Mortos que saem no xixi e bala ao lado da cama, não a Bíblia

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Por Reinaldo Azevedo

O que o presidente Jair Bolsonaro tem a ver com a tragédia na escola de Suzano? Tudo! É claro que ele não pode ser responsabilizado pelo ato tresloucado de duas pessoas. Não se trata de responsabilização penal, mas de responsabilidade política. E, nesse caso, seu discurso está na raiz do problema. Não fosse assim, ele teria se manifestado de pronto. Mas com que cara? O que se tem, até agora, é só uma nota fria, que transforma os mortos em dados de burocracia. Fazer o quê? Pouco antes, o presidente havia havia afirmado, numa conversa com um grupo de jornalistas, que dorme com uma arma ao lado da cama, embora seja uma das pessoas mais bem protegidas do mundo.

Manifestou-se assim o Palácio:

“Mais uma vez, nosso país é abalado por uma grande tragédia. O Governo Federal manifesta seu profundo pesar com os fatos ocorridos na cidade de Suzano, em São Paulo, apresentando suas condolências e sinceros sentimentos às famílias das vítimas de tão desumana ação. Ao Estado de São Paulo, colocamos nosso total apoio para auxiliar na apuração dos fatos”.

Sobre um sujeito que urina em outro, proselitismo vulgar; sobre o massacre numa escola, o silêncio. O tuíte do xixi tinha 177 toques sem espaço. A parte da nota planaltina que se refere aos mortos e seus familiares, 170. Desconto, nesse caso, o cabeçalho genérico e a oferta feita a São Paulo, o ente federativo, que não levou tiro. Um presidente é uma referência política, moral e cultural.

O nosso poderia simbolizar, a exemplo de muitos mundo afora, a cultura da não-violência, da não-retaliação, da convivência entre divergentes e opostos. Mas ele faz justamente o contrário. Alguns massacram ex-colegas de escola. Outros massacram jornalistas com base em informações falsas. Nos dois casos, a perspectiva da eliminação do “outro” que me atrapalha, do “outro” que não segue a minha cartilha, do “outro” que quer o meu mal.

Aos jornalistas, o presidente disse que pretende também flexibilizar o porte de armas. E aí, sim, mora um grande perigo. Aquele decreto ampliando a posse, embora já irresponsável, não tem grande relevância na violência cotidiana. Já o caso da generalização da posse pode ter efeito explosivo. Estudos às pencas indicam que parte considerável dos eventos com armas tem motivação fútil.

Segundo o Atlas da Violência, foram 62.517 homicídios no país em 2016; 71,7% praticados por intermédio de armas de fogo, como aquela que Bolsonaro disse, na conversa com os jornalistas, repousar em seu criado-mudo (espero que não seja debaixo do travesseiro) enquanto dorme.

Por que alguém rigidamente protegido pela Polícia Federal e por serviços especiais das Forças Armadas precisa dormir praticamente agarrado a uma arma? Desconfiança de que sua segurança tenha sido infiltrada por pessoas interessadas na sua morte? Nesse caso, convém contratar alguém para provar a comida, o cafezinho, os produtos de higiene pessoal… Nunca se sabe quando alguém pode meter Antrax no sabonete, não é mesmo?

É evidente que não se sente inseguro. Ele estava apenas expressando, mais uma vez, a sua devoção às armas, o que vale como um convite e uma recomendação para ao restante dos brasileiros. Se ele, protegido por uma multidão armada até os dentes, precisa de um revólver para se sentir seguro, o que deveríamos fazer nós? O que deveriam fazer os milhões de brasileiros que moram em favelas, em barracos que nem de alvenaria são, sujeitos a balas perdidas?

Imaginem esses aglomerados urbanos armados até os dentes, com balas a atravessar paredes sem atritos, encontrando seu destino final na carne humana. Sim, é verdade!, eu estou falando de uma gente mais escura, não é?, que mora nesses locais. Segundo o Atlas da violência, 71,5% das vítimas de homicídio em 2016 eram negras ou pardas. A carne preta continua a ser a mais barata do mercado, como na música.

Suas afirmações infelizes foram feitas pouco antes da tragédia de Suzano, o que demonstra que os fatos começam a perseguir as bobagens de Bolsonaro. Não há nada de místico nisso. É que tragédias, com efeito, acontecem. E elas perseguem com especial afinco aqueles que mais dizem tolices.

Governistas outros disseram coisas odiosas, sim. Ainda voltarei ao assunto.

