Rivais em pé de igualdade

POR GERSON NOGUEIRA

Todo mundo sabia que esse reencontro em campeonatos brasileiros iria fatalmente acontecer algum dia – só não se imaginava que fosse logo. A diferença existente nos campos da gestão, marketing e até de estrutura fazia crer que ainda levaria certo tempo para que os dois velhos rivais se cruzassem novamente.

O fato é que a dupla Re-Pa experimentou distâncias abissais nos últimos anos, como no período em que os bicolores disputavam a Série B e o Remo patinava, sem divisão e nem perspectiva de recuperação imediata.

Foi um tempo dominado por um indisfarçável complexo de superioridade por parte dos bicolores, sentimento justificado pela sucessão de infortúnios que o rival acumulava.

Até as gozações de esquina entre torcedores iam nessa direção, situação agravada pelo insucesso azulino na única competição interestadual a que o clube teve acesso, a Copa Verde, criada pela CBF como um torneio de consolação destinado a reduzir o prejuízo remista.

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A queda do PSC, inesperada no começo da Série B e perfeitamente compreensível pela caótica campanha, coloca os dois clubes lado a lado outra vez, em pé de igualdade. Irão disputar as mesmas competições – Estadual, Campeonato Brasileiro da Série C, Copa do Brasil e (talvez) Copa Verde. A única diferença é que o Papão entra nas oitavas de finais da Copa Br.

É óbvio que o futebol do Pará perde muito com a perda da vaga na Série B. Não só financeiramente – R$ 7 milhões de cota –, mas também em visibilidade, pois a Série C ainda não tem garantia de transmissão de jogos.

O prejuízo representado pelo rebaixamento na Segunda Divisão vai contribuir para um acirramento no plano regional. A velha rivalidade deve ser aquecida pela sequência de clássicos – quatro confirmados, com possibilidade de chegar a oito, caso a Copa Verde seja confirmada.

Por ora, enquanto os bicolores buscam assimilar o duro golpe em meio ao sarro dos remistas, o caminho mais sensato para as duas diretorias seria a união de esforços para tentar influir no critério de grupos da Série C. Recém-eleitos (o do PSC será aclamado nos próximos dias), os jovens presidentes Fábio Bentes e Ricardo Gluck Paul deveriam abrir um canal de diálogo junto à CBF visando preservar os interesses da dupla Re-Pa.

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Imbróglio na Segundinha é ruim para todos

Leitores heroicos da coluna perguntam a posição do escriba sobre esse chatíssimo imbróglio jurídico envolvendo Desportiva e Paraense, que provocou a suspensão das finais da Segundinha. Legítimos finalistas, São Francisco e Tapajós iriam jogar domingo (25), mas na sexta-feira veio a decisão do TJD travando a competição.

Um troço surreal, pois houve tempo hábil para que a decisão tivesse sido tomada há duas semanas, o que evitaria todos os transtornos. Não entro no mérito do caso. Penso que a Justiça deve se manter longe do campo de futebol. Sempre que ela adentra as quatro linhas, o esporte sai perdendo.

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Salários no mundo da bola: Brasil na faixa intermediária

Foi divulgada ontem a lista anual do Global Sports Salaries Survey, que revela as cifras salariais pagas no mundo dos esportes. A “Sports Intelligence” pesquisou quanto se paga em 68 campeonatos nacionais. Previsivelmente, é na Premier League que os clubes pagam os melhores salários: em média, 3,3 milhões de euros anuais. No extremo oposto, em San Marino, cada clube gasta apenas 2.500 euros anuais.

O Brasil fica na faixa intermediária, com 576 mil euros (R$ 2.572.934,40). Na Argentina, a média anual é de 325 mil euros. A Arábia Saudita também está no pelotão dos emergentes, com 436 mil euros. Portugal tem média anual de 307 mil euros, bem abaixo das principais ligas europeias. Na Espanha, o valor chega aos 2,4 milhões de euros. A Itália paga 1,7 milhões, a Alemanha fica em 1,5 milhões e a França, 1,1 milhões.

