A segunda morte do gigante JB

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Por Bernardo Mello Franco

A nova versão do “Jornal do Brasil” não vai mais circular. A decisão será informada oficialmente na tarde desta quarta-feira. A redação entrou em greve na terça, em protesto contra os três meses de salários atrasados. Não houve acordo para retomar a produção do jornal.

O empresário Omar Catito Peres, que arrendou a marca de Nelson Tanure, disse a editores que o produto se tornou economicamente inviável. A tiragem diária estava abaixo dos 3.000 exemplares. O jornal era feito por uma equipe enxuta, de cerca de 30 profissionais.

O “JB” havia voltado às bancas em fevereiro de 2018, oito anos depois de suspender a sua versão impressa pela primeira vez.

Triste.

A melhor arma contra a violência é o desarmamento total

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Por André Forastieri

(Os países mais seguros do mundo têm uma única coisa em comum: as armas são proibidas. No violentíssimo Brasil, um lobby poderoso quer cancelar o Estatuto do Desarmamento. Propõe um plebiscito para que nossas leis sejam iguais às dos Estados Unidos, que sofrem diariamente com massacres cometidos com armas compradas legalmente.

Esse longo artigo, escrito a convite da revista Piseagrama no final de 2017, expõe os interesses em jogo e defende o desarmamento total no Brasil. Os países mais seguros do mundo são os que controlam mais severamente a posse e porte de armas.

Em 2018, com a insegurança crescendo, o país se inclina para o lado oposto, com a ascenção da candidatura de Jair Bolsonaro, e o provável crescimento de bancadas extremistas – do Boi, Bala, Bíblia – no legislativo.)

ADEUS ÀS ARMAS

O dia primeiro de outubro de 2017 entrou para a história dos Estados Unidos. Foi nesse dia que Stephen Paddock, um pacato cidadão de 64 anos, levou 23 armas para seu quarto de hotel, incluindo fuzis com munição capaz de atravessar blindados.

Da janela do seu quarto, disparou contra a multidão que curtia um festival de música country. Matou 59 inocentes, feriu outros 529. Foi a maior chacina da história americana – até agora.

Quatro dias depois, outra tragédia horrível, agora em Janaúba, no norte de Minas Gerais. O zelador Damião Santos matou oito crianças e uma professora, feriu outras 41 pessoas, e se suicidou, usando gasolina. Nos Estados Unidos assassinatos de massa acontecem todo dia. Aqui não. A razão é que lá é facílimo qualquer um comprar armas de fogo. Aqui não.

Não tem prova maior de loucura que atear fogo a crianças e a si mesmo. Como tantos, Damião nunca deu antes mostras de ser perigoso. Nos EUA, acontece a mesma coisa. Stephen Paddock era uma pessoa calma, tranquila, muito gente fina. Até fazer o que fez.

Nos EUA, todo santo dia algum maluco que jamais tinha antes dado sinais de maluquice fuzila inocentes em escolas, igrejas, estacionamentos. Sempre armas compradas legalmente, na loja da esquina. Segundo o Gun Violence Archive, foram 11.621 mortes e 23.433 feridos por armas de fogo nos EUA em 2017. Isso, somente do dia primeiro de janeiro até o dia da tragédia em Las Vegas, primeiro de outubro.

No Brasil temos muito mais assassinatos que nos Estados Unidos, no total. Por volta de 60 mil por ano. Os mortos no Brasil são jovens, pobres, da periferia. Geralmente com armas ilegais. Pouquíssimos destes são mortos em atentados como os de Minas Gerais, ou como os que acontececem nos Estados Unidos diariamente.

Se o Brasil liberar as armas de fogo, se passarmos a ter as mesmas leis que os Estados Unidos, teremos todos os 60 mil assassinatos que temos hoje. E mais um monte de atentados como os de Minas. É muito mais fácil um louco matar inocentes usando revólver, espingarda e metralhadora do que com álcool, como vimos em Las Vegas.

A tragédia de Janaúba foi especialmente chocante porque a maioria das vítimas são crianças pequenas, quatro anos. Pois nos Estados Unidos uma parte enorme dos assassinados em chacinas deste gênero também são menores de idade. O lugar mais comum para atentados assim é justamente nas escolas. Imagine quantos haveriam aqui, se qualquer um pudesse comprar uma arma legalmente e sair atirando?

Em Goiânia, um garoto de 14 anos disparou contra os colegas usando a arma de sua mãe, policial militar. Matou dois e feriu gravemente outros três. Uma menina de 14 anos ficou paraplégica. Aconteceu por uma única razão: porque no Brasil, policial leva arma para casa. O fato é que policiais só deveriam usar armas no serviço.

Primeiro porque a arma é instrumento de trabalho. Fora do plantão, policial é gente como a gente, e deve seguir as mesmas restrições legais de todo mundo. Segundo, porque carregar arma, ou ter arma em casa, é um grande risco para os próprios policiais. Quantas vezes ouvimos falar de policiais de folga que reagiram a um assalto e terminaram baleados? De novo: o garoto jamais teria feito o que fez contra os colegas se não tivesse acesso a uma arma e fogo.

