Pesquisa DataPoder360 mostra Helder aprovado por 57% no Pará

Pesquisa do DataPoder360 indica que o governo do Pará, Helder Barbalho (MDB), é considerado ótimo ou bom por 57% dos paraenses. Outros 18% consideram-o ruim ou péssimo e 22% acham a administração regular. Os que não souberam ou não quiseram responder somam 3%.

O levantamento foi realizado de 8 a 10 de junho, ou seja, chegou a captar parte da percepção dos moradores do Estado sobre a operação da Polícia Federal que investiga desvio na compra de respiradores. A casa do governador Helder Barbalho foi alvo de mandado de busca e apreensão em 10 de junho.

Mesmo com parte da pesquisa em campo no dia da operação da PF, a avaliação de Barbalho se manteve estável, mas variando negativamente, dentro da margem de erro, tanto na média geral quanto no interior do Estado.

Em Belém, o desempenho registrado por Helder Barbalho nos últimos levantamentos sempre foi 1 pouco melhor do que no restante do Estado. Esta rodada da pesquisa do DataPoder360, no entanto, mostra 1 equilíbrio na percepção.

Na capital, também são 57% que apoiam o governo, mesmo percentual observado na média do Estado. A avaliação negativa da gestão Barbalho, no entanto, é 5 pontos percentuais inferior em Belém do que na média estadual.

A pesquisa foi realizada de 8 a 10 de junho pelo DataPoder360, divisão de estudos estatísticos do Poder360, em uma parceria editorial do jornal digital Poder360 com o jornal Diário do Pará, de Belém (PA). O levantamento teve patrocínio da Termogás.

No Pará, por meio de ligações para celulares e telefones fixos, foram entrevistadas 2.500 pessoas em 98 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. Dentro dessa pesquisa, foi destacado o recorte de 800 pessoas residentes em Belém. Para os resultados do estudo na capital, a margem de erro é de 3,5 pontos percentuais. Saiba mais sobre a metodologia lendo este texto.

DataPoder360 também realizou 1 levantamento nacional por meio de ligações para celulares e telefones fixos. Foram 2.500 entrevistas em 518 municípios, nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. Leia os relatórios completos dos resultados no Pará (1 MB) e em Belém (685 KB).

A capital, Belém, e outros 9 municípios paraenses enfrentaram 1 lockdown (bloqueio geral) até pelo menos 24 de maio. Depois desta data, algumas cidades decidiram flexibilizar a quarentena.

A medida que restringiu a circulação de pessoas havia entrado em vigor em 7 de maio para tentar reduzir a taxa de transmissão da covid-19.

Com visitas diárias de médicos a todas as casas, Cuba controla a pandemia

Três meses depois dos primeiros registros do coronavírus em Cuba, o país controla a pandemia com políticas detalhadas e população empenhada em cumprir medidas para frear o avanço do vírus. Até esta sexta-feira (12) foram contabilizados 2.223 casos e 84 mortes pelo coronavírus em Cuba. A ilha chegou a ficar mais de dez dias sem registrar nenhum óbito. Entre quarta (10) e sexta-feira (12) houve um caso fatal. Atualmente há 240 pacientes internados e apenas um em estado grave. 

Os números são fruto de um cenário que une atenção primária rígida, solidariedade e cooperação dos moradores para o isolamento social. Em Cuba o distanciamento é praticado voluntariamente, o governo não determinou lockdown. Ainda assim, a adesão à quarentena é substancial. Os transportes públicos urbanos e entre cidades estão suspensos. Para os trabalhadores essenciais, o governo destacou ônibus específicos com lotação limitada. As escolas estão fechadas, mas mães e mulheres grávidas foram liberadas do trabalho, sem prejuízo ao salário.

Eventos com aglomerações estão proibidos. O cuidado é tanto, que o governo já anunciou a suspensão até mesmo do Carnaval de 2021. No momento, um dos grandes desafios é controlar e diminuir as filas para aquisição de produtos, que não são incomuns em Cuba. O poder público anunciou que trabalha na elaboração de um sistema on-line, que permita aos moradores da ilha ficar em casa para receber esses itens. 

Atualmente, entrada e saída do país estão restritas, com exceções somente para voos de carga e humanitários. O fechamento de fronteiras não foi imediato, mas houve pressão da própria população para a medida, uma demonstração do nível de participação social nas decisões do país.

