Por que a Globo silencia sobre “pessoa perigosa” do entorno de Bolsonaro que tentou sequestrar Lauro Jardim?

Por Jeferson Miola

Em momentos de aperto e dificuldades, Bolsonaro apela para a técnica diversionista do vigarista: despista para desviar a atenção do principal.

Nesses dias em que foram revelados detalhes dos negócios criminosos conduzidos pelo seu dublê de filho e preposto Flávio em associação com Fabrício Queiroz e com o chefe miliciano Adriano da Nóbrega, do Escritório do Crime, Bolsonaro ressuscitou o episódio da facada para desviar a atenção pública.

Bolsonaro insinuou que foi vítima de uma trama planejada por um ex-ministro do seu governo para matá-lo. E deixou subentendido que o conspirador, presumivelmente interessado em ocupar a vaga de vice na chapa presidencial, seria Gustavo Bebbiano.

O tiro, contudo, saiu pela culatra.

Bolsonaro não só não conseguiu tirar o foco do mega-escândalo de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa do clã como, além disso, foi desancado por Bebbiano.

O ex-coordenador da campanha e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência conhece o clã Bolsonaro na intimidade. E por isso sentiu-se confortável em dizer o que disse em entrevista à rádio Jovem Pan  em resposta ao ataque do Bolsonaro.

A entrevista do ex-aliado íntimo de Bolsonaro – que, apesar do rompimento político com o clã miliciano, continua defensor do programa e do governo bolsonarista – contém afirmações duríssimas e, sobretudo, graves.

Bebbiano entende que Bolsonaro “fica entre vagabundo ou quadro grave de loucura. Ou as 2 coisas combinadas”. Para ele, o país “está nas mãos de pessoa tão desequilibrada que pode colocar o Brasil em risco”.

Ele diz que “o presidente da 8ª economia do planeta [é] assessorado por um bando de fanáticos liderados por um lunático” [Olavo de Carvalho] e, por isso, pedirá a interdição de Bolsonaro na justiça. Bolsonaro “precisa ser interditado, não tem condições de governar o país”, afirma Bebbiano.

Ele considera que “a situação é muito preocupante porque o Brasil está sob comando de uma pessoa que demonstra ora traços graves de mau-caratismo, ora fortes sinais de loucura no último grau e assessorado por irresponsáveis e fanáticos”.

A declaração mais grave de Bebbiano, entretanto, não se refere à sociopatia do clã e às características paranóicas ou criminais da “familícia”, mas à tentativa de seqüestro do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, por uma pessoa do entorno do Bolsonaro.

Ele relata os detalhes do ocorrido [a partir do minuto 11:40 da entrevista]:

O presidente parece que escolhe a dedo pessoas muito perigosas. Inclusive há uma pessoa muito próxima a ele que recentemente tentou seqüestrar um jornalista do sistema Globo. Pegou o jornalista Lauro Jardim na saída de um restaurante em São Paulo e tentou enfiar o Lauro Jardim dentro de um automóvel, uma coisa meio forçada.

O Lauro ficou muito nervoso, muito preocupado, o assunto foi levado à direção da TV Globo, foi parar no departamento jurídico do Jornal O Globo e essa pessoa foi notificada inclusive pelo sistema Globo para que não se aproximasse mais do Lauro Jardim.

Essa mesma pessoa já ameaçou uma outra jornalista da revista Época e já fez ameaças veladas também a uma outra jornalista do jornal O Globo. Enfim, são essas as pessoas que estão ao redor do Presidente”.

O relato do Bebbiano dá conta de grave atentado não só contra jornalistas da Globo – a Lauro Jardim, à jornalista da Época e à outra jornalista do Globo – mas de um atentado perpetrado contra a liberdade de imprensa e contra o pouco que ainda vigora de ordenamento democrático no Brasil.

O grupo Globo não se manifestou sobre o assunto. Nem para desmentir Bebbiano, nem para justificar seu silêncio e omissão diante de um ato de terror de extrema gravidade.

A providência do departamento jurídico da Globo de notificar o agressor “para que não se aproximasse mais do Lauro Jardim” para deixar tudo por isso mesmo é tão eficaz quanto pedir ao estuprador que se “abstenha” de estuprar.

A Globo precisa se explicar por que, afinal, silencia sobre a pessoa “muito perigosa” e próxima a Bolsonaro que tentou seqüestrar o jornalista Lauro Jardim e ameaçou outras jornalistas da empresa.

Se a Globo continuar em silêncio, será legítimo pensar que a família Roberto Marinho ou se acovardou ou tem algum arreglo com milicianos que não escondem o desejo de implantar uma ditadura fascista no Brasil.