Defensores das armas de fogo costumam dizer que “armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas”. E que se é para proibir armas de fogo, as sociedades também deveriam proibir facas, pedaços de pau e automóveis, porque todos podem ser usados para matar.

É um falso argumento. Paddock jamais conseguiria matar e ferir tanta gente com uma faquinha. Sim, armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas. Mas pessoas com armas matam muito mais pessoas em muito menos tempo.

O Brasil tem uma lei que restringe posse e porte de armas. É o Estatuto do Desarmamento (lei 10.826/2003). Muitos políticos querem mudar isso. O mais conhecido defensor da liberação das armas é o deputado Jair Bolsonaro.

Seu projeto de lei 7282/2014 é talvez sua maior bandeira como candidato a presidente da república. Diz que “o cidadão tem direito à legítima defesa própria, de seus familiares e seu patrimônio”. O argumento é que a liberação do porte de armas vai levar os criminosos a “pensar duas vezes antes de cometerem seus crimes, já que encontrarão resistência”. Os números indicam resultado contrário. Segundo Ivan Marques, do instituto Sou da Paz, “quem reage armado tem 56% mais chance de virar vítima, porque não tem tempo nem treinamento para reagir.”

Outro grande defensor da liberação do porte de armas no país é o senador goiano Wilder Morais. É relator de avaliação da Política Nacional de Segurança pública, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. É autor de três propostas nesse sentido. Pretende que seja feita uma consulta pública ao eleitorado, junto com as eleições presidenciais de 2018.

Neste plebiscito, o eleitor responderia se o Estatuto do Desarmamento deve ser revogado, e substituído por uma nova lei que assegure o porte de armas a qualquer cidadão que preencha os requisitos. Com o nível de ignorância da população sobre o assunto, corremos risco de tornar o Brasil ainda mais violento.

O senador usa o mesmo argumento de Bolsonaro: mais armas nas mãos da população tornarão o país mais seguro. Mas, como Bolsonaro, não apresenta números, estudos, evidências nesse sentido. Eles nem têm como apresentar. Todas as evidências apontam o contrário: quanto mais armas em circulação, mais violência.

A maior referência sobre armas de fogo, nos Estados Unidos, é o Harvard Injury Control Research Center. Seu diretor, David Hemenway, foi o coordenador do projeto-piloto do atual sistema nacional do governo americano que registra todas as mortes violentas no país. Tanto suicídios quanto homicídios.

Esse centro de Harvard fez um estudo comparando a taxa de homicídios de doze países de alta renda. O percentual de mortes nos EUA é 25 vezes mais alto que a média. Henneway explica que não tem sentido comparar a taxa de crimes dos EUA com a do Brasil, porque são países completamente diferentes do ponto de vista de renda, para começar.

Diversos estudos de Harvard levam sempre à mesma conclusão. Nas cidades e estados americanas em que há um número maior de armas em circulação, é muito maior o número de suicídios, homicídios, e o risco de assassinato de mulheres que moram na casa. São números fortíssimos, e contra eles é impossível argumentar que “armas tornam a população mais segura.”

Em uma recente entrevista ao jornal Valor Econômico, Hennenway prevê que, se o projeto de lei de Bolsonaro for aprovado, o Brasil será ainda mais violento que hoje. E o trabalho da polícia será muito mais difícil: entre 300 e 500 mil armas de fogo são roubadas, por ano, nos EUA. É o principal meio pelo qual as armas chegam às mãos de criminosos. Se as armas forem liberadas no Brasil, a tendência é a mesma: armar ainda mais o crime.

Sobre a violência nos EUA, Hennenway diz o óbvio. Em um país de 330 milhões de pessoas, “você terá sempre pessoas malucas. Como não dá para identificar todas elas, o melhor é garantir que elas não tenham acesso fácil a armas.”

Pois é exatamente isso que provam os números da violência pelo planeta afora. Na lista dos países menos violentos do mundo, nos primeiros lugares estão países completamente diferentes entre si. Pequeninos principados europeus como Andorra e Monaco, mas também Japão, Bahrain, Madagascar. Em décimo-primeiro lugar, está a desigual Indonésia. Em vigésimo-quarto, a gigante China. Em seguida, a desenvolvida Coréia do Sul.

Neste ranking de homicídios per capita, os EUA estão muito mal: é o número 126, abaixo do Cazaquistão. E o Brasil pior ainda: de 219 países, somos o número 206. Pior que a gente, só alguns países muito sofridos da África, e os campeões, nossos vizinhos na América Latina, Venezuela, Honduras e El Salvador.

É difícil achar similaridades entre os países mais seguros do mundo. Uns são pequenos, outros têm mais de um bilhão de habitantes. Uns pobres, outros ricos, outros mais ou menos. Em alguns a desigualdade grassa, outros têm a renda muito bem distribuída. Variam etnicamente, religiosamente, historicamente.

Na verdade, eles têm uma única coisa em comum. Os países mais seguros do mundo têm leis muito restritivas sobre armas de fogo. Dificultam, ou simplesmente não permitem, que seus cidadãos se armem. E têm punições duríssimas para quem tiver armas ilegalmente.

