Que país vai ser esse?

Por Emir Sader

Vamos passando do pesadelo à realidade. Vai se passando das ameaças nos discursos à sua concretização. As nomeações para o novo governo e as iniciativas concretas vão projetando a imagem do que poderá ser o Brasil a partir de 2019.

Uma primeira certeza: a manutenção, numa versão mais radicalizada, do modelo neoliberal. Um ministro de economia “Chicago boy” vinculado ao governo Pinochet, que se propõe a “privatizar tudo o que der”, é uma ameaça gigantesca para o patrimônio púbico e para a própria convivência entre os brasileiros, pela forma como pretende aprofundar ainda mais a fragilização dos direitos dos trabalhadores. Representa, ao mesmo tempo, a continuidade da hegemonia do capital financeiro, na sua modalidade especulativa, sobre o conjunto da economia.

Esse elemento representa, ao mesmo tempo, sua primeira grande fragilidade. Todos os governos que mantiveram a política econômica neoliberal, seja o de Michel Temer no Brasil ou o de Mauricio Macri na Argentina, rapidamente perderam o apoio popular que haviam conseguido. Porque essa política tem repercussões sociais sumamente negativas, seja por prolongar e aprofundar a recessão, seja por afetar diretamente o poder aquisitivo dos salários. Além dos duros cortes nos recursos para as políticas sociais, que deixam os setores mais pobres da população mais ainda sem defesa para a sua sobrevivência cotidiana.

A nomeação de Sergio Moro para o governo, além de confirmar tudo o que se dizia da sua adesão política aberta à direita, representa a perspectiva de consolidação de um estado policial, articulando no próprio governo a ação de perseguição política da parte do Judiciário, com a ação da Policia Federal e da aprovação de legislações fortemente restritivas dos direitos da cidadania e da própria liberdade de expressão, sustentada na maioria parlamentar do novo governo. Residem aí as maiores ameaças à democracia e à própria liberdade. Os reiterados anúncios de possíveis projetos de lei ou decretos que criminalizariam aos movimentos sociais, voltam sempre à tona.

As privatizações, aparentemente, serão um carro chefe do novo governo, buscando liquidar irreversivelmente a Petrobrás, a mais importante empresa brasileira. Como princípio reitor da velha e fracassada ideia do Estado mínimo, outras áreas serão afetadas por essa forma de promoção da centralidade do mercado.

O episódio do fim da participação dos cubanos no programa Mais Médicos foi o primeiro episódio desastroso do novo governo, em que as declarações desastradas já tiveram consequências concretas muito negativas para milhões de brasileiros e para milhares de prefeitos.

O lugar do Brasil no mundo promete trazer viradas ainda mais radicais do que aquelas operadas pelo governo Temer. As declarações do futuro ministro de Relações Exteriores causaram riso, mas também temor, no Brasil e no mundo. Posições doutrinárias de extrema-direita, misturando teologia com política, enunciando absurdos sobre a globalização, o meio ambiente, Deus e Trump, entre outros tantos temas, representaram o movimento de maior isolamento internacional do Brasil, caso se traduzam realmente na politica externa do pais. A próxima reunião da ONU sobre as questões do meio ambiente já podem ser o momento do Brasil se distanciar ou até sair dos Acordos de Paris, para os quais o nosso país tinha colaborado de maneira decisiva.

O certo é que a relação carnal com os Estados Unidos será uma orientação determinante da política externa brasileira com o novo governo. Apesar das duras advertências da China, da Rússia, dos países árabes, sobre os danos que essa nova postura representaria em termos de represálias econômicas, o novo presidente parece manter essa postura.

O presidente eleito parece não se dar conta que a maioria dos brasileiros, mesmo uma parte dos que votaram nele, não comungam das posições extremistas que ele professa. Age, ele e seus filhos, como se mandassem no país, como se pudessem fazer o que bem entendem. Mantêm ameaças a meios de comunicação, ameaças a opositores, sem respeito algum pelas normas constitucionais.

Do ritmo de desgaste do apoio ao governo, em função principalmente das consequências sociais da manutenção da política econômica, dependerá sua capacidade de realizar seus planos que, por si, são assustadores, para o Brasil como país, para a democracia, para o povo e para a imagem do país no mundo.

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