Precisamos de lideranças políticas que desarmem pessoas e espíritos.

Bolsonaro faz o contrário.

E, como se vê, tem mais a dizer sobre xixi do que sobre pessoas que morrem à bala.

Ah, sim: a julgar pelo João 8:32 que o presidente vive citando, imaginei que ele dormisse ao lado da Bíblia. Mas há uma hierarquia, pelo visto. Primeiro vem a bala.

Nem sempre a verdade liberta, não é mesmo?

Novo reforço azulino é apresentado à torcida

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O meia Douglas Packer, novo reforço azulino para a temporada, foi apresentado oficialmente ontem à noite, participando do desfile de lançamento dos novos uniformes do Remo. Já regularizado junto à CBF, o jogador pode fazer sua estreia na partida deste sábado (16h) contra o Independente, no estádio Jornalista Edgar Proença.

Natural de Indaial (SC), Packer (31 anos) é a opção para uma das posições mais carentes do time. Será o responsável pela criação de jogadas. “Estou muito feliz pela confiança depositada em mim e vou tentar demonstrar da melhor maneira possível. Podem ter certeza que comprometimento com a torcida do Remo não irá faltar”, afirmou.

Ele treina com o elenco desde o dia 5 de março, ocupando sempre a posição de titular nos treinos dirigidos pelo técnico Márcio Fernandes, que o indicou. Packer já defendeu Paraná (PR), Botafogo (SP), Caxias (RS), CRB (AL) e Guarani (SP), Siena (Itália) e Barito Putera (Indonésia), seu último clube.

Leão apresenta nova linha de uniformes

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Com uma performance denominada “Das águas vem o nosso amor”, o Remo apresentou oficialmente ontem à noite a sua nova linha de uniformes para a temporada, fabricada pela Topper. Para fortalecer ainda mais a temática da nova coleção, o remador Prontito foi homenageado aparecendo como “modelo” do evento. O ex-atleta de Remo chegou de canoa ao evento, arrancando aplausos das pessoas presentes.

Em seguida, o meia-atacante Echeverría desfilou com a camisa do uniforme número 1. A Topper buscou como fonte de inspiração para a confecção do material os primórdios da história do Clube do Remo, cuja origem está nas regatas da Baía do Guajará. 

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A camisa principal mantém o tradicional azul-marinho, em estilo totalmente retrô, remetendo aos uniformes dos anos 80 e 90. Já o uniforme número 2 é branco com detalhes no tradicional azul-marinho. As camisas dos goleiros são nas cores verde e vinho. A camisa de aquecimento traz a imagem de um leão, mascote oficial do clube. Os modelos de treino, nas cores amarelo e cinza, têm traços marajoaras em destaque.

As camisas estão à venda a partir de hoje (15) nas lojas oficiais do Clube no Bosque Grão-Pará, Parque Shopping, Boulevard Shopping e na sede social. O uniforme de jogo custa R$ 219,90 (modelo masculino) e R$ 199,90 (modelo feminino e juvenil). Sócios proprietários, remidos e sócios-torcedores em dia com o programa Nação Azul terão 10% de desconto.

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Uma das surpresas do desfile de apresentação do novo uniforme azulino foi a mascote feminina do Remo, a Leona, homenagem à torcida feminina do clube. Ela foi apresentada quase ao final do desfile, junto com o Leão Malino. Torcedores e torcedoras aprovaram a ideia e aplaudiram Leona, que deve entrar em campo junto com o mascote masculino no jogo deste sábado contra o Independente, no Mangueirão.

Trivial variado da consagração de Marielle e do começo do fim da Lava Jato

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“Todo Savonarola tem seu dia de Luís XVI. Pelo visto, caiu a Bastilha da República de Curitiba. Imagine se forem a fundo nas investigações dos tais acordos de delação! E quem lucrou com eles! Tinham q convocar uma comissão internacional independente para devassar tudo isso”. Miguel Nicolelis

“R$ 2,5 bilhões é a maior recompensa por serviços prestados já paga na história dos EUA. A ironia é que, o dinheiro não é deles, mas de quem foi prejudicado, no caso o povo brasileiro. Estamos diante do maior crime lesa pátria descoberto até hoje. #DallagnolNaCadeia”. Toni Bulhões

“Além de ser afastado, delegado que investigou caso de Marielle será mandado para fora do Brasil”. Fernando Corrêa