Na China, por exemplo, nenhum cidadão pode ter armas. A pena é três anos de cadeia para quem tiver armas, e prisão perpétua para quem traficar armas. Na Indonésia, 260 milhões de habitantes e muita pobreza, só é permitido ter armas de caça, não pistolas, nem armas militares, e mesmo assim depois de um longo e dificílimo processo de aprovação.

No Japão é simplesmente proibido o cidadão ter armas. As exceções são somente para caça, e, de novo, raras e difíceis. Na Europa, o continente mais seguro de todos, as leis são todas muito restritivas.

E o contrário é verdadeiro: os países onde há menos restrição e vigilância da posse e porte de armas são os mais violentos. Entre os países ricos, o único que tem leis lenientes é os Estados Unidos, e é o único país rico que aparece tão mal no ranking.

A cada dez minutos, uma pessoa é assassinada no Brasil. Nosso país concentra 10% dos homicídios do mundo. No violentíssimo Brasil, as armas matam muito, e não é o proverbial “cidadão de bem”, como diz Bolsonaro, assaltado na rua. Quem é assassinado no Brasil, e como? A maioria são jovens, pobres, negros, tomam tiro, e por razões bestas.

Mais de 71 % dos homicídios no Brasil são cometidos com arma de fogo. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e 2015. Apenas em 2015, foram 31.264 homicídios de pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Em oito estados, a taxa de homicídio entres os jovens cresceu mais de 100% nesta década.

Uma parte dos assassinatos têm característica de execução. O criminoso, ou criminosos, chega de repente, executa as vítimas, e vai embora. Mas é minoria. Muitos são cometidos por impulso – ou seja, se não houvesse acesso a armas de fogo, uma parte muito grande simplesmente não aconteceria.

Um estudo feito pelo Conselho Nacional do Ministério Público entre 2011 e 2012 concluiu que mais da metade dos homicídios são cometidos “de sangue quente”. No Rio de Janeiro, 26% dos homicídios foram causados por razões fúteis ou atitudes impulsivas (rixa, embriaguez, vingança, crimes passionais); no Rio Grande do Sul, 43%; em São Paulo, 83%.

Não dá nem para comparar com o número de pessoas mortas durante assaltos. Em 2015, o número total de latrocínios no país foi 2314. No mesmo ano, a polícia matou 3320 pessoas. Os policiais matam mais que os ladrões. O total de assassinatos em 2015 foi 58.383 pessoas. Os latrocínios não são nem 5% do total.

Sim, muita gente morre em brigas de facções, e frequentemente inocentes são pegos no tiroteio, como vemos sempre no Rio. O fato é que a Guerra às Drogas prossegue, e todos somos derrotados. Já temos mais de meio milhão de presos no Brasil, 574 mil. Destes, 40% são presos provisórios, sem condenação. A maioria esmagadora por pequenos delitos, furtos, tráfico de pequenas quantidades de entorpecentes.

Descriminalizar o uso de drogas seria um golpe fatal no crime organizado, retirando sua principal fonte de financiamento. Considerando nosso fracasso nessa área, vale experimentar, como outros países vêm fazendo com sucesso. O caso mais vistoso é Portugal, para onde brasileiros sonham em mudar.

O economista e professor da Unicamp, Thomas V. Conti, prestou um grande serviço ao traduzir os resumos de 48 pesquisas sobre armas de fogo, publicadas entre 2013 e outubro de 2017. Preparou também um resumo de suas conclusões sobre essas pesquisas.

Thomas identificou 34 publicações de estudos acadêmicos com conclusões contrárias à idéia que o aumento das armas em circulação diminui a quantidade de crimes. O mais completo estudo internacional, o mais rigoroso do ponto de vista da metodologia, é contrário à tese de “Mais Armas, Menos Crimes”. O estudo completo está aqui.

A maior parte das pesquisas brasileiras seguem na mesma direção. É por isso que, recentemente, vários dos mais prestigiosos pesquisadores brasileiros sobre o tema assinaram o Manifesto A Favor do Estatudo do Desarmamento.

Outras conclusões importantes dos estudos analisados por Conti: não há evidência de que o efeito dissuasão das armas de fogo seja percebido pelas pessoas. Há indícios importantes de que as armas aumentam a proporção de crimes violentos, mais do que a proporção de crimes como um todo. Há também muitas evidências que mais armas aumentam o número de mortes acidentais, principalmente acidentes domésticos envolvendo homens jovens, e também o número de suicídios. Vale muito conferir o trabalho de Thomas, que além dos resumos e traduções, traz os links para os estudos originais.

E os inimigos do Desarmento, que argumentos apresentam? Quase nada. Os estudos que defendem que armas reduzem crimes são poucos, e estão muito desatualizados. O livro que sempre é usado no Brasil para defender a liberação das armas é “Mentiram Para Mim sobre o Desarmamento”, de Flavio Quintela e Bene Barbosa. Os autores não têm rigor científico nenhum. Pinçam os dados que lhes convém, ignoram a achapante massa de dados contra suas teses.