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Brucutus conseguiram estragar a final da Libertadores

Será hoje a esperada reunião da Conmebol para decidir sobre a final da Libertadores após a selvageria dos barra-bravas que vitimou a delegação do Boca às proximidades do estádio do River, no último sábado. O confronto chegou a ser marcado para domingo, mas terminou suspenso até a decisão.

Além disso, o Boca pediu a aplicação de sanções ao River com base no artigo 8º do Regulamento Disciplinar, que responsabiliza os clubes pelas atitudes de suas torcidas, inclusive incidentes ocorridos nos arredores dos estádios. É improvável que o River escape a uma punição.

Algumas das penas previstas no art. 18.1 do regulamento: anulação do resultado; dedução de pontos; obrigação de jogar partida de portas fechadas; proibição de jogar em estádio determinado; obrigação de jogar em um terceiro país.

Pelo retrospecto da Conmebol, é provável que o jogo seja disputado sem torcida ou mesmo em outro país. Seja qual for o veredito, o certo é que a decisão foi completamente prejudicada pela ação dos baderneiros. Conseguiram estragar aquela que poderia ser a maior de todas as finais do torneio.

(Coluna publicada no Bola desta terça-feira, 27)

Bertolucci, mestre do cinema italiano, morre aos 77 anos

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Nascido na Parma, em 1941, era filho do poeta Attilio Bertolucci e da professora Ninetta Giovanardi. Foi amigo de Pier Paolo Pasolini e defensor contumaz do Partido Comunista. Em 2007, recebeu um Leão de Ouro honorário pelo conjunto da obra do Festival de Veneza, em 2011 a Palma de Ouro honorária do festival de Cannes. Em mais de meio século de carreira, dirigiu aproximadamente 20 filmes, entre produções colossais e minúsculas, obras experimentais e mais tradicionais, e deixou um inesquecível selo autoral no cinema italiano e mundial. Foi também roteirista, produtor e “polemista”, como recorda a imprensa italiana.

Bertolucci chamou a atenção ao ganhar bem jovem o Prêmio Viareggio pelo livro de poemas Em Busca do Mistério. Mas foi com o O Último Tango em Paris, de 1972, que alcançou o olimpo da arte, filme que fascinou e escandalizou o mundo à época, mas que depois seria marcado pelas denúncias de estupro de Maria Schneider.

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Que país vai ser esse?

Por Emir Sader

Vamos passando do pesadelo à realidade. Vai se passando das ameaças nos discursos à sua concretização. As nomeações para o novo governo e as iniciativas concretas vão projetando a imagem do que poderá ser o Brasil a partir de 2019.

Uma primeira certeza: a manutenção, numa versão mais radicalizada, do modelo neoliberal. Um ministro de economia “Chicago boy” vinculado ao governo Pinochet, que se propõe a “privatizar tudo o que der”, é uma ameaça gigantesca para o patrimônio púbico e para a própria convivência entre os brasileiros, pela forma como pretende aprofundar ainda mais a fragilização dos direitos dos trabalhadores. Representa, ao mesmo tempo, a continuidade da hegemonia do capital financeiro, na sua modalidade especulativa, sobre o conjunto da economia.

Esse elemento representa, ao mesmo tempo, sua primeira grande fragilidade. Todos os governos que mantiveram a política econômica neoliberal, seja o de Michel Temer no Brasil ou o de Mauricio Macri na Argentina, rapidamente perderam o apoio popular que haviam conseguido. Porque essa política tem repercussões sociais sumamente negativas, seja por prolongar e aprofundar a recessão, seja por afetar diretamente o poder aquisitivo dos salários. Além dos duros cortes nos recursos para as políticas sociais, que deixam os setores mais pobres da população mais ainda sem defesa para a sua sobrevivência cotidiana.

A nomeação de Sergio Moro para o governo, além de confirmar tudo o que se dizia da sua adesão política aberta à direita, representa a perspectiva de consolidação de um estado policial, articulando no próprio governo a ação de perseguição política da parte do Judiciário, com a ação da Policia Federal e da aprovação de legislações fortemente restritivas dos direitos da cidadania e da própria liberdade de expressão, sustentada na maioria parlamentar do novo governo. Residem aí as maiores ameaças à democracia e à própria liberdade. Os reiterados anúncios de possíveis projetos de lei ou decretos que criminalizariam aos movimentos sociais, voltam sempre à tona.

