Sobre as rugas na cara

Por André Forastieri

Cantor jovem, bonito, rico, famoso, tesão das meninas, odiado por todos os garotos da classe. O novo astro do K-Pop? Justin Bieber? Algum MC funkeiro, gatão sertanejo? 

Não, Peter Frampton, que já tinha 26 anos, dez anos de carreira, quando se tornou o homem mais desejado pelas adolescentes do mundo. E de Piracicaba, meu mundo.

Era 1976. Eu estava na sexta série. Ouvindo hoje, até que as músicas eram bem boas. Seu rosto delicado, sorriso sedutor e cachinhos dourados eram melhores. 

Peter Frampton: uma diva pré-rafaelita com peito peludo e calças boca-de-sino. Frampton Comes Alive, o álbum duplo, era presença obrigatória em todos os bailinhos. Meu melhor modelo era uma blusa cacharel cor de vinho, mas morria de vergonha de tirar elas para dançar. 

As revistas publicavam fotos de Peter de todo jeito. Paparazzi o seguiam pelo mundo afora. Todas as imagens viravam colagens nos cadernos das menininhas, nas pranchetas, nos armários. Nós nos doíamos de inveja. Bicha com certeza, rosnávamos. 

Não sabíamos dos quinze anos de currículo de Frampton, de seus cinco discos com o Humble Pie, de seus créditos em All Things Must Pass, o único álbum de George Harrison que todo mundo deve ter. 

Nas brincadeiras dançantes (!), no clube Coronel Barbosa, a discoteca imperava soberana, e se dava bem quem usasse camisa havaiana e soubesse dançar as lentinhas. Embalos de Sábado à Noite? Só um, dois anos depois. 

Frampton não tinha perdão para nós, e não tinha defeito para elas. “Estou em você”, sussurrava nos ouvidinhos das garotas, “você está em mim”. Antes de Peter era David Cassidy, e logo depois veio Leif Garrett, ainda mais bonito, zero de talento.

Hoje é a vez do K-Pop, mais efebos, mais ensaiados.Entre eles, gatos que ficaram: Jon Bon Jovi, Duran Duran. Outros que esquecemos. E a geração MTV: New Kids on The Block, Take That, N’Sync, Hanson. 

Aqui também. Lembro dos gritos de “gato!!!” pra Marcelo, no Chacrinha, das meninas tremendo pela Cor do Som… e agora tem todos esses astros musculosos de sertanejo e funk, requebrando, calças com enchimento. 

É normal que os garotos adolescentes de hoje fiquem revoltados com o BTS, grupo de K-Pop febre global, ou com algum MC gatão desses do Kondzilla. “Som de merda!” Algumas coisas nunca mudam. Ídolos adolescentes, por exemplo. 

Para muitas meninas, eles foram e são a primeira paixão e o primeiro tesão, amor perfeito e êxtase sem risco, o príncipe encantado, delicado, andrógino, ideal – porque impossível. Para os meninos, tudo que eles não foram e não serão, jamais. 

Peter Frampton bateu todos os recordes e queimou rápido como uma estrela cadente. Vive de glórias passadas – quem não, aos 69 anos? Anunciou esse ano uma turnê de despedida. Vai parar de tocar, tem uma doença degenerativa.

A 13 de setembro, fez show no Madison Square Garden! Que os ídolos de hoje possam ter fãs tão devotados, quando coroas. 

Esta semana, aliás, vi o anúncio de um show de Roberto Carlos só para mulheres, e li a notícia que o show dos Backstreet Boys no Brasil (em 2020!) já está esgotado. 

Perdoei Peter Frampton faz tempo. Foi quando ele cortou os cachos, aposentou a pose de gatinho, e jogou fora uma fortuna. Foi ser new wave atrasado, procurar cerveja com Bowie nas ruas de Barcelona, ser dinossauro, ser músico, ser ele mesmo. 

Tá um velhinho bonito. Continua tocando pra caralho. Lição para os jovens, ídolos ou não: antes do que imagina, você vai ter rugas na cara.

VOCÊ DEVE LER…

Essa entrevista do Paulo Arantes. Ele desconfia que a nossa elite mais civilizada, direita liberal, vai rifar o bolsonarismo. Que pode reagir, limitando drasticamente nossas liberdades.É o que o filho-xodó do homem falou esses dias: com democracia não dá. 

Armínio Fraga, porta-voz da turma, já deixou claro que esse governo é muito incontrolável, obscurantista. Pega mal em Aspen e Davos. Mas dinheiro sempre pega bem.

Agora vai pintar dindin do bom nas privatizações. Mas o povão não vai ver a cor dessa “melhora” na economia. E depois taí 2022. 

O Armínio, aliás, apostava em Alckmin… E eu achava que qualquer um ganhava do Bolsonaro! 

Claro que se der Bolsonaro x PT na próxima, todo o PIB banca Bolsonaro de novo. Arrisca o Jair estar torcendo pro Lula Livre!

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