Escorregam para a comédia frequentemente. Afirmam peremptoriamente que em 2013 a taxa de crimes violentos na Inglaterra foi 80% maior que a americana, em uma comparação per capita. Sem citar a fonte, claro. É risível. Segundo estudo do Banco Mundial, a taxa de homicídios nos EUA é de 4,9 para cada 100 mil habitantes. A do Reino Unido é 0,9 por 100 mil, menos de um quinto da americana.

Para ter uma boa noção do risco que o Brasil corre se as armas forem liberadas, basta escrever sobre o tema “Desarmamento”. Foi o que fiz após o atentado em Las Vegas. Citava alguns dos números acima. A reação foi imediata e intensa. Começou com centenas de xingamentos. Logo avançou para ameaças.

Um defensor das armas de fogo me chamou de canalha, e me desafiou para um debate, bem ao estilo jardim de infância. Nos dias seguintes, qualquer post meu, sobre qualquer assunto, era imediatamente entupido de comentários truculentos. Imagine gente assim carregando armas por aí.

A maioria, pelas fotos, é homem, branco, dos trinta anos para cima, e abonado. A maioria é claramente massa de manobra de políticos, de comunicadores da grande imprensa, e de grandes interesses comerciais. Não parecem querer justiça, mas vingança. Do quê, exatamente, é questão que só sociólogos, ou talvez psiquiatras, podem responder.

Essa minoria barulhenta e truculenta teve seus berros amplificados pelas redes sociais, como muitas outras minorias fundamentalistas, em todo o espectro ideológico. Corremos o risco de ver esse grupinho contaminando a maioria da opinião pública. Diversas pesquisas online têm dado vantagem enorme à posição pela liberação das armas.

É inútil argumentar com essa turma radical usando números. É como tentar convencer alguém a trocar de time, ou de religião. É questão de fé, não de fatos; de ideologia, não de lógica. Mas também é uma questão de interesses.

A quem mais interessa a liberação das armas no Brasil? Em primeiríssimo lugar, aos fabricantes brasileiros de armas. Hoje têm um mercado pequeno no país. Se dedicam principalmente às exportações. Se a lojinha da esquina passa a vender revólver em dez prestações sem juros, estas empresas têm muito a ganhar.

Para ficar em um exemplo, a Taurus é a terceira maior fabricante de armas leves do mundo. Fatura quase R$ 800 milhões por ano. Fabrica revólver, pistola, metralhada, fuzil. Também coldres e coletes e outras coisas.

Seu balanço mais recente, relativo ao segundo trimestre de 2017, declara que a Taurus teve faturamento de R$ 181 milhões, sendo R$ 140,8 milhões no mercado externo e R$ 40,9 milhões no Brasil. Lucro bruto de R$ 48,3 milhões.

Segundo reportagem da revista Época de 10 de março de 2017, a Taurus tem “uma espécie de monopólio de fornecimento de armas para as polícias militares e civis no Brasil. A empresa seria uma das principais responsáveis pelo financiamento das campanhas eleitorais da chamada Bancada da Bala.” Imagine o quanto os lucros da Taurus podem crescer no mercado interno, com o fim do Estatudo do Desarmamento.

Um levantamento do Instituto Sou da Paz mostra que em 2014 a indústria armamentista distribuiu quase R$ 1,9 milhões para 21 candidatos a deputado federal, 12 a deputado estadual, dois candidatos a governador e um a senador. As doações foram feitas pelas duas maiores empresas do setor, a Taurus (R$ 870 mil) e a CBC (R$ 1,02 milhão), e 84% dos candidatos desta “bancada da bala” conseguiram se reeleger.

Dos 21 candidatos à Câmara, dez já tinham sido financiados por essas empresas na eleição anterior, em 2010. Os nomes mais conhecidos são Arnaldo Faria de Sá, Onyx Lorenzoni, Pompeo de Mattos. Os três são integrantes da comissão que discute a revisão da Lei do Desarmamento.

O projeto de lei mais perigoso é o PL 3722, a proposta para revogar o Estatuto do Desarmamento, do deputado Rogério Peninha Mendonça. Na comissão especial que discute o PL 3722, que permite a qualquer pessoa a partir dos 21 anos de idade portar armas livremente (basta não ter antecedentes criminais e fazer um teste de sanidade mental), as empresas de armas têm simplesmente oito representantes. Pelo projeto de Mendonça, brasileiros com o perfil de Stephen Paddock poderiam comprar e portar livremente armas.

No caminho contrário, o projeto de lei mais importante para desarmar o país é do deputado Evair Vieira de Mello. Ele endurece as regras para comprar e portar armas. Tira as armas de agressores condenados pela lei Maria da Penha (agressão à mulher) e Estatuto da Criança e do Adolescente. Impõe penas de seis a dez anos para quem alterar a identificação da arma, portar arma sem identificação, fornecer arma a criança ou adolescente, produzir munição ou explosivo sem autorização legal, contrabandear armas, e por aí vai.

No dia 26 de outubro de 2017, Michel Temer sancionou o projeto de lei de Marcelo Crivella, que torna crime hediondo, com punições mais severas, a posse ou porte de armas de fogo de uso restrito das Forças Armadas, como fuzis e metralhadoras. É bom. É pouco. O Brasil tem muitas leis boas que são sumamente ignoradas.

