O médium, a pastora e o capitão messias

Por Edir Macedo/Facebook

Por Céli Pinto (*)

Os três personagens do título podem ser analisados partir de várias entradas: caráter; saúde mental; charlatanismo político. Mas vou deixar a tentação de falar deles de lado, porque estou convencida de que o mais importante é entender as razões do sucesso e da popularidade desses personagens no Brasil do século XXI.

Por que grande quantidade de pessoas, de diferentes origens sociais, culturais ou ideológicas, iam até Abadiânia em busca de solução para seus problemas? Por que imensos templos estão lotados, ouvindo pessoas descontroladas que ameaçam as congregações com o demônio, se dizendo ungidas por Deus para com ele ter interlocução direta? Por que 56 milhões de brasileiros e brasileiras votaram um em candidato para a presidência da República que nunca disse a que veio e, nas raras vezes em que se manifestou, falou de violência e de cortes de direitos que atingem os mais pobres, os menos protegidos, as mulheres, os negros, os sem terra, os indígenas, a população LGBT, todos e todas que dependem de políticas sociais para sobreviver?

Alguma razão explica a facilidade com que o médium, a pastora e o capitão messias interpelam grandes massas com tanta facilidade? Explicar por que as pessoas buscam e acreditam no médium talvez possa ser um modelo para entender a congregação que ouve a pastora e os que elegeram o capitão messias. As pessoas que chegam ao médium podem, em sua imensa maioria, ser divididas em dois grandes grupos: ou estão em grande sofrimento psíquico ou com uma grave enfermidade que as deixam muito próximas da morte. Nas duas situações há uma desorganização importante nos discursos que lhes organizavam a vida. Antes de chegarem ao médium, foram sujeitos de discursos amorosos, de discursos da meritocracia, da vida saudável. Mas, em um certo momento, pode haver um radical desencaixe discursivo: as pessoas não se sentem acolhidas como sujeitos e como agentes de nenhum desses discursos. O mesmo acontece com os que são acometidos de graves enfermidades, quando enfrentam a finitude, e a ciência médica não mais lhes garante a vida. Como todos vamos morrer, parece óbvio que, em um certo momento, a ciência não nos garantirá a vida, mas isto fica muito longe do razoável, quando atinge a subjetividade de cada um.

Este sujeito desencaixado, que não encontra lugar para sua sobrevivência psíquica ou da própria vida nos discursos que fizeram sentido ao longo de sua existência, identifica no discurso místico, do milagre, do transcendental, a possibilidade de reordenar a vida e reconstruir o seu lugar de sujeito. E isto é conseguido pelas mãos do médium. É tão forte este tipo de discurso que até os mais céticos, frente a um tipo desclassificado como João de Deus, às vezes não têm coragem de apontar a fraude.

O mesmo desencaixe discursivo parece explicar as grandes congregações pentecostais, este evangelismo de resultados que prolifera nas cidades brasileiras. Nesta circunstância, às crises desestruturantes do eu psíquico soma-se a crise dos discursos que relacionam o pertencimento de cada um à sua comunidade de sentido.

Os fiéis são migrantes de zonas pobres ou rurais que estão desenraizados nas grandes cidades; são pais, mães e filhos sem ferramentas para enfrentar novos arranjos familiares e novas formas de vida; são trabalhadores e trabalhadoras para os quais o mundo do trabalho fecha as portas. Os discursos pentecostais do bem contra o mal, a possibilidade da redenção no encontro com o divino em um árvore frutífera livra os crentes da ameaça de topar com o poderoso satanás a cada esquina e reorganizada assim a vida, dando uma certeza para cada ato da vida, nas relações afetivas, na família, no trabalho. O mundo complexo e discursivamente anárquico é trazido à transparência através de certezas expressas em mantras repetidos em transe em grandes templos, sob o comando de algum iluminado que diz ter íntima relação com o divino.

Estes momentos místicos, representados pelo médium e pela pastora, são recorrentes na história da humanidade e dizem muito da relação dos humanos com sua própria condição de seres conscientes de sua finitude e insignificância frente ao tempo do universo. A novidade é o comércio da miséria humana sob a forma capitalista. Médiuns, pastores e outros quaisquer, capazes de articular o discurso da esperança, facilmente se tornam parte da classe dos novos milionários do capitalismo financeiro global, pessoas com imensas fortunas que não têm qualquer relação com o sistema produtivo, mas são parasitas que podem ser agrupados sob o rótulo de celebridades.

Mas o fenômeno da implosão discursiva não para no surgimento do médium e da pastora, ele também dá pistas para explicar fenômenos como o capitão messias, eleito presidente do Brasil.

Antes de avançar no argumento, uma rápida digressão. Seria cômodo atribuir a vitória do capitão ao crescimento mundial de uma ideologia política de extrema-direita. Mas, mesmo sem desconsiderar o cenário internacional, as questões internas apontam para muitas possibilidades explicativas, entre elas a que se relaciona, por décadas, ao êxito do médium ou à ascensão da pastora.

