Mourinho está virando Luxemburgo?

Por Renato Maurício Prado

Em que momento um treinador de ponta perde a mão e se torna superado? Fiquei me perguntando isso ao assistir, ontem, à indiscutível vitória do Liverpool sobre o Manchester United, por 3 a 1, que faz uma campanha indigna de sua história e do elenco estelar que possui.

Seu técnico (demitido hoje), o polêmico português José Mourinho, que já foi conhecido como “The Special One”, vive, há algum tempo uma espécie de inferno astral, que parece impedi-lo de montar uma grande equipe, mesmo tendo à disposição o maior orçamento do futebol mundial, à frente do Real Madrid, do Barcelona, do Bayern de Munique e do Manchester City.

Em meus mais de 40 anos de carreira, já vi vários treinadores perderem a mão e o rumo. O caso mais emblemático, no Brasil, é o de Vanderlei Luxemburgo, que até hoje encabeça a lista dos maiores vencedores do Campeonato Brasileiro, com cinco conquistas, mas há anos não consegue emplacar um trabalho decente e parece já esquecido pelo mercado – seu nome só continua a aparecer nas listas de possíveis contratados dos grandes clubes por causa da amizade que cultiva com vários jornalistas. Na prática, ninguém mais o quer.

Desconfio que Mourinho, como Luxemburgo, perdeu o respeito dos novos jogadores. Por pura empáfia, treinadores como eles não conseguem ver que o mundo mudou e, com ele, seus comandados.

Na época áurea de Vanderlei, no Cruzeiro, em dia de decisão, ele entrava no vestiário com uma fralda e uma faixa de campeão na mão e perguntava o que seu time usaria ao final da partida. “Vão se borrar ou levantar a taça?”, reforçava, com voz inflamada.

Anos depois, usando discurso semelhante, provocou risos debochados de Ronaldinho Gaúcho, no vestiário do Flamengo, e pouco depois acabou demitido numa queda de braço com o jogador.

Brigar com as estrelas do elenco costuma ser também um sinal de decadência e tentativa inútil de se afirmar diante dos mais jovens. No Manchester United, por exemplo, Mourinho resolveu colocar no banco de reservas dois de seus principais craques: o francês Paul Pogba e o espanhol Juan Mata. No momento, seu agora ex-time ocupa apenas a sexta colocação na tabela de classificação, 19 pontos atrás do líder Liverpool e 18 do Manchester City.

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Não à toa, o prestígio do outrora “Special One” está em queda livre e hoje em dia na Europa ele é considerado muito inferior ao alemão Jurgen Klopp e ao espanhol Pep Guardiola. Sua demissão do United parecia questão de tempo e o nome do francês Zinedine Zidane já é cotado para o seu lugar.

Conseguirá o convencido português dar uma volta por cima, como acaba de fazer por aqui, Luiz Felipe Scolari, ou estará fadado ao triste fim de Vanderlei Luxemburgo? Façam suas apostas.

Demarcação de Raposa do Sol não pode ser revista

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O presidente Jair Bolsonaro não pode rever a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, conforme anunciou ontem (17). Esse é o entendimento do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto, que relatou a ação que reconheceu os direitos dos indígenas sobre o território em 2009. “A decisão transitou em julgado. Foi uma decisão histórica. Para os índios, é direito adquirido”, disse o ex-ministro ao colunista Bernardo Mello Franco, de O Globo.

Bolsonaro confirmou nesta segunda-feira que prepara um decreto para rever a demarcação. “É a área mais rica do mundo [a Raposa Serra do Sol]. Você tem como explorar de forma racional. E no lado do índio, dando royalty e integrando o índio à sociedade”, afirmou o presidente eleito.

Ayres Britto ressalta que o assunto já foi “exaustivamente” tratado pelo Supremo, que estabeleceu 19 salvaguardas antes de decidir a favor dos índios no conflito com os arrozeiros.

“Tivemos o cuidado de conciliar os interesses dos índios com os interesses nacionais. Não há motivo para rever nada, nada, nada”, afirma o ex-ministro. “As terras indígenas pertencem à União. Qual é o perigo para a soberania nacional? Nenhum”, defende.

De acordo com as salvaguardas do Supremo, “o usufruto dos índios não alcança a pesquisa e a lavra das riquezas minerais” e as Forças Armadas não precisam consultar os índios ou a Funai para atuar na região. “Ficam dizendo coisas imprecisas, e até equivocadas, para projetar antipatia contra os índios”, diz Ayres Britto. “Depois que o Estado paga uma dívida histórica, civilizatória, ele não pode mais estornar o pagamento e voltar a ser devedor”, observa.

Para o ex-ministro, quem defende a revisão dos direitos dos indígenas sobre suas terras demonstra que não compreende a Constituição. “O índio não deixa de ser índio porque usa uma calça jeans. A lógica da Constituição não foi substituir a cultura dos índios pela dos brancos. Foi somá-las. Quando a pessoa não entende a lógica da Constituição, fica difícil”, critica.

Bolsonaro disse a deputados na semana passada que não demarcará “um centímetro quadrado a mais de terra indígena”. “Os índios foram desalojados e usurpados. O que sobrou deles foi muito pouco, e mesmo assim não conseguem ocupar suas terras”, afirma Ayres Britto. “A sociedade brasileira é muito conservadora. Persegue negros, mulheres, índios. Nós conseguimos dar um passo à frente, e agora querem botar um pé atrás”, lamenta o ex-presidente do Supremo.

