Presidente do PSOL erra ao negar que EUA podem ter incentivado atos de junho de 2013

Por Joaquim de Carvalho, no DCM

O presidente do PSOL, Juliano Medeiros, tirou uma frase de Lula do contexto para fazer o tuíte lacrador sobre as manifestações de 2013, e se deu mal. Recebeu uma enxurrada de críticas fundamentadas por defender posições que o aproximam do MBL, o movimento de direita que também vê nas passeatas daquele ano um movimento espontâneo de defesa de serviços públicos de qualidade. Fosse assim, com a precariedade dos serviços prestados hoje por diferentes níveis de governo, a população estaria de novo nas ruas.

Para entender a polêmica, no entanto, registremos o que escreveu Juliano Medeiros:

“Quer dizer que as centenas de historiadores, sociólogos e cientistas políticos de ESQUERDA estão perdendo tempo ao estudar 2013 como um fenômeno social complexo que estava em disputa porque, na verdade, tudo não passou de uma armação da CIA? Discordo.”

Na entrevista de mais de 30 minutos ao jornalista Nacho Lemus, Lula não mencionou uma única vez CIA e, sempre que falava, tinha o cuidado de dizer “Eu acho”, para depois expor argumentos que permitem a conclusão de que os Estados Unidos estiveram por trás do movimento que golpeou a democracia no país, com a derrubada de Dilma Rousseff e a condenação e prisão do próprio Lula, que o tirou da disputa eleitoral que certamente evitaria a ascensão de Jair Bolsonaro.

Nacho Lemus realizou a entrevista pela TV pública Telesur, que é mantida por governos de esquerda na América Latina e tem sede na Venezuela. Nacho perguntou a Lula se existem diferenças entre as manifestações que ocorrem atualmente em vários países da América Latina e aquelas que aconteceram no Brasil em 2013.

“A diferença é que essas manifestações são feitas para conquistar direitos. As manifestações de 2013 foram feitas já fazendo parte do golpe contra o PT”, respondeu Lula.

“Elas já foram articuladas para garantir o golpe, porque elas não tinham reivindicações específicas. Não tinham reivindicação específica. As manifestações começaram como parte do golpe incentivadas pela mídia brasileira, incentivadas eu acho que, inclusive, de fora para dentro. Acho que já teve o braço dos Estados Unidos nas manifestações do Brasil.”

Na polêmica levantada por Juliano Medeiros, alguém lembrou que o protesto começou com a reivindicação de revogação do aumento de 20 centavos no preço da tarifa de transporte. Sim, é verdade.

Mas essa reivindicação foi atendida nos primeiros dias, e os protestos continuaram, com um miríade de reivindicações que se resumiam na frase “padrão Fifa”. No meio da manifestação, surgiram também placas defendendo a não provação da PEC 37, uma proposta de emenda que reafirmaria o princípio constitucional de que a investigação cabe à polícia, com controle externo do ministério público.

Promotores e procuradores não são tiras, supervisionam os policiais, para evitar abusos e desvio das investigações, mas não investigam diretamente.

É, em síntese, o que definiu a Constituição. Mas, com o passar dos anos, membros do ministério público começaram a realizar inquéritos, muitas vezes sem a participação de policiais e sem nenhum regra definida no código de processo penal.

A PEC 37 acabava com isso e, uma vez aprovada, dificilmente haveria Lava Jato. Pelo menos, não no padrão atualmente visto. A maioria do povo nem sabia o que era PEC 37, mas os jornais davam destaque a essa reivindicação. A PEC 37 acabou rejeitada, no auge das manifestações. Logo surgiram nas passeatas  cartazes de “Fora, Dilma”, ao mesmo tempo em que era proibido o uso de bandeiras de partidos políticos.

Estava, evidentemente, plantada a semente que viria dar no fruto Bolsonaro. Era a criminalização da política. Na entrevista — que Juliano Medeiros, pelo jeito, não viu —, Lula trata do tema da criminalização da política.