De 2013 a 2018, o Brasil viveu um continuo esgarçamento do conteúdo do discurso que lhe deu sentindo desde a redemocratização na década de 1980. Das chamadas jornadas de junho, em 2013, às eleições de 2018, um conjunto de acontecimentos estraçalhou os discursos políticos que davam sentido à jovem democracia brasileira, transformando-os em centenas de fragmentos dispersos, sem articulação. Alguns acontecimentos se destacam do conjunto: a memória recente dos escândalos de corrupção que envolveram os governos Lula desde 2005 e minaram a capacidade de interpelação do discurso petista; a ruptura do PSDB com o pacto democrático, não aceitando o resultado das eleições das urnas em 2014 e liderando o movimento que provocou a queda da presidenta Dilma Rousseff em agosto de 2017; a criminalização da política através da operação Lava Jato, que combinou o estrelismo de um juiz e alguns procuradores e com a transformação de uma figura execrada na história brasileira em herói: o delator.

De um país com dois partidos muito bem estruturados, o PT e o PSDB, que se alternavam na presidência da república, com partidos de centro circulando ao redor dos grandes e pequenos partidos nos dois extremos que montavam o quadro, o discurso político brasileiro se reduziu a um amontado de ladrões disputando as melhores fatias das riquezas nacionais. O resultado mais pungente foi a desqualificação da política e a morte do sujeito político, o eleitor da democracia, que se forjara desde a década de 1980.

Nada é mais forte para descrever este sujeito perdido do que fotos das manifestações de rua, quando frequentemente se pode ver um cidadão sozinho, com um cartazete feito à mão em que está escrito: “Eles não me representam”. Estas circunstâncias asseguram as condições de emergência ótimas para o discurso simplificador, que reorganiza o sujeito a partir de consignas violentas, interpelando os sentimentos mais emocionais possíveis, de vingança, de medo à diferença, trazendo para a linha de frente militares e pastores, revivendo medos atávicos da população brasileira (como o contra o comunismo, seja isto o que for na cabeça de cada um). Prometendo morte e cadeia para contraventores que provocam a violência urbana ou roubam os cofres públicos, o capitão messias interpela a população através do discurso da ordem, que parece colocar cada significado em seu lugar, sem deixar possibilidade para a dúvida, desejando convencer a todos de que estaremos longe do mal para sempre.

O médium, a pastora e o capitão messias são as respostas à desorganização discursiva frente à morte, a solidão, a descrença nas soluções políticas. Todos organizam sujeitos em crise, todos têm soluções mágicas e fáceis. Todos contam com a benevolência das instituições estabelecidas, com a boa vontade de muitos que nem creem no médium, na pastora, ou no capitão messias.

(*) Professora Titular do Departamento de História da UFRGS.

“Maduro jamais iria à posse de um fascista”, diz chanceler da Venezuela

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O ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, desmentiu neste domingo (16) o futuro chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e disse que o presidente Nicolás Maduro foi convidado para a posse do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro. “O governo socialista, revolucionário e livre da Venezuela não assistiria jamais à posse de um presidente que é a expressão da intolerância, do fascismo e da entrega de interesses contrários à integração latino-americana e caribenha”, diz o chanceler venezuelano.

O futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou neste domingo em sua conta no Twitter que Maduro não foi convidado para a posse de Jair Bolsonaro em 1º de janeiro, em Brasília. Segundo o futuro chanceler, “não há lugar para Maduro numa celebração da democracia e do triunfo da vontade popular brasileira”.

O passado é uma parada

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Zico, Grande Otelo e Sócrates. Um registro feliz, em 1979, de três grandes personalidades brasileiras. O Galinho e o Doutor eram craques inquestionáveis dos clubes mais populares do país. Ambos aparecem ao lado do ator Grande Otelo, ícone do cinema e do teatro, nesta sessão especial de fotos para uma revista da época.

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‘Aquaman’: o heroísmo em tintas hipercoloridas e alguma cafonice

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Por Pedro Strazza

Desde que a Warner Bros. resolveu seguir os passos da Disney com o Marvel Studios e criar nos cinemas um universo compartilhado de super-heróis para chamar de seu, os longas baseados nos personagens da DC Comics parecem orbitar dentro de uma redoma de valores que no fundo parecem estarem sendo repetidos à exaustão por estes projetos. É uma condição no mínimo esquisita para o estúdio pois, enquanto os heróis da concorrência são alvo de debate do público e da crítica por recorrerem filme após filme a uma mesma base visual e narrativa pré-formatada, suas produções são exaustivamente criticadas por não “acertarem o tom” de suas histórias e personagens, como se tudo não passasse de um problema de pausterização mal bolada pelos realizadores.

Mas embora muito se critique o “universo DC Comics” pela ausência de um “grande criador” que norteie seus rumos da mesma forma que Kevin Feige faz com a Marvel, o problema destes projetos no fundo reside nas reminiscências de uma relação um tanto má-finalizada do estúdio com Zack Snyder, seu “primeiro” arquiteto e responsável pelas três primeiras grandes apostas da Warner com este formato (“O Homem de Aço”“Batman vs Superman” e “Liga da Justiça”). Mesmo tendo sua participação criativa reduzida ao mero posto simbólico desde meados da produção de “Liga”,
Snyder ainda parece se manter como uma sombra nos rumos deste encadeamento de longas porque sua compreensão dos personagens da editora como heróis divinos destinados a ter seus ideais postos em crise insiste em permanecer presente nestas novas histórias, que mantém de certa forma intocado estes temas apesar das diversas danças das cadeiras executivas e as variadas contratações de novos diretores e roteiristas para promover um “novo olhar” a estas histórias de forma a recuperar os bons números de bilheteria perdidos.

