A história de Herzer e o papel de Suplicy

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O ano era 1979. Eduardo Suplicy ocupava seu primeiro cargo parlamentar, deputado estadual pelo MDB. “O PT nem existia”, lembra ele. Em uma visita à Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor, que desde 2006 se chama Fundação CASA), conheceu uma história que lhe chamou a atenção. Um garoto transexual de 17 anos estava interno na Febem desde os 14. Lia Junqueira, presidente do Movimento de Defesa do Menor, explicou para Suplicy que ele nunca tinha cometido delito algum, mas que só poderia ser solto se alguém se responsabilizasse por ele.

“O pai da menina Sandra Mara Herzer era dono de um bar no norte do Paraná e foi assassinado”, conta Suplicy. “Para manter o seu sustento, a mãe dela se prostituiu, pegou uma doença venérea e morreu. Ela foi viver com a avó, que a criou até morrer. Uma tia ficou com a sobrinha, uma garota rebelde de 12 ou 13 anos. O marido da tia tentou manter relações sexuais com ela, ela lutou com ele e foi levada para a Febem”.

O nome Bigode, que ela tinha tatuado no pulso, era homenagem a um namorado de adolescência que morreu num acidente de moto. Na Febem ela assumiu a identidade masculina, passou a se vestir como homem e adotou o nome Anderson. O apelido era bigode. “Ela era esperta, escrevia muito bem. Adotou uma postura de líder”, diz Suplicy, ainda se referindo a ela como mulher.

Ele decidiu se responsabilizar pela soltura e ofereceu um cargo em seu gabinete na Assembleia Legislativa. “Dei o suficiente para pagar a pensão e a alimentação e ela era uma espécie de estagiária que ajudava em tudo”, diz ele. “Ela se sentia como homem, se vestia como se fosse um rapaz e passou a assinar os poemas que escrevia como Anderson Herzer”.

Suplicy lia os poemas que ele lhe mostrava e o incentivou a escrever a história de sua vida. “Eram poemas belos, mas um deles terminava de modo a sugerir que ela queria morrer. Eu disse: não faça isso, o seu livro vai sair, muita coisa ainda vai acontecer para você.”

Anderson fez um concurso para se tornar funcionário da Assembleia Legislativa. A forma como ele se vestia foi questionada e ele ficou tenso, conta Suplicy, lembrando a justificativa usada para ele não ter ido bem no teste.

Uma manhã bem cedinho o secretário recebeu um telefonema da moça que morava com Anderson dizendo que ele havia se atirado de um viaduto da avenida 23 de Maio. No bolso ele tinha o nome e o telefone do deputado.

Suplicy ainda conseguiu visitá-lo no hospital, mas ele morreu em seguida.

O título do livro sobre sua vida, lançado em 1982 pela Editora Vozes, foi o publicitário Carlito Maia quem sugeriu: “A Queda para o Alto”. “Já está na vigésima quinta edição”, diz Suplicy. “Um grupo de teatro da favela de Heliópolis montou a peça, o (diretor) Zé Celso quis que passasse no Teatro Oficina, e o espetáculo fez o circuito dos Sescs.”

Um filme baseado na história foi lançado em 1986, “Vera”, dirigido por Sérgio Toledo, e o papel principal rendeu a Ana Beatriz Nogueira o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim em 1987. O papel inspirado em Suplicy foi representado pelo ator Raul Cortez.

O secretário tinha razão: muita coisa ainda ia acontecer na vida de Anderson Herzer. Só que ele não estava mais aqui para ver.

Pouco antes de ocorrer a tragédia, Herzer escreveu os versos:

…Fiz de minha vida um enorme palco…/ Mas um dia meu palco, escuro, continuou / e muita gente curiosa veio me ver / viram no palco um corpo já estendido / eram meus fãs que vieram pra me ver morrer / / Esta noite foi a noite em que virei astro / a multidão estava lá, atenta como eu queria / suspirei eternamente e vitoriosamente / pois ali o personagem nascia / e eu, ator do mundo, com minha solidão… / morria!

Herzer também deixou uma carta para o Suplicy:

São Paulo, 5 de Setembro de 1980.

Ao sr. Eduardo Matarazzo Suplicy:

Sabe homem; nem sei o que seria do universo
se todos os homens merecessem serem chamados por homem.

É algo difícil de se explicar, e pessoalmente eu jamais conseguiria, pois me faltariam palavras para poder descrevê-lo; e talvez seja por eu sentir vergonha de que me interprete mal.
Mas é essencial para mim dizer o que penso, por isso espero que me compreenda, mesmo que eu não consiga escrever as palavras corretamente.

Sabe, você sabe minha estória, sabe de onde vim, sabe tudo de mim, e talvez saiba até aquele restinho que eu não quero admitir.
Poucas vezes vi seus filhos, mas muitas vezes pensei sozinho, o quanto eles devem andar de cabeça erguida, com o peito cheio de orgulho, por notarem o pai formidável que têm.
É certo que você me conhece há pouco tempo, e talvez pense até que eu sou somente uma pessoa a quem você estendeu a mão, e que eu não contribuí em nada, apenas lhe dei problemas e despesas.

Mas eu não penso assim de você, e isso é que me importa. Você para mim é a vida que eu vivo a cada dia que se passa, é quem quando me ajudou não me rejeitou nem por um momento por eu ser apenas um pedaço de sangue já coalhado e pisado, quem me tirou o lodo que cobria a minha face. Enfim, palavras não seriam suficientes e sim um esforço de minha parte para que um dia você possa sentir que compensou alguma coisa todo este trabalho que está tendo agora.
Bem, acho que não adianta dizer mais nada, pois a realidade não é feita somente de palavras e sim dos atos diários de cada pessoa.
Para resumir o que tanto tento dizer, sem querer ofendê-lo, é que você é aquela linha que a maior parte das pessoas têm na vida, mas na minha vida o destino já se intrometeu duas vezes e apagou o que estava escrito, a linha onde se escreve o nome do nosso pai.

De quem sempre te lembrará em cada lágrima ou sorriso de vitória…

Herzer

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