“Só de pensar que esse inferno todo começou por causa de 20 centavos”. Dâmaris Grün

“A chacina da escola de Suzano requer solidariedade às vítimas e reflexão: falar em armar professores é um desatino. Armas devem estar nas mãos de policiais e militares que saibam usá-las para proteger cidadãos e retira-las de bandidos que atazanam o povo”. Fernando Henrique Cardoso

“Silêncio total de Moro sobre o massacre em Suzano, sobre Marielle, sobre as milícias, sobre os fuzis, sobre o vizinho. Moro, o ínfimo, não existe mais, aliás nunca existiu”. Marcia Denser

“Aos seus assassinos o lixo da história, à Marielle centenas de homenagens. Tornou-se inspiração para milhares de mulheres que lutam por direitos no mundo todo”. Monica Benício

“Marielle Franco a été assassinée il y a un an. Conseillère municipale de Rio de Janeiro, elle était engagée dans la lutte contre le racisme, l’homophobie et les violences policières. À sa mémoire, nous proposerons au prochain Conseil de Paris qu’un lieu lui soit dédié”. Annie Hidalgo, prefeita de Paris

O enigma Echeverría

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POR GERSON NOGUEIRA

Há um mistério que ninguém consegue elucidar ou explicar no Remo atual. Na reta final de preparação para enfrentar o Independente, amanhã, no estádio Jornalista Edgar Proença, a escalação mais provável inclui outra vez o meia-atacante Echeverría improvisado como lateral esquerdo.

O mistério vem do fato de que Echeverría chegou ao Evandro Almeida a bordo de uma campanha de marketing envolvendo o programa de sócio torcedor Nação Azul. Foi apresentado como candidato à condição de ídolo e sua contratação foi o grande investimento para a temporada.

Depois das primeiras semanas de treinamento, ainda em dezembro, sob o comando de João Neto, participou de amistosos e chegou a fazer gol. Quando o campeonato começou, para surpresa geral, Echeverría foi barrado. O treinador optou por Dedeco para executar a função.

Mesmo depois que ficou evidente que Dedeco não justificava a titularidade, o principal reforço do elenco continuou sem chances. Veio a ser escalado somente contra o Independente, marcando um gol e aparecendo bem, apesar de visível falta de ritmo de jogo.

Contra o Serra-ES, pela Copa do Brasil, o time teve baixo rendimento e acabou derrotado, mas Echeverría foi um dos poucos que perdeu posição. Reapareceu no segundo tempo do clássico Re-Pa, espantosamente incumbido pelo técnico para ocupar a lateral-esquerda.

Acabou superado pela velocidade do atacante Elielton no lance que resultou no terceiro gol do Papão na partida. Ainda assim, por iniciativa própria, Echeverría avançou pelo meio e deu os dois únicos chutes perigosos em direção à meta bicolor no clássico.

Netão caiu e Márcio Fernandes assumiu, mas a canhestra improvisação continuou a prevalecer. Logo na estreia do novo comandante, diante do Tapajós, em Santarém, o meia-atacante no segundo tempo foi deslocado para o lado esquerdo da defesa, com rendimento pífio.

Como é óbvio que Echeverría não tem nem cacoete de lateral, além de não ser propriamente bom de marcação e nem velocista como a posição exige, fica no ar um imenso ponto de interrogação (thanks, Avallone!).

Das duas, uma. Ou o jogador não demonstra qualidades técnicas necessárias para ocupar sua função de origem – e, nesse caso, deveria ser dispensado – ou os técnicos entendem que a lateral-esquerda é o setor mais importante e decisivo do time, a ponto de escalarem ali o jogador tecnicamente mais qualificado do elenco.

O torcedor, que não é bobo, já percebeu que há algo de errado. Mais ainda quando se observa na escalação a presença do contestado Mário Sérgio ocupando o lugar que deveria ser do camisa 17.

A lógica, baseada no retrospecto do Remo na temporada, indica que o melhor aproveitamento de Echeverría seria como meia avançado, espécie de ponta de lança, em dupla com o estreante Douglas Packer, bem próximo ao duo ofensivo formado por Alex Sandro e Gustavo Ramos.

Técnicos, porém, têm ideias fixas e conceitos rígidos, nem sempre fáceis de decifrar.

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O sucesso da dupla de zaga do Papão

Logo que a bola rolou no Parazão surgiu uma crítica quase unânime ao mau desempenho da defesa do Papão. Micael e Vítor Oliveira eram questionados e ficaram sob fogo cerrado da torcida depois das falhas mostradas diante do Bragantino, na Curuzu.

