Desabafo de professor

Por Daniel Malcher

Fala-se tanto em “respeito ao professor”, de que ele é “um herói sem capa”, que sua contribuição à sociedade é “veicular conhecimento, forjando cidadãos críticos”… tudo bazófia, palavras ao vento eivadas de senso comum pseudo-elogiosas. A verdade é que somos detestados, maltratados, vilipendiados, controlados e monitorados por aqueles que reproduzem esses falsos elogios. O que importa, para a máquina é que nós sejamos parte passiva de uma engrenagem enferrujada que diz defender interesses “nobres”: “o aluno”, “os pais”, “a eficiência”… “olha o horário, professor!?”; “não reclame, trabalhe!”; “desculpe professor, mas não podemos resolver seu problema”; “a ordem das secretarias é a seguinte: não vai ter piso; e tratem de ministrar aulas, aulas, aulas” não importa em que condições estruturais, físicas ou emocionais.

E assim o sistema segue forte, apesar de enferrujado, afinal, tem os seus prepostos prontos a defendê-lo acriticamente, com unhas e dentes. Não se pode esquecer, no entanto, que a máquina traga a todos, não existem peças insubstituíveis.Enquanto formos desrespeitados, cobrados de forma injusta ou acusados de não sermos “eficientes”, não haverá 200 dias letivos que dêem conta de tanta contradição, pois sabe-se que não formaremos cidadãos críticos e plenamente hábeis e capazes dentro de uma estrutura acrítica, persecutória, que vigia e pune a quem deveria ter plena autonomia, reproduzindo no dia a dia autoritarismo e mandonismo onde se supõe existir o exercício de liberdade de cátedra e de pensamento.

A reflexão se faz também fora da sala de aula! Nos respeitem! Adoecemos, dormimos pouco e comemos mal em razão dos nossos problemas pessoais e, sobretudo, do trabalho que levamos para casa, não contabilizado e nem registrado em folhas de ponto, e que também nos afastam das pessoas que amamos e de momentos aprazíveis. Retiramos do próprio bolso, muitas vezes, o custo de material para que todos os alunos possam acompanhar nossas aulas de forma minimamente satisfatória.

Será isso tudo “falta de compromisso”? Será isso tudo “ineficiência”? Não temos nada a comemorar. E por favor, não precisam nos homenagear. Deixem-nos, ao menos hoje, descansar. Silenciem, pois hoje dormimos um pouco mais. Ao menos isso.

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