Em defesa da Ouvidoria de Polícia

Por Juca Kfouri

Há 30 anos, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, consagrou-se o Estado Democrático de Direito. Os anos que se seguiram foram de construção e aprofundamento democrático pela via participativa. Nesse marco, em 1995, fruto de intensa mobilização social, institui-se a primeira Ouvidoria da Polícia do Brasil, no Estado de São Paulo. Detentor do monopólio do uso legítimo da força, exercido por meio das instituições de segurança pública, o Estado Democrático não pode prescindir de mecanismos institucionais de controle social.

Assim, desde sua criação, a Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo se apresenta não apenas como espaço de recebimento e acompanhamento de denúncias de abusos e violências policiais, como também tem sido propositora de inúmeras medidas tendentes à valorização profissional e à redução da letalidade policial. O país assiste a uma onda de retrocessos e de iniciativas que visam ao desmonte de importantes instâncias de participação, controle e transparência.

A Ouvidoria da Polícia de São Paulo está sob intenso ataque dessas forças conservadoras, que, por meio do PLC 31/2019, querem extinguir o principal instrumento de controle social da atividade policial, que dá voz tanto à população como aos próprios integrantes das instituições de Segurança Pública, propondo medidas para seu aprimoramento. Defender a extinção da Ouvidoria da Polícia representa um retrocesso e dialoga com aqueles que querem uma polícia sem compromisso com a legalidade democrática. Vida longa à Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo!

Abrasco sai em defesa do Censo Demográfico, sob ameaça do governo

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A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) manifestou nesta segunda-feira sua preocupação com as propostas sugeridas nas declarações do ministro Paulo Guedes, de redução do orçamento destinado à realização do Censo Demográfico 2020, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que pode afetar diretamente seus resultados.
 
“O Censo Demográfico é feito no Brasil desde 1872 e ao longo dos anos vem sendo constantemente aprimorado, mantendo qualidade técnica e científica, fazendo com que o trabalho gerado e divulgado pelo o IBGE seja reconhecido nacional e internacionalmente. Dentro de uma política de austeridade, as ameaças de corte de 25% em seu orçamento podem levar à redução da informação e da cobertura do Censo 2020, o que irá comprometer o planejamento e monitoramento de todas as políticas públicas em curso, além de afetar gravemente as projeções futuras de nossos indicadores”, defende a nota oficial da entidade.
 
“Na área da saúde, especificamente, os prejuízos serão imensuráveis em vários aspectos. Todos os indicadores de saúde utilizados para programação, monitoramento e mesmo pagamento das ações de saúde realizadas no Sistema Único de Saúde (SUS) são calculados com base nos denominadores populacionais estimados pelo IBGE. A desagregação de informações pelas áreas de ponderação é essencial para conhecer o perfil demográfico, social e econômico em todos os pequenos municípios do país e em áreas distintas de municípios maiores. Não é possível, portanto, abrir mão da coleta de informações reduzindo equipes ou áreas a serem visitadas”, conclui.

Entrevista histórica com Galvão foge do óbvio e lembra “ligações perigosas”

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Por Maurício Stycer

Como qualquer pessoa que gosta de esportes e de televisão, acompanho Galvão Bueno com interesse há muito tempo. E sempre me chamou a atenção a dificuldade de todos que o entrevistam de tirá-lo do roteiro que ele próprio estabeleceu para falar de si e do seu trabalho. Muito eloquente e vaidoso, o narrador costuma dominar a situação e só dizer o que tem interesse. Cito quatro casos mais ou menos recentes. Em 2013, Jô Soares dedicou um programa inteiro a Galvão e conseguiu fazer um único comentário surpreendente ao ironizar o talento “mediúnico” do narrador.

Em 2015, Ingo Ostrowsky assinou junto com o narrador a autobiografia “Fala, Galvão!” cuja maior surpresa foi reconhecer que a gritaria na comemoração do tetra em Pasadena foi “meio ridícula”. No ano seguinte, Marcelo Adnet apostou todas as suas fichas em Galvão como o primeiro entrevistado do “Adnight” e o programa, exageradamente roteirizado e ensaiado, foi uma decepção completa. Já em 2018, no “Conversa com Bial”, o narrador nadou de braçada, ajudado por um entrevistador deslumbrado e, aparentemente, tendo conhecimento sobre tudo que lhe seria perguntado.