Participação popular

A iniciativa popular é regra também em outras soluções para os problemas que a pandemia traz. Virou prática, por exemplo, que costureiras de bairro recebam roupas e tecidos sem uso da comunidade para produzir máscaras. Os itens são distribuídas gratuitamente, algumas vezes até como presentes para amigos, parentes e vizinhos.

Nivia Regina da Silva, da Brigada Internacionalista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirma que, apesar do severo bloqueio econômico que o país sofre há décadas, o socialismo desenvolvido em Cuba engloba historicamente aspectos que auxiliam no combate à pandemia do coronavírus. “Propiciou em seu conjunto uma estrutura capaz de enfrentar a pandemia que envolve diversas dimensões da vida: no campo da saúde, mas também pesquisa e educação, comunicação, cultura, segurança, organização popular e poder popular.”

Segundo Nivea, o acesso universal à saúde vem acompanhado de cuidados específicos com cada grupo de pacientes. 

“Cuba tem trabalhado de forma severa com o controle e a prevenção, realizando diferentes processos de isolamento. Em síntese podemos dizer três grupos: os que estão em vigilância clinico-epidemiológica, internados nos centros sanitários por sintomas suspeitos; os casos confirmados que entram em diferentes protocolos de tratamento – dependendo da fase epidemiológica entram com alguns medicamentos como Biomodulina, Interferon Alfa 2 B, Itolizumab – e os que estão sob vigilância médica em seus domicílios.”, explica.

A militante do MST também destaca a participação de 29 mil estudantes de medicina para visitar todas as casas diariamente, com maior atenção às populações de risco.

Médico em casa todo dia

Todos dias os moradores recebem visitas de equipes da saúde, que checam as condições de saúde das famílias, perguntam se alguém desenvolveu sintomas e fazem o controle de possíveis novos casos. O governo distribuiu também remédios naturais que podem atuar para melhorar a imunidade.

A atenção primária é o grande foco das ações em saúde e replica uma prática comum na ilha. Em Cuba, todos os bairros tem um médico da família, que atende e conhece as comunidades locais. Esses profissionais agora contam com o reforço de dezenas de milhares de colegas, que percorrem as regiões em busca de qualquer sinal da covid-19. 

A escritora brasileira Viviane Naves vive em Cuba há quase três anos. Segundo ela, as medidas de atenção primária trouxeram um controle assertivo sobre o crescimento de casos no país. 

“A quarentena foi sugerida, não foi uma imposição. Mas aqui todo mundo respeita. O que ajudou muito foi a visita dos médicos. Todos os dias, eu recebo em minha casa o médico da família, que cuida do meu bairro e estudantes de medicina. Eles olham como estamos, perguntam como estamos nos sentindo, se temos algum sintoma, não necessariamente só da covid, eles perguntam sobre tudo. Chegam cedinho, pela manhã, e vão embora fazendo essa pesquisa de casa em casa.”

Quando há alguma suspeita, o paciente é isolado, assim como toda a rede de relacionamentos dele. Todos os dias, o governo de Cuba transmite informações sobre a situação da pandemia do coronavírus em rede nacional para a população. Entre esses dados, está até mesmo o número de pessoas com as quais cada paciente teve contato.

Pacientes curados também são monitorados, para que se reduzam os riscos de sequelas. Viviane relata que o trabalho de mapeamento feito pelas equipes de saúde pesou muito para o controle da pandemia.

Por etapas

“Eles começaram a mapear. Perto da minha casa, por exemplo, eles descobriram um foco de covid. Todo mundo da família foi isolado no IPK (Instituto de Medicina Tropical Pedro Kourí), o Hospital Militar destinado só para os pacientes com Covid. Mesmo quem não tinha sintoma, falou com alguém dessa família, foi pro isolamento. Não foi em casa, foi no IPK. Eles contiveram muito bem a transmissão do vírus assim. Não interessa se você é diplomata, cubano, estrangeiro. Todo mundo vai ser isolado, assim como quem teve contato.”

Nesta quinta-feira (11), autoridades divulgaram para a população um plano de retomada das atividades, mas com uma ressalva: não há data para implementação. Apesar de ter controle dos casos ativos e registrar números baixos de mortes e novas infecções, o governo só vai dar andamento à abertura frente à certeza de que novas ondas de contágio não vão surgir.