Já é caso de internação

O ex-ministro Gustavo Bebianno Bebianno voltou a acusar Bolsonaro de não ter “equilíbrio mental” para governar. Em entrevista ao Congresso em Foco, Bebianno disse que “Jair está nitidamente desequilibrado” e “precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico”.

“O presidente deveria buscar tratamento. Um bom remédio é amar mais e odiar menos. Reflexão sobre o passado também ajuda. Cuspir no prato que comeu é muito feio”, criticou o ex-ministro, que presidiu o PSL e coordenou a campanha de Bolsonaro e após desentendimentos com Jair Bolsonaro e o filho Carlos Bolsonaro, foi demitido do governo e saiu do PSL.

“A raiva passou. Sinto pena. O Jair está nitidamente desequilibrado. Precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico. Estou também preocupado, uma vez que o país está sob seu comando. Isso tudo é muito triste. Não era para ser assim”, declarou.

Bebianno reafirmou que vai interpelar Jair Bolsonaro na Justiça pelas insinuações feitas por ele em entrevista à Veja, de que Bebianno teve participação no atentado de Adélio Bispo durante a campanha de 2018. “Já estou me mexendo para promover uma interpelação criminal. Depois, ação cível”, disse.

Paranoico, presidente só se alimenta após um subalterno provar a comida

Da Veja:

O presidente Jair Bolsonaro mudou-se para o Palácio do Alvorada quando assumiu o governo, em janeiro deste ano. O palácio estava vazio desde 2017. O último inquilino, Michel Temer, havia morado lá por apenas uma semana. Nesse curto período, disse que ouvia ruídos estranhos, não conseguia dormir à noite e desconfiava que fantasmas rondavam o lugar. Bolsonaro gosta do Alvorada, mas também tem seus fantasmas — e eles o assombram permanentemente.

O presidente vive cercado por seguranças, as instalações do palácio são vigiadas por militares do Exército e, ainda assim, ele não se sente totalmente seguro. Teme ser alvo de um novo atentado. “A gente contraria o interesse de muita gente”, justifica. Bolsonaro revela que, por precaução, dorme com uma pistola carregada ao alcance da mão. “E ainda tem outras arminhas que ficam guardadas por aí”, diz.(…)

Ele não vê TV, não promove festas, não bebe e raramente recebe visitas. A área reservada à família foi a única que preferiu não mostrar. O presidente mora com a primeira-dama, Michelle, a enteada Letícia e a filha Laura, de 9 anos.

Bolsonaro também pediu que não fossem fotografados os funcionários do palácio, especialmente os taifeiros. Teme que possam ser reconhecidos por inimigos e, sob ameaça, coagidos a fazer alguma loucura.

Há sempre alguém destacado para experimentar as refeições antes de elas serem levadas ao prato do presidente.

Cerco final ao esquema da família Bolsonaro

Por Luis Nassif

Vamos entender melhor as razões da Polícia Civil do Rio de Janeiro ter firmado convicção de um envolvimento maior de Jair Bolsonaro nas trapalhadas de seus filhos.

Peça 1 – O fim da rachadinha

As revelações sobre Flávio Bolsonaro, divulgadas nos últimos dias, confirmam que, através de seu gabinete, ele financiava a família de Adriano Nóbrega (foragido), o chefe do Escritório do Crime, e Fabrício Queiroz, entre outros. Com os escândalos estourando, o esquema foi desfeito. E os parceiros aparentemente ficaram à míngua.

No dia 27 de outubro passado, os jornais divulgaram áudio de Queiroz.

“Resolvendo essa pica que está vindo na minha direção, se Deus quiser vou resolver, vamos ver se a gente assume esse partido aí. Eu e você de frente aí. Lapidar essa porra”, afirmou ele ao interlocutor.

Ele se referia à formação do PSL no Rio de Janeiro. A “pica vindo em minha direção (…) do tamanho de um cometa” são as investigações do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro.

O início do áudio é significativo do seu estado de espírito: “O cara lá está hiper protegido, mas não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí”.

Peça 2 – o cerco ao laranjal

O mesmo apuro está passando Adriano Nóbrega. Apesar de foragido, continua sócio de duas pizzarias em Rio Comprido, zona de atuação das milícias, o Tatyara e a Pizzaria Rio Cap.

Ambas as pizzarias repassaram dinheiro para Fabrício Queiroz. Um de seus sócios é Francisco da Rocha Veras – mesmo sobrenome da mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, que também aparece como sócia de uma das pizzarias.

Tanto a mãe de Adriano, Raimunda, como a esposa Danielle Mendonça, ficaram lotados no gabinete de Flávio Bolsonaro na ALERJ de setembro de 2007 a novembro de 2018.