Por isso, a entrevista concedida por Galvão ao programa “Grande Círculo”, no SporTV, exibida no fim da noite de sábado (27), pode ser considerada histórica. Comandada pelo narrador Milton Leite, a conversa teve a duração de 85 minutos e inúmeros momentos reveladores. Em mais de uma situação, Galvão foi pressionado e, constrangido, teve que falar de temas que o desagradam, como a sua relação de proximidade com Ricardo Teixeira, a amizade com J. Hawilla, o excesso de intimidade com Ayrton Senna e a dificuldade em ouvir “nãos”.

O também narrador Gustavo Villani quis saber se procedia a informação de que Armando Nogueira (1927-2010) queria que Galvão narrasse os jogos do Brasil na Copa de 1986, mas José Bonifácio de Oliveira Sobrinho optou por Osmar Santos. “Cara, vocês me pegaram. Não tava combinado, não”, reagiu Galvão à pergunta. Milton Leite rapidamente observou: “Até porque aqui a gente não combina”. E Galvão: “Eu sabia que vinha alguma coisa, mas logo de cara essa?”.

O narrador confirmou que a história é verdadeira e reconheceu ter ficado muito decepcionado com a escolha de Boni. Tanto que, disse, decidiu deixar a Globo depois da Copa. “Eu avisei pra eles o seguinte: ‘Tá bom. Vou fazer a Copa, mas quando terminar, vou embora’. Depois, nós negociamos e eu acabei ficando. Mas negociei sério pra sair. Mas o bom senso acabou prevalecendo e acabei permanecendo”.

Em resposta a uma pergunta de Renata Fan, Galvão deixou claro a dificuldade que tem de ser contrariado. O narrador contou que deixou de narrar corridas de Stock Car por determinação de Marco Mora (1946-2018). O então diretor da Central Globo de Esportes considerava inadequado Galvão narrar competições que o próprio filho (Cacá Bueno) disputava. “Eu sempre escutei o que o Marquinhos falava. Não gostei, mas ficou por isso mesmo”, reconheceu.

“Tanto não ficou tão bem resolvido isso que, confesso a vocês, outro dia tive uma conversa com a Joana (Thimoteo), a nossa nova diretora de eventos aqui, e disse: ‘Joana, tô com vontade de narrar umas corridinhas de Stock, o que você acha?’ E ela: ‘Eu dou a maior força’.”

Um bom momento da entrevista coube a Tino Marcos. Mais do que a resposta de Galvão, a pergunta do repórter foi muito reveladora. Disse ele: “A gente estava junto, nos anos 80, e eu te perguntei: ‘Galvão, você já é o principal narrador da maior emissora do país. O que você tem como meta? O que você tem como desafio?’ Era uma curiosidade que eu tinha e nunca esqueci a sua resposta. Você me disse: ‘Quero fazer cada vez mais do modo que eu acho que deve ser feito e não do modo que me imponham ser feito’. E eu te pergunto agora: ‘Isso se materializou? Hoje em dia, alguém, diante de um Galvão Bueno tão grande como é, com a estatura que tem o Galvão Bueno para o Brasil, para a Globo, pra todos nós, alguém diz ‘não’ para você, Galvão?”.

O narrador fez cara de surpresa e respondeu: “Diz, lógico, né! Um ‘não’ você sempre escuta, mas não é com frequência”. E não se prolongou, preferindo falar sobre como quebrou regras nas transmissões esportivas da Globo, que eram muito engessadas. “A Globo é a minha vida. Tenho 45 anos de profissão, tenho 38 anos de Globo. A Globo é a minha vida. Foi uma coisa que me orgulho muito de ter conseguido”, disse.

Villani também fez uma ótima pergunta, questionando de forma muito educada se Galvão não se arrepende de ter cultivado relações de muita proximidade com figuras que eram objeto de suas narrações, como Ayrton Senna (1960-1994). “Imagino que tenha sido um preço alto narrar a morte dele ao vivo, depois a cobertura, teve rusga até com Reginaldo Leme tendo Ayrton no meio, críticas ácidas do Piquet… Valeu a pena? E mais: Você faria de novo? Teria essa mesma relação tão próxima com um personagem objeto do seu trabalho? Relação pessoal e profissional?”, questionou Villani.