O Re-Pa veio duas rodadas depois e serviu para mudar por completo a avaliação acerca da dupla de área. Micael, principalmente, aproveitou o clássico para se impor como líder da zaga, mostrando capacidade de antecipação e segurança nas bolas aéreas.

Os jogos seguintes ratificaram a boa impressão. Hoje, a defesa é o setor mais elogiado do time, com números incontestáveis. Sofreu apenas dois gols em sete partidas. O goleiro Mota está invicto há cinco rodadas.

A fase é tão auspiciosa que Micael e Vítor têm se aventurado no ataque, marcando gols importantes, como domingo passado contra o S. Francisco. No total, ambos fizeram quatro gols, sempre em jogadas de bola parada.

A evolução no condicionamento físico é vista como principal motivo da transformação, mas é inegável que a confiança do técnico João Brigatti teve igual importância.

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Direto do blog campeão

Sobre a coluna de ontem, o grande benemérito remista Ronaldo Passarinho, um dos baluartes deste espaço, envia comentário concordando com a análise sobre as necessidades do elenco do Remo e lançando alguns questionamentos.

“Por que o silêncio de algumas pessoas com influência no clube a respeito do desastre das contratações? Todos lembram que a contratação de Luciano Mancha, como supervisor (?) de futebol, foi festejada pelas suas qualidades de formar times bons e baratos. Depois de 21 contratações, o resultado é uma tristeza. Raríssimos são os jogadores com condições de vestirem a nossa gloriosa camisa.

Se todas as informações forem verdadeiras, por que somente dois foram dispensados? Dentre outros, o Diogo Sodré é pavoroso. O que mais temo é a disputa na Série C. Com esse plantel, somos sérios candidatos ao rebaixamento”, conclui.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 15)

Em breve terá início a temporada de caça à Lava Jato

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Por Luis Nassif, no Jornal GGN

As ondas de terror costumam ter ciclo intenso, porém curto. Surgem, conquistam fígados e mentes das turbas das ruas, são impulsionadas pela mídia – por ideologia ou a reboque da opinião pública.

No ciclo inicial, conferem uma sensação inédita de onipotência aos provocadores, sejam chefes de torcida organizada, insufladores de linchamento, políticos medíocres, ou, no caso da Lava Jato, procuradores e juízes do interior, alçados de repente ao Olimpo das celebridades.

Em todas essas pessoas, o perfil psicológico é o mesmo. São personagens sem biografia anterior, sem grande destaque,  que ganham a sorte grande de protagonizar o sacrifício ritual alimentado pela sede de sengue das bestas das ruas.

O roteiro exige como protagonistas pessoas amorais, despidas de sentimento de compaixão, da piedade, de senso de justiça, de responsabilidade pública, sem pudor de praticar ao máximo a crueldade física ou psicológica, exercitar a covardia em todas as instâncias, porque sua base de sobrevivência é o ódio difuso que, de repente, ganha um foco, ao se lhe apontar um inimigo real ou imaginário.

O que estão fazendo com Lula há muito ultrapassou os limites da mera severidade. Bloquearam todos os seus recursos, deixando familiares passando necessidade, sendo amparados por amigos. Impediram-no de prantear o irmão morto e tentaram impor condições indignas para ir ao funeral do neto, que foi tratado em hospital de terceira linha, por falta de recursos da família, bloqueados pela crueldade extrema da Lava Jato e dos desembargadores do TRF4.

A indignidade com que um dos grandes personagens da história foi tratado pela juíza Gabriela Hardt ainda há de figurar nos futuros compêndios da psicologia do fascismo, como o exemplo mais deformado do que essas situações criam em pessoas médias, pelo prazer sádico de poder se impor sobre vultos da história.

Mas, como não há mal que sempre dure, em algum momento esse ciclo de ódio tem uma inflexão. Foi assim com Jean-Paul Marat na Revolução Francesa, com Joseph McCarthy, quando decidiu estender a caça às bruxas ao Exército. No caso da Lava Jato, foi essa tentativa de se apropriar de R$ 2,5 bilhões de recursos do Tesouro para uma fundação de direito privado controlada por eles próprios.

Ai quebrou a blindagem.

Para avaliar os próximos passos, é necessário entender a lógica jornalística.

