Vitória do Grêmio dá título brasileiro antecipado ao Flamengo

Palmeiras precisava vencer o Grêmio, em casa, para adiar a festa da torcida flamenguista — iniciada pelo bicampeonato da Copa Libertadores — devido à conquista do título brasileiro de 2019. No entanto, a equipe alviverde foi surpreendida pelos gaúchos, perdeu por 2 a 1 — com dois gols em cobranças de pênalti — e definiu o campeonato com cinco rodadas de antecipação.

Com o resultado, o time palmeirense permaneceu com 68 pontos e não pode mais alcançar o Flamengo, que já possui 81 — teve o jogo da rodada antecipado (empate em 4 a 4 com o Vasco) devido à decisão continental — assim como o Santos (68). 

Ciente da responsabilidade que carregava e diante da sua torcida, o time alviverde tomou a iniciativa do jogo desde o apito inicial.

Aos 3 minutos, Dudu cruzou na área, o zagueiro Pedro Geromel falhou e a bola sobrou nos pés do centroavante Borja, mas o colombiano se atrapalhou no domínio e perdeu o gol.

Nos minutos finais, aos 43, outro cruzamento de Dudu levantou a torcida que compareceu ao Allianz Parque. Pela direita, o meia-atacante chutou rasteiro, a bola desviou na zaga e passou com certo perigo na pequena área do Grêmio.

Porém, apesar do volume de jogo, o Palmeiras não conseguiu levar grande perigo para o gol de Paulo Victor. Do outro lado, o goleiro Weverton também não se esforçou muito para conter o ataque gremista.

Na segunda etapa, o Palmeiras seguiu no ataque, mas sem objetividade. Garantido na fase de grupos da Libertadores de 2020 e praticamente sem chances de título, a impressão é que a equipe paulista havia perdido o ânimo.

Aos 22 minutos, o atacante Éverton Cebolinha foi derrubado pelo zagueiro Gustavo Gómez dentro da área palmeirense: pênalti marcado pelo árbitro Wilton Pereira Sampaio. O próprio Cebolinha cobrou e abriu o placar.

O técnico Mano Menezes tentou algumas trocas para motivar o time em campo, mas a apatia era visível — entre os jogadores e também nas arquibancadas do Allianz Parque.

Aos 35, o lateral-esquerdo Bruno Cortez empurrou Dudu pelas costas e a arbitragem marcou pênalti para o Palmeiras. O capitão Bruno Henrique cobrou, empatou a partida e renovou as esperanças da torcida em adiar o título flamenguista.

Aos 45, o meia Lucas Lima invadiu a área gremista, encheu o pé o obrigou Paulo Victor a fazer uma linda defesa para evitar a virada.

A equipe alviverde ainda pressionou, mas sofreu um gol do atacante Pepê, aos 49 minutos, que definiu o campeonato em favor dos cariocas. Já o Grêmio se garantiu na Libertadores do ano que vem.

Antes do apito final, torcedores do Palmeiras protestavam contra a diretoria devido à campanha considerada abaixo da expectativa em relação aos altos investimentos feitos pelo clube e o patrocinador na temporada.

Racismo: dona de escola particular de Belém agride aluno

Um aluno do 9º ano da Escola de Ensino Fundamental e Médio Disneylândia, localizada no Conjunto Maguary, em Belém, sofreu insulto e humilhação racista por parte da própria dona do colégio. O adolescente negro, tem 16 anos, e, segundo sua família denuncia, na quinta-feira, 21, ele estava em sala de aula, apresentando um trabalho junto com outros colegas, quando irromperam as agressões verbais da senhora que é proprietária da escola, conhecida como dona Zuca, de 71 anos.

Os familiares contam que durante a apresentação do trabalho em equipe, na aula de Língua Portuguesa, a dona da escola entrou na sala de aula e resolver assistir ao desempenho dos estudantes. Quando o adolescente negro começou a apresentar sua parte no trabalho, dona Zuca teria feito gestos negativos com a cabeça e dito indiretas.

“Ainda bem que no ano que vem certas pessoas não vão estar na escola, não quero essas figuras mais  na minha escola”, teria dito a proprietária, na frente de todos os alunos e dos professores, segundo descreveu o primo do adolescente. O estudante começou a questionar se as palavras eram para ele e os dois começaram a discutir, quando a dona da escola aos gritos proferiu: “Macaco, gorila, viadinho”, contou o primo.

“Ele pegou o material e se retirou de sala e ela (dona Zuca) o puxou pela camisa dizendo que ele não havia sido liberado e chegou a dar um tapa nele”, complementou. Na sala de aula havia dois professores, que presenciaram toda confusão junto com os outros alunos. 

O diretor da escola não estava presente e os familiares do estudante foram chamados pela coordenação. “Minha tia foi chamada e recebida pela filha da dona Zuca e essas foram as orientações dadas pra ela: o aluno não tinha nada que responder de volta, a mãe dela é uma senhora de 71 anos, tem diabetes e outros problemas de saúde. Por isso, ele tinha de ouvir calado e respeitá-la”, contou um parente do aluno agredido. 

