WhatsApp admite sacanagem eleitoral, mas TSE prefere ignorar

Por Leonardo Sakamoto

“Na eleição brasileira do ano passado, houve a atuação de empresas fornecedoras de envios maciços de mensagens, que violaram nossos termos de uso para atingir um grande número de pessoas.” A declaração é de Ben Supple, gerente de políticas públicas e eleições globais do WhatsApp, em reportagem de Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. É a primeira vez que a plataforma admite isso publicamente. A repórter foi atacada e ameaçada de morte por sua investigação, publicada em outubro do ano passado, que revelou que empresas de marketing foram contratadas por empresários apoiadores da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República para disparar milhões de mensagens a seu favor e contra o adversário. O disparo em massa é considerado ilegal pelo Tribunal Superior Eleitoral e a contratação de serviços sem que sejam declarados à Justiça Eleitoral pode configurar caixa 2.

A campanha de Fernando Haddad chegou a ser multada por impulsionar ataques contra Bolsonaro, segundo decisão judicial. Mesmo assim, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Jorge Mussi, não parece interessado em descobrir quem estava por trás dos disparados de mensagens pró-Bolsonaro, nem quem pagou um bom dinheiro por elas. Não quis que jornalistas da Folha responsáveis pelas investigações testemunhassem no processo (aberto pela candidatura de Haddad sobre o caso baseado após reportagem do jornal), nem os donos das agências envolvidas ou mesmo representantes do WhatsApp. Mas aceitou uma testemunha indicada pela defesa do presidente, que prestou serviços para a sua campanha e, hoje, trabalha em sua assessoria de imprensa. 

O que falta para uma investigação profunda sobre o caso? Uma declaração de culpa autenticada em três vias no cartório? Surreal, mesmo para o roteirista desta pornochanchada chamada Brasil.

Ao mesmo tempo em que o sistema de Justiça atua para que a sociedade fique sem respostas quanto ao passado recente, o Congresso Nacional agiu para que tenhamos um futuro mais turvo ainda. Em seu projeto que afrouxou as regras eleitorais, partidos autorizaram a si mesmos a usar dinheiro de fundo público a fim de impulsionar conteúdo na internet. Considerando que o TSE não tem demonstrado ser capaz de criar mecanismos para mitigar a manipulação ilegal do debate público por via digital, imagina como vai ser com a porta aberta pela mudança na legislação.

O WhatsApp reconhece tudo isso, mas foi e será corresponsável pela manipulação do debate eleitoral ao não estabelecer mecanismos eficazes para identificar e mitigar o impacto da difusão paga de conteúdo. A lei brasileira afirma que todo o financiamento de campanha deve ser público, mas candidaturas continuam contando com empresários bilionários que fazem o serviço sujo por baixo do pano.

No final, tudo fica por isso mesmo. Candidatos são eleitos. Empresários têm seus interesses apaixonadamente defendidos. Agências de marketing levam uma fábula. Políticos e magistrados continuam agindo como proprietários do país. Aplicativos e empresas de tecnologia ficam cada vez maiores.

A culpa pela chanchada política, econômica, social e de justiça? Repetindo o mantra de  nosso presidente, a culpa é do mensageiro, que não conta a história que “deveriam” contar. Com jornalistas presos e redações fechadas, talvez o país tenha paz da ignorância suprema. Como na ditadura.

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