Mesmo após essas certezas, o processo será feito em etapas. Na primeira fase serão mantidas as restrições de entrada no país, com autorização apenas para voos de carga e humanitários. O transporte entre cidades só poderá ser feito para demandas prioritárias. Todo tipo de aglomeração será evitado e o uso de máscaras continuará obrigatório.

Somente em uma segunda etapa, o governo pretende reabrir as fronteiras. Ainda assim, os viajantes não poderão portar mais que uma mala e as bagagens de mão serão proibidas. Na terceira fase, de recuperação, o objetivo será retornar à normalidade de maneira gradual, com desenvolvimento de habilidades de enfrentamento e políticas específicas para riscos e vulnerabilidades em consequência da doença. 

O frade dominicano brasileiro Frei Celio de Pádua Garcia, está em Cuba há dois anos e destaca os cuidados preventivos implementados pelo governo. Ele ressalta também que o poder público já divulgou informações de que mesmo após a retomada de atividades, o controle epidemiológico continuará rígido.

“O ministro da Saúde informou que quando abrirem portos e aeroportos, quem for sair de Cuba terá que fazer exames. Quem estiver contaminado terá que fazer tratamento antes de sair. Isso eu vejo como responsabilidade social. É um cuidado com a população.” 

As precauções são reafirmadas pelo cônsul Geral de Cuba no Brasil, Pedro Monzón. “Não daremos um único passo falso que coloque a população em risco. Isso não exclui o desenvolvimento de atividades econômicas fundamentais, de acordo com um plano cauteloso e inteligente, com o objetivo de garantir, dentro das limitações atuais, o plano da economia e, acima de tudo, a alimentação do povo.”


Monzón afirma que Cuba possui recursos sistêmicos, organizacionais e populares para atender a saúde da população de maneira eficiente, mesmo frente ao bloqueio econômico, que foi reforçado durante a pandemia do coronavírus. 

“Obviamente, para Cuba, o mais importante é a proteção dos seres humanos. Sempre mostramos isso (…) Continuaremos nesse caminho. Seguindo para as novas etapas, mas sem esquecer que pode haver um ressurgimento da pandemia. Enquanto isso, continuamos a desenvolver medicamentos terapêuticos, uma vacina que já está em um ensaio clínico, e mantemos medidas para proteger a população.”

Com vizinhos que enfrentam situações críticas, os cuidados em Cuba com o coronavírus são justificáveis. A região das Américas tem hoje mais de 3 milhões e 500 mil infectados registrados. Quase metade do total de todo o mundo. O número de mortes no continente ultrapassa 190 mil. No anúncio do planejamento para abertura o governo cubano foi enfático: não tomará decisões precipitadas. Qualquer medida só será tomada a partir da certeza de que há segurança na evolução de casos e garantias de que não haverá novo crescimento de contaminações. 

(Da Rede Brasil Atual)

Ira!: em busca do sonho transformador

Por Douglas Sartari

Difícil imaginar atualmente uma banda com décadas de estrada – pra não usar a palavra “antiga” – aparecer com um trabalho que fale aos dias de hoje e ao mesmo tempo seja fiel ao seu estilo, mantendo-se relevante e não datada. Uma parceria que tinha acabado há 13 anos conseguiu provar que isso é possível. Patrimônio do rock nacional, e nunca contente com sua cadeira no establishment, o Ira! chega em 2020 com um disco novo e a mesma inquietude de sempre.

Depois de um divórcio, em 2007, digno de novela das oito, o núcleo-base da banda, o guitarrista Edgard Scandurra e sua contraparte, o vocalista Nasi, voltam com o álbum autonomeado Ira (leia crítica ao final), uma produção independente em que admitem, na letra de O Homem Cordial Morreu, que “além de envelhecer, difícil é aprender”.

Sempre envolvido em muitos projetos, do eletrônico Benzina às parcerias com Arnaldo Antunes e cantoras como Karina Buhr, Bárbara Eugênia e Silvia Tape, nesta entrevista, Scandurra fala sobre o novo trabalho, o momento atual e o protagonismo feminino, a Geração Anos 1980, e também de arrependimentos, em que faz uma importante autocrítica quanto à Pobre Paulista, canção riscada do set list do grupo.