O curioso é que, segundo a nota do G1, “o MP suspeita que Adriano da Nóbrega seja sócio oculto dos dois restaurantes”. Bastaria uma consulta ao CNPJ para constatar que Adriano aparece como sócio visível dos dois estabelecimentos.

As investigações foram fundo no esquema de lavagem de dinheiro de Adriano e Queiroz, sufocando-os financeiramente, no momento em que a “pica do tamanho de um cometa” parte em sua direção.

Peça 3 – os PMs que vendiam segurança

Outro modus operandi do grupo já havia sido atingido ainda na gestão do ex-Secretário de Segurança José Maria Beltrame. Era um esquema de PMs que cobravam para retirar moradores de rua das calçadas dos prédios da Zona Azul.

Uma das empresas é a Santa Vigilância, registrada como Santa Clara Serviços LTDA., que tem entre os seus sócios o cabo da PM Diego Sodré de Castro Ambrósio. Ontem, o PM, lotado na Diretoria Geral de Pessoal (DGP) da Polícia Militar, foi exonerado da Secretaria estadual de Direitos Humanos, para onde havia sido cedido em 2014.

Quem é Diego Sodré de Castro? É justamente o sargento da PM que pagou R$ 16,5 mil de um imóvel adquirido pela esposa de Flávio Bolsonaro.

Segundo matéria de O Globo de ontem:

Em 2014, o policial abriu a empresa de vigilância Santa Clara Serviços. Nos anos seguintes (2015 a 2018), foram identificados transferências bancárias e depósitos em cheque do próprio Ambrósio e da Santa Clara para a conta corrente da loja de chocolates de propriedade de Flávio Bolsonaro. Segundo a investigação, a contabilidade da loja era usada por Flávio para mascarar dinheiro devolvido por seus asssessores na Alerj. Os promotores também identificaram, em 2016, transferências do policial para dois assessores de Flávio.

O esquema era claro.

Possivelmente a pedido de Flávio, um deputado (no caso o deputado estadual Pedro Fernandes) requisita o PM. Daí, ele é liberado para fazer bico e arrecadar dinheiro.  Pedro Fernandes é de uma família de políticos, e, apesar de ser do PDT, foi nomeado Secretário de Educação do governo Wilson Witzel.

Em maio passado, a Receita anunciou a constituição de uma equipe especial para mapear o notável crescimento patrimonial de Flávio Bolsonaro e também as denuncias de que parte do dinheiro de Queiroz foi parar na conta da primeira dama. Até agora, nada foi divulgado.

Peça 4 – a armação do Coaf

Como mostram as investigações do MPE, o esquema era amplo, pegando vários parentes próximos dos Bolsonaro. Já em janeiro, se soube que o Coaf havia identificado R$ 7 milhões em movimentação nas contas de Queiroz, e não apenas o R$ 1,2 milhão divulgados. Evidentemente a interrupção do fluxo de recursos de tal ordem desestruturou a organização e abriu flancos perigosos nos laços de lealdade do grupo.

Além disso, as investigações do MPE trouxeram à tona outro possível crime administrativo cometido em 2018, para blindagem da candidatura de Jair Bolsonaro.

Até agora já se sabe que na conta do Queiroz foram depositados, no mínimo, mais de R$ 2 milhões (a suspeita final é de R$ 7 milhões). Significa que a movimentação financeira dele é no mínimo R$ 4 milhões, pois a movimentação é a soma de débitos e créditos na conta da pessoa.

O primeiro relatório do Coaf sobre Queiroz apontou uma movimentação de apenas R$ 1,2 milhão. Obviamente foi fraudado.

O relatório Coaf é um resumo de um conjunto de indícios de irregularidades que apontam para as autoridades investigativas uma situação que precisa ser esclarecida. Se uma parte desses relatórios são manipulados para esconder das autoridades investigativas a real situação de uma pessoa, seja para blinda-la, ou para colocá-la em evidência, então as autoridades investigativas são enganadas e induzidas ao erro.

Trata-se de um erro gravíssimo cujo objetivo foi deixar Queiroz e Flávio Bolsonaro de fora da lista de alvos da Operação Furna da Onça, comandada pela Lava Jato do Rio de Janeiro.

No Caso Queiroz, está evidente. Se o primeiro relatório Coaf estivesse correto, é possível que todo o resultado eleitoral de 2018 teria sido diferente

Quem foi a autoridade que encomendou aquele relatório Coaf manipulado?

A coordenação da Lava Jato? O Ministério Público do RJ? O núcleo de inteligência fiscal da Receita Federal que tinha acesso direto ao Coaf?