As privatizações, aparentemente, serão um carro chefe do novo governo, buscando liquidar irreversivelmente a Petrobrás, a mais importante empresa brasileira. Como princípio reitor da velha e fracassada ideia do Estado mínimo, outras áreas serão afetadas por essa forma de promoção da centralidade do mercado.

O episódio do fim da participação dos cubanos no programa Mais Médicos foi o primeiro episódio desastroso do novo governo, em que as declarações desastradas já tiveram consequências concretas muito negativas para milhões de brasileiros e para milhares de prefeitos.

O lugar do Brasil no mundo promete trazer viradas ainda mais radicais do que aquelas operadas pelo governo Temer. As declarações do futuro ministro de Relações Exteriores causaram riso, mas também temor, no Brasil e no mundo. Posições doutrinárias de extrema-direita, misturando teologia com política, enunciando absurdos sobre a globalização, o meio ambiente, Deus e Trump, entre outros tantos temas, representaram o movimento de maior isolamento internacional do Brasil, caso se traduzam realmente na politica externa do pais. A próxima reunião da ONU sobre as questões do meio ambiente já podem ser o momento do Brasil se distanciar ou até sair dos Acordos de Paris, para os quais o nosso país tinha colaborado de maneira decisiva.

O certo é que a relação carnal com os Estados Unidos será uma orientação determinante da política externa brasileira com o novo governo. Apesar das duras advertências da China, da Rússia, dos países árabes, sobre os danos que essa nova postura representaria em termos de represálias econômicas, o novo presidente parece manter essa postura.

O presidente eleito parece não se dar conta que a maioria dos brasileiros, mesmo uma parte dos que votaram nele, não comungam das posições extremistas que ele professa. Age, ele e seus filhos, como se mandassem no país, como se pudessem fazer o que bem entendem. Mantêm ameaças a meios de comunicação, ameaças a opositores, sem respeito algum pelas normas constitucionais.

Do ritmo de desgaste do apoio ao governo, em função principalmente das consequências sociais da manutenção da política econômica, dependerá sua capacidade de realizar seus planos que, por si, são assustadores, para o Brasil como país, para a democracia, para o povo e para a imagem do país no mundo.

Marqueteiro revela estrutura sofisticada e cara em campanha de Bolsonaro

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O publicitário Fernando Barros ri da própria imodéstia ao anunciar, duas vezes em menos de uma hora, seu currículo vitorioso. Desde que elegeu seu amigo Antônio Carlos Magalhães governador da Bahia no primeiro turno em 1990, Barros disputou mais de 30 eleições no país e perdeu apenas seis. “Contando com essa inacreditável de agora”, em referência ao inesperado fracasso do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (DEM), derrotado na disputa para o Senado por apenas 54 mil votos por seu ex-secretário, Arolde de Oliveira (PSD).

Precursor da dinastia baiana no marketing político brasileiro — como nove entre dez colegas, proclama ojeriza ao termo “marqueteiro” —, ele é bem mais do que um estrategista de campanha. Íntimo de ACM e de outros caciques históricos da política nacional, é uma voz à qual os mais experimentados políticos recorrem para entender o que está acontecendo.

Dono da Propeg, uma gigante do setor publicitário com contratos com as principais estatais do país, ele circula há décadas pelo Congresso e por palácios de diferentes governos. E reconhece que nunca foi tão difícil entender o que está acontecendo na política, referência à onda protagonizada por Jair Bolsonaro (PSL), que varreu alguns dos principais líderes partidários e mudou consensos sobre eleições no Brasil.

Barros, além da mala de mão, carregava uma apostila onde se lia, na capa, House of cards — referência à série americana —, ao lado de uma bandeira do Brasil. Era uma análise do resultado eleitoral, a ser exposta a quem o procura pedindo conselhos ou explicações. Permitiu que a reportagem ficasse com o exemplar, desde que não publicasse seu conteúdo. Além de uma análise dos resultados das urnas, contém uma radiografia completa do Congresso na próxima legislatura — todos os eleitos, seus partidos, profissões e a estimativa de bancadas temáticas.

