Afinal, Lewis Hamilton é o melhor?

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Do blog de Flavio Gomes

SÃO PAULO (aqui, P2) – E o dia chegou. Hamilton igualou Schumacher hoje e prestou suas homenagens ao heptacampeão mundial. E o destino quis que o recorde de 91 vitórias fosse igualado na Alemanha de Michael.

Mais tarde, tem textão da corrida. Por enquanto, fiquem com a crônica sobre o melhor de todos os tempos já no ar no Grande Prêmio, que reproduzo aqui. E comentem à vontade! Agora tenho um avião para pegar…

Na Fórmula 1, a discussão sobre o melhor de todos os tempos é permanente. Fangio? Senna? Schumacher? Prost? Hamilton? Clark? Lauda? Piquet? O que vale? Número de títulos? De vitórias? Velocidade absoluta numa única volta? Percentuais de triunfos, poles e troféus sobre GPs disputados?

Cada um escolhe seu critério. Eu me sinto muito privilegiado de ter acompanhado muito de perto as carreiras de alguns desses nomes – Fangio e Clark são as exceções. Dos demais, poderia elencar façanhas, proezas, realizações e talentos transbordantes. Não faltam feitos a cada um deles.

Senna era rapidíssimo em voltas de classificação. Em velocidade pura, muita gente garante, nunca houve ou haverá alguém como ele.

Prost era um relógio. Inteligente, calculista, preciso, dava aulas a cada GP – daí a alcunha de ‘Professor’. Nunca houve ou haverá alguém como ele.

Schumacher ganhou campeonatos e corridas de todo jeito. Na chuva, no seco, saindo de trás, com quatro paradas, sem trocar pneus, de todo jeito. Além do mais, abraçou a missão impossível de recolocar a Ferrari nos trilhos da glória. Como ele, nunca houve outro e jamais haverá.

E Lauda? O que dizer de sua volta às pistas depois de quase morrer queimado? E de Piquet, o que falar de Piquet? Inventivo, criativo, capaz de ganhar campeonatos com três motores diferentes e batendo de frente com um companheiro inglês numa equipe inglesa! Nunca mais veremos um Lauda. Nunca mais conheceremos um Piquet.

Nunca mais, nunca mais…

Quando Schumacher encerrou a carreira pela primeira vez, no final de 2006, pedi um autógrafo a ele. Sendo mais exato, dois: um numa camiseta, outro numa credencial. Afinal, nunca mais haveria um heptacampeão. Nunca mais alguém ganharia 91 GPs.

Bem, Hamilton fez isso. Falta o hepta. Questão de semanas. No mais, superou o alemão em tudo. Vitórias, poles, pódios, GPs na liderança, e blábláblá.

Alguém imaginaria isso em 2007, quando ele estreou dando uma coça em Alonso, bicampeão vigente, estrela maior de uma F1 já sem Schumacher? Não, não dava para imaginar. OK, foi campeão no segundo ano, 2008, mas nos cinco seguintes, não. E ficar cinco anos sem título pesa em carreiras que não são tão longas assim quando se olha para alguém que precisaria ganhar sete para igualar outro alguém.

Pois Hamilton o fez. Porque, como Schumacher, espreme a hegemonia imposta por sua equipe até a última gota em proveito próprio. Mas e essa hegemonia? Seria a mesma se o piloto fosse outro e não Lewis? A Ferrari dominaria a F1 de 2000 a 2004 do jeito que dominou se Schumacher não estivesse lá? Quem faria tantas poles com a Lotus se não Senna? Quem derrotaria Mansell depois de dar uma pancada na Tamburello? Quem voltaria a ser campeão depois de ver a morte debaixo de uma Ferrari em chamas?

Tendo a dizer que não para todas essas perguntas. Grandes pilotos amplificam a capacidade de uma grande equipe. Alguém questiona o papel de Vettel no tetra da Red Bull entre 2010 e 2013? Webber faria igual? Barrichello faria o que Schumacher fez? Rosberg e Bottas fariam o que Hamilton faz?

De novo, tendo a dizer que não. Um puxa o outro, o outro puxa o um. Quantas vezes não vimos a Mercedes claudicar nos últimos anos para, na corrida seguinte, dar a volta por cima? Quanto de Hamilton pudemos ver nessas reviravoltas?

Sendo assim, sim: Hamilton, no momento em que igualar o número de vitórias de Schumacher, e com o sétimo título no bolso e mais um monte de GPs pela frente, passará a ser o maior de todos os tempos. E que bom que estamos vendo isso acontecer no nosso tempo. Porque não pudemos ver Fangio – a maioria de nós. Porque não pudemos admirar Clark. E outros tantos, que por um motivo ou outro não alcançaram números e conquistas tão impressionantes.

Mas tenho plena consciência de que o título de melhor de todos não será acoplado ao nome de Hamilton por todo mundo. Eu mesmo tenho o meu melhor de todos os tempos, e ele nem na F-1 correu – chama-se Bernd Rosemeyer e morreu em 1938 aos 28 anos num carro prateado a 400 km/h numa estrada alemã; é o meu melhor de todos os tempos e pronto, posso?

Claro que posso. Como você que venera Senna e o tem como um herói que ganha corrida com uma marcha não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que admira Piquet e sua incrível capacidade de dar nó nos adversários não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que passou a vida suspirando por Schumacher numa Ferrari flamejante não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que enxerga em Lauda um exemplo inigualável de superação não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor.

E principalmente você, que vê em Hamilton um piloto quase infalível, dedicado, engajado, carismático, relevante, velocíssimo em uma volta rápida, arrojado em corrida, preciso como um relógio, que dá nó em seus adversários, que é capaz de vencer uma prova com pneu furado, e que além de tudo milita sem medo por causas essenciais para a humanidade, principalmente você, não precisa mudar de opinião. Para você, ele sempre foi o melhor.

Agora é mais ainda.

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