Futebol em tempos de cólera

POR GERSON NOGUEIRA

Em meio ao festival de reprises de futebol, F1, basquete e tênis, de repente o sábado pela manhã trouxe as imagens de futebol de verdade, disputado ao vivo. A Alemanha é o primeiro país do primeiro mundo da bola a voltar aos gramados. E voltou com partidas tecnicamente interessantes e movimentadas, cheias de gols e dribles.

De maneira geral, acho que a experiência se mostrou satisfatória, tanto para quem viu na TV quanto para os atores do espetáculo. O lado mais difícil de assimilar é o silêncio gerado pela falta de torcida, fato compensado apenas pelos gritos dos jogadores, captados pela transmissão.

Chamou atenção o protocolo seguido mais ou menos à risca, como prevenção à covid-19. Vi dois jogos e fiquei impressionado com a velocidade das equipes, aparentemente sem grandes perdas físicas durante a quarentena, mas as comemorações revelaram a falta de jeito dos atletas para se habituar aos novos tempos.

A confusão maior foi quanto aos cumprimentos com cotovelos, acenos ou abraços na hora dos gols. Nem todo mundo conseguiu lembrar as orientações. O desrespeito às normas assustou até o governo da Baviera, que recomendou à Bundesliga para insistir na obediência ao protocolo.

Jornais da Europa repercutiram a estranheza com a reeducação de hábitos do futebol, normalmente um esporte caloroso e repleto de manifestações de alegria. De todo modo, alguns times não conseguiram reprimir o contentamento com gols marcados e vitórias conquistadas.

A empolgação levou Grujic, do Hertha, a ganhar uma beijoca no rosto aplicada por Boyata depois de anotar o primeiro gol sobre o Hoffenheim. O Hertha venceu a partida por 3 a 0. Cabe dizer que, há duas semanas, o clube de Berlim penalizou o marfinense Kalou por postar vídeo em que aperta a mão de em um colega durante treino.

Na outra partida que assisti na rodada de sábado, o time do Borussia Mönchengladbach não economizou abraços calorosos depois de cada gol marcado sobre o Eintracht Frankfurt no triunfo por 3-1.

O minucioso protocolo acordado pelos clubes previa em detalhes a adoção de procedimentos preventivos entre os envolvidos com os jogos. Mesmo sem presença de público, o visual nos estádios foi abrandado com placas que disfarçavam o vazio nas arquibancadas e tribunas.

Quem ficou acompanhando à distância não estranhou a movimentação em campo, pois os jogos tiveram nível bem superior ao esperado, mas ficou claro que ainda haverá um longo caminho de adaptação aos novos tempos.  

Entre as autoridades alemãs fica evidente a preocupação em dar o exemplo à população com gestos e manifestações em campo. Como referência para milhares de pessoas, os jogadores e técnicos precisam se comportar corretamente. Membros de comissões técnicas foram flagrados sem as máscaras obrigatórias.

É importante observar que, pelo grau de organização próprio da sociedade alemã, a Bundesliga se habilitou a ser o primeiro campeonato a voltar com os jogos, mesmo com a covid-19 ainda preocupando o governo do país.

O futebol é considerado uma atividade de risco pela natural característica de contato entre os atletas. Na Alemanha, o protocolo preventivo inclui o confinamento dos times e testes regulares com jogadores, técnicos e preparadores.

Ao mesmo tempo, a torcida cumpriu com louvor sua parte, evitando aglomerações em torno dos estádios. Apelos nesse sentido foram feitos ao longo dos últimos dias por atletas e técnicos, temendo que o fanatismo das torcidas atropelasse as regras básicas de distanciamento.

Histórias que o tempo leva, mas que a Clube revive

Participei ontem à tarde do programa “Jogos Memoráveis”, que reconstitui na Rádio Clube do Pará vez páginas gloriosas do futebol paraense. Foram reconstituídos os jogos Remo 5 x 1 Guarani (1978), Tuna 2 x 1 (Parazão 1983) e Tupi 0 x 1 PSC (Série C 2014), com apresentação de Giuseppe Tommaso e participação de Guilherme Guerreiro.

Além das participações de personagens das partidas relembradas, o programa permite relembrar e conhecer histórias de bastidores, como a que foi relatada pelo lateral-direito Marinho, titular do Remo de 1978.

Segundo ele, na véspera do jogo com o Guarani que consagraria o artilheiro Bira, rolou um barraco na concentração remista que foi mantido em segredo até ontem. Só os jogadores tinham conhecimento, além do então presidente Manoel Ribeiro e dos repórteres setoristas do Baenão.

O motivo foi bobo: Marinho, Dico e Dutra, líderes do elenco, tinham por hábito sentar à cabeceira da mesa nas refeições. Isso dava ao trio a preferência na escolha dos melhores pedaços da suculenta galinha guisada preparada pela cozinheira Maria. Serviam-se e mandavam as partes menos nobres da penosa para os demais.

Naquela noite, por pura gaiatice, o jovem Bira chegou mais cedo e sentou no lugar normalmente ocupado pelo capitão Dutra. Ao notar a audácia, o capitão reagiu e exigiu a cadeira de volta. Bira não obedeceu e o barraco começou, com direito a troca de desaforos, chutes e guerra de pratos.

Avisado do imbróglio, Manoel Ribeiro atravessou a rua (morava defronte ao estádio) para apaziguar as coisas. Quando o clima serenou, veio a preocupação com os possíveis efeitos da briga na atuação do time diante do forte e surpreendente Guarani, que encantava o país com um naipe de grandes jogadores – Careca, Renato, Zenon, Jorge Mendonza e Amaral.  

Pelo resultado acachapante de 5 a 1, maior revés do Bugre naquele Brasileiro, o conflito pelos pedaços de galinha não gerou qualquer abalo no rendimento dos azulinos. Muito pelo contrário.

Aliás, depois da goleada, a festa tomou conta dos vestiários e o então governador Aloysio Chaves foi lá cumprimentar o time, autorizando Manoel a pagar ‘bicho’ de R$ 1 mil cruzeiros para cada jogador. Preocupado com um possível esquecimento, o grupo pulou sobre Ribeiro para exigir a gratificação. Que, aliás, foi paga.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 18)

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