É um processo ainda muito recente (até aqui são “apenas” seis episódios lançados em um espaço de cinco anos), mas este postura conflituosa perante os signos e legado do diretor mostra-se reiterado continuamente pelos novos capítulos mesmo quando eles procuram criar todo tipo de distância visual da sobriedade caricata daqueles filmes. Em “Mulher-Maravilha”, por exemplo, esta aproximação com os temas trabalhados por Snyder se dava por vias bastante diretas ao apresentar como principal dilema de Diana a sua própria relação com a humanidade enquanto uma figura sobre-humana – uma discussão que era central aos rumos de “Batman vs Superman”, vale acrescentar.

Já o caso de “Aquaman” é – a exemplo de sua própria estrutura – um pouco mais berrante nos contornos desta relação de atração e repulsa pelo antecessor. Filho único de uma primeira tentativa da Warner de superar em termos executivos este momento inicial conturbado de seu universo – o longa foi produzido no breve intervalo de tempo em que o quadrinista Geoff Johns foi escolhido para assumir o posto de “maestro” do braço heroico do estúdio – o debute do filho de Atlântida nos cinemas ainda carrega em seu DNA parte dos pressupostos “mitológicos” deixados por Snyder, mas também é quase antagônico a todo o clima de ceticismo sombrio do cineasta ao abraçar o cafona como base para a materialização do verdadeiro épico em mãos.

Como os elementos dispostos bem sugerem, esta quebra não é nada discreta, ainda mais pelo do desafio disposto ao diretor James Wan ao ter de trabalhar um filme cuja maioria das cenas se passa debaixo da água. Com verdadeiras montanhas de efeitos visuais à mão, a obra não demora a revelar um mundo aquático hipercolorido e dominado pelo néon que dê cabo da missão de traduzir para as telas – e algumas vezes de forma quase literal – o lado mais vibrante dos quadrinhos, seja no visual dos personagens e das criaturas marinhas (que chega a ser próximo do plástico em algumas horas, a exemplo das armaduras mais futurísticas dos soldados) ou no retrato de Atlântida e outras cidades submarinas como verdadeiras metrópoles futurísticas ou grandes impérios exóticos dotados de sábios conhecimentos. Em termos visuais, tudo no filme de Wan sugere uma grandiosidade guiada pelos caminhos do ridículo, à altura de um personagem de sangue real que por décadas se manteve como chacota dos quadrinhos por “conversar com os peixes”.

Mas se o longa de Wan funciona à base do deslumbre perante as imagens de um mundo dominado por exotismos e o fantástico, a narrativa desenvolvida em cima do roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall também busca abarcar uma trama que esteja à altura do épico grandioso apresentado e passe por uma dramaturgia capaz de dar estofo a seu protagonista. Para isso, o filme não economiza na hora de promover questionamentos sobre a figura gigante de Arthur Curry (Jason Momoa), cuja relação com Atlântida é do princípio tratada como tema maior da aventura: do tratamento do herói como ovelha negra por conta das diferentes origens de seus pais – sendo o pai (Temuera Morrison) humano e a mãe uma rainha atlante (Nicole Kidman) – até sua relação conflituosa com o irmão Orm (Patrick Wilson, um dos membros do elenco mais à vontade graças ao papel de vilão), a trajetória de Aquaman para ir além do papel de herói e se tornar um rei para “seu povo” passa por questões de identidade e responsabilidade cujas crises não deixam de carregar um viés mitológico parecido com os outros filmes do universo DC.

O grande obstáculo que separa a jornada do herói aquático de seus irmãos de obter o mesmo resultado – e, portanto, torna-se um problema incontornável à produção – acaba sendo na verdade dois. O primeiro, mais enfático e sensível, é o suposto agigantamento destas questões para situar tamanho drama dentro de um cenário de realeza  e suas lutas de corte, uma dinâmica nobre que o texto escrito por Johnson-McGoldrick e Beall se mostra hesitante para conceber.

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Enquanto é um erro dos roteiristas a opção por multiplicar tramas para alcançar o status de épico – toda a história de origem do vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), por exemplo, soa gratuita e mesmo prejudicial aos caminhos do protagonista – esta oscilação é sentida com maior força na direção de Wan, que muitas vezes recorre a seus malabarismos de câmera e o farto orçamento de efeitos visuais para acobertar a flacidez inchada de seu roteiro – não que as decisões criativas do diretor não ajudem a conferir certo arrasto ao filme em alguns momentos, especialmente na ação onde tudo vira uma montanha-russa sem nenhum fundamento lógico básico.

Já a segunda questão é um tanto mais displicente e se relaciona justo com esta inevitabilidade sonsa com a qual a obra insiste em navegar por estes dilemas existenciais super-heroicos, uma narrativa que dada as proporções e proposta de “Aquaman” se prova muito deslocada no campo temático. Enquanto Wan almeja aqui uma produção mais clássica para apresentar a origem de seu herói como uma grande ascensão fabular ao trono do reino, o filme seguidas vezes também parece querer fazer o caminho contrário em busca do choque, promovendo certa seriedade temática a situações periféricas para pincelar um retrato um tanto complexo da disputa pela coroa, desde a menção a temas contemporâneos como a poluição marinha até o próprio arco do Arraia – cuja sede de vingança contra o herói surge de uma motivação que mais ou menos problematiza a imagem de mocinho do protagonista.