“A política está desacreditada, e não só no Brasil. E a quem interessa desacreditar a política?”, questionou o ex-presidente. “As elites financeiras”, ele mesmo respondeu, para em seguida desenvolver o raciocínio:

“Hoje não existe mais preocupação com o sistema produtivo de um país. Hoje, o que está acontecendo no mundo é a financeirização da economia. São grupos e grupos, centenas e centenas de fundos e você não sabe quem é o dono. Você não sabe com quem conversar. Que estão especulando. É por isso que, no Brasil, a Bolsa cresce 110 mil pontos e o desemprego cresce.”

Lula não fala em CIA por trás de movimentos que servem à criminalização da política e a movimentos especulativos que, derrubando e levantando índices econômicos, produzem o enriquecimento de uns e o empobrecimento de outros. Mas o ex-presidente dá pistas de que houve ação externa no golpe desencadeado no Brasil — no qual as manifestações de junho tiveram, obviamente, importância.

Falando sobre o papel da OEA no golpe da Bolívia, ele disse:

“Acho que o que está acontecendo na América Latina é uma articulação profunda da extrema direita liderada pelos Estados Unidos, liderada pelo Trump e seus assessores, liderada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Uma perseguição. É quase uma tentativa de destruir aquilo que conquistamos de democracia na América Latina. Aliás, em 500 anos de história, não conheço uma única atitude americana em benefício da autonomia e da liberdade de algum país na América Latina. Os Estados Unidos têm se comportado, me parece, para tentar evitar a influência da China na América Latina, para tentar enfrentar a importância da Rússia no mundo geopolítico, os americanos resolveram tomar a América Latina outra vez. Ou seja, a América Latina não tem que ter protagonismo, a América Latina não tem que ter independência, a América Latina não tem que ter política própria. São os Estados Unidos que determinam o que a gente vai fazer, e o Bolsonaro se submeteu a isso, se submeteu da forma mais vergonhosa possível, batendo continência à bandeira americana, quase que oferecendo a Amazônia para o governo americano. Isso é uma vergonha, isso nunca aconteceu no Brasil. Um país que tem autoestima, um país que tem orgulho próprio, um país que tem amor a si mesmo não pode aceitar essa submissão.”

O jornalista venezuelano lembrou que, uma semana depois da condenação de Lula pelo caso do sítio de Atibaia, um conselheiro de assuntos políticos da Embaixada dos Estados Unidos visitou o Tribunal Federal Regional da 4ª Região. “Penso que é uma vergonha, um vexame”, disse Lula, que sugeriu ao Conselho Nacional de Justiça, ao Conselho Nacional do Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal que olhem com muita atenção a submissão da Operação Lava Jato aos Estados Unidos.

“A Operação Lava Jato ameaçou a democracia no Brasil, ameaçou a Câmara dos Deputados, o Senado, todas as outras instituições e ameaçou a Suprema Corte várias vezes.

Lula lembrou que, quando prestou depoimento a Moro, já vinha observando a quantidade de viagens que membros da Lava Jato, incluindo o juiz, fizeram aos Estados Unidos, especialmente ao Departamento de Justiça. “Nós temos inclusive vídeos de procuradores americanos felizes com a minha prisão. Agora, um representante político da Embaixada visita um tribunal que passou meu processo na frente de 1941 processos, um tribunal que não votou o meu processo, votou o desrespeito à Suprema Corte, foi um desafio. Essa gente não pode ficar impune”, comentou.

Lula disse que a visita do representante político da Embaixada é uma ofensa à soberania do Brasil e um dia os membros da Lava Jato serão responsabilizados pelos prejuízos causados ao país, especialmente à economia. É claro que os Estados Unidos não organizaram diretamente as manifestações de junho de 2013, mas deram sinais de que queriam o enfraquecimento do governo de Dilma Rousseff.

Os arquivos revelados por Edward Snoden, ex-agente da CIA e analista da NSA, revelam que o Brasil, entre 2010 e 2012, foi o país mais espionado pelo serviço secreto americano, com base em dados interceptados. A própria Dilma foi interceptada.

O Brasil tinha assumido protagonismo geopolítico e tinha também descoberto as maiores reservas de petróleo do século XXI. Ignorar esses fatos é contribuir para a mistificação da história.