Não basta haver lei, atributo do Legislativo. O Executivo e o Judiciário têm que garantir o seu cumprimento. É para isso que eles existem. É para isso que pagamos impostos. Infelizmente, nos próximos anos a Lei do Teto dos Gastos vai restringir o investimento em segurança (e várias outras áreas prioritárias).

É claro que não adianta somente proibir o cidadão comum de ter armas, e não combater o porte ilegal de armas, sua venda e contrabando. Para um país não ser violento, ninguém pode ter armas – nem o cidadão honesto, nem o criminoso.

E quando ninguém usa armas, a polícia também não usa – o que é a regra nos países seguros em geral. Na maior parte da Europa e no Japão, o policial normalmente não porta arma de fogo, só armas não-letais, como spray de pimenta, tasers, cassetetes. Caso ocorra uma situação extrema, é chamado um time especial para enfrentar o crime armado – um tipo de SWAT – esse, sim, portando armas de fogo e bem treinado para isso.

O Brasil está longe dessa realidade. Mas se outros países grandes, com população jovem, com grande desigualdade e baixa escolaridade, como a Indonésia e a China, conseguem diminuir drasticamente a violência, nós também podemos.

Basta a gente se espelhar nos países que venceram o crime: desarmamento total, punição dura para armas ilegais e tráfico de armas. E se preparar para um duro combate pela opinião pública, contra um lobby poderoso, contra interesses políticos, contra a demagogia e a ignorância. É esse o caminho e não há outro.

(Visite o site da Piseagrama)

Atiradores de Suzano são tratados como heróis em fórum de extremistas

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Os atiradores Luiz Henrique de Castro, de 25 anos e Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos ganharam status de heróis nos fóruns brasileiros disseminadores de ódio. Os chamados ‘Chans’. Nesta quarta-feira (13), os dois mataram 7 pessoas na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP). Um comerciante que trabalhava perto do local e era tio de um dos atiradores também foi assassinado. Luiz e Guilherme eram ex-alunos da escola.

Reportagem do portal R7 informou que Luiz Henrique e Guilherme integravam o Dogolachan, fórum que só é acessível na darknet. A matéria revela que os jovens recorreram ao fórum para pedir dicas de como executar o atentado na escola.

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O fórum 55chan também celebrou o massacre em Suzano (SP). Assim como o Dogolachan, o espaço costuma criar conteúdo de ódio contra mulheres, negros, pobres e homossexuais.

Alguns membros dos chans chegaram a lamentar o fato de Luiz Henrique e Guilherme não terem conseguido assassinar mais pessoas que o autor do Massacre de Realengo, em 2011. Na época, Wellington Menezes de Oliveira matou 12 crianças e depois cometeu suicídio.

Operação da Polícia Federal

Em maio de 2018, a Operação Bravata da Polícia Federal tentou desmantelar o Dogolachan. Na ocasião, os policiais prenderam Marcelo Valle Silveira Mello, apontado como fundador do Chan (relembre aqui).

Em dezembro de 2018, Marcelo foi condenado a 41 anos de prisão. O analista de sistemas pregava há vários anos a morte de mulheres, negros, gays e comunistas. Além disso, o extremista defendia abertamente a pedofilia e chegou a gerenciar páginas que traziam manuais sobre como “aplicar estupros corretivos em lésbicas” e violentar menores de idade.

Na ocasião, a professora universitária e militante feminista Lola Aranovich, uma das principais vítimas de Marcelo, comemorou a decisão: “Vitória e grande alívio! Marcelo Valle Silveira Mello, líder de quadrilha neonazista e misógina que me atacou durante 7 anos, foi condenado a 41 anos de prisão! Estou muito feliz”.

A prisão de Marcelo só foi possível porque Lola Aranovich passou quase uma década denunciando todas as ações de ódio e ameaças cometidas pelos membros dos fóruns contra ela. Foi do Dogolachan que partiram algumas das ameaças de morte que motivaram o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL) a desistir do mandato de parlamentar e sair do Brasil. Membros do Chan são denunciados no Pragmatismo Político desde 2012.

Saiba mais sobre o Dogolachan aqui

Planejamento do massacre

Um policial que investiga o atentado afirmou no início da noite desta quarta-feira que o atentado contra a escola em Suzano foi planejado durante um ano e meio. Segundo o policial, os atiradores conversaram sobre o ataque por meio de mensagens de texto. O teor das conversas não foi informado. Uma das linhas de investigação da Polícia Civil é a de que o tio de Guilherme tenha descoberto o plano da dupla e, por isso, os criminosos teriam feito uma “queima de arquivo”.

O carro usado pela dupla, um Onyx branco, foi alugado por Luiz Henrique, segundo nota da Localiza, em 21 de fevereiro, com devolução para o dia 15 deste mês. A polícia apreendeu dois cadernos escolares encontrados no carro, nos quais há desenhos. O material será analisado por investigadores.