O problema desta vontade de complicar o cenário é que dentro da estruturação mais básica do épico disposto todos estes questionamentos acabam saindo caricatos, e é partir daí que “Aquaman” de fato começa a girar em falso em suas pretensões. Feitas para equilibrar um pouco do maniqueísmo presente no longa, estas supostas “complexificações” da história acabam restritas ao caráter pontual e só reforçam o quão efêmeras são as movimentações da narrativa, que não hesita em largar arcos pela metade em uma ânsia um tanto mequetrefe de gerar momentos de catarse ao fã. Por mais que se busque aprofundar nos incômodos de Arthur com Atlântida ao longo do filme, por exemplo, tudo isto é subitamente descartado para possibilitar a ele a oportunidade de “vestir o manto” e se tornar o Aquaman dos quadrinhos, cavalo-marinho de montaria e tudo.

Esta relação quase exclusiva do longa com o fã não deixa de ser reflexo de um filme que parece existir somente da pose e do efeito instantâneo, uma condição que além de uma deturpação muito clara do cinema de Snyder (cujas pretensões a princípio partem justo desta vontade imediatista de “materializar” o produto original, seja ele qual for) também explica o desequilíbrio de tom notável de “Aquaman” enquanto obra. É uma falta de pulso tamanha para orbitar em um meio termo entre a aventura mais pura e a sátira do gênero que o elenco em grande parte do tempo se vê engolido por esta discrepância, incapacitado de encontrar uma voz para seus papéis que acate tanto a caricatura quanto a dramaturgia – quem mais sofre com isso, claro, é Momoa e Heard, cuja dinâmica entre seus heróis no papel é fundamental para a mediação de todos os lados e na prática se perde com a completa falta de perspectiva.

Não deixa de ser uma ironia divertida, então, que no fim o filme se revele interessado apenas em contar uma história sobre um amor impossível e (por consequência) como ela contornou barreiras para encontrar o “felizes para sempre”. Junto da própria ironia auto-imposta de outro conto de super-heróis da DC Comics sobre o que no fim são questões maternas, este desejo da produção por um ideal mais ingênuo dentro de um mar de falsas complexidades soa exatamente como o tipo de triunfo vazio buscado por um estúdio em seu esforço de “reabilitar sua imagem” perante um fanatismo um tanto torpe. (Do B9)

Lula recebe Prêmio Chico Mendes por legado em defesa do meio ambiente

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu neste sábado (15) o prêmio Chico Mendes de Florestania pelo governo do Acre por seu legado em defesa ao Meio Ambiente. As informações são do portal lula.com.br. Preso há oito meses, Lula não pôde estar presente na cerimônia, mas enviou uma carta lida pela atriz Lucélia Santos durante a cerimônia de premiação.

“Justamente por não poder estar aí com vocês, me emociona demais essa homenagem. Ela mostra que mesmo que hoje o dia pareça escuro, as sementes que plantamos, eu e Chico juntos, se transformaram em grandes árvores, que não serão derrubadas facilmente e que ainda darão muitos frutos e novas sementes, a serem plantadas por vocês, para um futuro melhor para o Acre, o Brasil e o mundo”, escreveu.

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Leia a íntegra:

“Governador Tião Viana e demais autoridades presentes,

Meus amigos, minhas amigas,

Quem conhece a natureza, como o povo do Acre conhece, quem conhece a Amazônia, quem cultiva a terra, sabe que da semente plantada até termos uma grande árvore leva tempo.

Por isso sabe quanto é importante plantar sementes na vida, cuidar com carinho e ter paciência até a árvore crescer e dar boa sombra e frutos.

Eu conheci o Chico Mendes na época da fundação do PT, junto com outros companheiros de todo país que queriam semear a luta pela democracia e justiça social. Um metalúrgico do ABC e um seringueiro de Xapuri com milhares de quilômetros de distância entre eles mas próximos no desejo de um Brasil melhor. Não éramos filhos de fazendeiros, de empresários, bacharéis. Éramos um metalúrgico e um seringueiro que percorreram longos caminhos.

Não tinha celular, não tinha internet, não tinha whatsapp, tinha telefone e olhe lá. A gente tinha mesmo era que rodar na estrada, viajar de ônibus, nos encontrar e valorizar cada encontro, cada troca de ideia.

O companheiro Chico protegia as árvores e os seus companheiros com a coragem, com seu próprio corpo. Em um fim de ano como esse, gente covarde e gananciosa achou que matando Chico, que tirando o corpo dele do caminho, iam esmagar a floresta e a esperança do povo do Acre. Eles achavam que matando Chico matariam sua luta.

Eu deixei a Marisa e as crianças às vésperas do Natal e fui em um aviãozinho me despedir do meu companheiro e falar exatamente isso para seus parentes, amigos e companheiros: as ideias de Chico continuariam vivas e cada vez mais fortes.

Hoje, 30 anos depois, podemos ver que muitas árvores nasceram das sementes plantadas pelo Chico.

O aumento da consciência ecológica dos brasileiros e no mundo todo, que resistem e irão resistir a ganância dos poderosos na proteção da Amazônia.

Com muita Justiça, tive a honra de batizar o nome do Instituto que cuida das unidades de conservação da natureza no Brasil de Chico Mendes.

O Acre era governado por gente que cortava com motosserras seus adversários. Os governos do PT no Acre, liderados pelo Tião e pelo Jorge Vianna, mudaram o estado, modernizando-o e trazendo desenvolvimento com consciência econômica e social. Não é fácil nem pouco ganhar 5 eleições seguidas. As pessoas começam a dar de barato conquistas feitas com muita luta e trabalho. Mas, meus amigos Tião e Jorge, não tenham dúvida de que vocês tem seus nomes na história do Acre e do Brasil.

