Faltou uma mulher grávida no elenco para o Grêmio avançar na Liberta

Por Roberta Nina

“Tá chutando igual uma menina”, “bate mais forte, que nem homem”, “tá fraco igual mulher”. Estes são alguns dos comparativos que estamos (infelizmente) acostumadas a ouvir. Como se ser mulher fosse sinal de fragilidade, de fraqueza, de incapacidade.

Passaram menos de 24 horas do fim de uma semifinal da Libertadores da América entre Flamengo e Grêmio e o treinador da equipe goleada, Renato Gaúcho, deu uma declaração completamente infeliz para justificar os erros de sua equipe.

“Até uma mulher grávida faria gol do Grêmio hoje”, foi o que disse o técnico durante a coletiva de imprensa. E a gente acredita que faria mesmo, não pela atuação ruim da equipe gremista no Maracanã, mas porque a força que existe dentro de uma mulher grávida é imensa. Gerar vidas, parir, amamentar: será que algum dos 22 homens que estavam em campo, ontem, dariam conta disso tudo?

A declaração totalmente absurda de Renato Gaúcho nos faz reafirmar que não é aceitável usar o gênero feminino como exemplo de fraqueza. São muitas as garotas que, ainda muito novas, ouvem os adultos dizerem que uma menina precisa ter delicadeza, vestir roupas cor de rosa, brincar de boneca. Isso só reforça o estereótipo de que uma mulher não pode ter sua força exaltada. 

São poucos os conselhos dados para que uma menina cresça forte, destemida, corajosa. E isso reflete na maneira como choca muita gente ver uma mulher jogando futebol, ou lutando no tatame e até mesmo treinando grávida, porque na cabeça da maioria das pessoas, uma grávida vive um momento constante de atenção. É claro que os cuidados são necessários, mas em momento nenhum a mulher está impedida de desempenhar suas funções do dia-a-dia (exceto quando uma gravidez é de risco).

Foi assim quando Isabel Salgado, então jogadora de vôlei do Flamengo e da seleção brasileira, apareceu grávida de seis meses e ainda assim jogando em alto nível nas quadras do país. Muita gente se chocou, afinal, como é possível uma mulher praticar exercícios pesados e continuar jogando durante a gestação?

E é possível, sim. A tenista norte-americana, Serena Williams, alcançou um feito gigantesco ao vencer o Australian Open, em 2017, grávida de dois meses de sua primeira filha. Na ocasião, a atleta conquistou o 23° título de Grand Slam da carreira. 

Mais uma prova de que é possível: recentemente, a surfista Nicole Pacelli (foto acima), de 28 anos, subiu ao pódio dos Jogos Pan-Americanos para receber a medalha de bronze na categoria stand up paddle e ela estava grávida de três meses. Segundo pesquisa da FGV, metade das mães perde o emprego em até 2 anos após voltar de licença e, no esporte, o cenário não é diferente – ainda mais quando falamos de atletas que precisam estar em ótima forma física e com alta performance durante todo o tempo.

Mesmo o esporte sendo muito cruel com as mulheres que precisam de ausentar de suas atividades durante a gestação e pós-parto – e em muitas situações sem garantias de salários, apoio e licenças – elas superam mais essa dificuldade para conseguir conciliar a carreira com a maternidade. E ainda assim, são julgadas.

No Mundial de Atletismo em Doha, realizado em outubro, Allyson Felix superou Usain Bolt ao conquistar um número recorde de medalhas na competição. Aos 33 anos e 10 meses após dar a luz à sua filha que nasceu prematura em uma cesariana de emergência, a atleta fez história nas pistas.

E logo após a recuperação de sua filha, Felix voltou aos treinamentos com o desafio de lidar com a vida de atleta e mãe ao mesmo tempo. Noites mal-dormidas (ou não dormidas por completo), amamentação, e uma rotina que, sem a corrida, já era exaustiva, e com os treinos ficava ainda mais desafiadora. Para completar tudo isso, a americana recebeu uma proposta de renovação de seu contrato de patrocínio com a Nike com um valor 70% menor do que o que costumava receber. Seria uma penalização por ela ter se tornado mãe?

“Se eu, que sou uma das atletas mais comercializadas da Nike, não consigo assegurar uma proteção à maternidade, quem conseguirá?”, questionou a atleta em texto publicado no jornal The New Times.

Além de Allyson Felix outras três “mães” medalhistas – que tiveram filhos recentemente – estavam de volta às pistas não só correndo, mas também vencendo provas. Foi assim também com a jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce, de 32 anos, que conquistou seu quarto ouro nos 100m rasos, ultrapassando Bolt (que é tricampeão na mesma prova) e fazendo tudo isso após o nascimento de seu filho no último ano.

Além dela, outra americana, mãe de dois filhos, garantiu um ouro neste Mundial. Nia Ali fez o melhor tempo de sua carreira nos 110m com barreira e faturou o ouro em Doha, sua primeira medalha em um Mundial ao ar livre.

No futebol, tivemos o exemplo da atacante Sydney Leroux (foto acima), que, três meses depois de ter dado à luz seu segundo filho, voltou aos gramados e foi ovacionada por um estádio inteiro. “Quando você tem um filho, seu corpo muda completamente. Eu ainda tenho peso a mais da minha gravidez. É como se você tivesse que aprender a usar seu corpo de novo. É como se sua mente funcionasse, mas seu corpo não acompanhasse. Eu ainda sinto que preciso melhorar, mas me sinto muito mais forte”, declarou a jogadora. 

Diante disso, precisamos reforçar que a fala do técnico não condiz com a verdade e soa desrespeitosa. O corpo de uma mulher foi feito para gerar vidas e não existe nada mais poderoso do que isso.

Portanto, uma mulher grávida é sinônimo de força e de coragem e, sendo assim, com certeza foi isso que faltou para o time do Grêmio ontem: uma mulher grávida para fazer a equipe de Renato Gaúcho conseguir a classificação para a final da Libertadores da América.

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