Recorde-se que o chefe da inteligência da Receita Federal de Curitiba, Roberto Leonel, seria nomeado por Sérgio Moro para presidente do Coaf. E o chefe da inteligência fiscal do Rio de Janeiro, Marco Aurélio Canal, também homem de confiança da lava jato, foi preso naquela operação extorquindo empresários alvos da Lava Jato.

Peça 5 –  o desmanche da Orcrim

O modelo financeiro ruiu. Os principais parceiros – Queiroz e Adriano – ficaram desamparados. Ao se retirar da defesa de Fabricio Queiroz, o advogado Paulo Klein deu sinal de debandada final do sistema.

É aí que se entra na parte mais delicada.

Tudo tem a ver com a falta de dinheiro no esquema. Vários assessores tiveram que ser demitidos. Queiroz teve que ser mantido e tiveram que bancar todas as suas despesas.

Há os milicianos que perderam suas tradicionais fontes de renda. Há os foragidos que nem o Adriano do escritório do crime que têm que ser bancado.

De onde vem o dinheiro?

Peça 6 – o pedido de quebra de sigilo

Vamos desbastar mais um ponto da história.

Ontem à tarde, o Ministério Público Federal do Distrito Federal, a pedido do ministro Sérgio Moro, divulgou uma denúncia contra o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Felipe Santa Cruz. Moro havia entrado há tempos com a representação. A divulgação foi ontem, horas depois de uma nota em O Globo, na qual  Felipe havia pedido abertura do sigilo de Jair e seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo.

As acusações são muito graves, mas devemos garantir aos Bolsonaro a presunção de inocência. Agora seria a hora do presidente e seus filhos abrirem seu sigilos e dos gabinetes da família provando que são inocentes. É hora de o presidente Bolsonaro abrir o sigilo e provar que não deve nada. É o momento do presidente demonstrar que a prática não era sistêmica nos gabinetes da família”.

Santa Cruz vai mais longe.

Acha que deveriam ser abertos também os sigilos dos parentes de Bolsonaro que moram no Vale da Ribeira, em São Paulo. Completa Santa Cruz:

“Tem que abrir inclusive do núcleo do Vale do Ribeira que explora atividades comerciais. Só assim Bolsonaro pode acalmar o país. À mulher de Cesar não lhe basta ser séria, tem que parecer séria. Basta que o presidente apresente ao ministro Sérgio Moro e ao MP a documentação necessária para auditoria.”

Ali, pegou no nervo exposto e chega-se a um dos pontos enigmáticos do tema:  o aumento exponencial dos gastos do cartão corporativo da presidência. Até novembro, a Presidência gastou R$ 14,5 milhões com cartões corporativos.

Em novembro, o STF ordenou que se abrisse o sigilo do cartão. O Palácio simplesmente decidiu ignorar a decisão do STF. Recorreu à Lei de Acesso à Informação para fundamentar o grau de sigilo aplicado às despesas.

Alega que “as informações passíveis de pôr em risco a segurança do presidente, do vice-presidente e dos respectivos cônjuges e filhos serão carimbadas como reservadas, ficando sob sigilo até o término do mandato em exercício ou do último mandato, em caso de reeleição”. Que despesas poderiam colocar em risco a família do presidente?

Ouvida na ocasião, a  secretária executiva do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Marina Atoji, sustentou que o trecho da LAI citado pelo Planalto para manter os gastos com cartão corporativo em segredo não justifica essa decisão.
“Simplesmente porque as informações que eles classificaram sob essa justificativa não colocam em risco a segurança do presidente. Elas só são divulgadas depois que a compra foi feita. Ou seja, se alguém quisesse usá-las para atentar contra a vida dele (Bolsonaro), por exemplo, precisaria ter uma máquina do tempo (…) No máximo, uma ou outra despesa recorrente, a ponto de revelar brechas de segurança, trajetos ou outra coisa que comprometa a segurança dele, poderia ser enquadrada nesta lei. Mas todas serem dessa natureza, é impossível. Ou o cartão está sendo usado de forma indiscriminada”.

Seria muito, mesmo para uma família sem senso algum como os Bolsonaro, imaginar o uso do cartão corporativo para bancar amigos colocados ao relento, mesmo sabendo-se do desespero do grupo com a desestruturação financeira.

Mas é evidente que o cerco se fechou sobre os Bolsonaro. Desse enorme novelo sairão os fios capazes de se chegar ao mistério maior, da morte de Marielle. Todos os personagens envolvidos no caso Marielle têm relação direta ou indireta com o esquema Flávio Bolsonaro. Daí, a convicção da Polícia Civil sobre o envolvimento dos Bolsonaro com a morte de Marielle.