A Marina Silva foi senadora, minha ministra do Meio Ambiente, depois disputou três eleições presidenciais. Como seria possível antes do Chico Mendes e do PT do Acre Xapuri ter uma filha da sua terra de origem popular candidata a presidência?

Eu hoje, infelizmente, não posso estar no Acre onde tantas vezes estive, para receber esse prêmio. Queriam matar as ideias de Chico Mendes. Querem calar as minhas. Nem entrevista me deixam dar.

Justamente por não poder estar aí com vocês, me emociona demais essa homenagem. Ela mostra que mesmo que hoje o dia pareça escuro, as sementes que plantamos, eu e Chico juntos, se transformaram em grandes árvores, que não serão derrubadas facilmente e que ainda darão muitos frutos e novas sementes, a serem plantadas por vocês, para um futuro melhor para o Acre, o Brasil e o mundo.

Muito obrigado,
Forte abraço,

Luiz Inácio Lula da Silva

Jovens sofrem e pedem até comida após sonho frustrado de jogar na Europa

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Jefferson Sousa Santana e Rodrigo Fernando tinham o sonho de jogar na Europa. Mas tudo acabou em frustração. Os dois estiveram perto de ir para a Finlândia neste ano, mas afirmam terem sido vítimas do golpe de um empresário e relatam momentos de necessidade. Jefferson hoje está desempregado e diz não ter dinheiro para se sustentar. Ele conseguiu um trabalho informal para fazer o serviço de entrega de almoços, mas ganha apenas R$ 25 por dia. Ele já até pediu dinheiro emprestado e comida na igreja para se bancar.

“A gente se mata para pagar o nosso aluguel, às vezes tenho que pedir cesta básica na igreja porque a gente não tinha comida. E para pagar aqui (o aluguel) eu tinha que pedir dinheiro para um e para outro. Eu estou desempregado, agora graças a Deus eu arrumei um bico, mas eu ganho pouco. A gente não tem condições de nada. Eu estou passando por muita necessidade aqui”, conta Jefferson.

Rodrigo Fernando diz que passa pela mesma situação. Ele vendeu seu único bem, uma moto, para conseguir arcar com os custos de uma transferência para a Europa. Mas a empreitada não deu certo.

Os dois atletas consideram que foram enganados pelo agente Fernando Sá. Jefferson depositou R$ 2,2 mil enquanto Rodrigo enviou R$ 3,9 mil ao agente com a promessa de jogar pelo clube Oulun Pallo Seura, da Finlândia. Os atletas afirmam ter recebido uma carta convite de Fernando para se apresentarem lá e prometendo um contrato até dezembro. Pouco depois, um amigo desconfiou da carta, entrou em contato com o clube e foi informado que não havia qualquer acordo por eles.

Jefferson diz que procurou Fernando várias vezes para recuperar o dinheiro, mas recebeu apenas um depósito de R$ 200 do empresário. Ele entrou com uma ação cível no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo pedindo a rescisão do contrato e a devolução do dinheiro. Fernando não compareceu à audiência. A Juíza de Direito da 3ª Vara do Juizado Especial Cível de Santos, Natalia Garcia Penteado Soares Monti, deu ganho de causa ao atleta.

“O pedido é procedente. O réu, embora citado e intimado, deixou de comparecer em audiência, quedando-se revel e, nos termos do disposto no artigo 20 da Lei nº 9.099/95, faz com que se presumam verdadeiros os fatos narrados na inicial. Diante do exposto, portanto, JULGO PROCEDENTE O PEDIDO para condenar o réu a pagar ao autor a quantia de R$ 2.200,00 (dois mil e duzentos reais), atualizada monetariamente a partir da data do ajuizamento da ação, com juros de mora de 1% ao mês a partir da data da citação, nos termos do disposto no artigo 406 do Código Civil”, diz a sentença.

Fernando Sá nega que tenha dado um golpe nos atletas. O agente diz que havia combinado com Dennys Rodrigues, que na época era goleiro do time finlandês e comandava alguns treinos, de enviar os jogadores para o país europeu. Segundo Fernando, o colega revelou ter carta branca do presidente do clube para apitar em contratações.

O agente ainda confirma o recebimento do dinheiro dos jogadores, mas afirma que repassou a Dennys e, por esse motivo, não tem como devolver a quantia aos jovens jogadores. No entanto, diz não ter o comprovante de depósito feito a Dennys. Sobre a condenação do Tribunal de Justiça de São Paulo, o empresário negou que tenha sido intimado ou que tivesse conhecimento do processo.

Ele justificou ainda que a audiência ocorreu em Santos e ele mora em Florianópolis, o que seria um impeditivo para comparecer. Dennys Rodrigues nega ao UOL Esporte que tenha recebido qualquer dinheiro de Fernando e o desafia a apresentar o comprovante de depósito.

Fernando ainda faz uma acusação contra os atletas. Ele diz que uma carta-convite, que serviria como um termo de responsabilidade entre eles e sua própria empresa, foi falsificada por um amigo dos jogadores, Pedro Barros. Segundo o agente, Pedro adulterou o documento colocando uma imagem do escudo do clube, contatos telefônicos e editando o texto. Fernando afirma que o documento não tinha status de contrato.