Galvão não entendeu a pergunta ou não quis responder. Pois disse: “Aconteceria. Porque essas coisas você não procura. Elas acontecem. Hoje eu tenho uma ligação muito forte com o Felipe Massa. Essas coisas acontecem. Não é ‘eu vou ficar amigo de fulano’. No caso do Ayrton e no caso de grandes amigos que tenho no futebol, grandes estrelas, como Falcão, Júnior, Zico, Casão, Cerezo, Pelé, acima de todos, é muito uma questão de geração e idade. Não posso pretender ser um grande amigo do Neymar, do Philippe Coutinho. Tenho idade para ser pai da maioria deles, e avô de alguns deles. São mundos diferentes.”

Tino Marcos aproveitou o tema levantado por Villani para fazer a pergunta mais importante da entrevista. Medindo muito as palavras, o repórter lembrou das “ligações perigosas” de Galvão com Ricardo Teixeira e J. Hawilla (1945-2018), ambos acusados de inúmeros negócios escusos no mundo do futebol. Fala Tino: “Só pegando este gancho das relações ao longo destes anos todos, suas com os personagens do esporte. Por você ser o que sempre foi há tantas décadas, faz com que você se aproxime de figuras como o Ayrton, como o Massa, como tantos jogadores, mas também fez com que você se aproximasse de pessoas com idades mais semelhantes e que fazem parte da parte diretiva do futebol. E aí tem certas ligações perigosas, digamos assim. Você teve relação próxima, não sei se posso dizer amigo, você conviveu e ele confiava muito em você, o Ricardo Teixeira, por exemplo, o J. Hawilla…”.

Galvão interrompeu Tino nesta hora e disse: “Não cheguei a ser amigo do Ricardo Teixeira. Tive um relacionamento bastante grande com ele. O Hawilla, não. O Hawilla fui amigo mesmo…” Tino explicou, então, quem foi Hawilla e perguntou: “Como é ficar nesse meio-campo? Qual é o tom que você teve? Você se arrepende de alguma coisa? Você se aproximou demais de alguém? Ou não? Gostaria de ter se descolado de alguém com quem você se aproximou?”.

Medindo as palavras, Galvão disse: “Talvez tenha me aproximado um pouco demais de pessoas que me decepcionaram. Alguns dirigentes… O Ricardo é um deles.”

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“Algum dessa foto aí?”, quis saber Milton Leite, exibindo a foto acima. Galvão se virou para analisar a imagem e disse: “Ih, rapaz!!! Essa foto é de um jantar na casa do José Vitor Oliva… Dali, o Zé Vitor continua meu amigo, Luciano (Huck) continua meu amigo, o Fenômeno continua meu amigo, sem dúvida. Nunca tive muito relacionamento com o Andres (Sanches), nunca tive amizade com o Andres. Não diria que tive uma amizade com o Ricardo, tive um relacionamento diria até mais próximo do que deveria ter tido. O Hawilla, não. O Hawilla nós começamos juntos”.

Galvão falou, então, de sua relação com o empresário: “Já doente, na fase em que ele não podia voltar ao Brasil, em lágrimas, ele me disse: ‘Me arrependo profundamente de muita coisa que fiz. Se pudesse recomeçar, teria feito muita coisa diferente. Mas eram as regras do jogo. Eu segui as regras do jogo’. As regras o que eram?”, perguntou o narrador. E ele mesmo respondeu: “As regras do jogo existem desde que o intendente chegou com D. João em 1808 no Brasil, e estabeleceu que 10% de todas as compras da Corte eram dele. Ao mesmo tempo, não vou à CBF há muito tempo. Às vezes, me arrependo de uma certa proximidade, sim. Eu disse ao atual presidente da CBF (Rogerio Caboclo) que ele tem uma chance única. ‘Você tem a chance de mudar as coisas, de fazer uma gestão transparente, correta, sem espaço para toda aquela, vamos falar a palavra certa, daquela roubalheira que teve durante tantos e tantos anos. E não só na América do Sul, não. Na Concacaf, nos EUA, na Europa’.”

Sergio Rodrigues evocou um episódio curioso, no qual Galvão narrou uma partida entre Flamengo e Campo Grande exclusivamente para Roberto Marinho (1904-2003). Galvão contou: “A secretária dele ligou pra redação de Esportes e disse: ‘Doutor Roberto tá querendo saber se vai ter transmissão’. Imediatamente, disseram: ‘Claro’. Eu estava em casa. Disseram: ‘Vai para o Maracanã’. A Globo ia gravar o jogo inteiro, pra ter o Globo Esporte, melhores momentos. Foi pro doutor Roberto e fiz com muito orgulho, muito orgulho.”