É claro que as manifestações de junho de 2013 tiveram outros motivações além de uma possível ação externa. Assim como, em 1964, houve, de fato, ação de grupos religiosos na organização de atos para derrubar João Goulart. Mas, no essencial, quem garantiu o golpe de 64? O governo americano, como já está fora de questão. No futuro, se saberá com mais nitidez quem esteve por trás do golpe que teve seu marco inicial nas manifestações de 2013. Que grupos foram financiados e por quem.

Hoje, negar a possibilidade de ação externa nos atos preparativos do golpe, incluindo aí as manifestações de junho de 2013, é, no mínimo, ingenuidade. O Brasil daquela época tinha muitos problemas, inclusive de serviços públicos, mas, às vésperas de sediar uma Copa do Mundo e se tornar vitrine do mundo, era reconhecido mundialmente por seus êxitos, como um país de quase pleno emprego, em meio à crise mundial, e a ascensão do que se chamou à época de uma nova classe média.

Globo cria a figura do entrevistado aleatório oficial

Ele opina sobre tudo e é praticamente onipresente onde há uma transmissão ao vivo da TV Globo. Já falou a respeito de “um filme de terror de ontem”, esperou mais de uma hora um ônibus – e reclamou disso. Também foi personagem de reportagens sobre ligações perturbadoras no celular e de dívidas com o cartão de crédito e até mesmo fez as vezes de entrevistador no Globo Comunidade.

Henrique Filho, como se identifica, virou meme nas redes sociais após ganhar fama em diversas entrevistas ao vivo da Globo. “Idoneidade e transparência, sempre no padrão Globo de jornalismo. Grande Henrique, que não me deixa mentir!”, tuitou Raphael Brunello.

“Seu Henrique, o entrevistado especialista em qualquer assunto, a gente vê (eu não) na Globo”, comentou Ana Maria Muniz.

“A Globo poderia explicar… Afinal, quem é o Henrique?”, indagou o usuário Jostorquato.

As aparições sequentes renderam até o título de funcionário do ano da Globo, dado por alguns internautas, quenão se conformaram em ver o rapaz fora do Especial do Roberto Carlos, no show especial para os artistas da emissora da família Marinho.

“Covardia a Globo nunca ter levado o polivalente funcionário HENRIQUE para o Especial do Roberto Carlos. Uma das maiores injustiças de todos os tempos”, tuitou Luis Henry.

(Da revista Fórum)

Copa do Nordeste terá transmissão ao vivo no Youtube

Fundamental na recriação da Copa do Nordeste, disputada de forma ininterrupta desde 2013, o Esporte Interativo deixou de ser um canal em meados do ano passado. O que de início foi um grande baque para a “Lampions League” acabou permitindo que o torneio crescesse em visibilidade e em receitas. Em 2020, três canais vão exibir a competição, que mais uma vez estará em uma plataforma própria de pay per view.

“Foi uma perda enorme. O Esporte Interativo fazia um trabalho fantástico, mas esse ano, depois do solavanco, teve SBT batendo recorde de audiência regional, a Fox Sports liderando entre os canais de TV…. A gente ampliou a penetração no final das contas e as receitas já cresceram também”, conta Edgar Diniz, ex-sócio do Esporte Interativo e um dos donos da Live Mode, que hoje detém os direitos de comercialização da Copa do Nordeste.

Pelo segundo ano consecutivo, em 2020 o torneio será exibido no Nordeste pelo SBT. Na primeira rodada, por exemplo, 25 de janeiro, um sábado à tarde, serão transmitidos dois clássicos regionais: Santa Cruz x Bahia e Vitória x Fortaleza. No mesmo dia, às 18h, o CSA recebe o Sport com transmissão para todo o país pelo Fox Sports. Será assim em todas as oito rodadas da primeira fase, com o Youtube transmitindo uma quarta partida, também ao vivo, em um total de 12 jogos durante todo o torneio.

“Esse jogo será escolhido pela Liga do Nordeste, mas será sempre uma partida com algum clube entre os principais do Nordeste”, promete Diniz. A tabela divulgada pela CBF não detalha quais são esses jogos. O modelo é semelhante ao que vem fazendo sucesso no NBB. A liga é quem faz toda a produção e a geração de imagens, que são distribuídas para os parceiros. No basquete, Twitter e Facebook transmitem uma partida por rodada, enquanto que a Copa do Nordeste fechou com o Youtube, que pela primeira vez adquiriu os direitos de um torneio nacional de futebol.