Raposa Serra do Sol é uma área de terra indígena com 1,7 milhão de hectares. Em 2009 o Supremo pôs fim a uma disputa judicial entre a União, o estado de Roraima e produtores de arroz ao confirmar a demarcação da reserva. Houve confrontos entre arrozeiros e indígenas. A região é ocupada pelos grupos ingaricó, macuxi, patamona, taurepangue e uapixana. O Brasil tem atualmente cerca de 600 terras indígenas, que abrigam 227 povos, com um total de aproximadamente 480 mil pessoas. Essas terras representam 13% do território nacional, ou 109,6 milhões de hectares. (Do Congresso em Foco) 

“Bohemian Rhapsody”: o filme do Queen é melhor que a banda

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Por Roger W. Lima

Eu era menino e estava na sala de estar ouvindo as revoluções criadas em minha cabeça por Beatles, Dylan e Stones quando meu irmão Ricardo apareceu com um disco branco de uma banda nova chamada Queen (devia ser por volta de 1976 ou 77). Algumas faixas me impressionaram pelo vigor e a diferente sonorização como, “Bohemian Rhapsody”.

Era algo meio parecido com os discos de música clássica de meus pais, misturado com uma guitarra vigorosa, coisas que curtia ouvir em demasia bem garoto.

Não fiquei pegado, não me comoveu, não virei para meu irmão e disse “pusta som, hem?!?!”. Mas observei algo diferente nos caras. Nada como a sensação que tive ao ouvir The Clash (London Calling) ou David Bowie (Heroes) ou Loki do Arnaldo Baptista.

A vida seguiu e o Queen cavou seu espaço na história do rock com competência e profissionalismo ímpares. Quando chegou aos cinemas o tão badalado e incensado “Bohemian Rhapsody”, resolvi tirar a limpo esse hiato histórico de minha formação.

O filme é poderoso, com requintes e detalhes da reconstrução da história da banda e principalmente de seu cantor Freddie Mercury —  ou Farrokh Bulsara (de uma família de migrantes oriundos de Zanzibar, residente em Londres), estudante de arte e com uma auto estima acima do convencional, somados ao apreço de gosto duvidoso pelo dramalhão operístico.

Algo que se confirmou para mim ao longo do filme: a química de um grupo de “nerds universitários” adicionada a um artista de assinatura inconfundível fazem do Queen uma banda de obra singular, beirando o cafona em alguns momentos.

Freddie, um grande performer, com poder vocal indiscutível e um carisma glamouroso e afetado, se somava às qualidades do baterista Roger Taylor (ex-futuro dentista), o talentoso guitarrista Brian May (ex-futuro astrofísico ) e o equilíbrio do baixista John Deacon (ex-futuro engenheiro elétrico) em um amálgama vigoroso.

Como diria Rita Lee, “esse tal de rock and roll” criou e pode fazer fortunas e egos descontrolados. Freddie não foi uma exceção à regra.

Seu talento foi do tamanho de sua ambição e ele virou ídolo também de pessoas oprimidas pelo preconceito e não aceitação da sua sexualidade. O fantasma do HIV começaria a ceifar vidas de maneira cruel e Freddie virou referência de resistência.

O drama estava completo e a peça operística tomava lugar no mundo real: Freddie estava no centro do palco vigoroso e soberano. A Rainha deveria brilhar!

O Live Aid abre e termina o filme de maneira épica. Enquanto outras estrelas e bandas sobem ao palco em tom caridoso e descompromissado, o Queen sobe ao palco com a faca nos dentes, ensaiado e pronto para fazer história. A atuação segura do ator Rami Malek fazem do filme um blockbuster fenomenal.

Mas a minha impressão continua a mesma: o filme é maior que a banda.

Manchester dispensa José Mourinho

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José Mourinho foi despedido do comando técnico do Manchester United e deixa alguns recordes negativos no “Teatro dos Sonhos”. Para além do atual sexto lugar na Premier League, a 19 pontos da liderança, os “red devils” nunca tiveram tão poucos pontos na 17ª jornada. São apenas 26, a pior pontuação de sempre do clube.

A defesa também não tem estado afinada e o United nunca tinha sofrido tantos golos. Os 29 sofridos na temporada 2018/2019 fazem da equipe que Mourinho liderava a pior defesa de sempre no campeonato inglês, segundo dados do “Playmakerstats”.

A Taça da Liga já não poderá ir para o museu do emblema de Manchester: Mourinho foi eliminado pelo Derby County de Frank Lampard nos pênaltis.

Na Liga dos Campeões, o objetivo da passagem aos oitavos de final foi cumprido e agora os “red devils” vão defrontar o PSG, já sob a orientação de novo treinador.

Mourinho estava no Manchester United desde maio de 2016. Em sua primeira temporada com o clube britânico, o treinador português conquistou três títulos: Supercopa da Inglaterra, Copa da Liga Inglesa e Liga Europa.

Apesar disso, o United não começou bem a atual temporada e Mourinho não resistiu. O clube ocupa apenas a sexta posição da tabela de classificação do Campeonato Inglês, com 26 pontos somados em 17 partidas, sendo sete vitórias, cinco empates e cinco derrotas. Na última rodada, Mourinho viu o Manchester United perder para o Liverpool por 3 a 1.

Ainda de acordo com o clube, o técnico interino será nomeado até o final da temporada atual, enquanto os dirigentes do clube iniciam um “processo de recrutamento” para um novo treinador.