E revelou, querendo deixar bem claro o tamanho deste orgulho: “Tenho prêmios, praticamente tive a felicidade de ganhar todos. Meu maior prêmio é quando o doutor Roberto se referia mim como ‘o meu speaker’ (‘o meu narrador’). Não tem preço.”

Ao falar sobre a Copa de 2002, em que a Globo teve uma série de privilégios e acesso facilitado à seleção brasileira, Galvão contou como estabeleceu uma relação de cumplicidade com Felipão. Disse que o técnico o procurou, antes da estreia contra a Turquia, pedindo para que o narrador não desse a entender, no “Jornal Nacional”, que o Brasil teria um adversário fácil.

Segundo Galvão, ele disse ao técnico: “Não é ético a gente fazer um acordo do que eu vou falar no ‘Jornal Nacional’. Mas já entendi o que você quer e eu concordo com você. Acho que cabe”. Na coletiva antes do jogo, o narrador pediu para fazer uma pergunta, o que não tinha o hábito de fazer: “Felipão, estou muito preocupado. Este time da Turquia é muito bom. Eles marcam bem demais. Tá todo mundo achando que vai ser uma moleza. Estou preocupado”. “Ali passou a existir uma cumplicidade, que durou a Copa toda. Não teve privilégios, não teve nada”, concluiu o narrador.

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Por fim, contrariando as inúmeras promessas de aposentadoria feitas nos últimos anos, Galvão disse que não pretende parar. Nunca. “Eu tenho uma paixão pelo que eu faço. O Chacrinha, Velho Guerreiro, dizia assim: ‘Quero morrer no palco’. Ele muitas e muitas vezes falou isso. Eu quero ir até o último dia se puder. Eu quero ir até o último dia se puder porque tem duas coisas que são fundamentais na minha vida: o amor pela minha família e o amor pela minha profissão. Eu amo demais o que eu faço. São 45 anos, eu lembro de cada momento, de cada alegria, de cada tristeza. Enquanto eu tiver saúde, enquanto Deus permitir, eu, como dizia um outro amigo querido, Zagallo, vão ter que me aturar”.

Por iniciativa de Paulo Soares, que puxou a salva de palmas, Galvão terminou a entrevista aplaudido por todos os entrevistadores. Merecido.

Cabral vira arma estratégica para projeto político da Lava Jato

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Por Reinaldo Azevedo, em seu blog

Um canhão condenado em primeira instância a quase 200 anos de prisão está solto no convés. Chama-se Sérgio Cabral, ex-governador do Rio. Enquanto não se dispôs a fazer delação premiada, foi acumulando condenações e ficou à mercê dos caprichos do juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal. Como esquecer que o doutor decidiu mudar Cabral de presídio e colocá-lo em regime especial porque, num depoimento, este lembrou que a família do magistrado era ligada ao ramo de venda de bijuterias? Por alguma razão que a ninguém ficou clara, o juiz disse ter se sentido ameaçado. Pois bem. Cabral decidiu mudar de advogado e agora está colaborando — e, em seus depoimentos, como já vimos, não poupa elogios ao próprio Bretas, um servidor da Justiça de muita musculatura.

Em “Vingadores 2”, é provável que a Marvel o convide para contracenar com o incrível Hulk, exibindo seus músculos também na telona, não apenas nas redes sociais. Com a mesma desfaçatez com que foi acumulando os seus milhões, embora o negasse, Cabral agora relata falcatruas e vai listando pessoas a seu gosto. E, bem, é preciso dizer, também a gosto do próprio Bretas. Para surpresa de ninguém que acompanha a trajetória do juiz, ele disse na sexta, nos EUA, que não descarta entrar na política. Bem, avalio que já entrou há muito. Volto ao ponto daqui a pouco.

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FGV como alvo de parceiro pró-moral do juiz

Espero que setores da imprensa revejam a tempo os heróis que ajudaram a criar e que hoje contribuem para jogar o país, entre outros abismos, no da intolerância, sob o comando de populistas vulgares de extrema-direita. Leio na Folha, por exemplo, que a Fundação Getúlio Vargas, do Rio, é alvo de uma devassa financeira, como desdobramento da Operação Lava Jato. O Ministério Público Estadual abriu pelo menos cinco procedimentos para investigar supostas irregularidades que teriam sido cometidas na relação da instituição com entes públicos. E também há suspeitas de malversação de recursos no âmbito da própria instituição. Verdade ou mentira? Eu não sei.

