Imprimam e colem na parede

Por Leandro Demori – The Intercept_Brasil

Toda a situação envolvendo a família Bolsonaro com Fabrício Queiroz teve um desfecho que complica, e muito, a história. Como todos devem saber, homens acusados de participação no assassinato de Marielle e Anderson foram presos. E o que descobriu-se com as prisões é uma teia muito mais tenebrosa e complexa do que se imaginava.
Eu vou explicar.
Mas, antes, vamos lembrar de uma coisa importante: na semana passada, nós publicamos a história do principal suspeito do assassinato de Marielle Franco. Poucos dias depois, a polícia foi atrás de diversos milicianos, prendeu alguns, mas o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega segue foragido. Ele era o homem por trás da história que demos e que, agora, está atualizada.

Então, o que descobrimos com a prisão dos suspeitos milicianos de um grupo extremamente violento e profissional chamado Escritório do Crime? Que a mulher de Adriano trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro.

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Mais: que a mãe de Adriano também trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro. E que ela depositou dinheiro na conta de Fabrício Queiroz, amigo íntimo dos Bolsonaro, ex-assessor e o operador de um esquema milionário e ainda sem explicações.
Essas descobertas derrubaram a tese de que a lama que escorre em Flávio Bolsonaro não teria nada a ver com o pai. Pois foi Fabrício Queiroz quem depositou dinheiro na conta da primeira dama Michele Bolsonaro, e é aqui que as histórias se juntam.
Acontece que o dinheiro não era da Michele, mas do Jair Bolsonaro, como o próprio presidente declarou. “Eu podia ter botado na minha conta. Foi para a conta da minha esposa, porque eu não tenho tempo de sair. Essa é a história, nada além disso”, afirmou Jair, alegando um “empréstimo”, sem mostrar nenhuma prova (empréstimos precisam ser declarados no IR, como todos sabem).
Em se confirmando que Queiroz era o operador de um esquema ilegal que faturou milhões de reais (funcionários fantasmas? milícias?), teremos o presidente da República afirmando que recebeu dinheiro do operador desse esquema, sem comprovar, até agora, o motivo.
Os Bolsonaro defendem as milícias há muitos anos. Flávio queria até mesmo legalizá-las.
Jair disse que eles faziam a “segurança das comunidades”, em um tom que fazia parecer que criticar milicianos era algo injusto. Nessa fala pública, o presidente praticamente descreve a máfia italiana em sua defesa das milícias: alguém que tem uma arma e que “organiza a segurança da vizinhança” em troca de dinheiro. Na verdade: me pague pra que eu não faça mal a você. Extorsão pura, um dos mais antigos crimes das máfias mundiais.
Nascidos sob a aura de proteção das comunidades contra o tráfico, os grupos de “autodefesas comunitárias” foram encorajados por políticos como Bolsonaro, cresceram e se tornaram o que vemos hoje: concorrência que bate de frente com as facções de traficantes pelo controle de uma mina de ouro. Tudo isso ao custo de muito sangue. Milícia não é segurança comunitária, milícia é crime.
Os “seguranças comunitários” se tornaram senhores da vida e da morte, explorando um modelo de negócios baseado em extorsão e exploração clandestina de serviços como gás, luz, televisão a cabo e as vans do transporte alternativo. E obviamente também tráfico de drogas e armas.
Esse rolo é imenso. Já teve presidente da República caindo por muito menos. E parece que alguém já está botando as asas de fora.

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