Ao UOL Esporte, Pedro Barros admitiu que fez uma alteração na carta-convite. Porém, diz que apenas acrescentou o escudo e os dados do contato do clube para que os jogadores ficassem respaldados quando chegassem na Finlândia. E nega que tenha alterado qualquer trecho do texto.

Para Amorim, liberdade de Lula será fator de pacificação nacional

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Entrevistado pela TV 247 nesta semana (confira aqui), o embaixador Celso Amorim, que já foi apontado como o melhor chanceler do mundo, afirmou que a liberdade do ex-presidente Lula será um fator de pacificação nacional. “A prisão de Lula é um símbolo e a imagem do Brasil não vai melhorar enquanto ele não for solto”, diz ele. “Na Europa, o que se diz é que o Brasil prendeu o seu Mandela. Internamente, ele ajudará a pacificar o Brasil, porque ele é um homem de negociação. Lula sempre foi um moderador.”

No depoimento, ele apontou alguns sinais positivos na formação do governo, como a disposição do futuro ministro de Minas e Energia, Bento Costa Lima, de concluir Angra 3. “A usina não gera apenas eletricidade, ela gera a demanda pelas centrífugas nucleares.”

Amorim também falou sobre a parceria estratégica entre Brasil e China, que poderá ser atacada pelo governo de Jair Bolsonaro, que, na política externa, demonstra total submissão aos interesses dos Estados Unidos. “A parceria Brasil-China nasceu ainda no governo Itamar Franco. Eu não defendo que esta associação seja feita acriticamente. Se os chineses querem uma relação privilegiada com o Brasil, também devem estar dispostos a importar produtos de maior valor agregado”, afirmou.

Sobre a cena internacional, ele apontou a revolta dos coletes amarelos, na França, como um sinal de mal-estar com a globalização e comentou ainda o mais recente capítulo da guerra comercial entre Estados Unidos e China. Em relação à Venezuela, Amorim elogiou as declarações tranquilizadoras do general Mourão, indicando que o Brasil não se envolverá em aventuras.

Um desafio espinhoso

POR GERSON NOGUEIRA

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Fábio Bentes precisará de muita criatividade, paciência, ajuda e sorte para enfrentar o primeiro ano de gestão no Remo. O cenário é possivelmente o pior já encarado por um presidente do clube nos últimos 20 anos. Como já é praxe, não há dinheiro em caixa, mas sobram encargos e dívidas vencidas desde a administração passada.

Aos poucos, como revelou em entrevistas recentes, Bentes foi confrontado com a dura realidade: bloqueios quase intermináveis de todas as fontes de recursos do clube. As fases iniciais da Copa do Brasil estão desde já com as cotas suspensas para o Remo, bem como os recursos oriundos dos patrocínios de Funtelpa e Banpará, referentes ao Campeonato Estadual.

Há, ainda, o acordo celebrado com a Justiça do Trabalho que tira das arrecadações do clube 30% a cada jogo, a fim de pagar ações ajuizadas na esfera trabalhista. Por último, a cobrança da dívida contraída com o Palmeiras pelo empréstimo do lateral Mateus Miller em 2015 acaba de aterrissar na mesa de Bentes, via comunicado da Justiça de S. Paulo.

Além dos enroscos trabalhistas, o Remo terá em algum momento que enfrentar os litígios na área cível, pois muitos antigos colaboradores alegam ter valores (expressivos, em alguns casos) a receber e nada garante que a cobrança não chegue nas próximas semanas.

Historicamente, a principal fonte de problemas para as gestões azulinas é a questão trabalhista. Desde que Ronaldo Passarinho, comandando o departamento jurídico do clube, conseguiu a façanha de baixar de R$ 14 milhões para menos de R$ 5 milhões o quantitativo devido à Justiça do Trabalho, o Remo só fez reincidir em acordos mal costurados e descumpridos seguidamente.

A última má notícia foi a decisão judicial que deu ganho de causa ao lateral Levy, ex-jogador do clube, acrescentando mais meio milhão de reais às pendências trabalhistas. Patrocínios do Parazão são costumeiramente bloqueados em favor da execução centralizada de dívidas trabalhistas no Projeto Conciliar.

Para 2019, Bentes vai arcar com o bloqueio recente das cotas da Copa do Brasil, decretado por causa da inadimplência no pagamento de novas parcelas do acordo.

Por isso tudo, o novo presidente terá que fazer um esforço gigantesco para controlar as contas, impedindo novas dívidas, e tomar um cuidado especial quanto ao cumprimento de acordos firmados em sua gestão.

O empenho em buscar parceiros tem sido razoavelmente bem sucedido, embora esbarre sempre na desconfiança que a iniciativa privada nutre em relação ao futebol de maneira geral e, em particular, a clubes que se notabilizam pela dificuldade em honrar compromissos.

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Bola na Torre

O programa deste domingo vai ao ar, excepcionalmente, às 20h. Guerreiro apresenta, com a participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Interatividade e sorteio de prêmios aos telespectadores.

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CBF enrola clubes e impõe Série C favorável ao Nordeste

A dupla Re-Pa marchou unida para o encontro realizado na CBF entre representantes de clubes que disputarão a Série C 2019. Saíram juntos e irmanados na sensação de impotência para mudar os planos já delineados para a competição, que hoje é vista como um estorvo por não garantir faturamento para os já abarrotados cofres da entidade.

