Folha premia repórter que denunciou uso clandestino do WhatsApp na campanha

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Por Gilberto Dimenstein, no blog Catraca Livre

Jair Bolsonaro fez os mais variados tipos de ameaças e xingamentos à Folha de S. Paulo. Seus aliados lançaram uma guerra virtual ao jornal, disseminando os mais diferentes tipos de mentiras. Bolsonaro classificou a Folha como um jornal de Fake News. Disse que o jornal tinha acabado. E que não ganharia publicidade oficial.

Seu filho Carlos chamava o jornal de “Foice de São Paulo” para afirmar que seria uma publicação de esquerda. Um dos motivos dessa raiva foi uma reportagem sobre o uso clandestino do WhatsApp durante a campanha.

Neste domingo, o jornal deu um tapa elegante – e mostrou que está lixando com as ameaças.

Anunciou que o Grande Prêmio da Folha, que anualmente escolhe seus melhores repórteres, iria para Patrícia Campos Mello, responsável pela reportagem.

A repórter Patrícia Campos Mello foi um dos maiores alvos das milícias digitais de Jair Bolsonaro durante as eleições. Recebeu centenas de Fake News com montagens fotográficas, como se vê na imagem abaixo.

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Chegaram a vazar seu número de celular. Motivo: seu reportagem de como se usou clandestinamente o WhatsApp para ajudar candidatura de Bolsonaro.

Patricia foi escolhida para ganhar o Grande Prêmio de Jornalismo. Aqui a justificativa do jornal:

Ameaças de agressão e linchamento virtual por um lado. Por outro, mensagens de apoio e buquês de flores entregues na redação. Essas foram algumas das consequências para a jornalista Patrícia Campos Mello após a publicação da reportagem “Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp”. O texto acaba de vencer o Grande Prêmio Folha de Jornalismo 2018.

“A importância da matéria”, diz Mello, “foi revelar como são as campanhas de manipulação da opinião pública com fake news”. Reportagens subsequentes mostraram novos detalhes, como um contrato oferecido a um presidenciável para disparos em massa pelo serviço de mensagens.

Outros resultados foram o banimento das contas das agências citadas no texto e a abertura de três investigações. “As ameaças foram assustadoras, mas a solidariedade com meu trabalho de jornalista foi muito positiva”, avalia Mello.

O pânico dos militares

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Demétrio Magnoli, colunista da Folha, está a um milhão de anos-luz de ser considerado um esquerdista ou petralha – distância, claro, que não é obstáculo para bolsominions fanáticos –  que esteja “torcendo” contra o capitão Bolsonaro. Merece, portanto, redobrada atenção o que escreve hoje, sobre o lado “não tuitável” do atual governo: as suas relações com o círculo militar em que, cada vez mais, está contido.

Destaco alguns trechos:

A demissão de [Gustavo] Bebianno pode ser narrada em dois registros alternativos. Na linguagem do recreio do pré-primário: um chamou o outro de mentiroso, feio e bobo. No idioma compartilhado entre milicianos e facções do crime: um qualificou o outro como traíra, X-9. De um modo ou de outro, o evento veicula uma lição de ciência política: o governo Bolsonaro, na sua versão original, é um experimento patológico destinado a perecer sob o efeito das toxinas empregadas na sua concepção. Os militares finalmente entenderam isso.(…)

Militares que, diz ele, passaram do desprezo com que encaravam o capitão baderneiro para o pragmatismo de seu aproveitamento como aríete para delírios de volta ao poder:

Os chefes fardados entusiasmaram-se com uma candidatura que prometia recuperar a estabilidade econômica, exterminar a corrupção e destruir as cidadelas do crime organizado. A velha desconfiança dos políticos profissionais, os ressentimentos nutridos pelas comendas oficiais concedidas a Marighella e Lamarca, o sonho desvairado de restauração da imagem da ditadura militar contribuíram para o imprudente abraço dos militares ao candidato da direita populista.
Do desprezo ao entusiasmo — e deste ao pânico. O clã familiar dos Bolsonaro, permeado por loucas ambições, inclina-se à guerra palaciana permanente. As cliques do baixo clero parlamentar que rodeiam Lorenzoni e Bebianno prometem engolfar o governo em perenes disputas mesquinhas. Os dois ministros nomeados por Olavo de Carvalho, o Bruxo da Virginia, personagens atormentados por moinhos de vento puramente imaginários, fabricam crises fúteis em série. Segundo o diagnóstico dos chefes militares, o governo afunda sozinho na areia movediça sobre a qual apoiou seu edifício improvisado.