“Eu mesmo só fui acreditar na vitória dele a uma semana da eleição. Estava na ( rede de lojas de cuidados ortopédicos ) Dr. Scholl, no Recife, e perguntei à moça que estava fazendo meu pé. Ela respondeu: ‘Bolsonaro, claro’.”

Farejar poder e prever resultados eleitorais, para pular com antecedência no barco vitorioso, sempre foi um inegável atributo dos líderes partidários no Brasil — entra governo, sai governo, todos sempre com seu espaço na Esplanada. Em 2018, o MDB lançou Henrique Meirelles sem qualquer expectativa de vitória, e o centrão quebrou a cara com Geraldo Alckmin (PSDB).

Para Barros é preciso fazer justiça e admitir que uma das raposas teve a visão mais aguçada que as outras: “Eles erraram a análise. E feio. Só o PR previu. Só o Valdemar ( da Costa Neto, presidente do Partido da República ) acertou. Ele dizia ‘Quem ganhará esta eleição é Bolsonaro’. Os outros desdenhavam”, lembrou. “Era como se esperassem a salvação. Como se viesse o Exército, os confederados, o que seja, para botar tudo na ordem, só por causa dos dez minutos de TV do Geraldo. E qual foi o problema de Geraldo? Falta de estratégia, de identidade. Foi direto no Bolsonaro, uma tolice. Tinha de ir ( atacar ) no PT.”

Admitir que a vitória de Bolsonaro passou uma rasteira nos maiores entendidos em política no país não abala o dogma de Barros sobre a ciência eleitoral. Seu mantra é uma frase sintética como slogan publicitário desde que o mundo é mundo: “Só existem dois jeitos de fazer campanha, ou você é situação ou oposição. O resto não existe”.

Ele referenda a avaliação geral de que Bolsonaro foi o mais competente em explorar o antipetismo dominante e foi “um fenômeno” no uso das redes sociais, principalmente do WhatsApp. Mas combate com fervor duas conclusões que têm sido apresentadas como “novidades” da eleição de 2018 — e que relativizam a relevância do marketing político tradicional.

“Você acha que Bolsonaro não queria tempo de TV? Ele não conseguiu, é diferente. E a facada deu isso a ele: oito minutos no Jornal Nacional só no primeiro dia. Isso de dizer que não teve marketing profissional é só marketing dele. Quer vender que fez uma campanha simples, ‘autêntica’. Marketing político virou sinônimo de embuste. Vai lá na casa de Paulo Marinho ver quantos garotos ficavam o dia inteiro nas redes. Um negócio sofisticado, que ninguém soube fazer.”

O segundo ponto é um suposto barateamento das campanhas. Sem revelar números, Barros garante que os marqueteiros continuam ganhando muito bem, obrigado. “Todos os partidos ficaram devendo ( nas eleições ). Essa onda de ‘ah, foi mais barato’. Não foi, não. É que antes as campanhas custavam mais do que valiam. Virava uma grande oportunidade para uma montanha de gente ganhar dinheiro. Houve as restrições legais, não pode bandeirinha, não pode isso, não pode aquilo, diminuiu ( o custo ). Mas a quantidade de comerciais a fazer aumentou, com a internet. A diferença é que antes você tinha filmagens espetaculares, tomadas aéreas, dois helicópteros, a era João Santana. Isso não tem mais.”

João Santana virou o mais famoso marqueteiro baiano da linhagem iniciada por Barros. Depois de fazer ACM governador eleito, ele conduziu a primeira campanha presidencial de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, abrindo caminho na política nacional para conterrâneos como Nizan Guanaes e Duda Mendonça.

O uso da publicidade para lavar dinheiro trouxe problemas na Justiça para muitos deles. Barros passou à margem. Em 2005, enquanto Duda Mendonça admitia ter recebido ilegalmente do PT no exterior, Barros era um dos alvos de um pedido de CPI na Assembleia Legislativa da Bahia para apurar pagamentos suspeitos de R$ 48 milhões da empresa de turismo do governo baiano para uma empresa sua. Foi acusado de atuar por anos como testa de ferro de ACM. A CPI foi enterrada pela base aliada do governador carlista Paulo Souto.