Os presidentes Ricardo Gluck Paul e Fábio Bentes receberam a informação de que a CBF permitirá a comercialização de mídia nos estádios ao longo da competição, espécie de prêmio de consolação para clubes que não terão qualquer cota de participação, além da garantia das despesas com transporte e hospedagem.

Na prática, a flexibilização da propaganda nem deve ser entendida como consolo, visto que os clubes terão enormes dificuldades para vender placas e outros espaços para a mídia comercial, caso a CBF não consiga negociar os direitos de transmissão.

Por outro lado, caso os jogos venham a ser transmitidos, há o risco de conflito comercial com os interesses da emissora que porventura adquirir os direitos de transmissão do campeonato.

Acima de tudo, porém, os clubes paraenses acabaram prejudicados pela decisão de caráter geográfico imposta à Série C. Os representantes nordestinos terão direito a uma disputa à parte, com avanço garantido à fase eliminatória do campeonato.

Tecnicamente, sob todos os pontos de vista, inclusive o de menor desgaste com viagens, o Nordeste leva uma tremenda vantagem. Longe de pensar em resolver a situação, a CBF escamoteou habilmente o que deveria ser o caminho mais lógico e sensato: promover uma Série C em pontos corridos, com 38 rodadas, nos moldes das Séries A e B.

Enquanto não der esse passo, a entidade continuará a carimbar a Terceira Divisão apenas um torneio de terceira categoria.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 16.12)

A mentira e a manipulação sem intermediários

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Por Lalo Leal, na Rede Brasil Atual

Nos anos 1930, um cabo austríaco falava às massas sem intermediários. Usava o rádio e a praça pública. Hoje um capitão reformado brasileiro faz o mesmo usando as redes sociais. Mudam os meios, mas os fins são semelhantes.

O afastamento das chamadas associações intermediárias do jogo democrático, como partidos e sindicatos, é típica de governos autoritários. Projetos e propostas políticas deixam de ser debatidos e refinados através da sociedade organizada para serem impostos à vontade popular através da voz solitária do líder, tendo como sustentação apelos emocionais e demagógicos.

Incapacitado por sua débil oratória e rasa cultura, o pretenso líder brasileiro viu cair aos seus pés uma tecnologia que dispensa ideias mais elaboradas. Uma ou duas frases, muitas vezes capengas, são suficientes para atingir grandes plateias virtuais, já adestradas para esse tipo de comunicação. Infelizmente o entendimento de textos mais elaborados está fora do alcance da maioria dos brasileiros.

A eficiência das redes ficou provada durante o processo eleitoral. Alguns dias antes do pleito, robôs despejaram milhões de mensagens contra candidatos progressistas. Além da disputa presidencial, foram deturpadas diversas campanhas para os legislativos. Exemplos significativos foram as derrotas de Eduardo Suplicy, em São Paulo, e Dilma Rousseff, em Minas, candidatos ao Senado que apareciam até às vésperas das eleições como franco favoritos. O mesmo aconteceu, em sentido inverso, com desconhecido candidato eleito para o governo do Rio.

Foi a fase aguda da comunicação eleitoral.  A dúvida agora é saber se de aguda passará a crônica, juntando-se aos meios tradicionais. Desde sempre, esses meios oferecem ao público doses diárias de informações cujo efeito cumulativo é semelhante ao dos remédios de uso contínuo. Permanecem indefinidamente no organismo.

É assim com a criminalização diária da política, a exacerbação da violência através dos programas policialescos e a imposição de regras morais conservadoras pelos canais e programas religiosos onipresentes no rádio e na televisão. São vidas inteiras contaminadas por esses produtos sem nenhuma fiscalização.

Há momentos em que alguns veículos aumentam a dosagem de suas drogas. Um dos casos mais evidentes é o do surgimento e consolidação dos movimentos de extrema direita. O Movimento Brasil Livre (MBL) e seus lideres tornaram-se protagonistas da cena política graças à mídia tradicional que buscava, de qualquer forma, algum movimento de rua capaz de servir de contraponto às tradicionais ações desse tipo, conduzidas pela esquerda.

Dessa forma, pequenos grupos de 10 ou 20 pessoas segurando a bandeira nacional, pedindo o  impeachment da presidenta ou a “intervenção militar democrática” viravam notícia de destaque. Alguns dos seus integrantes tornaram-se populares obtendo expressivas votações no último pleito.

O exemplo mais significativo desse processo de ampliação de poder dos grupos de extrema-direita, realizado pela mídia tradicional, deu-se no sábado que antecedeu o primeiro turno das eleições presidências. Naquele dia aconteceu um movimento de massa nacional comparável apenas com os comícios das Diretas Já, na década de 1980. Foi o “Ele Não”, responsável por colocar nas ruas milhares de pessoas nas principais cidades do pais.

A TV Globo, além de não anunciar esses eventos, como fazia quando era para derrubar a presidenta Dilma, os minimizou com uma cobertura minguada e distorcida. Tentou exibir um equilíbrio que só é lembrado nessas horas, indo atrás de reduzidos grupos de manifestantes favoráveis ao candidato direitista. Comparou o incomparável, abrindo espaços iguais para acontecimentos desiguais.

Ainda assim, o sucesso do “Ele Não” assustou seus adversários. A partir daí, o bombardeio através do WhatsApp ganhou proporções nunca vistas por aqui e acabou decidindo as eleições. Tornou-se o grande cabo eleitoral do candidato vencedor que agora aposta nele como forma de sustentação ao seu governo. Resta saber se dará certo.