O restante das partidas, assim como acontece no NBB (e também na Superliga de Vôlei, por exemplo), será distribuído em uma plataforma paga de streaming. No caso da Copa do Nordeste, o Live FC, que vai exibir todos os jogos do torneio, sendo quatro por rodada exclusivos. O preço da mensalidade, porém, subiu em relação ao ano passado: de R$ 14,90 para R$ 19,90. (Do Blog Olhar Olímpico)

Em guerra contra Bolsonaro, Globo aposta fichas em Moro

Por Ricardo Kotscho, no Facebook

Na guerra contra Bolsonaro, os Marinho jogam mais luz sobre Sérgio Moro e mudam o rumo das Organizações Globo.

Um dia depois do Natal a Folha de S.Paulo manchetou o que parece ser um recado do Planalto aos donos do sistema de radiodifusão, muito especialmente à Rede Globo, escolhida como a inimiga número 1 de Bolsonaro no setor: o governo quer endurecer as regras para as concessões de TVs e rádios. Mais uma vez o presidente da República revelou ignorância pétrea sobre o assunto, e de novo sou obrigado a adverti-lo: tire o cavalo da chuva, capitão, mas o senhor, que acha que pode tudo, não vai quebrar a Globo.

Não é a primeira vez que Bolsonaro ameaça esticar a corda e endurecer, senão com todo o setor, certamente com a Globo. Em outubro, quando o presidente visitava a Arábia Saudita, o Jornal Nacional pôs no ar extensa matéria sobre o porteiro que liberou a entrada, no condomínio carioca onde o presidente mantém sua residência, de um dos envolvidos no assassinato de Marielle Franco. O capitão soube da notícia quando já era madrugada em Riad, a milhares de quilômetros do Brasil. Entrou em surto, montou a tralha de filmagem e fez uma “live” de 23 minutos de duração no Facebook às quatro da manhã, hora local, para desqualificar a reportagem e se defender. Estava furioso e descontrolado: “Vocês, da TV Globo, o tempo todo infernizam minha vida, porra! Agora Marielle Franco, querem empurrar em cima de mim? Seus patifes! Canalhas! Não vai colar! Não tinha motivo pra matar ninguém no Rio de Janeiro,” vociferou. Em meio a berros palavrões e socos na mesa, jurou que a Globo teria dificuldades para renovar sua concessão de televisão e garantiu que doravante o processo terá que ser “limpo”: “Se o processo não estiver limpo e legal, não vai haver renovação das concessões”.

Mais que uma bravata juvenil, afirmar que uma concessão, qualquer concessão, só será aprovada “se tudo estiver absolutamente correto” é apenas um truísmo pedestre. É como se Bolsonaro viesse a público anunciar que a partir de agora as sextas-feiras virão antes dos sábados. No jargão jornalístico, a fala saudita de Bolsonaro era “o cachorro abanando o rabo”, a não-notícia. Se algo não estiver correto, nenhum governo pode renovar concessões do que quer que seja. Um bom cristão aconselharia a perdoá-lo, já que ele não sabe do que fala.

Um mês atrás escrevi uma nota no Nocaute/Foicebook intitulada “Por que o capitão Bolsonaro vai perder a guerra contra a TV Globo” (https://nocaute.blog.br/…/por-que-bolsonaro-vai-perder-a-…/…). Seguramente meu textinho não foi incluído no clipping de notícias que o presidente recebe de seus assessores todas as manhãs. Se tivesse perdido cinco minutos lendo o que escrevi, Bolsonaro passaria a saber que o presidente da República não concede, não renova nem cassa canais de rádio e TV. O Poder Executivo prepara o processo e o envia ao Congresso, pedindo a aprovação ou não da renovação. Ao Congresso cabe a última palavra. Ex-parlamentar com 28 anos de experiência, o presidente tinha obrigação de saber que, ao longo de sua história, não há um único, solitário exemplo de que o parlamento brasileiro tenha rejeitado uma só proposta de concessão ou de renovação. O prodígio se explica pela presença no Congresso de mais de cem senadores e deputados que são concessionários de canais de rádio e TV (diretamente ou por meio de testas-de-ferro), prática proibida pela Constituição.