Apanhado em meio à “montanha de gente ganhando dinheiro” em eleições, João Santana cumpre prisão domiciliar desde março de 2017 em sua mansão em Camaçari, perto de Salvador. Além de parentes, tem direito a receber a visita de 15 amigos inscritos numa lista entregue à Justiça. Está proibido de manter relações de trabalho, mas o assunto é inevitável. Barros não está na lista de visitantes, mas revela que Santana conta os dias para voltar às campanhas. Pela progressão da pena, estará liberado para retomar as atividades a partir de março de 2020.

“João Santana fica se contorcendo em casa, doido para que o prazo dele acabe, para voltar. E vai ser um dos mais requisitados, tenha certeza”, contou. “Dez entre dez que falaram com ele contam que disse estar se sentindo como um jogador com a perna quebrada. Doido para voltar.”

Quando voltar, Santana provavelmente encontrará clientes em desespero. A vitória de Bolsonaro e, principalmente, as arrancadas de outsiders que se ligaram a ele, como os governadores eleitos Wilson Witzel (Rio de Janeiro) e Romeu Zema (Minas Gerais), abalaram convicções dos políticos. No último mês, a ficha começou a cair para prefeitos que pretendem se reeleger daqui a dois anos. Além do choro de quem perdeu mandato no vendaval de 2018 e dos pedidos para entender o que houve, marqueteiros têm sido solicitados a apresentar soluções preventivas para quem ainda está no poder.

Barros resumiu a aflição irrestrita: “O político tradicional vive hoje uma situação de pânico. Sabe que pode ser atravessado por uma novidade em dois, três dias. Isso não é uma coisa só do Brasil. No mundo todo está assim, o pessoal temendo o estrago que um fato bem trabalhado na rede pode causar. Qualquer fato, qualquer coisa do dia a dia, um vídeo, pode desencadear um movimento, pode virar uma eleição”, avaliou. “A angústia de quem é prefeito, de quem quer se reeleger, é essa. Agora, você conversa com um político e ele diz ‘Quero uma campanha igual à de Bolsonaro’. Não é assim que funciona. Eleição municipal é outra história, é eleição de síndico. Quem fizer agora previsão para 2020 está sendo soberbo, irresponsável ou os dois.”

Barros não atuava na linha de frente de uma campanha desde a eleição de Agnelo Queiroz (PT) ao governo do Distrito Federal, em 2010. Neste ano, ajudou a eleger dois governadores antípodas: Ratinho Jr. (PSD), com discurso bolsonarista e oposicionista, no Paraná; e o reeleito Paulo Câmara (PSB), em Pernambuco, uma candidatura lulista.

Nos últimos anos, ele expandiu os negócios da Propeg, mas nunca deixou de lado a política. É dos mais influentes conselheiros de ACM Neto, herdeiro político de seu velho amigo. Foi o prefeito de Salvador quem aproximou Barros do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), hoje em campanha pela reeleição e, também por isso, um dos destinatários da versão brasileira de House of cards feita pelo publicitário. Para Fernando Barros, qualquer que seja o presidente da Câmara, Bolsonaro terá de rever o tom antipolítica com que ganhou a eleição. “Sem o Congresso, não faz nada. Ele sabe disso. Dentro do Congresso, ele ( Bolsonaro ) vai ter de dizer ‘Sou desta Casa, esta Casa é soberana, respeito etc.’. Se ele estiver bem aprovado na rua, os caras vão junto.”

Se o faro político dos líderes partidários brasileiros se mostrou falho em 2018, Barros identifica outros derrotados. “As pesquisas estão superadas. Tem alguma coisa faltando aí. Enquanto não colocar a informação vinda daqui ( aponta o celular ), das redes, para fazer um blend ( mistura ) com a informação que é buscada na rua, você não terá um resultado mais aproximado do que está acontecendo. Aí na eleição você via todo dia a mulher do Ibope, o cara do Datafolha na TV tentando explicar e não conseguindo explicar nada.”

Da Revista Época

Parte da população não compreende perspectiva de solidariedade dos médicos cubanos

A médica Sarah Segalla é supervisora acadêmica em áreas de difícil acesso do programa Mais Médicos no Estado do Amazonas. Ela conversou com a RFI nesta segunda-feira (26) sobre como o atendimento nestas regiões será prejudicado com o fim da parceria entre Brasil e Cuba e expressou sua indignação com a falta de valorização destes profissionais por parte do governo eleito.