Até o NY Times fala do elo entre clã Bolsonaro e milícias

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Por Gilberto Dimenstein, no Catraca Livre

O jornal “New York Times”, um dos mais influentes do mundo, destaca a coincidência de um dos suspeitos pela morte da vereadora Marielle Franco morar no mesmo condomínio que o presidente Jair Bolsonaro.

Apesar de não haver nenhuma ligação de Bolsonaro com o PM reformado Ronnie Lessa –acusado de ser o responsável pelos tiros que matou Marielle -, o jornal americano lembra do envolvimento do clã Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro.

“O Sr. Lessa foi detido em sua residência em um condomínio de luxo à beira-mar no bairro da Barra da Tijuca. O complexo fechado abrigava o presidente Jair Bolsonaro até que ele se mudou para a capital no início deste ano”, aponta a reportagem assinado pelos jornalistas Ernesto Londoõn e Lis Moriconi, destacando que os investigadores do caso não apontam conexão entre este fato e o assassinato.

A reportagem também aponta que “a família de Bolsonaro está sob escrutínio por seus laços profissionais e pessoais com suspeitos de atuar como milicianos.”

Trivial variado da terra de Cisco Kid

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“Segundo o Major Olímpio um tosco, chulo, imbecil, fascista da pior espécie, as vítimas dos assassinos do massacre na escola hoje só viraram vítimas fatais porque não estavam armadas. Na lógica desse retardado se todo mundo andar armado ninguém morre”. Cristina Andrade

“O problema é a liberação do porte de armas, mas é também a liberação da capacidade de matar, que vem sendo estimulada por tantos políticos, sobretudo o líder maior da nação. O problema é essa cultura da violência promovida diariamente”. Marcia Tiburi

“‘Cultura da violência promovida diariamente’, principalmente por aquele que deveria ser o pacificador da Nação. Preferiu ser um imitador barato do seu ídolo, o grande irmão do Norte.” Gerd Wenzel

“Neste novo Brasil, o professor vai ser um verdadeiro agente 007. Terá arma na cintura e uma câmera na mão, para filmar aluno cantando o hino. Se sobrar tempo, também dará aulas, mas isso é detalhe…”. André Rizek

“Não quero entrar na discussão, mas faço só uma reflexão pra quem diz que armas com professores e funcionários teriam evitado tragédia menor: se policiais, profissionais preparados para esse tipo de situação, morrem com tanta frequência em ações de risco, imagina nós os ‘leigos’?”. Antero Greco

“O facebook sumiu com as páginas dos assassinos de Suzano porque eram fãs de Bolsonaro! Aliás, o face está sob cyber-ataque de bolsobots!” Márcia Denser

“Eu nunca entendi o conceito de ‘cristão armamentista’ . Um dos 10 mandamentos é ‘não matarás’. Armas não servem para duas coisas. Só uma”. Leo Jaime

“Vamos colocar aqui as coisas como elas são,sem medo de ser acusado de politizar a tragédia de Suzano, mesmo porque tudo na vida é político…massacre absurdo de Suzano tem uma responsabilidade direta do incentivo ao ódio que o miliciano Bolsonaro prega diariamente! Isso é científico”. Adriano Argolo

“Independentemente da motivação que tenha levado ao Massacre de Suzano, ele acontece em meio a um crescente culto às armas de fogo e à violência como forma de resolução de conflitos no país”. Leonardo Sakamoto

Quando o mundo quase acabou na Belém de 1918

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Os anos dourados do ‘Belle Epoque Amazônico’, sonhado pelo dinheiro e a fama da borracha que, encerrou suas promessas nesta terra por volta de 1912, tinha ficado para trás. Belém padecia da falta de dinheiro, de empregos, e dos serviços públicos, que, nem de longe, repetiam a propaganda da gestão de Antonio Lemos.

Para aquela população miserável, a notícia de que a peste, ou algo similar, chegava de navio e pouco poderia ser feito era assustadora. Atendia pelo nome de “gripe Hespanhola”. Para se ter ideia do apocalipse que se aproximava, a tal gripe mataria até 50 milhões de pessoas, enquanto a Primeira Guerra que recém terminado, tinha matado menos de 20% disso.

Não era uma doença democrática, porque matava mais pobres que ricos que conseguiam tratamentos, mas era de alto contágio, o que ameaçava mesmo os quase intocados daquela sociedade desigual.

Quando a Influenza chegou a Belém, não era uma doença desconhecida. Os jornais, em meio a notícias da guerra, já apresentavam pequenas notas sobre o mal. O que parecia distante, batia a porta. No dia 4 de outubro de 1918, ancorava na cidade o vapor Ceará, vindo do Rio, com escalas trazendo 129 passageiros, dos quais 42 acometidos pela Influenza, tendo 12 adquirido entre o Maranhão e o Pará.

O que aconteceu em seguida e o resgate desta história está no livro que o historiador José Maria Castro Abreu Junior lança neste sábado, 16 de março, as 9:30 hs, na sede do Instituto Histórico e Geográfico do Pará , no Solar Barão do Guajará, ao lado da Assembléia Legislativa do Estado. O autor vai as profundezas de segredos pouco revelados, e serve de base para que se entenda, que nossos problemas de saúde atuais, tem raízes que a só a história ajuda a revelar. O ‘Vírus e a Cidade’ é uma daqueles livros que não podem passar despercebidos para quem quer, um dia, entender a dinâmica urbana de Belém.

