Sinal aberto?

Por Heraldo Campos

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Recentemente fui fazer o meu controle periódico de saúde no SUS (Sistema Único de Saúde), no Posto de Saúde, perto da minha casa.Como sempre, fui muito bem atendido e muito bem tratado pelo meu médico de família e pelos atendentes do Posto. Mas, no meio da consulta, reclamei para meu médico de família que durante a quarentena radical em que estava enfiado, por causa da pandemia do coronavírus, sentia mesmo era a falta da minha caminhada diária de 7 km na praia e que havia parado há 4 meses, porque estava seguindo, a risca, a orientação dos médicos e da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Reforcei, nesse dia, que sempre gostei de caminhar, desde muito pequeno, e que não fazia esse tipo de atividade por alguma recomendação médica dada no passado, mas que era por puro prazer mesmo.Ele me ouviu atentamente e recomendou para que eu voltasse a caminhar, com os devidos cuidados para esse novo normal, ou seja, usar máscara facial, levar álcool gel para higienização das mãos e evitar as aglomerações com pessoas.

Além dessas recomendações, a consulta terminou com o médico fazendo alguns ajustes nos remédios que eu estava tomando e, assim, acabei fazendo no dia seguinte o que ele me recomendou: fui caminhar. Botei uma máscara feita em casa, não sei porque acabei me lembrando do seriado do Zorro dos anos 60, e, como não tenho mais idade para brincar de mocinho e bandido, peguei um frasquinho plástico de álcool para desinfetar e me mandei para a luta.

Ao terminar a atividade física recomendada, depois da caminhada, faltou mesmo foi encontrar o Tonto, parar num boteco para tomar uma gelada como recompensa e jogar uma conversa fora sobre o meu querido Corinthians, no meio do barulhento saloon. Não foi nada disso o que aconteceu e, diga-se de passagem, a caminhada não foi a mesma de antes de começar a pandemia, porque considerei ela meio burocrática, pouco prazerosa, e sempre com a atenção voltada para quem vinha pela frente, principalmente, para aqueles que não estavam usando máscara.

Porém, antes de sair para essa atividade física recomendada pelo meu médico de família perguntei, pelo bom e quase em desuso e-mail, para alguns amigos, o que eles andavam fazendo, agora depois desses 4 meses de quarentena. Como sabia que estava perguntando para um grupo de risco do qual também faço parte, todos eles com mais de sessentinha e morando em vários lugares diferentes, recebi respostas de certa forma bem parecidas, mas com algumas interessantes variações.

Um deles me disse que somente saia de casa para ir fazer exames de sangue no hospital e para alguma necessidade extrema e, nesses casos, sempre paramentado de máscara e usando álcool em todas as partes e a toda hora. Outro amigo me disse que como, felizmente, morava em casa, com jardim, saia umas duas vezes por semana e que os filhos não o deixavam sair sozinho; quando isso acontecia, a rotina era espartana, com o uso de álcool gel, o uso de máscara e após a caminhada tirava toda a roupa usada e ia, em seguida, para o banho.

Um terceiro amigo ainda me relatou que fazia umas caminhadas na madrugada, às 6 horas da manhã e que, em dias alternados, subia as escadas do prédio, o que no total dava uns 4000 degraus. Como podemos observar o que dizem esses amigos experientes, para os quais agradeço o retorno dado, eles não vão para rua de qualquer jeito e como se o sinal estivesse aberto, mesmo porque “cochilou o cachimbo cai”, como diz o bom e velho caipira da roça.

Sinal aberto? Sinal aberto para sairmos para rua de peito aberto, de qualquer jeito, no meio de picos da pandemia, porque se dependermos das desorientações do acéfalo Ministério da Saúde estamos bem lascados quando, parece mais do que evidente, é que nós somos os reservatórios potenciais do coronavírus e que a nossa movimentação é a principal responsável pela contaminação, como acontece em vários locais do país e do mundo. 

E essa movimentação pode acontecer de outra forma e transportar reservatórios potenciais do coronavírus como aqueles, por exemplo, que se utilizam de bicicleta para os deslocamentos diários ou esporádicos.Falo isso, porque em seguida dessa caminhada burocrática que relatei, no dia seguinte percorri, de bicicleta, os quase mesmo 7 km, mas por uma ciclovia beirando a praia.

Como se fosse um novo normal, mas não é, porque são aproveitadores mesmo, durante esse trajeto, vi várias pessoas sacando da areia o quase extinto corrupto (crustáceo cavador Callichirus major) para serem usados como isca para pescaria, cães com seus donos andando livremente na faixa de areia e para completar a xaropice, como estava pedalando na ciclovia da beira-mar, cruzei com um monte de gente sem máscara.

Aqui faço uma observação. Depois desses dois seguidos dias, de caminhada e de pedalada, fui perguntado, em casa, se essa rotina passasse a ser o meu novo normal, a minha família iria ter que usar máscara dentro de casa, porque estaria todo o dia nessa atividade física solitária e muito mais exposto ao contágio e eles não.Isso faz muito sentido e me levou a pensar além dessa pandemia como, por exemplo, no grave momento político que estamos atravessando.

Apesar de estarmos vivendo numa frágil democracia, o atual governo, somente para ficar no tema da saúde aqui abordado, na prática age como os governos militares de 64, dos chamados anos de chumbo, quando o grande Paulinho da Viola que, entre outras maravilhas, escreveu: “Olá, como vai? / Eu vou indo, e você, tudo bem? / Tudo bem, eu vou indo correndo / Pegar meu lugar no futuro, e você? / Tudo bem, eu vou indo em busca / De um sono tranquilo, quem sabe?”.

Esse trecho da letra de “Sinal Fechado” de 1970, desse magnífico compositor, reflete bem, com suas indagações, o que vivíamos naquele período e o que vira e mexe esse governo de plantão fala agora que quer reeditar. Assim, para finalizar, deixo uma pergunta: um saradão sem máscara, transpirando de montão, pedalando uma bicicleta de 64 marchas, liderando um bando de mais de dez pessoas sem máscaras, na ciclovia da beira-mar, deve ter votado em quem para presidente nas últimas eleições?

*Heraldo Campos é Graduado em geologia (1976) pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Mestre em Geologia Geral e de Aplicação (1987) e Doutor em Ciências (1993) pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo – USP. Pós-doutor (2000) pelo Departamento de Ingeniería del Terreno y Cartográfica, Universidad Politécnica de Cataluña – UPC e pós-doutorado (2010) pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo – USP.

2 comentários em “Sinal aberto?

  1. Prezado Gerson
    Boa tarde e, mais uma vez, obrigado pela divulgação das nossas ideias no espaço democrático do seu blog.
    Aproveito para dizer que vários amigos que receberam esse texto andam meio cabreiros, também, e eles não têm saído de casa, de peito aberto, sem medo do coronavírus em algum reservatório, e passando o sinal aberto para longas caminhadas ou algo parecido.
    Abraços,
    Heraldo

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  2. Tomara que todos se conscientizem dos riscos dessa doença, meu amigo. A situação não está sob controle, longe disso.

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