Ficaria tranquilo se tivesse a certeza de que haverá uma investigação isenta e que não se prepara na FGV uma “Universidade Federal de Santa Catarina – II”, a escandalosa e absurda operação da Polícia Federal que acabou resultando no suicídio de Luiz Carlos Cancellier de Olivo, então reitor, no dia 2 de outubro de 2017. Acusado de comandar um esquema de desvio de recursos de R$ 80 milhões, ele chegou a ter a prisão preventiva decretada. Solto, foi proibido de entrar na universidade. Concluído o inquérito, não havia uma vírgula contra ele. Quem comandou o troço foi a então delegada Érika Marena, uma das estrelas da Lava Jato. Sérgio Moro gostou tanto do seu trabalho que a levou para comandar o DRCI, o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional do Ministério da Justiça. Nunca o desastre e a desgraça alheia foram tão premiados.

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Amigo de fé, irmão, camarada de Witzel

E o que isso tudo tem a ver com Cabral e Bretas? Um dos que acusam a FGV de servir de palco de manobras para falcatruas é justamente Cabral, em depoimento prestado a Bretas, o juiz que não tem pejo de desfilar por aí em companhia de seu amigão, o governador Wilson Witzel, ex-juiz federal, que contratou Marcilene Cristina Bretas Santana como assessora da Controladoria-Geral do Estado (CGE). Marcilene, como vocês devem supor, é irmã de Marcelo — sim, o Bretas.

Para lembrar: três dias antes da realização do primeiro turno da eleição, em 4 de outubro, o juiz divulgou um depoimento em que Alexandre Pinto, um ex-secretário de Eduardo Paes na Prefeitura do Rio, admitia ter recebido propina da Odebrecht. Mas não só isso: disse que o ex-prefeito e então candidato ao governo do Estado pelo DEM sabia do esquema. Ocorre que Pinto já havia prestado três outros depoimentos sem nunca ter acusado Paes. Resolveu fazê-lo três dias antes da eleição. E Bretas botou a coisa no ventilador. Witzel, o que contratou Marcilene, se elegeu governador.

Por que essas lembranças? Porque, infelizmente, a Lava Jato se tornou um palco de militância política e um instrumento de apropriação do Estado brasileiro pelo que chamo Partido da Polícia. Está aí Sérgio Moro, o juiz que condenou Lula em primeira instância — e sem provas! — que não me deixa mentir. Seis meses depois da prisão, ele aceitou o convite para ser ministro daquele de quem o petista teria sido adversário. Oito meses depois, tomou posse. Bretas exibe claros sinais de que pretende seguir o caminho.

Com absoluto despudor, admitiu em Nova York, na sexta, durante evento da Câmara de Comércio Brasil-EUA, que pode enveredar para a política: “Sei que a imprensa está aqui. Adianto que não tenho projeto, não estou planejando nada disso, mas quem sabe? Um dia eu espero aposentar. Se tiver saúde e chegar até lá, até porque a aposentadoria está sendo difícil, vai ser um produto escasso qualquer dia no Brasil também, pode ser, eu não sei”. E não parou por aí, não.

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Juiz critica STF nos EUA. Ou: bandidos dão as cartas…

O juiz Bretas, ora vejam, criticou a atuação do STF. É mais um a atacar o tribunal brasileiro em terras estrangeiras. E o fez de uma maneira insólita: “As Cortes superiores, normalmente, tem uma visão um pouco mais — tenho que ser cuidadoso com as minhas palavras — tradicional, que verifica que só se justifica prisão se a pessoa está fugindo, por exemplo, que é uma visão antiga. Hoje em dia, é muito difícil o sujeito fugir, escapar. As pessoas não querem esse tipo de fuga, o que elas querem é conseguir habeas corpus” É uma fala de absoluta delinquência intelectual, que agride a verdade sobre a lei brasileira e o Estado de Direito.

Ele estava se referindo à prisão preventiva, regulada pelo Artigo 312 do Código de Processo Penal. Não é verdade que só o risco de fuga (risco de não-cumprimento da lei penal) pode justificar a preventiva. Há ainda outras três circunstâncias: para garantir a ordem pública, para garantir a ordem econômica e em benefício da instrução criminal. Ao dizer que não segue uma linha, então, tradicional, parece que o juiz está afirmando que desrespeita a lei e prende quando lhe dá na telha. Bem, vimos isso recentemente no caso do ex-presidente Michel Temer. A prisão foi revogada depois em segunda instância.

