Fim de linha para a IstoÉ Brasília

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Do Comunique-se

Localizada em prédio comercial na Asa Sul, a sucursal da IstoÉ teve sua operação encerrada na segunda-feira, 22. O fim das atividades da redação da revista semanal em Brasília foi confirmada por quem vivenciou tal desfecho. Diretor da sucursal até então, Rudolfo Lago falou sobre o tema. Demitido, ele lamentou a situação e colocou em xeque o futuro da Editora Três. Além dele, outros profissionais baseados no Distrito Federal foram dispensados.

“Não tenho a menor dúvida de que é um passo célere para o fim da revista e da Editora Três. Tomou-se também a decisão de acabar com a revista Planeta, a primeira revista da editora fundada por Domingo Azulgaray. A decisão tomada hoje é meio como extirpar metade das funções vitais de um corpo para evitar a evolução de um câncer. Até pode diminuir a evolução do câncer. Mas o corpo pela metade não vai sobreviver por muito tempo”, publicou Rudolfo Lago em seu perfil no Facebook. Na postagem, deu a entender que a publicação semanal pode ser considerada um paciente em estado terminal.

Em contato com a reportagem do Portal Comunique-se, Rudolfo Lago informa que o processo para descontinuar o trabalho da equipe foi rápido. Ainda na condição de liderança da sucursal, ele recebeu telefonema na manhã de segunda. Do outro lado da linha estava alguém (que prefere não revelar o nome) da direção da Editora Três em São Paulo. A conversa não foi para discutir pauta ou algo do tipo. O jornalista apenas recebeu uma ordem: comunicar que o escritório seria fechado. A partir daquele instante, a produção de conteúdo cessou. “Desde então, não trabalhamos mais”, comenta. “De tarde, já tínhamos assinado as rescisões”, pontua.

Além de Rudolfo Lago, a sucursal da IstoÉ em Brasília contava com mais dois jornalistas: os repórteres/editores Ary Filgueira e Wilson Lima. Filgueira também foi demitido. Lima, por sua vez, segue como contratado da Editora Três — e deverá trabalhar no sistema home office a partir de agora. Fora o trio, o espaço contava com a presença de Suely Melo como secretária de redação. Conforme destaca o agora ex-diretor, ela (que tem 15 anos de casa) seguirá na empresa pelos próximos dias, para finalizar questões burocráticas sobre o fim do escritório.

Com pouco mais de um ano à frente da hoje extinta sucursal brasiliense da IstoÉ, Rudolfo Lago faz questão de valorizar o trabalho da equipe. Mesmo com poucas pessoas, pautas produzidas pelo time vinham tendo relevância no impresso e no digital da marca. Também era do time da capital federal que, segundo ele, surgiam os conteúdos que faziam o título ganhar destaque junto a outros veículos de comunicação.

“Uma das últimas reportagens de destaque foi a que mostramos que a irmão de milicianos assinava cheques da campanha do Flávio Bolsonaro”, diz o jornalista. No caso, ele se refere à matéria “Os novos rolos que envolvem Flávio Bolsonaro”, produzida por Wilson Lima em 22 de fevereiro. O Globo, Estadão, Valor Econômico, Poder360 e Congresso em Foco foram alguns dos veículos que repercutiram a denúncia.

Rudolfo Lago pontua, ainda, que não foi lhe dada maiores explicações sobre o fechamento da sucursal. Foi dito, conforme relata, que a decisão foi tomada pelo comando da Editora Três por questões financeiras. Informa que esse problema já vinha prejudicando os ganhos da equipe nos últimos tempos. “Na média, vinham atrasando nosso salário em um mês e meio”, conta. “Ainda não recebemos o 13º salário relativo a 2018; sendo que o que era de 2017 foi resolvido somente agora”, desabafa o jornalista.

Com toda a situação, ele questiona se a definição por parte da empresa se mostrará assertiva a médio e longo prazo. “Não sei como vão fazer para manter a produção sobre política, sendo que praticamente todas as fontes ficam aqui em Brasília. Fora que das 70 páginas editoriais da revista, 20 ou 30 eram de responsabilidade do nosso time”. Trabalho que não ficava restrito ao meio impresso. “No site, a maioria das mais lidas era composta por reportagens produzidas pela equipe da sucursal, que deixa de existir”, lamenta o profissional. Até o momento, a direção da Editora Três não comentou as afirmações feitas pelo jornalista. A publicação também não se posicionou a respeito do fim da sucursal de Brasília.