Para quem precisa de exemplos basta lembrar que, pressionado pelo Ministério Público Federal, o atual senador Aécio Neves foi obrigado a “legalizar” o controle que detinha sobre a Rádio Arco Íris, de Belo Horizonte, repetidora do sinal da paulista Jovem Pan. Para não perder, por um ato do Supremo, como pedia o MPF, a concessão que controlou por seis anos, Aécio “regularizou” a situação, “vendendo” suas ações para a irmã, Andréa Neves da Cunha, pela astronômica quantia de 88 mil reais.

Agora Bolsonaro avisa que as renovações só serão aceitas “se tudo estiver regular”. E adverte que uma das principais exigências que seu governo planeja incluir, para renovação da concessão, será a inclusão de uma regra que prevê pagamento antecipado de dívidas e pendências tributárias. Ainda segundo a Folha, a ideia é exigir que as empresas, para a renovação das outorgas, paguem seus débitos fiscais antecipadamente, mesmo que a dívida com o Tesouro tenha sido parcelada. Isso criaria empecilhos para as emissoras, pois boa parte delas tem dívidas fiscais parceladas com a União. Trocando em miúdos, se a empresa tiver dívidas fiscais parceladas – seja pelo Refis ou por uma das inúmeras versões similares – só obterá renovação se pagar antecipadamente esses débitos. Em português fluente: para obter outorga ou renovação de uma concessão de rádio ou TV, o candidato deverá apresentar uma certidão negativa de débitos com a Receita Federal.

Uma exigência dura, à primeira vista. Ocorre, porém, que até as corujas que piam nas madrugadas brasilienses sabem como isso funciona. O Congresso aprova o parcelamento de débitos fiscais (o Refis é apenas o mais conhecido), o presidente da República sanciona a decisão e o contribuinte inadimplente passa a ter o direito de fatiar a dívida em prestações a perder de vista e valores geralmente ínfimos.

Para facilitar a compreensão das intenções anunciadas pelo capitão, tome-se um exemplo fictício. A empresa que detém a concessão da TV ABCD devia à União cerca de R$ 500 milhões de impostos não recolhidos. Decidiu aderir ao Refis – mecanismo destinado a regularizar débitos com o governo – e conseguiu parcelar a dívida com prazos de égua. A partir do dia em que pagar a primeira parcela, a empresa se livrará da condição de inadimplente e estará apta a obter da Receita Federal, em minutos, pela Internet, a cobiçada certidão negativa de débitos com a União. E enquanto estiver pagando as prestações em dia, poderá requerer, a qualquer momento, o nihil obstat da Receita comprovando que está quite com os cofres públicos. Se vier a prevalecer a ameaça do capitão, ao requerer a renovação da outorga da TV ABCD, a empresa proprietária do canal teria que ir à Receita e quitar, à vista, o saldo total da dívida original de R$ 500 milhões.

Mas Bolsonaro se recusa a entender – como foi dito pelo Nocaute/Foicebook e, depois, pela Folha – que a renovação ou cassação da concessão é fruto de decisão do Congresso Nacional, que de costume aprova, com rapidez e na calada da noite, todos (sim, insisto, todos) os pedido de renovações de concessões para lá encaminhados. Além disso, qualquer mudança dos muitos mecanismos de quitação dos débitos também precisa ser aprovada pelo Congresso para que possa virar realmente uma regra. E a possibilidade de o Congresso aprovar um projeto dessa natureza é absolutamente nula, igual a zero.