Farto do rock’n’roll

Há alguns anos, entrevistei o guitarrista Pete Townshend, do The Who, e perguntei o que ele diria para o garoto que cunhou a frase “prefiro morrer antes de ficar velho”. Ele respondeu: “Eu escrevi sobre um estado de espírito. Eu ainda prefiro morrer antes de ficar velho”. Muita gente do rock aqui no Brasil parece ter ficado velho, não?

Edgard Scandurra: Perfeito. É um estado de espírito, não é físico. Inclusive esse disco do Ira! chama Ira porque o disco mais recente do The Who chama Who, um disco lindo. Uma banda que eu respeito muito. E respondendo, eu acho que no momento que o cara aceita o establishment ele envelhece. Na hora que o cara relaxa e diz ‘paciência, é o que temos’, ele entrega o ouro, ele desiste, ele vai viver do seu passado, ele vai ser uma sombra do que foi no passado. Infelizmente, essa geração dos anos 1980, que pegou essa abertura política, que foi importante, com hinos, com muitas músicas e shows e discursos de democracia, entregaram o ouro, descansaram. É mais um desafio pro rock, mais um desafio pra arte: que consiga transformar. Eu ainda tenho esse sonho transformador. E eu acho que talvez isso é o que tenha acontecido com a minha geração dos anos 1980, eu acho que eles não tinham mais nenhuma ambição de transformar nada. Era só cumprir tabela, ter sua agenda, fazer seus shows corporativos.

O rock perdeu o protagonismo. Pelo discurso também, muito retrógrado, pequeno. O rap tomou espaço, a música popular brasileira, com elementos nacionais, como um Nação Zumbi, Baianasystem. Os caras bombam, muito poderosos e acho que é um rock, não deixa de ser. É que as pessoas que fazem rock hoje não põem o nome rock na frente, é uma música experimental, é uma nova MPB. Ninguém mais fala ‘O que vocês fazem? Ah, a gente faz rock’. Todo mundo faz alguma coisa diferente, é um momento novo, há uma brasilidade nessa música, e é uma coisa legal, positiva, pra não tocar um rock em inglês cantado em português.

E tem o público que também “fica velho”, como o povo vaiando o Roger Waters no Brasil…

Esse é um perfil do Brasil, essa classe média do país é muito estranha. Um pensamento autoritário, de cima pra baixo, fechado… No meio dessa pandemia, pra mim, duas coisas que foram muito fortes, que me tocaram bastante, foi o Roger Waters cantando Victor Jara, El Derecho de Vivir en Paz [num ao vivo em abril], e as duas músicas do Bob Dylan [Murder Most Foul I Contain Multitudes. Dylan liberou ainda uma terceira canção, False Prophet, e irá lançar o novo disco Rough and Rowdy Days ainda em junho], que sei lá, violão e voz, uma música difícil, 20 minutos. A coisa mais quarentena que já vi na vida, a música é uma reflexão da história dos Estados Unidos, Kennedy, uma coisa muito forte.

É um momento em que a sociedade tem de se transformar, não pode voltar a ser o que era. Quando acabar tudo isso, todo mundo voltar a consumir que nem louco, a ter essa vida, continuar explorando as pessoas. Tudo tem de ser modificado, com respeito, com valores… esses bilionários, esse 1% da população, acho que tudo tem de ter um stop, uma reflexão.

Como dizem, “não dá pra voltar ao normal porque o normal era o problema”.

Exatamente, o normal era o problema. Esse normal tava gritante na porta da gente. Por exemplo, a gente tava testemunhando a briga da comunidade Guarani [Mbya], aqui da região do Jaraguá [TI Jaraguá, na Zona Norte de São Paulo], contra uma construtora, a Tenda, que quer construir torres enormes, quer derrubar quatro mil árvores, pra fazer um condomínio com nome indígena, inclusive. Uma falta de sensibilidade absurda. Com uma ordem judicial pra tirar o povo de lá, pra começar a derrubar. Uma atitude totalmente irracional. A esperança é que tenha alguma transformação com essa quarentena, que as pessoas possam refletir, ter conhecimento de quanta gente tá sofrendo. Procurar uma sociedade melhor. E além da pandemia, a gente tá vivendo uma guerra, uma guerra invisível, mas agora tá começando a ficar evidente essa coisa do nosso contrato social, questão racial, questão de gênero, da mulher, do trabalhador, do assalariado, tá uma coisa muito evidente.

