The Wall

Por Edyr Augusto Proença

Uma parede. Acho que nos dias em que vivemos existe uma parede entre minha geração e as nascidas, talvez, partir dos anos 90. Jornalistas que alcançaram o direito a um espaço nas mídias para escrever crônicas, artigos, opiniões, escrevem para quem? Leio Elias Pinto, como um avohai pela Campina, procurando Alceu Valença, falando dos bares que fecharam. O múltiplo Adriano Barroso insistindo que Clodô, Climério e Clésio, do Pessoal do Ceará, são os melhores em noites de vinyl. O mano Edgar diariamente falando aos empedernidos. Estive Em SP e RJ assistindo muito teatro. Sempre, a expressiva maioria da plateia, de cabeça branca.

Quando esses grisalhos não estiverem mais aqui, quem estará na plateia?

Percebo olhos de interrogação quando digo que o melhor filme que já assisti foi “Amarcord”, de Federico Fellini. Quem? Lembro quando, bem jovem, anos 70, o olhar perplexo das vendedoras da Radiolux, quando perguntava se havia chegado o disco novo da Mahavishnu Orchestra. Quê? Sempre gozei da amizade de meus colegas jornalistas, quando precisei de divulgação aos meus livros e peças de teatro, mas já há muito que repórteres chegam e perguntam quem é o senhor? O que faz? É ator? Escreveu este livro sobre o quê? Sequer leram o release enviado.

Um locutor, dizendo a programação teatral da cidade, à qual quase ninguém atende, informou que o grupo Gruta apresentava a peça “Antigona”, talvez pensando que por ter sido escrita nos tempos da Grécia antiga, fosse bem antiga, mesmo, se me entendem. São informações que não fazem parte do seu mundo.

Já não é hora de alguém, sutilmente, para não revelar ainda mais a ignorância do autor da ideia, tirar a placa no interior do estádio “Jornalista Edgar Proença”, onde está escrito “Jornalista Edgar Augusto”? O mano foi um excelente narrador esportivo, foda-se a suspeição, mas o nome é homenagem a meu avô, fundador da Rádio Clube e de muitas outras glórias. A burrice vem dos tempos tucanos e continua.

O imenso fosso causado pela destruição da Educação e Cultura no Brasil, criou essa massa de pessoas que pensam que o mundo começou no dia em que nasceram. Jogadores famosos que nunca ouviram falar de Pelé, Garrincha, Zico, Tostão, sei lá. Os leitores que ainda nos lêem, seja em jornais, seja em mídias sociais, já percebi, adoram quando escrevemos sobre o passado, lembrando acontecimentos, modas, gírias, pessoas. Lembram do seu tempo. Nosso tempo. E ainda são pessoas que compram cds em tempos de streaming, frequentam livrarias e até alugam dvds em que possam assistir os grandes filmes, ao invés dos “Vingadores” de hoje, para uma plateia infantilizada.

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João de Jesus Paes Loureiro, uma glória paraense, completou 80 anos e lançou livro. Mereceu algum espaço. Merecia muito mais. Cadernos, documentários, entrevistas extensas, releituras, debates. Mas, não. Há uma parede entre nós e algumas gerações que considero perdidas. Não sabem de nada. Não tem consciência crítica. A música virou atirei o pau no gato. Teatro vira um erro de locutor. O que haverá quando formos embora? A escuridão.

Na Praia do Pepê, RJ, passam moças lindas em seus sumários biquínis, tão bonitas que fazem mal à saúde e eu fico pensando no seu universo cultural. Vou pagar o barraqueiro que nos serviu de bebidas. Chega uma moça, escultural, molhada, saída de um mergulho. O rapaz pergunta se ela quer alguma coisa e ela responde que precisa que ele a leve até a barraca onde estão suas amigas. Estou bêbada e me perdi. Está rolando um vinho muito gostoso por lá.

Mesmo em Belém, passam carros importados, com jovens orgulhosos, ao volante, ouvindo a todo volume sertanojos e que tais. Sim, a Educação e a Cultura nunca estiveram em nível tão baixo quanto hoje, mas imagino que esses jovens puderam estudar nos melhores colégios e deveriam receber os melhores ensinamentos, de forma a saber refletir e julgar o que ouvem, assistem, lêem. Mas, não. Livros ocupam espaço, devem achar. São infantilizados, culturalmente, já escrevi antes.

E quando os grisalhos se forem, o que restará?

Um comentário em “The Wall

  1. PREZADO EDYR,
    Embora sem conhece-lo, acompanho sua messe desde os tempos idos. Assim como o faço com o trabalho “olha a hora da feira” do irmão Edgar.
    Tenho 66anos, 42 de magistério superior e nos últimos 40 vi construí e desabar sonhos, vontades, esperanças, sorrisos, etc.. que minha juventude e maturidade realizaram a duras penas.
    Amo a arte em sua plenitude, desde sua plasticidade ao significado sócio-político que encerra, e entristeço vendo a mesmice emburrecedora que se alastrou nos meios & modos da sociedade TVburra que grassa nesse país de injustiças.
    Concordo com e me irmano ao seu texto.
    att,
    xx

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