Se Bolsonaro quer selva, nós temos Silva

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Por Gustavo Conde

A América do Sul é perfeita geopoliticamente para se produzir uma guerra sangrenta entre seus países. Uma guerra entre Brasil e Venezuela mobilizaria a intervenção direta dos americanos e daria a eles um novo mercado para venda dos armamentos de segunda classe em início de sucateamento e precisando ser desovado.

Daria também o controle das novas fontes de petróleo. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo (300 bilhões de barris comprovados). O Brasil tende a ter riqueza similar em seu litoral.

Povos sucateados por mídias truculentas e acumuladoras de poder e ódio começam a permitir que essa maldição nos chegue com extrema rapidez e violência retórica. Bolsonaro é tudo o que a indústria armamentista americana sempre sonhou: um elemento político fortemente desestabilizador.

Alinhado às Forças Armadas, o bolsonarismo é o nosso suicídio coletivo em escala continental, com bases no fundamentalismo charlatão (a América do Sul é famosa por seus suicídios coletivos calcados em fundamentalismo extremista, haja vista o que o líder religioso Jim Jones fez na Guiana em novembro de 1978, levando 918 discípulos a cometer suicídio).

Agora, não serão 918. Serão milhões. De início, são indígenas, negros, comunidades LGBT, trabalhadores, idosos, crianças e as vítimas de sempre da testosterona assassina dos machos brancos e velhos: as mulheres. O grau de violência institucional que já está vigendo no Brasil é absolutamente sem precedentes. O lawfare, até aqui praticado contra o PT e as esquerdas, será ampliado para toda a população. É a isonomia do holocausto.

Com um infiltrado direto do governo americano no Ministério da Justiça, a tempestade perfeita para o patrocínio de uma guerra insana, duradoura, assassina, geopolítica e doméstica está mais do que dado.

O Brasil é vanguarda nessa nova ordem do horror explícito. Antecipou as fraudes eleitorais via plataformas digitais que irão varrer os países mais fragilizados institucionalmente – e as graves apreensão e atenção internacionais estão voltadas para os países africanos. Para ganhar uma eleição hoje, basta ter um péssimo caráter associado a empresários de índole siamesa. Conduzir o povo como gado – prática que começou a ser combatida no início do século 21 – voltou a ser uma espécie de esporte pequeno-burguês, fetiche interrompido decorrente de frustrações intelectuais de toda a sorte.

Trump e Bolsonaro são a expressão máxima dessa tendência. O complexo de inferioridade intelectual de ambos faz lembrar os insetos alienígenas dos “Homens de Preto”, filme de Barry Sonnenfeld (1997): imagine um inseto gigante que anda em bando devastando ecossistemas inteiros, de posse um imenso complexo de inferioridade.

O complexo de inferioridade é extremamente tóxico porque é ele o elemento que leva as pessoas à violência. A violência é a falta de conteúdo e do argumento (e da civilidade). Ao não saber como disputar espaços políticos nem espaços sociais, os segmentos ultraconservadores optam pela violência física e retórica que, por sua vez, está associada a incapacidades motoras básicas (a linguagem é também uma atividade motora, caso alguém não saiba).

Cúpulas militares também padecem, em seu DNA, desse complexo fundamental. Como é, em essência, um universo de força bruta, a caserna traduz “inteligência” em sua semântica interna como “estratégia”. A incompreensão do limitado general Heleno sobre a impaciência de Dilma Rousseff – leitora de Flaubert, Proust e Guimarães Rosa – com relação à “inteligência” do serviço institucional do governo retrata essa assimetria cognitiva elementar: para ele, ‘inteligência’ seria um valor incontestável, pleno de significação a priori – uma ingenuidade quase infantil.

No exército, ‘inteligência’ é sinônimo de ‘estratégia’. Não há ali – e em tese nem deveria haver – um trabalho intelectual. ‘Pensar’ para um general é sinônimo de ‘hesitar’. Claro que há exceções, como, por exemplo, o Almirante Othon, cientista que criou uma das mais avançadas  tecnologias do mundo para centrífugas e para o enriquecimento de urânio. Talvez, por isso mesmo ele tenha sido preso pela Lava Jato: um militar que ‘pensa’ é uma ameaça ao sistema que ‘pasta’ na grama árida da manutenção do poder e dos privilégios.

Vida difícil a do Brasil e dos brasileiros. Somos o grande laboratório para os experimentos bestiais do mercado financeiro associado à truculência militar americana (e brasileira). Aí, as ‘estratégias’ militares funcionam. O que houve na nossa eleição não foi um debate democrático, foi um dispositivo militar de comunicação de guerra.

O bolsonarismo não conquistou eleitores. O bolsonarismo ‘arregimentou soldados’, no plano virtual – posteriormente alastrado para a dimensão social. A adesão a Bolsonaro foi um grande “game”, uma espécie de Baleia Azul, jogo “recreativo” de uma rede social russa que levava participantes ao suicídio, o grande desafio final.