O Congresso Nacional, especialmente nos últimos anos, aprovou mais de uma dezena de sistemas de refinanciamento de dívidas, cada um mais generoso que o anterior. Só para se ter uma ideia da cordilheira de dinheiro que o mecanismo e seus similares movimentam, no ano de 2018 esse perdão disfarçado custou aos cofres públicos a estratosférica cifra de R$ 62 bilhões. Mesmo que isso represente um rombo no Orçamento, o que diz a lei é que após negociar um parcelamento de dívidas dentro das condições estabelecidas, o contribuinte regulariza sua vida com o fisco. O capitão deveria saber que jamais conseguirá votos suficientes para mudar esse sistema. Até as dezenas de congressistas da chamada “Bancada BBB – Bala, Boi e Bíblia”, seus fieis apoiadores, têm muito mais adeptos de parcelamentos do que de endurecimento das regras. E, por fim, se está em vigor uma lei autorizando o parcelamento, e considerando como regular a situação do contribuinte que adere a ela, mudar isso é inconstitucional e o Supremo derrubaria a ameaça em poucas sessões.

Na verdade, é pouco provável que Bolsonaro ouse enviar ao Congresso essa proposta de endurecimento das regras. E perguntar, como se sabe, não ofende: será que a Rede Globo tem dívidas fiscais parceladas pela adesão a algum desses refis? Certamente tem. E as demais empresas do setor? Com certeza, sim. Portanto, o pau que bater em Marinho também baterá em Macedo, Saad e Abravanel. Uma bravata do capitão para intimidar a Globo afetaria, em uma avaliação conservadora, mais de 90% do setor. Alguns executivos do mundo da radiodifusão ouvidos por Nocaute/Facebook acreditam que todas as grandes redes do ramo, sem exceção, estão de alguma forma penduradas em um refis. É evidente que uma proposta dessas dificilmente será enviada ao Congresso. E se for, seu destino será o eterno repouso no fundo de uma gaveta.

Saudosa do mar plácido em que navegou em seus primeiros cinquenta anos de vida, sem nunca ter sido importunada por qualquer governo, nem mesmo os dois do PT, a Globo já embicou a proa de seu transatlântico para 2022. O tratamento amistoso dado por seus telejornais ao ex-juiz Sérgio Moro mostra um jogo aparentemente sinuoso, mas que a cada dia deixa mais claras suas simpatias pelo ministro da Justiça de Bolsonaro. Sem nada de errática, a postura pró-Moro da Globo ficou evidente nos últimos dias. Após a sanção, pelo capitão, da instituição do Juízo de Garantias, Sérgio Moro manifestou-se claramente contra a medida, permanecendo indiferente a ataques pesados contra o presidente nas redes sociais (“traidor” foi a palavra mais usada). No dia seguinte à sanção, o jornal O Globo publicou editorial esculhambando a decisão do presidente. Ou seja, enquanto Bolsonaro chama a Rede Globo para a briga, os Marinho cevam aliados na cozinha do presidente.

A despeito das alterações provocadas pelo advento da TV por assinatura e, agora, pelos serviços de streaming, que fornecem filmes e shows por assinatura e podem ser acessados pela Internet, o setor de radiodifusão ainda é importante e continua com enorme peso empresarial e social no país. Em breve teremos a Internet 5G (que já é uma realidade na China), com velocidade muito maior e qualidade muito superior aos sistemas atuais, o que vai impulsionar esses serviços via Internet e causar ainda mais alterações. Todos esses serviços demandam regulação equilibrada por parte do governo, que até o momento não piou nem miou para o assunto.

Como disse no artigo anterior, a Globo, que continua inimiga do Brasil e dos brasileiros, não precisa de censura nem de intimidações. Precisa de regulação. Mas seguro morreu de velho, poderia dizer o fundador do império, Roberto Marinho, falecido em 2003 aos 98 anos. Assim, é fácil perceber, no dia a dia da TV Globo e suas associadas, que os Marinho são os únicos, em todo o setor de radiodifusão brasileiro, a já disporem de um serviço de streaming ativo e no ar, preparando-se desde já para disputar esse mercado. Então, a Globo deverá pedir e precisa muito das renovações de suas concessões. Pode ser a última vez em que isso seja tão importante para ela.

Volante cobra dívida milionária e abre litígio com o Barça

O volante Vidal põe o Barcelona na Justiça e acusa o clube de não pagar R$ 11 milhões em premiações. A direção do Barça garante que está em dia e afirma que a cobrança pode ser uma forma de o volante chileno tentar forçar uma saída do time catalão.

A notícia estourou como bomba nos meios esportivos espanhóis, pois Vidal vem atuando regularmente e parecia estar bem ambientado ao clube.