De Escritor para Escritor

Por Edyr Augusto Proença

De repente vem a ideia arrebatadora, que não admite adiamentos. Olho o resultado, sorrio e penso se foi meu avô, minha mãe, meu pai a “soprar” em meus ouvidos. Um capítulo por dia. Os personagens. Nunca vêm sozinhos. Todos têm família, amigos, amores, desafetos. Até um momento desses, não percebemos tudo que guardamos. Nossa melhor ou pior característica, a de observadores de gente. Seus tiques. A voz. O corpo em movimento. As ações. Bondades e maldades. Ao contrário do que se possa imaginar, aquele personagem não é o fulano, que eu conheço bem e consegui identificar! São sempre o acúmulo de várias observações. A maioria de meus livros parece ter uma voragem animal de sair se engolindo desde a primeira palavra, urgente, implacável, chegando, resfolegando ao final. Ele come as palavras. Não desenha o cenário. Eu me confundo às vezes para saber quem está falando. Tem de voltar e reler. Me deu medo de continuar. Era como se eu estivesse escondido, ou como se diz em palavras amazônidas, como se eu tivesse me abicorado para assistir à cena e ao final, sem fôlego, coração acelerado, medo de ser descoberto, agora guardando uma cena gravíssima, não tivesse outra opção a não ser virar a página e seguir na leitura, mesmo com todos os riscos. Se fecho esse livro agora, serei um covarde, uma testemunha com medo, agora é tarde, tomei conhecimento e não posso negar, principalmente, para mim mesmo. Sim, há poucas palavras. Concisão. Intensidade. Dá agilidade. Dá rompante. Dá nos nervos. Em uma época de programas de TV realidade, câmeras nervosas, repórteres angustiados em perseguições policiais, gravadores escondidos, talvez o leitor queira, no conforto de seu lar, sentir essa adrenalina toda, sua imaginação trabalhando a mil, construindo cenários, rostos, corpos, repetindo, abicorado, em segurança, quem sabe, frágil, esses acontecimentos. Meu livro novo, BelHell, é mais parecido com o primeiro, Os Éguas. Não tem aquela voragem dos outros, da primeira palavra até o final, ufa. Personagens que sobem na vida. Outros que descobrem uma habilidade. Uma anã que ao dar a luz e escutar todas as piadas sujas de médicos e enfermeiras, guarda o nome de cada um para se vingar. Um homem ambicioso, esperto e corrupto, mas que adora jogar e construiu um cassino para se divertir. Um personagem me deu uma rasteira. Não esperava. Bem, nunca sei como os livros vão terminar. Tudo pode acontecer. Quando veio a virada, voltei ao começo. Sim, havia uma indicação. Eu não percebera, cuidando dos outros, talvez. Fiz-lhe a vontade. Se me pegou vai pegar também o leitor. E mais uma vez eu me pergunto quem soprou a ideia? Leonardo Padura disse que o pior é entregar o romance à editora. Convivemos com aqueles personagens. Nos apaixonamos. Brigamos por eles, embora tenham sua independência. Um caso de amor que terminou. O livro vai e ficamos no vazio. Luto. Vamos ao teatro, cinema, jantar fora, recobrar nossas vidas. E tudo retorna com força total na época de lançamento, em que damos entrevistas, negociamos, explicamos e alguns ainda nos perguntam qual será o próximo livro? Que nada. É preciso curtir o lançamento desse. Deixar a vida seguir. E, afinal de contas, quem soprou aquelas ideias que descem como a vazão de barragens, abrindo caminho até a tela, onde se acomodam luxuosamente, anunciando que chegaram para abafar? Quem soprou?

Publicado no Jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Estado do Paraná, edição de abril, por enquanto, somente na internet.

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