A imprensa é pró-cíclica – ou seja, tende a potencializar movimentos da opinião pública. Quando um ciclo começa a esgotar, há a necessidade de criar novos ciclos, nos quais se dará a disputa entre os jornais.

Foi assim em todos os episódios de linchamento midiático desde a campanha do impeachment de Fernando Collor à Escola Base – tenho mais de vinte casos narrados no livro “O jornalismo dos anos 90”.

A campanha de ódio, que resultou na Lava Jato, teve três motivações. Uma delas, de ordem política, contra Lula e o PT. A segunda, a competição pelos “furos” da Lava Jato, em um episódio grotesco de anti-jornalismo, com todos os jornais comendo na mão dos procuradores e delegados, sem nenhum esforço de checar as informações. A terceira, indo a reboque da besta das ruas, o ódio dos leitores.

Agora, o jogo começa a inverter.

Primeiro, há o desgaste natural das operações de impacto da Lava Jato. Quanto mais o tempo passa, menos novidade existe. Quando se enredou com o governo Bolsonaro, a Polícia Federal de Sérgio Moro montou duas operações de impacto, inclusive prendendo o presidente da Confederação Nacional da Indústria. A notícia ficou um dia nos jornais. Do jeito que as coisas caminham, nem a prisão de José Serra merecerá manchetes.

O fator Palocci – soltar trechos da delação do ex-Ministro como antídoto para crises – é cada vez menos eficaz. Já saiu das manchetes principais e começa a cair para o pé de páginas internas dos jornais.

Agora, vem o episódio da fundação de R$ 2,5 bilhões.

Nas redes sociais, a condenação é quase unânime. Os únicos defensores da fundação são os próprios membros da Lava Jato, com campanhas bisonhas, lembrando que as multas de um caso permitiram construir uma sede para uma Apae, ou reformar seis escolas, como justificativa para a apropriação de R$ 2,5 bilhões (!). Pela primeira vez, colegas procuradores põem a cabeça para fora e começam a externar o incômodo que acompanhou parte da categoria com os abusos reiterados da Lava Jato.

Em breve terá início o novo ciclo. E agora será de caça à Lava Jato.

Como ocorre em todo final de ciclo, a imprensa vai apalpando aos poucos o novo terreno, para ver se há terra firme para começar a nova etapa. Depois que se divulgou aqui a fundação de R$ 2,5 bi, levou alguns dias para começar a repercussão. Era um escândalo óbvio, mas os jornalistas precisam saber se já existe apoio tácito para a mudança na cobertura.

O apoio veio, as matérias começam a pipocar. Não virá de uma só vez, porque os jornais teriam que explicar a parceria de tantos anos com esse grupo. Mas a arte e o engenho jornalístico encontrarão narrativas adequadas. Colocarão lupa nas parcerias entre Rosângela Moro e Carlos Zucolotto, esmiuçarão os honorários dos advogados da delação, levantarão o aumento de patrimônio de Deltan Dallagnol, com as palestras pagas, cobrarão dele a fundação que disse que iria constituir com dinheiro das palestras, e que sumiu do noticiário, checarão o caso Tacla Duran, e a proposta de tacada de Zucolotto, falando em nome da Lava Jato.

Tudo isso já foi levantado por veículos independentes, furando a barreira de silêncio da mídia. Portanto, haverá apenas o trabalho de aprofundar as pautas.

Em um ponto qualquer do futuro, é possível até que divulguem o martírio de Lula, as humilhações impostas a ele e Marisa, a perseguição implacável que atingiu os familiares e pode ter sido causa da morte do neto. E alguma reportagem lembrará que, com uma entrevista, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, decretou o fim de qualquer possibilidade de salvar as empresas de engenharia brasileira. Já existem levantamentos criteriosos sobre os prejuízos trazidos à economia. E serão cobrados, também, o ex-Procurador Geral Rodrigo Janot, e seu companheiro de noitadas Ministro José Eduardo Cardozo, pela falta de coragem de enfrentar as turbas, em um tema de interesse nacional.

Haverá perfis detalhados sobre o deslumbramento das Hardt, dos Dallagnol. Suas incursões pela iniciativa privada, com consultorias de compliance e o escambau, serão acompanhadas minuciosamente.

Tudo isso por uma lógica fatal. Como operações dessa natureza dão celebridade imediata a pessoas sem história, não há como conter o excesso de ambição que sempre atinge esses tipos.

E a ambição da Lava Jato foi gigantesca, de R$ 2,5 bilhões.