Meus caros, o aviso está dado, não é? O juiz Bretas não descarta entrar para a política. E olhem que arma ele tem à sua disposição: ninguém menos do que Sérgio Cabral. Dada a legislação brasileira sobre delações, o bandido que resolve falar decide quem vive e quem morre na política. E isso nos colocou no abismo em que estamos.

EBC nomeia militares para cargos de chefia

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Seguindo uma prática já adotada em outras áreas do governo de Jair Bolsonaro, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) nomeou militares para cargos de chefia. As mudanças fazem parte de um processo de reestruturação da estatal de comunicação, conduzido pelo presidente da empresa, Alexandre Graziani.

Dos seis cargos da diretoria da EBC, dois já são ocupados por militares. Um deles é Roni Baksys Pinto, diretor geral desde 10 de abril. O outro é Márcio Kazuaki, diretor de Administração, no posto desde o final de 2018. Os dois se formaram na Academia Militar de Agulhas Negras, no Rio de Janeiro, a mesma de Bolsonaro.

Outros dois militares chegam aos altos postos da estatal em 2019. O coronel Hidenobu Watanabe é assessor de gabinete do presidente da empresa desde o início de abril. Ele também atua no planejamento de reportagem. E, nas próximas semanas, o tenente-coronel Alexandre Lara também deve se tornar assessor de Graziani.

Leão faz melhor jogo do ano

POR GERSON NOGUEIRA

A vitória sobre o Boa Esporte foi a melhor apresentação do Remo na temporada, com marcação intensa e jogadas em velocidade. Apesar de falhas pontuais (e conhecidas), como erros de passe e atropelos na transição defesa-meio-ataque, o time mandou no jogo e quase sempre esteve com a posse de bola. O Boa abusou do antijogo, com a complacência da arbitragem amazonense.

Demorou, porém, a estabelecer vantagem porque faltava força ofensiva. Só Emerson e Gustavo brigavam com a zaga do Boa Esporte e quando os laterais Jansen e Ronael lançavam bola alta na área a briga ficava desequilibrada. Baixo e pouco ágil para antecipações, Emerson não consegue jogar zagas muito altas.

As tentativas com a bola no chão tinham mais efeito prático, mas Carlos Alberto não fez uma boa estreia e atrapalhava-se ao tentar dribles em sequência. Gustavo continuou como antes: tomava decisões erradas, conduzindo demais e esquecendo que o jogo é essencialmente coletivo.

Apesar de domínio acentuado no 1º tempo, o Remo teve apenas duas chances claras para marcar. A primeira com o próprio Gustavo, aos 6 minutos. Ele tinha a trave aberta à sua frente, mas o chute pegou na orelha da bola e virou cruzamento, que Yuri não conseguiu aproveitar.

O outro lance forte do ataque foi criado somente aos 27’, quando Ramires rompeu a marcação do Boa e avançou até a área, cruzando para Douglas Packer finalizar, mas Renan Rocha espalmou a escanteio.

Sempre tomando a iniciativa e partindo para o ataque, o Remo esbarrava nas dificuldades para encaixar jogadas rápidas. Os laterais apoiavam discretamente e, no meio, Ramires era o mais empenhado em levar o time à frente. Douglas ficou preso na marcação.

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Para a 2ª etapa, Márcio Fernandes manteve a formação inicial, mas o time voltou mais focado na troca de passes, evitando chutões e lançamentos longos. Deu certo. Aos 9’ e aos 12’, Emerson teve nos pés duas grandes chances, mas mandou por cima do gol de Renan Rocha.

Aos 15’, Carlos Alberto foi substituído por Alex Sandro e a mexida acabou se revelando providencial. Um minuto depois, aconteceu o gol e a jogada mais elaborada da noite. A bola, de pé em pé, chegou à intermediária, onde Douglas virou para Jansen. Este fintou dois marcadores e do bico da grande área deu um passe perfeito, tirando a bola da linha de zaga e do goleiro, para Alex Sandro finalizar para as redes.

Não apenas pela preciosa contribuição no lance, Jansen foi o principal nome do Remo. Improvisado, de novo, deu conta do recado no lado direito, exibindo habilidades que justificam seu aproveitamento pelos lados.