A lógica foi – e é – essa. É gostosinho trollar esquerdistas que acham que vão salvar o mundo. Já que salvar o mundo é impossível – sic – eu aniquilo aqueles que dizem que querem salvá-lo, reivindicando valores consagrados da Revolução Francesa, essa fraude histórica – sic.

Noves fora a burrice embutida nesse gesto, devo dizer que trata-se de um gesto discursivo extremamente sedutor. Às vezes, a gente esquece que a maioria da população brasileira não é politizada. Não são 210 milhões de cientistas sociais que ostentam uma percepção aguçada dos movimentos políticos, ideológicos e históricos.

Nossa cena política foi infantilizada e há um evidente gozo generalizado em participar dessa infantilização. Quem não quer voltar a ser criança? De quebra, ainda sobra um delicioso movimento de des-responsabilização: o eleitor de Bolsonaro está se lixando para o país e para si mesmo. A psicologia dele, básica e rudimentar, é: tiramos o socialismo.

É o princípio básico do desejo lacaniano: não deseja-se algo, mas deseja-se o desejo do outro. Os bolsonaristas querem “brincar” de governar. É a criança que quer o brinquedinho da outra, não para brincar com ele, mas para tirá-lo das mãos daquele outro que lhe perturba, justamente pela alegria embutida em seu gesto de “brincar”.

A cena é complexa e não comporta simplismos. E o mais preocupante é que a análise política brasileira, atrofiada anos a fio por uma imprensa tradicional que ainda vive nos anos 90 (da história, da tecnologia e do mundo político) tem se mostrado de péssima qualidade. Eles lidam com pressupostos quase tão atrasados quanto os do bolsonarismo. Seria alvissareiro se a questão fosse apenas compreender o modus operandi do discurso desse segmento fundamentalista. Mas é trágico se se pensar que há toda uma nova tecnologia da informação implicada nesse movimento de retrocesso – sim, é paradoxal.

O bolsonarismo, com seu infernal complexo de inferioridade, encarna, portanto, o tempo desafiador das graves crises existenciais – e não só políticas. O bolsonarismo é a expressão da devastação subjetiva contemporânea que leva as pessoas a praticarem atos contra a vida humana sem qualquer motivação aparente (a motivação é a falta de motivação – para viver, para pensar, para amar).

Os atentados recentes em Nice, Berlim, Rio de Janeiro e em diversas cidades dos EUA, são dessa natureza. Não são atentados terroristas porque não têm viés político. Nem de vingança pessoal (como o assassinato de Moa do Katendê, por exemplo, justamente por um bolsonarista). São atentados contra a civilização que os oprime, com essa exigência do pensar, do amar e do existir.

Bolsonaro pratica exatamente esse atentado contra a civilização. Na impossibilidade de pegar um ônibus e sair atropelando a multidão, ele decidiu ser presidente da república para jogar seu cérebro desgovernado contra a população inteira de um país.

Por farra. Por ódio. Pelo vazio existencial que o faz criar mentiras infinitas e viver furiosamente no berçário infantilizado dessas mentiras que, por sua vez, ganham contornos de realidade para ele e para seus seguidores (Bolsonaro não têm eleitores, tem seguidores).

Prognósticos tétricos para um país que, por alguma razão, preferiu seguir esse caminho: o caminho da destruição total para eventual reconstrução posterior – que irá custar muitas vidas, sonhos, projetos e desejos.

Não posso deixar de concluir esse texto com a retificação básica de um não cético: se a Alemanha nazista não conseguiu resistir à ascensão de Hitler, diante de sua vitória eleitoral, o Brasil, esse eterno ponto fora da curva, pode ser vanguarda até nisso.

Explico: os alemães dos anos 30 não tinham um Lula. Nós estamos em um movimento invertido: nós experimentamos a civilização antes dessa onda infame de barbárie. Nós sentimos o gosto de ser uma sociedade admirada pelo mundo inteiro, de produzir a nossa tecnologia, a nossa soberania, a nossa democracia vibrante, a nossa subjetividade, a nossa identidade.

Essa memória pode ser reativada à menor brisa de esperança, ganhando o protagonismo político como sói acontecer quando se deixa a história avançar em seu curso natural das superações dos traumas e das tragédias.

Se Bolsonaro quer o ódio, nos temos amor. Se Bolsonaro quer morte, nós temos vida. Se Bolsonaro quer medo, nós temos coragem. Se Bolsonaro quer dogma, nós temos argumento. Se Bolsonaro quer estratégia, nós temos inteligência. Se Bolsonaro quer mordaça, nós temos liberdade. Se Bolsonaro quer humilhação, nós temos altivez. Se Bolsonaro quer clichês, nos temos densidade. Se Bolsonaro quer bala, nós temos povo. Se Bolsonaro quer tortura, nós temos dança. Se Bolsonaro quer puritanismo, nós temos tesão. Se Bolsonaro quer censura, nós temos arte. Se Bolsonaro quer o silêncio, nos temos voz.

Se Bolsonaro quer selva, nós temos Silva.

(Este artigo é dedicado ao rabino Alexandre Leone)

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