Como o diretor da escola não estava, a coordenação liberou o estudante de assistir aula no dia seguinte ao ocorrido e orientou que, na segunda-feira, 25, a avó do estudante deverá voltar para definir a situação escolar do adolescente. A coordenadora teria proposto à avó que o adolescente volte apenas para fazer as provas finais, a partir da terça-feira, 26. Após a entrega das notas das avaliações, ele será desligado da escola. 

Muito abalados, os familiares decidiram denunciar à polícia a agressão racial sofrida pelo adolescente. Eles procuraram a Delegacia de Combate a Crimes Discriminatórios, localizada na Cidade Velha, em Belém. Porém, lá a avó do garoto foi orientada a fazer a denúncia na segunda-feira, na Delegacia de Proteção à Infância e Adolescência, sob a justificativa de que o garoto será assistido por uma psicóloga.

O mais impressionante de toda essa história grotesca contra um adolescente, é que a dona da escola que discrimina estudantes negros, também tem é negra (na foto abaixo, à direita).

“A mulher trabalha com educação e se escora na idade para agir de forma preconceituosa e truculenta”, lamenta o tio do adolescente.

Criado pela avó, o garoto sofre com prolema de bullyng na escola, e isso tem afetado seu comportamento. Após esse episódio de discriminação racial e humilhação explícita, a situação piorou, segundo a família. “Ele tem estado diferente do normal nos últimos meses e foi marcado psicólogo para ele. Ele foi esta semana e o primeiro feedback que o psicólogo deu para mim foi: ‘tira ele da escola que ele está'”, contou seu primo que é psicólogo.

O estudante já havia se queixado diversas vezes que a dona da escola o humilha e nunca fazem nada pelo fato de ser a proprietária da instituição.

A avó do garoto ouviu dos alunos que estavam na sala de aula na hora da agressão que a situação se tornou rotineira e que “dona Zuca sempre ofende ele”.

Coordenação da escola admite racismo

Dagmar Valente é coordenadora do ensino fundamental e médio da Escola Disneylândia. Pelo telefone, ela admitiu ao Portal Roma News, que a proprietária da instituição realmente chamou o estudante negro de macaco. 

Porém, segundo a coordenadora, a dona da escola “revidou ofensas verbais”, que o estudante teria dito a ela. “Ele começou a falar que a escola não prestava e outras palavras que nem gosto de falar. Ela é uma pessoa idosa que foi desrespeitada”, afirma Dagmar. Por isso, a dona da escola “chamou ele por um apelido que os colegas sempre chamam”, admite.

Segundo a coordenadora escolar, na semana que passou a instituição realizou vários eventos para debater sobre a Semana da Consciência Negra, inclusive, convidando escritores para interagir com os estudantes sobre os livros que escreveram referentes ao tema. 

Dagmar afirma que o adolescente apresenta um comportamento rebelde, agressivo na escola e que por diversas vezes, a família dele foi chamada para conversar sobre a situação. 

Ela admite que os colegas zombam da cor da pele do garoto, do cabelo e que o menino até já agrediu outro estudante por causa da discriminação racial. “Fizemos o afastamento dela (dona Zuca) da escola. Não estamos de acordo com o ocorrido. Estamos tentando resolver da melhor forma possível”, assegura a coordenadora.

A escola vai proporcionar condições para o estudante fazer a quarta avaliação, a fim de que ele possa concluir o ensino fundamental, de acordo com a coordenadora. “É difícil lidar com adolescentes, lidar com agressividade”, afirma a coordenadora escolar.

Racismo é crime previsto na Lei 7716/1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. O artigo 20 da lei, prevê: “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa”.

(Transcrito do portal Romanews)

Perdemos um grande craque

POR GERSON NOGUEIRA

Despedidas são sempre muito difíceis. Sempre me atrapalho com isso. Cheguei a achar que essa clássica dificuldade em externar sentimentos de adeus era exclusiva dos brasileiros, de coração tão marcado pelo tropicalismo das coisas e sentidos.

A cobertura da Copa na Alemanha, em 2006, fez com que modificasse meu modo de pensar. Vi episódios que comprovam que mesmo povos tão caracterizados por certa frieza no trato pessoal se rendem ao peso emocional da despedida, do chamado momento do adeus.

Todo esse preâmbulo, nariz-de-cera para os veteranos do jornalismo, é para dizer o quanto tem sido difícil absorver a perda de companheiro tão próximo e presente em minha vida profissional quanto Atorres, ou Zeca, como preferia o também saudoso Carlos Queiroz, poeta da noite.

Desde a madrugada de sexta-feira, quando fui avisado de sua morte, fico remoendo as ideias, ensimesmado com a rapidez de certas passagens e a fria e cruel realidade de prantear um amigo que horas antes fazia parte da rotina diária.

As conversas com companheiros do jornal ao longo da madrugada foram ajudando a assimilar o golpe. Na despedida, sexta-feira à tarde, ali na missa de corpo presente, a crueza do verbo cristão faz com que todos reflitam sobre aquelas nossas frágeis certezas.  