A gente não quis esperar acabar [a quarentena], esse hipotético final da pandemia, pra lançar o disco. Até cinco meses atrás a gente falava, ‘de repente, junho, julho, quem sabe agosto as coisas estão normalizadas’. E tudo foi piorando, então, falamos ‘meu, vamo lançar esse disco, vamo botar música pras pessoas ouvirem, mostrar nossas novidades’. Pelo menos pro nosso público, que também tá em quarentena, que tá fechado. Então, mostrar um pouco da nossa nova poesia, da nossa nova sonoridade.

Agora, a gente vive essa coisa, como no caso do Dylan, o cara vai lá e faz uma música maravilhosa e uma semana depois as pessoas não falam mais, parece que pertence a um passado distante. Tá acontecendo tanta coisa que, pô, essa música do Dylan, se fosse anos atrás, é uma música que ia ser comentada, as pessoas iam usar camisetas com as letras, e ela parece que passou batido. E eu tenho muito medo que isso aconteça com esse disco do Ira!, que daqui a um mês ninguém fale mais nada. Porque as coisas estão assim, muita informação e as pessoas não se apegam muito aos acontecimentos.

Amor impossível

O novo disco tem uma sonoridade muito similar à de Meninos da Rua Paulo, a música Você Me Toca, por exemplo, é quase uma irmã siamesa de Rua Paulo.

Uma referência ótima pra ele… Isso me surpreendeu e agora tá caindo uma ficha, ele tem a ver, mesmo. São meio-irmãos, tem uma distância de tempo, mas eles têm uma similaridade… até o existencialismo das letras. É um disco que tem a marca de uma banda de músicos old school… eu tenho 58 anos, Nasi também. Talvez a gente não conseguisse, apesar dessa similaridade com outros trabalhos do Ira!, músicas com essa temática a gente não conseguiria fazer na época do Meninos da Rua Paulo, por exemplo, com um ponto de vista mais maduro. Como O Amor Também Faz Errar, que é uma música que fala um pouco sobre isso, sobre erros e acertos do amor, de se jogar de cabeça em relações.

As músicas são de uma mesma época?

Uma boa parte dele, 60% desse disco é uma coisa de dois anos pra cá, já começando a pensar num disco novo do Ira!, lá por 2018. Mas tem músicas como Chuto Pedras e Assovio, que é de 2010, que fiz com a Bárbara Eugênia, pro disco dela que eu tava produzindo e ela tinha um repertório definido e a música não foi pro disco. Acho uma música muito bonita, porque fala sobre amor, mas ao mesmo tempo fala sobre solidão – o que tem a ver com Meninos da Rua Paulo, que fala muito sobre isso também. A própria Efeito Dominó, música minha com a Virginie Boutaud [da banda Metrô], fala um pouco sobre isso.

Tem Mulheres à Frente da Tropa, que mostra o protagonismo feminino nesse momento que a gente tá vivendo. Desde 2013, 2014, comecei a acompanhar mais de perto os ativismos, conheci a Ocupação 9 de Julho, conheci lideranças indígenas. Logo em seguida, veio o assassinato da Marielle, há pouco tempo veio a Angela Davis fazer umas palestras por aqui. Essas manifestações todas… eu presenciei uma manifestação feminista na Paulista, muitas meninas com os seios de fora e os rostos pintados, praticamente só mulheres, de igual pra igual com a força policial. Vim presenciando isso, essa coisa cada vez mais forte, mais presente na vida de todo mundo. E achei que a gente tinha de ter um registro com o Ira!. Tanto que gerou não só uma música, com os vocais femininos, como o clipe, dirigido por uma mulher, Luciana Sérvulo, as protagonistas todas mulheres. E acho que tudo é reflexo do amadurecimento da banda. E um reconhecimento desse momento que a gente tá vivendo, em que é muito importante a presença das mulheres. Veja os países que são dirigidos por mulheres são os que estão se dando melhor nessa quarentena.

Envelheço na cidade

Eu Desconfio de Mim tem uma pegada anos 1980, meio Arnaldo Antunes, Walter Franco…

Tem um pouco, tem influências com outras parcerias. O Arnaldo é… eu fiz uma live do Sesc e falei do Arnaldo quase mais do que de mim. A gente fez muita coisa juntos, por isso tenho essa relação com ele e com o pós-punk e nossas parcerias são assim. Ele tem um repertório de músicas pop, músicas de muito sucesso, mais palatáveis, mas tem uma coisa esquisita, mais concretista. E é nessas parcerias que eu entro, nessas coisas mais loucas, Como É Que Chama o Nome Disso, Consciência. Mesmo A Curva da Cintura, que a gente gravou na África, com o Toumani [Diabaté, músico do Mali] tem essa estranheza, que acho que a gente cativa, mesmo.