Lançamento do Livro : ‘Vírus e a Cidade’
Data : 16 de março de 2019  – Hora :9:30 hs
Local: Instituto Histórico e Geográfico do Pará , Solar Barão do Guajará, Rua do Aveiro, 62- Cidade Velha
Contatos com o Autor José Maria Castro Abreu Junior – 91 98229-2662

Volta de Zidane reabre especulações sobre craques na mira do Real

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A volta de Zinedine Zidane ao Real Madrid intensificou no futebol europeu as especulações sobre como o time se reforçará para a próxima temporada. Nesta terça-feira, jornais de toda a Europa publicam reportagens citando os nomes de Eden Hazard, Kylian Mbappé, Paul Pogba e Neymar entre os alvos do clube merengue.

O presidente do Real Madrid, Florentino Perez, não fala abertamente sobre as intenções na janela de transferências de julho, mas o jornal “AS” publica hoje que foi feita a promessa de três reforços de peso para Zidane. O valor para a reformulação do elenco, segundo o jornal britânico “The Independent”, pode chegar a 300 milhões de euros (cerca de R$ 1,3 bilhão).

Um nome surge como alvo preferencial do Real para iniciar a remontagem: o do meio-campista Eden Hazard. O interesse do clube é antigo e o jogador já deu indicações de que gostaria de deixar o Chelsea para jogar na Espanha. Porém, a tendência é que os ingleses façam jogo duro, já que estão impedidos de contratar nas duas próximas janelas de transferência depois de serem punidos pela Uefa.

O histórico de contratações galácticas do Real Madrid abre espaço também para que Mbappé e Neymar entrem na órbita do Real. O próprio presidente Florentino Perez brincou sobre um possível interesse em um dos craques do PSG e disse que, se pudesse, levaria os dois para o Santiago Bernabéu.

O respeitado jornal francês “L’Equipe” publica hoje que a preferência de Zidane é por Mbappé. De acordo com a publicação, o atacante do PSG e Hazard seriam os dois astros que, juntos, dariam ao técnico francês a base técnica para a reconstrução que começará a colocar em prática. (Do UOL)

Atirador mais jovem era fã de Bolsonaro e fanático por armas

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Por Bárbara Libório e Daniel Salgado, da Época

Um amante de armas, um apoiador de Jair Bolsonaro, um fã de Walking Dead. É assim como se mostra nas redes sociais Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, um dos dois atiradores da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. Antes do tiroteio, o adolescente, que se identificava como “Guilherme Alan” no Facebook, publicou 30 fotos em que veste as mesmas roupas usadas no atentado, inclusive a máscara de caveira. Também aparece nas imagens portando uma arma e mostrando o dedo do meio. O perfil foi retirado do ar na tarde desta quarta-feira 13.

“Um amor: Armas”, “Eu Amo Armas” e “Portal Armas de Fogo” são algumas das páginas com as quais o jovem mais interagia. Ele costumava curtir fotos de armas de fogo e facas, arsenais de armas e vídeos de atiradores. Há um mês, ingressou no grupo  “Comércio e divulgação de facas artesanais #cutelaria em geral”. Com mais de 13 mil membros, o grupo é dedicado aos amantes das cutelaria, que discorrem sobre a fabricação de facas.

Outro traço constante em seu perfil é o apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Durante a campanha, Guilherme curtiu conteúdos como a mensagem “O meu candidato é apoiado pela polícia, o seu é procurado por ela”, que aparece junto a uma foto do presidente abraçado a policiais. Vários dos posts feitos na página oficial do presidente no Facebook também foram curtidos por ele. Em um, de 2018, Bolsonaro aparece comemorando o aumento da pena de prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da SIlva. Em outra, aparece em uma foto com Ueli Maure, presidente da Suíça.

A admiração se estendia a outros membros da família. Além de postagens da página oficial de Eduardo Bolsonaro, o jovem também interagia com conteúdos como uma imagem em que o filho do presidente aparece segurando uma arma de alto calibre com a frase “Às vezes me pego pensando, por que o MST nunca invadiu minha propriedade?”. A postagem é da página Bolsonaro Opressor 2.0.

Sobre a deputada Marielle Franco, assassinada no ano passado, Guilherme curtiu um post da página do delegado Roberto Monteiro que diz “trate bandidos como vítimas, e um dia a vítima será você”.

Além das cruzadas contra o feminismo e a favor do armamentismo, Guilherme se mostrava um jovem comum nas redes sociais. Com frequência, o adolescente comentava em publicações que falavam sobre a WWE, que produz programas de luta livre. Também curtia fotos sobre séries de televisão que assistia. Entre elas estavam Hannibal, protagonizada por Mads Mikkelsen, e principalmente o seriado Walking Dead, de quem Guilherme demonstrava ser bastante fã.