Atorres e eu cuidamos de plantões inesquecíveis nas redações do DIÁRIO, desde os tempos de Gaspar Viana até a época de Almirante Barroso. Comecei no jornal em junho de 1998, para editar o caderno Bola, projeto pessoal de Jader Filho repassado a mim quando acabava de deixar a equipe de “A Província do Pará”.

Um dos baluartes do novo caderno, formatado como tabloide para desafiar uma lógica meio besta quanto à obrigatoriedade do jornalão standard, Atorres cuidou para que o aspecto visual fosse bem destacado. Inspirado nos espanhóis Marca e Ás, o Bola viria para virar do avesso a tediosa cobertura cobertura esportiva nos impressos de Belém.

Além do conteúdo diferenciado, alguns pontos chamavam atenção: o esmero visual, a facilitação de leitura e as charges como armas de sedução. Com o auxílio luxuoso das fotos de Mário Quadros, funcionou bem desde o começo, alavancando as vendagens do jornal, no primeiro grande salto rumo à liderança, afinal conquistada em 2006.

Depois disso, Atorres comandaria a elaboração de projetos gráficos e editoriais para redesenhar todo o jornal. Acompanhou também o processo que levou à mais radical reformatação do DIÁRIO, auxiliando diretamente a Rodrigo Fino e Paco Nadal, da García Media. Depois da implantação, ficaria como guardião do projeto, fiscalizando tudo para evitar desvios de rota.

Vi ali, bem de perto, a disciplina e a dedicação obsessiva de Atorres pelos bons resultados. Além do acompanhamento, ficou encarregado de treinar toda a equipe de paginadores para abraçar novas ideias visuais e gráficas. Um trabalho hercúleo, muitíssimo bem executado, apesar da descrença inicial.

Iria torrar a paciência do leitor se ficasse citando aqui a lista de grandes sacadas que Atorres colocou a serviço do crescimento do jornal. E, apesar de ser um desenhista por excelência, tinha também precisas soluções na busca pela palavra certa, papel e obrigação dos jornalistas, como eu.

Em meio a isso, partilhei suas preocupações permanentes com a modernização do jornal, antenado com as novidades lá de fora, já fazendo um uso caprichado da computação gráfica e dos recursos oferecidos pela internet.

São incontáveis as situações em que capas previamente elaboradas eram sacrificadas pela manchete mais urgente, nascida às vezes em plena madrugada. De forma diligente, dava um toque rápido de improvisação e a nova primeira página se materializava em minutos.  

Quando lançou seu livro mais recente de charges sobre futebol, tive a honra de redigir o prefácio. Fiz questão de lembrar, no evento de lançamento, na sede da Tuna, a condição absolutamente inédita que o Bola pôs em marcha – via Atorres – no futebol local, rachado ao meio por paixões exacerbadas, a prática de tirar sarro sem falsos pruridos.

Ousou mexer com símbolos e marcas tradicionais, como as da dupla Re-Pa, muitas vezes levando pancada do leitorado e até queixumes na própria redação. Não se pode negar a Atorres o mérito e a coragem de usar o traço para romper barreiras e demolir preconceitos imbecis.

Pintou a figura do Papão com batom e rodando bolsinha para retratar que o time estava na zona. Botou o símbolo do Leão levando palmadas na bunda, aplicadas pela mãe raivosa, após um fracasso qualquer nos gramados.  

O tempo mostraria que as inovações promovidas pelo Bola estavam alinhadas com um novo tempo, na contramão da xenofobia e da fúria cega das torcidas violentas. Pode-se dizer que Atorres ganhou essa briga e tenho isso na conta de um de seus mais importantes legados.

A perda de um jornalista tão afiado com a realidade é inestimável para o DIÁRIO e para o jornalismo que o Pará tem hoje. Atorres era capaz de traduzir num simples desenho situações cotidianas de difícil compreensão, no que se iguala a grandes feras da imprensa nacional.

De viés ideológico mais perto do anarquismo, como cabe a todo bom chargista, Atorres tinha um fino radar para as questões sociais e políticas mais prementes. Quando Lula ainda estava preso, começou a bolar o desenho da capa do jornal para o dia de sua libertação. Quando isso aconteceu, a capa se revelou uma das mais brilhantes de toda a cobertura nacional sobre o assunto.

Perdemos um cracaço, inclusive das quadras de futebol de salão e futebol soçaite, paixão a que ele se dedicava toda semana. E era jogador ranheta, que detesta perder. Queria vitórias a todo custo e botava pilha nos parceiros menos talentosos. Era bom de papo, de copo e de ouvido, pois tinha predileção por pedras roqueiras de nível elevado – Beatles, Stones & cia.

Vamos sentir falta da risada marota e instigante no meio da redação em pleno furdunço da sexta-feira, como esta que termina agora enquanto alinhavo esse texto meio confuso e excessivamente picotado, no afã de retratar um pouco o artista enquanto craque do cartum e repórter do cotidiano.

Espero não ter passado do ponto, nem parecer chapa-branca ao homenagear meu amigo, coisa que ele certamente detestaria. Precisava, porém, contar essas coisas a vocês para justificar o título da coluna.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 24)