Vida pós-IstoÉ

Aos 54 anos, Rudolfo Lago começa a planejar seu futuro profissional fora da IstoÉ. Com décadas de experiência na cobertura dos bastidores do poder diretamente de Brasília, o experiente jornalista soma passagens por veículos como os jornais O Globo e Correio Braziliense, a revista Voto e os sites Congresso em Foco e Fato Online. Iniciando “conversas e cafés” com membros da imprensa, ele voltará a colaborar com textos analíticos para o site Os Divergentes. Trata-se do projeto do qual estava participando até ser contratado pela Editora Três em fevereiro de 2018.

Íntegra do relato de Rudolfo Lago:

A partir da manhã de hoje, cumpro a dolorosa tarefa de fechar as portas da sucursal de Brasília da revista IstoÉ.

Eu não tenho a menor dúvida de que é um passo célere para o fim da revista e da Editora Três. Tomou-se também a decisão de acabar com a revista Planeta, a primeira revista da editora fundada por Domingo Azulgaray. A decisão tomada hoje é meio como extirpar metade das funções vitais de um corpo para evitar a evolução de um câncer. Até pode diminuir a evolução do câncer. Mas o corpo pela metade não vai sobreviver por muito tempo.

Antes da decisão de pôr fim à sucursal de Brasília, a IstoÉ, carro-chefe da editora, já vinha funcionando com uma equipe de somente 13 pessoas. Esta sucursal, há alguns anos, tinha só ela mais de vinte jornalistas. Nestes últimos tempos, éramos três. Mas a leitura de qualquer edição da revista demonstrava o volume de produção que tinha Brasília como origem. Das cerca de 70 páginas editoriais da revista, vinte pelo menos eram produzidas todas as semanas pela sucursal de Brasília.

Com relação ao nosso trabalho na sucursal, o que posso apresentar são números e dados. Na medição de audiência da semana passada, as duas matérias mais lidas e de maior alcance nas redes sociais foram produzidas pela Sucursal de Brasília: a entrevista com Dom Falcão, o bispo que se envolveu numa polêmica com Caetano Veloso, e a boa apuração de Wilson Lima sobre a atuação de Flávio Bolsonaro nos bastidores para barrar a CPI Lava Toga.

Ao longo do tempo em que estive à frente da sucursal, a quase totalidade das matérias que tiveram repercussão foram por nós produzidas.

A última vez que IstoÉ foi mencionada no Jornal Nacional foi quando publicamos os áudios das conversas comprometedoras de um secretário do governo do Paraná que mais tarde acabaram levando à prisão do ex-governador Beto Richa. Fizemos ainda uma trabalhosa apuração junto a amigos da ministra Cármen Lúcia, conseguindo extrair diversas declarações ditas por ela a esses amigos sobre a situação do Supremo Tribunal Federal em um de seus momentos mais tensos.

Fomos os primeiros a contar sobre a vida humilde na Ceilândia dos parentes de Michelle Bolsonaro. Mostramos as indenizações milionárias e mal explicadas da Comissão da Anistia, publicando pela primeira vez a lista com os nomes e os valores de cada indenização. Publicamos os cheques assinados pela irmã de dois milicianos em nome da campanha de Flávio Bolsonaro no Rio, na última reportagem de grande repercussão de IstoÉ – que, talvez, venha mesmo a ser a última reportagem de grande repercussão de IstoÉ.

Enquanto vamos aqui recolhendo nossas coisas pessoais e nossos papéis, vamos assistindo melancólicos a mais um capítulo dessa triste crise do jornalismo brasileiro. No Brasil, essa crise que é do modelo agravou-se muito pelos equívocos cometidos pelos responsáveis por cada publicação, que não perceberam – e ainda não percebem – as mudanças. Aqui, toma-se a decisão de eliminar o principal foco de produção. Sei lá: vão-se os dedos para não se perder os anéis…

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