Pedro Profeta e Poeta, guerreiro da causa indígena

Por Egon Heck – do Secretariado Nacional do Cimi

Na carroceria de um caminhão, retornando da 10ª Assembleia Indígena, na aldeia Tapirapé, em Mato Grosso, no dia 9 de agosto de 1977. Na frente, da esquerda para a direita: Vaqueano Paresi, Xavante, Pedro Casaldáliga; atrás: Myry Tapirapé, Ituburé Bororo e Marlene Ossami. Foto: Antônio Carlos Moura/Cimi

Quiseram te matar, mas não conseguiram; quiseram te expulsar do Brasil, mas foi em vão; te acusaram de subversivo e comunista, e fortaleceram teu compromisso com a causa dos pobres e com a justiça; te caluniaram e transformaste esses impropérios em novas energias na construção do Reino de Deus.

Dom Pedro Casaldáliga – ou só Pedro, como sempre preferiu – é presença indispensável na caminhada do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Participou de maneira decisiva nas Assembleias Gerais, desde a primeira,em junho de 1975.

Foi marcante a presença de Pedro nas ruínas de São Miguel, na região missioneira do Rio Grande do Sul. Naquela ocasião, propiciou um momento magnífico ao celebrar a Missa da Terra Sem Males, com texto seu e música de Martin Coplas, em abril de 1977. Um momento inesquecível de celebração da memória do assassinato de Sepé Tiaraju e seus guerreiros Guarani.

Dom Pedro e Dom Tomás Balduino foram fundamentais na criação e consolidação do Cimi e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), pastorais que procuravam tornar realidade as decisões do Concílio Vaticano 2º e dos encontros de Medellín e Puebla. Pastorais que procuraram encarnar a radicalidade do Evangelho em dimensão nacional e continental.

A contribuição de Pedro também foi essencial para a elaboração do documento “Y-Juca-Pirama – O índio: aquele que deve morrer”, que denunciou, em 1973, a política anti-indígena da Ditadura Militar e causou grande repercussão nacional e internacional.

Martírio e esperança

Dirigindo-se “aos homens e mulheres que deram a vida pela vida”, Pedro Casaldáliga afirma, na sua Carta aberta aos nossos mártires: “por vocês, sobretudo, nossa América é o continente da morte com esperança”. Com suas palavras, também lembramos dos mártires de longe e de perto que derramaram seu sangue pela vida, em especial os povos indígenas e os mártires do Cimi, Padre Rodolfo e Simão Bororo (1976), Padre João Bosco Burnier (1976), Irmã Cleusa Rody Coelho (1985), Padre Ezequiel Ramin, Vicente Cañas (1987). A vida nasce da morte. O sangue derramado tornou-se um testemunho vigoroso, um sinal de Deus, visível aos olhos de nossa Fé.

Pedro deu um testemunho radical pela causa indígena, de maneira especial, com os Tapirapé, os Karajá e os Xavante de Marãiwatsèdè, cujas lutas e dramas apoiou com todas as suas forças. Assim foi também com o casal Luiz e Eunice e as irmãzinhas de Jesus, que, junto a D. Pedro, conviveram com os Tapirapé na Prelazia de São Félix. Em 1973, o sétimo boletim de um então nascente Cimi caracterizava este como “um dos mais aplaudidos e sérios trabalhos que já se tem feito junto aos povos indígenas do Brasil”.

Em tempos de repressão expressar compromisso com os mais fracos era motivo para perseguição – especialmente dura na região do Araguaia. O Cimi esteve solidário à Prelazia de São Félix nos momentos de perseguição e quando, em dezembro de 1975, o Padre Francisco Jentel, após vinte e um anos de presença solidária junto aos Tapirapé e ao povo de Santa Terezinha, foi covardemente expulso do país.

Pedro nos animou com sua inabalável esperança – “Podem roubar-nos tudo, menos a esperança”, afirmou certa vez

Raiz, Inspiração e testemunho profético

Cimi. Essas “quatro letrinhas malditas”, que incomodaram muita gente, têm no coração o pulsar profético desse nosso irmão com quem partilhamos caminhos de dor e alegria, de esperança e de martírio.

Pedro foi presença indispensável nas horas difíceis, como em 1977, quando alguns bispos quiseram silenciar ou extinguir o Cimi. Foi nosso anjo da guarda. Nos animou com sua inabalável esperança – “Podem roubar-nos tudo, menos a esperança”, afirmou certa vez. Pedro foi pedra na qual pudemos recostar nossas cabeças com total confiança.

A dupla guerreira e aguerrida, Pedro e Tomás, são nosso horizonte no compromisso e testemunho junto aos povos indígenas na luta pelas suas vidas e direitos. Assim como são e sempre serão aliados da primeira hora dos oprimidos,dos camponeses, dos povos tradicionais e todos os lutadores pela justiça e paz no campo e na cidade.

Pedro, os povos indígenas e o Cimi

Em sua humildade evangélica radical, Pedro foi sempre uma presença solidária junto aos povos indígenas e missionários. Nunca aceitou nenhum‘cargo’ no Cimi. Por ocasião do Congresso dos 30 anos do Cimi, não podendo estar presente, enviou uma mensagem que até hoje continua fortalecendo nossa caminhada de solidariedade com os povos indígenas.

Nela dizia: “me faço presente de coração nesse Congresso dos 30 anos de memória, missão e utopia, caminhada de generosidade, teimosia e esperança. Somos soldados derrotados de uma causa invencível. Devemos continuar sendo, na oração e no sonho, radicais”. Nós, do Cimi – e  certamente também os povos indígenas – somos imensamente gratos a Deus e a Pedro.

*Publicado em fevereiro de 2018, atualizado em setembro de 2020

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