Olha, eu acho que tem essa influência, mesmo. E, claro, de Gang of Four. Essa música é dedicada ao Andy Gill [guitarrista da banda inglesa, morto em fevereiro]. A gente tava no estúdio quando eu tive a notícia que ele faleceu. Eu tenho foto com ele quando ele veio tocar no Sesc Pompeia [ele veio ao país pela primeira vez em 2006, tocou em um tributo ao Legião Urbana, em 2012, e retornou em 2018 ] e eu chorei muito quando soube da morte por que ele sempre foi uma espécie de irmão mais velho do pós-punk paulistano. Eu falei pra ele, cara, você não tem ideia de como você foi importante para pra cena pós-punk de São Paulo. Ele influenciou Ira!, Fellini, Smack, Mercenárias, Legião Urbana, bandas underground. Importante como Joy Division, ele na guitarra foi uma escola e tanto.

Old school, 40 anos de carreira, 58 anos de vida. Tem arrependimentos, Scandurra?

Arrependimentos? Putz, cara… um monte, bicho. Um monte de arrependimentos.

Fiquei até emocionado agora [faz uma pequena pausa].

Numa época que o Ira! nem era Ira!, era outra banda, Subúrbio ainda, final dos anos 1970, nessa coisa de chocar as pessoas eu fiz essa música, Pobre Paulista. E Pobre Paulista flerta com questionamentos preconceituosos e não era isso que eu queria dizer, eu era um moleque, tinha 15 anos de idade e essa letra saiu. E em vez de ela ser uma música que a gente deixou pra trás, ela acabou virando um hino. Mas é uma música que eu não faria jamais hoje em dia. Se eu quisesse falar sobre a minha cidade, eu falaria de outra maneira.

Por soar contra migrantes…

Exato. E essa interpretação é muito ruim e muito errada. Então, ter uma música na minha carreira que as pessoas possam ouvir e dizer que é preconceituosa é uma coisa… Eu quis ser mais realista que o rei, quis fazer algo mais chocante que os Sex Pistols, quis criar uma polêmica num momento em que, com 15 anos de idade, adolescente, falta muita tolerância na gente.

Vocês pararam de tocar a música?

A gente nunca mais tocou essa música. Faz muitos anos que a gente não toca. E é um equívoco, um equívoco. É uma coisa que eu me arrependo. Eu prefiro focar em 99,9% da minha obra, que mostra um outro caminho.

Independente

Os Homens da Rua Paulo

Um disco maduro e cheio de frescor, contemporâneo mas com ecos de um dos melhores trabalhos do Ira!, o álbum Meninos da Rua Paulo, de 1991. Com surpreendente vigor, este novo disco vira de vez a página do fim do grupo e supera um abismo de 13 anos sem material inédito, trazendo relevância para o cânone da banda e muitíssimo bem-vinda boa música para tempos de barbárie.

12º álbum de estúdio da banda, o autonomeado Ira não tem exclamação, mas não perdeu a energia. Bebe da potência das parcerias de Scandurra com as cantoras e compositoras Silvia Tape, Virginie Boutaud e Barbara Eugênia, contribuições externas que oxigenaram o som do Ira!. O disco ganhou também com as entradas do baterista Evaristo Pádua e do baixista e tecladista Johnny Boy, trazendo peso e swing.

Outro destaque neste trabalho é a participação do produtor Apollo 9, que com seus sintetizadores contribui com uma pitada psicodélica em faixas como Efeito Dominó e Você Me Toca. Eles enriquecem um álbum feito para ser tocado ao vivo (rezemos pela volta dos shows) e que chega despido dos elementos de música eletrônica que havia anos marcavam presença no som da banda.

Som que se mantém, diga-se. Estão lá as harmonias vocais entre Scandurra e Nasi – com uma voz segura como nunca –, e as temáticas de solidão e amores impossíveis ou perdidos, agora acrescidos de amizades maduras, no equilíbrio entre rocks, baladas e um pop jovemguardiano desavergonhado. Os gritos na multidão hoje foram atualizados por vozes femininas, homenageadas por Scandurra na bela balada-protesto Mulheres à Frente da Tropa.