Não parava por aí: como qualquer adolescente, Guilherme também tinha seus gostos musicais. A banda canadense de rock Three Days Grace parecia ser sua predileta. O que mais aparecia em seu perfil, porém, eram os videogames. O jovem compartilhava imagens e curtia memes de games de tiro em primeira pessoa, como os da série Call of Duty e Ghost Recon.

Por outro lado, o jovem também dava indícios de que passava por problemas psicológicos. “Quando você faz uma piada sobre suicídio e todo mundo ri, mas na verdade é um relato sobre a sua vida”, diz uma postagem de 2018, da página Sadboys 1998, curtida por ele. Outra, da página “A Morte”, faz piada com pessoas que recusam convites para sair porque não têm autoestima para aparecer em público.

Geração perdida

Por Bárbara Libório, da revista Época

Ao menos nove crianças, incluindo dois atiradores, morreram em um tiroteio na escola estadual Raul Brasil, no Jardim Imperador, em Suzano, na Grande São Paulo, na manhã desta quarta-feira 13. Os atiradores, que, segundo o comando da Polícia Militar, tinham entre 20 e 25 anos, abriram fogo a esmo no horário do intervalo e mataram estudantes, uma funcionária do colégio. Logo em seguida, suicidaram-se. O total de baleados ainda não foi confirmado pelas equipes de resgate.

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A tragédia evidencia, mais uma vez, o risco de morte que acomete todos os jovens brasileiros. O número de crianças e adolescentes vítimas de armas de fogo aumentou 12% de 2012 a 2016, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde. No total, no período, foram 44.578 mortes causadas por agressões e lesões por disparos de arma de fogo de diferentes calibres. A maior parte das vítimas (61%) são crianças pretas e pardas: 31.200.

Com base nesses dados, a Fundação Abrinq realizou um levantamento em 2018 e mostrou que o número de homicídios de crianças e adolescentes por arma de fogo aumentou 113,7% em 20 anos. Apesar do aumento de números absolutos, o ritmo de crescimento desacelerou a partir de 2003, ano em que foi sancionado o Estatuto do Desarmamento, quando restringiu-se a posse e o acesso a armas no país. De 1996, quando começa a série histórica do SUS, a 2003, a média de crescimento do número de casos era de 3%. De 2003 a 2016, foi de 1%.

Segundo o conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Daniel Cerqueira, as razões para o aumento são várias. “Hoje temos 79 facções de narcotraficantes no Brasil, que trazem para dentro jovens cada vez mais novos”, diz. “Uma outra questão que me chama a atenção é que a sociedade nos últimos anos tem ficado cada vez mais transigente. Esse clima de polarização também contagia os jovens.”

Mas tudo seria diferente se eles não tivessem acesso às armas de fogo. “O jovem que ainda não passou pelo processo de aculturação, quando ele tem uma arma de fogo na mão, isso é perverso. A violência juvenil sempre existiu, mas seus efeitos são diferentes quando o jovem tem um arma de fogo”, explica.

Em um panorama mais amplo, o Atlas da Violência de 2018 mostra que, considerando a década 2006-2016, o país sofreu aumento de 23,3% nos casos de homicídios de jovens de 15 a 29 anos. Esses números não incluem apenas os casos de armas de fogo. Em 2016, foram 33.590 jovens assassinados, sendo 94,6% do sexo masculino.

Seja qual for o recorte dos dados a ser observado, o fato é que o jovem brasileiro morre em taxas muito elevadas. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil detém o sétimo maior índice de homicídios entre jovens em todo o mundo. Piores do que o Brasil, apenas Honduras, El Salvador, Colômbia, Venezuela, Iraque e Síria.

“Houve uma queda no número de homicídios depois do Estatuto do Desarmamento, de 2003 a 2007. Depois, voltou a crescer, justamente quando começa uma sabotagem do estatuto, com centenas de emendas parlamentares e o crescimento na licença de armas”, diz Cerqueira. Agora, com o decreto que flexibiliza a posse de armas de fogo, a violência pode aumentar. “Um ponto central que vai ter muitas consequências é essa politica irresponsável de facilitar o acesso a arma. Veremos mais casos como o de Suzano”, diz.

Acesso a armas é um dos grandes temas tratados pela literatura acadêmica. Assim como a avaliação da Fundação Abrinq, outros estudos norte-americanos também mostram que as armas de fogo são um perigo para as crianças e adolescentes. Nos Estados Unidos, os estados têm diferentes legislações para a posse e porte de armas. Onde as leis são mais flexíveis, o perigo é maior. Um estudo da Universidade de Stanford mostrou que as lesões relacionadas a armas são a segunda principal causa de morte de crianças nos EUA — elas são duas vezes mais comuns em estados com leis de armas mais brandas.

Um outro estudo mostra ainda que a maioria dos pais e cuidadores, incluindo os proprietários de armas de fogo, se mostram confiantes de que seus filhos são capazes de distinguir uma arma real de uma de brinquedo. As próprias crianças acreditam nisso. Mas quando foram mostradas lado a lado foto de armas de fogo reais e falsas, apenas 41% delas, com idades entre 7 e 17 anos, identificaram os dois corretamente.