No desespero, o Boa ainda tentou chegar, cruzando bolas na área e assustou em dois cruzamentos de Chiquinho Alagoano que oportunizaram chutes perigosos em direção ao gol, mas Vinícius defendeu com segurança.

Além de Jansen, Ramires e Marcão tiveram boa atuação. O estreante Carlos Alberto não empolgou e Ronael mostrou apenas muita disposição.

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Na estreia, Papão vence o Ypiranga e a chuva forte

O Papão foi a Erechim e conquistou uma vitória importante logo na rodada inaugural da Série C. O resultado foi melhor que o jogo, mas o time paraense teve o mérito de resistir às condições do campo, prejudicado pela forte chuva. Impondo uma meia pressão inicial, o PSC mostrou que não tinha viajado tanto apenas para buscar um ponto.

Apesar da reprise de velhos problemas, como o mau funcionamento do setor de criação, o time de Léo Condé teve tranquilidade quando foi pressionado e frieza para aproveitar a oportunidade que surgiu. Nicolas voltou a aparecer bem, atuando como terceiro atacante.

Depois de um 1º tempo com poucas chances de gol, Vinícius Leite pegou em cheio aos 18 minutos da etapa final, abrindo o placar, num chute rasteiro e forte. Marcando com dificuldades à frente da zaga, o PSC sofreu um pouco para conter os ataques do apenas esforçado time do Ypiranga, mas terminou garantindo o triunfo.

O lado positivo foi a luta pela bola e a evolução na elaboração de jogadas, com boa troca de passes e quase sem utilização das ligações diretas. A entrada em cena de reforços como Tiago Luís e Pimentinha, a partir das próximas rodadas, devem contribuir para aumentar a força ofensiva.

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Corinthians faz narração da TV mudar de tom

A preocupação excessiva em não melindrar grandes torcidas cria situação esquisita nas narrações de futebol na TV aberta. Ontem, no jogo Bahia x Corinthians, o tom geral da cobertura que a Globo fazia mudou radicalmente quando o time baiano virou o placar.

Até aquele momento o clima era de alto astral, mas o segundo gol já foi gritado em tom sóbrio. O terceiro, um golaço de Rogério, fechando o caixão, foi descrito de forma murcha, como um lamento.

A vibração reapareceu no finalzinho, com o segundo gol corintiano, mas já não dava tempo para muita coisa e nem para reanimar a cobertura, àquela altura mais preocupada em levantar todas as justificativas possíveis para a derrota do poderoso Corinthians contra o franco-atirador Bahia.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 29)

Jânio, Singer e o alinhamento da Folha com o Instituto Millenium

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Por Luis Nassif, no Jornal GGN

O impeachment foi o fator de coesão de grupos dos mais diversos, que tinham em comum o antilulismo. Completado o golpe, com a eleição do inacreditável Jair Bolsonaro, há uma perda de rumo total dos diversos grupos de oposição.

O momento seria de fortalecimento de um centro democrático, tendo como bandeira unificadora a volta da democracia. Em vez disso, cada grupo tratar de juntar forças em torno dele próprio, cada qual apostando em um pós-Bolsonaro e sem conseguir curar as feridas das batalhas anteriores.

É por aí que se entende as movimentações da Folha de S.Paulo, agora sob o comando de Luiz Frias.

O fim da coluna de André Singer, da coluna de 5ª feira de Jânio de Freitas e, ao mesmo tempo, o convite para que Hélio Beltrão Filho e Armínio Fraga sejam colunistas do jornal, é uma volta atrás na ideia de um jornalismo mais plural, como o dos anos 80 e 90. Demonstra o alinhamento total com o ultraliberalismo reunido em torno do Instituto Millenium e da Casa das Garças. Aliás, apresentando as soluções liberais até sobre os problemas de concentração de renda e combate à pobreza – que serão os temas da coluna de Armínio Fraga.

Os ultraliberais ainda não se deram conta de que a construção de um país exige o aprimoramento da ação do Estado, não sua eliminação.

Ao mesmo tempo, o silêncio tonitruante de todos os veículos da Globo – e de todos os jornalistas globais no Twitter – em relação à entrevista que Lula concedeu ao El Pais e à Folha, é um sinal candente de que nem o espectro aterrorizador de Bolsonaro foi capaz de diluir o antilulismo e permitir a consolidação das forças democráticas para a batalha que interessa: civilização vs. barbárie..

Aliás, louve-se a capacidade da Globo de impor ordem unida a seus jornalistas. Disciplina militar.