Nazaré, eterno desafio para o jornalismo. Seria um documento precioso. Como será precioso o registro da produção das emissoras paraenses neste domingo, quando, pela primeira vez, o desafio será trabalhar a ausência da romaria nas ruas de Belém.

(*) Regina Alves é jornalista e professora de Jornalismo

Artigo publicado no domingo, 11.10

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