Um disco que abre com a sessentista O Amor Também Faz Errar e sua batida a la Kinks, com baixo que dá uma piscadela a McCartney e um refrão solar: “Deixe a portar abrir”. Os anos 1980 aparecem em Eu Desconfio de Mim, canção-concreta, mezzo Walter Franco, mezzo Arnaldo Antunes, um tributo a um santo padroeiro das bandas da Geração 80, a quem Ira!, Titãs e Legião Urbana devem muito, Andy Gill, guitarrista e fundador do Gang of Four, morto em fevereiro.

Há o velho Ira! que recorre a Clash em O Homem Cordial Morreu, com Nasi cheio de verve, escandindo as palavras no refrão de um Brasil que está nu. A chanson française, cara a Scandurra, aparece em Efeito Dominó, parceria com Virginie Boutaud (banda Metrô), que faz um dueto, em francês, com Nasi. Nesta e em outras faixas do disco, a banda deixa a música se desenvolver sem peias por quatro, cinco, oito minutos, enveredando por caminhos mais ricos.

O peso surge também em canções como Você Me Toca, que, com seu baixo funkeado e guitarra a emular Hendrix, é uma irmã-siamesa de Rua Paulo, de 1991. Uma das duas parcerias com Silvia Tape, hoje guitarrista das Mercenárias – com quem Scandurra já lançou um disco conjunto, em 2015 –, que contribui com outro petardo no disco: Respostas, rockão tradicional em que Scandurra sola como se não houvesse amanhã.

Há isso tudo e mais, a começar pela capa, bonito trabalho da artista plástica Mayla Goerisch, com setas em referência aos mods e a se lançar no vazio em direção ao futuro. Ira é um disco de uma banda que faz autorreferências sem saudosismo, que celebra o passado sem fechar os olhos – e os ouvidos – ao que ocorre no mundo hoje. Com uma pequena ajuda de suas amigas, em Ira, os meninos da Rua Paulo viraram homens.

Foto Carina Zaratin

Raimundos: bolsonaristas, Digão e Rodolfo se reconciliam

Dezenove anos depois de deixar os Raimundos ao se converter ao protestantismo, o ex-vocalista da banda, Rodolfo, fez as pazes com Digão, guitarrista e atual cantor do grupo. A revelação foi durante uma live na noite de sexta-feira (12) no Youtube.

Digão interrompeu sua apresentação para homenagear Bessanger Abrantes, o primo de Rodolfo que inspirou o sucesso “Puteiro em João Pessoa”. Ele morreu aos 68 anos após uma parada cardíaca.

Depois de Digão “desejar à família Abrantes toda a luz, todo o amor de todos nós que estamos aqui”, Rodolfo apareceu agradecendo aos fãs pelas mensagens que recebeu em homenagem ao primo.

Ele recomendou que aproveitem “esse tempo em família para restaurar os laços que estavam perdidos há muito tempo” antes de revelar:

“Eu não sei se o Digão já deu essa notícia, mas eu vou dar o furo aqui: já tem dois, três dias que a gente se reconciliou, a gente está conversando bastante e, meu irmão, estou muito feliz, Digão, de poder ter tido essas conversas que a gente teve”

Rodolfo, ex-Raimundos

Segundo o ex-vocalista da banda, a reconciliação não foi por causa do tio, mas ocorreu “antes disso”. “Estou muito feliz de poder ver essa nossa história sendo reescrita com respeito e com benção”, concluiu.

Digão respondeu tocando “Puteiro em João Pessoa” em homenagem a Bessanger e ao ex-vocalista. “Eu tô muito feliz, cara. Depois de 20 anos, a gente voltou a ser aqueles mesmos irmãos. Beijo no seu coração”, disse o guitarrista.

A reconciliação dos dois aconteceu dias após desentendimento entre Digão e Canisso, baixista dos Raimundos. A briga começou depois que Digão relacionou a crise do novo coronavírus a uma “amostra grátis de comunismo”.

Canisso surgiu em seguida no Twitter afirmando que, após as declarações do guitarrista, sua participação na banda estava suspensa. Ele afirmou no Twitter: “Está TUDO suspenso. Pelo menos no que diz respeito a mim. O clima que já estava ruim piorou de vez”.