Uma coisa são as descargas de mensagens fantasiosas concentradas em poucos dias apelando para uma decisão eleitoral. Outra será a necessidade de explicar acusações de corrupção ou de justificar mais reduções de direitos trabalhistas todos os dias.

O WhastApp passará por um duro e inédito teste no Brasil. Estará diante do desafio de se integrar ao conjunto dos meios de comunicação tradicionais, operadores de lentas e constantes ações crônicas de persuasão política ou ficará restrito ao que até agora mostrou, um remédio eficaz apenas para situações.

Muito do nosso futuro depende dessa resposta.

Cuba, terra cultivada

Por Gilson Omar Fochesato (*)

Em visita cultural ao país caribenho constata-se que o país-símbolo da Revolução Cubana se depara com transformações. A pequena ilha está inquieta. A abertura econômica está mudando um país pequeno em território, mas grande em importância no cenário político internacional.

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Quais os anseios desse povo que sabe que a igualdade é condição para o exercício pleno da liberdade? Quais seus desejos? Não pensem os incautos que o povo cubano é submisso, desgostoso com a vida, inimigo de seu governo ou infeliz. Ao contrário, é sabedor de sua história, de seus valores e suas conquistas. Lá há ausência de gente de feitio servil, subserviente.

Nota da redação: este artigo é um contraponto ao texto “O insólito encontro entre Chico e Francisco”, em que o escritor Percival Puggina, membro da Academia Rio-Grandense de Letras, critica a postura do artista Chico Buarque em relação ao regime castrista. O texto foi veiculado ontem (sexta, 14) pelo Congresso em Foco.

Estigmatizar Cuba como um país miserável é uma falácia, e de extrema ignorância. Alimentada pela grande imprensa que pouca educa, Cuba é tematizada por uma série de preconceitos.

O criminoso embargo cometido contra a sociedade cubana é injustificável. Há carestia e pobreza, sem dúvida. Mas mesmo assim a famosa frase que corre o mundo é verdadeira:Hoje, 200 milhões de crianças vão dormir nas ruas das grandes cidades do mundo. Nenhuma delas é cubana”. Tampouco alguém passa fome. Nesse contexto, tudo é valorizado. Não se compra o que não se precisa.

Há defeitos e há limites. Os problemas enfrentados são muitos, principalmente nas áreas de moradia, transporte e, agora, do emprego. Entretanto, não se pode negar as grandes conquistas da Revolução, principalmente no que tange à saúde, à reforma agrária e ao sistema educacional.

Mesmo sendo um país pobre, em Cuba todos têm direitos fundamentais socialmente assegurados: alimentação, saúde e educação. Até pouco tempo atrás 93% de sua população possuía nível universitário. Agora são 87%, pois o governo está priorizando as escolas técnicas (nível médio). Não há analfabetismo em Cuba. Conseqüentemente, é um país com poucos assaltos, sem violência (inclusive a doméstica), poucas prisões, poucos presos. Um país sem armas.

Não dá para comparar um país socialista a um país capitalista. Ainda mais esse país, ilhado e bloqueado. Um novo olhar sobre a história da economia cubana demonstra que o pleno emprego não é suportável pela economia estatal, e planejar o corte de até um milhão de empregos públicos paulatinamente absorvidos nas atividades privadas que estão sendo liberadas não é tarefa fácil. Em um futuro próximo é provável que o Estado somente ficará com as grandes empresas. Mas o empreendedor privado deverá se adequar ao que o governo quer.

Mesmo com os embargos, o turismo em Cuba está aumentado. No primeiro trimestre de 2012 houve mais de 1,24 milhão de visitantes. É o setor que traz mais recursos ao país, ficando atrás dos dólares enviados pelos imigrantes em Miami. A movimentação da economia também se dá pelo câmbio negro. Nas riquezas naturais agora se sobressai o níquel.

Percebe-se a diferença entre gerações: enquanto os mais velhos estão um tanto receosos pelas mudanças, os mais jovens estão mais ávidos por elas. Por outro lado, evitar-se-á o desejo de muitos jovens em sair do país.

Cuba dificulta (não proíbe) a saída de cidadãos porque, de outra forma, sua mão-de-obra mais qualificada sairia do país em busca de melhores salários. Haveria uma fuga em massa de médicos, engenheiros, professores, já que possuem emprego em qualquer lugar do mundo, tendo em vista a excelência da saúde e educação que o governo lhes deu em toda a vida. O êxodo se dá em função da economia, e não em função de haver “democracia” de um lado e “ditadura” de outro.

Qual o socialismo possível? Isso não faz de Cuba um modelo, embora seja a prova de que o desenvolvimento é possível fora dos ditames do discurso único.

Como entender a complexidade de sua relação com os Estados Unidos? Como entender que há 26 voos diários em toda a ilha para os Estados Unidos. Que dicotomia é essa?

Que o povo possa aproveitar as mudanças para melhorar sua situação econômica e ampliar o acesso à liberdade democrática sem perder os níveis de educação, soberania e autonomia administrativa. Que não se deixe levar pelo consumismo fútil.

Aos turistas, recomenda-se o diferente. Entre Miami, Las Vegas ou Orlando (Disney), não tenha dúvida: visite Cuba. Por fim, os cubanos deparam-se com o conceito praticamente desconhecido para eles: pagar impostos também faz parte do capitalismo.

* MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (gilsonomar@uol.com.br)