Magnoli critica a classificação do Governo como “fascista” – embora não a de autoritário – e chama atenção para sua inorganicidade, aliás, o reverso do que se pode dizer dos militares:

“Fascismo”? Bolsonaro não mobiliza camisas-negras ou falanges, exceto a militância virtual comandada pelo filho Carluxo que vitupera nos subterrâneos da internet. Um paralelo viável não é com Mussolini, mas com Rodrigo Duterte, o populista primitivo das Filipinas que contaminou suas forças policiais com as práticas do vigilantismo. No Brasil, um governo desse tipo está condenado à implosão. Daí, o alerta de pânico ativado pelos generais do Planalto.

Pânico, aí digo eu, que só a muito custo se contém diante da imprudência que nos colocou numa situação delicadíssima, na qual os militares estão diretamente – e a contragosto – envolvidos: a crise na Venezuela. Tudo isso em conta, não há como deixar de achar lausível a conclusão de Magnoli:

Que ninguém se iluda: está em curso a “intervenção militar” pela qual clamavam os patetas civis extremistas na hora do impeachment. 

(Do Tijolaço) 

Por que a PF não divulgou fotos dos R$ 100 milhões do “bunker” de Paulo Preto?

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Em tempos de inovação na política e combate ao crime, a Polícia Federal também inovou fazendo R$ 50 milhões de corrupção valerem mais do que uma corrupção de R$ 100 milhões. A análise é de Janio de Freitas, na coluna deste domingo (24), na Folha de S.Paulo. O articulista faz uma comparação da forma como o caso Geddel Vieira Lima (DEM -BA) vem sendo tratado pela corporação, comparado ao caso mais recente de Paulo Preto, agente de confiança do PSDB. 

Em setembro de 2017, agentes da PF encontraram cerca de R$ 51 milhões no apartamento de um amigo de Geddel Vieira Lima. O ex-ministro de Temer, vinha utilizando o apartamento há alguns anos, dizia, para guardar pertences do seu pai já falecido. As investigações que chegaram ao “bunker” aconteceram no âmbito de duas operações da PF: Cui Bono e Sépsis.

O ex-ministro está preso preventivamente desde 8 de setembro do ano passado e, em janeiro de 2019, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge pediu à Justiça uma condenação de 80 anos de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Sobre Paulo Preto, investigadores da última fase da Lava Jato, deflagrada na terça-feira (19), dizem que testemunhas disseram que o ex-diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A.) e operador do PSDB teria um “bunker”, onde estariam guardados mais de R$ 100 milhões que desviou em propinas. Preto chegava a colocar, de tempos em tempos, as notas para “tomar sol” e evitar bolor. Preto está detido desde a semana passada.

O que chama a atenção de Janio é que, no primeiro caso, a PF, que costuma não perder um momento de autopromoção, mostrou à imprensa “fotos de frente e de perfil” das malas e caixas de dinheiro, endereço e histórico da caverna, nomes e papéis dos colecionadores”. Já no segundo caso, não houve a divulgação de imagens, importantes para aumentar na população a repercussão do escândalo.

“Em tradução simplificada dessas distinções, para aplicação aos dois tesouros achados e respectivos tratamentos, basta relembrar que Geddel Vieira Lima e família são do MDB, ao passo que Paulo Vieira de Souza é gente de confiança no PSDB que a Polícia Federal —já por tradição notória — acoita desde o início do governo Fernando Henrique”, avalia.

“Não seria bom, porém, que nestes tempos de tantas e grandes inovações, com milicianos enfim prestigiados, dinheiro público do fundo eleitoral em bolsos sem fundo, filhos fazendo e desfazendo ministros, faltasse inovação na PF. Até demais”, completa o colunista ressaltando que “parte relevante do sistema que distinguiu o PSDB”, dentro das investigações da Polícia Federal e da Lava Jato, o ex-juiz Sérgio Moro, é agora ministro da PF.

O colunista, destaca, ainda, que Moro entregou a chefia do “combate ao crime organizado” da PF para Igor Romário de Paula. “Delegado e apoiador de primeira hora do então candidato do PSDB, Aécio Neves, dele fez propaganda nas redes de internet em ostensivo desacato ao regulamento da PF e do funcionalismo público –mas seguro da impunidade”. “Está entendido, assim, como R$ 50 milhões da corrupção valem mais do que uma corrupção de R$ 100 milhões”, conclui. Para ler a coluna de Janio de Freitas na íntegra, clique aqui.