“Garrincha, de que planeta você é?”

A frase-pergunta era o reconhecimento público da imprensa chilena ao futebol irreverente e genial de Mané Garrincha, o maior ponta-direita que o mundo já conheceu. Ele foi também o maior protagonista da Copa do Mundo de 1962, no Chile, conduzindo ao bicampeonato uma seleção brasileira que ficou sem Pelé logo na primeira rodada da competição.

Investigação da CGU aponta: 206 mil ricos receberam o auxílio emergencial de R$ 600,00

As distorções encontradas pela Controladoria Geral da União (CGU) no país sobre o pagamento do auxílio emergencial vão muito além de casos como os 24.232 servidores públicos estaduais e municipais no Ceará, os mais de 73 mil militares brasileiros ou um grupo de criminosos locais com mandados de prisão em aberto que embolsaram o benefício.

Ao peneirar CPFs de milhões de brasileiros, cruzando bases de dados diversas com a lista do auxílio, o órgão já sabe quantos donos de lanchas e iates, empresários com firma ativa de médio e grande porte, proprietários de veículos acima de R$ 60 mil, doadores de dinheiro na última campanha eleitoral ou gente com domicílio fiscal fora do Brasil também foram contemplados com a ajuda de R$ 600 para atravessar as “dificuldades financeiras” da pandemia do coronavírus.

Contagem parcial identificou que mais de 206 mil nomes aparecem apenas nesses perfis de bens e despesas citadas. Pelos patrimônios descritos, haveria “potencial incompatibilidade” (termo usado pela CGU) para que recebessem o benefício. São registros de quem teve no mínimo uma ou duas parcelas do dinheiro liberado – sacado ou transferido para contas bancárias.

Quarentinha, o artilheiro do Botafogo no Maracanã

Por Sergio Santana, no Lance

PAMPOLINI: só jogou com grandes craques – Memórias do Esporte

O atacante que fazia gols e dava as costas para a baliza, voltando para o centro do campo. Como se fosse comum, Quarentinha nem sequer esboçava um sorriso ao balançar as redes, fato que fazia com certa frequência. O maior artilheiro da história do Botafogo também é o máximo goleador do Alvinegro no Maracanã, principal palco do futebol carioca, que completa 70 anos na próxima terça-feira.

Dos 313 gols que marcou com a camisa do Botafogo, 95 foram no Maracanã. A canhota e os fortes chutes eram a marca registada do atacante. Ao ser perguntado o motivo de não comemorar os gols que marcava, Quarentinha afirmava que estava apenas fazendo o trabalho que era pago para ser feito. No século passado, Armando Nogueira fez uma crônica em homenagem ao atleta do Glorioso.

Quarentinha

“Era um chutador temível, um atacante de respeito, que fazia tremer os goleiros, fossem quem fossem. Tinha na canhota o que, então, se chamava um canhão. Chutava muito forte, principalmente, bola parada. Era de meter medo. Nos jogos Botafogo-Santos, era ele, de um lado, o Pepe, do outro. Ai de quem ficasse na barreira. Quarentinha nasceu no Pará, filho de um atacante que lhe herdou, intactos, o chute poderoso e o apelido. Não sei se o pai era tão tímido quanto o filho. Quarentinha jamais celebrou um gol, fosse dele ou de quem fosse. Disparava um morteiro, via a rede estufar, dava as costas e tornava ao centro do campo, desanimado como se tivesse perdido o gol.”

Quarentinha atuou de 1954 a 1964 no Botafogo. Em 1956, foi emprestado ao Bonsucesso para a disputa do Campeonato Carioca após desentendimentos com a diretoria do Botafogo. Foi vice-artilheiro da competição e retornou para o clube de General Severiano. O resto é história: 313 gols marcados em 442 partidas disputadas e uma marca jamais alcançada até os dias atuais.

POUCOS PERCEBIAM, MAS QUARENTINHA SORRIA — Museu da Pelada

Pelo Botafogo, foi tri-campeão carioca (1957, 1961 e 1962), bi-campeão do Torneio Rio-São Paulo (1962 e 1964) e vencedor do Torneio de Paris (1963). Além disto, foi artilheiro nas campanhas estaduais em três edições consecutivas: 1958, 1959 e 1960.