Cuba anunciou no último 14 de novembro que rejeitava as modificações estabelecidas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro no programa Mais Médicos, suspendendo a participação de seus profissionais nesta iniciativa criada em 2013 durante o governo da presidente Dilma Rousseff.

“Cerca de 18 mil médicos integram o programa Mais Médicos no Brasil. Destes, quase 9 mil eram médicos cubanos. Ou seja, metade do programa era suprido por médicos cubanos”, salienta Sarah.

Para ela, um dos pontos mais preocupantes do fim da parceria entre Brasil e Cuba é a futura ausência de médicos em diversas cidades e regiões brasileiras. “Os médicos cubanos chegavam sem escolher o lugar onde iriam trabalhar. Então, eles iam justamente para aqueles lugares onde nem os médicos brasileiros ou brasileiros e estrangeiros formados no exterior queriam ir. Essas categorias têm a possibilidade de escolher o local. Então a maior parte acaba ficando nas capitais, em áreas que também são de difícil provimento, mas com menos vulnerabilidade. As regiões para onde ninguém quis ir, as vagas para as quais ninguém se inscreveu, é que são supridas pelos médicos cubanos”, diz.
Sarah Segalla diz que no município onde trabalha, na região do Alto Solimões, no Amazonas, não há nenhum médico brasileiro, só os cubanos. “Ninguém quer ir trabalhar em São Paulo de Olivença. É por isso que 75% das áreas indígenas vão ficar sem médicos. Porque são locais em que nenhuma das categorias de médicos do programa quiseram ir”, salienta.

Mais de 96% das vagas preenchidas

No domingo (25), o Ministério da Saúde divulgou que preencheu 96,6% das vagas do Mais Médicos. Segundo um balanço do governo, das 8.517 vagas disponíveis, 8.230 haviam sido alocadas para atuação imediata. No entanto, o documento não precisa se os candidatos escolheram locais específicos para trabalhar ou se os aprovados já foram notificados sobre para qual localidade foram selecionados.

À RFI, a supervisora explicou que o preenchimento das vagas nos cadastros, no entanto, não garante a atuação dos profissionais. “Muitos médicos se inscrevem, entram e deixam o programa logo em seguida porque eles não dão conta de trabalhar nestas áreas de muita vulnerabilidade. Não estou criticando esses profissionais, são locais muito difíceis mesmo. Outra coisa que acontece é que estamos em novembro e alguns médicos entram no programa para trabalhar apenas alguns meses porque em fevereiro saem os resultados dos programas de residência no Brasil. Então, a maior parte dos médicos brasileiros que entram e que são recém-formados acaba saindo poucos meses depois para fazer sua residência”, observa.

Por isso, Sarah Segalla não está otimista sobre este aparente sucesso do programa após o anúncio do fim da parceria entre Brasil e Cuba. “Mesmo que a gente conseguisse preencher 100% destas vagas que foram oferecidas, dificilmente essas áreas vão conseguir um provimento constante, de vínculo longitudinal, que é o que a gente espera. Gostaríamos que essas pessoas conseguissem permanecer nessas áreas por no mínimo um ano ou pelos três anos previstos no edital”, reitera.

Além disso, a médica lamenta o fato destas regiões não poderem mais contar com profissionais com formação especializada e experiência em áreas de alta vulnerabilidade. “Os médicos cubanos vinham com uma missão, e a maior parte deles têm uma história importante. Os profissionais que eu supervisiono já estiveram no Timor Leste, no Paquistão, na Venezuela, trabalharam no Haiti durante a epidemia de cólera. Eles têm uma resiliência, uma formação voltada para áreas de epidemias, de catástrofes, onde as condições de vida são muito mais difíceis. Eles vêm com essa disposição de ir para qualquer lugar para servir o povo”, salienta.

A supervisora não percebe a mesma disposição nos médicos brasileiros. Sarah Segalla fala com base em sua própria experiência de médica de família em comunidade, com interesse em saúde indígena, com desejo de servir e trabalhar nessas áreas longínquas. “Ainda assim, eu mesma sinto muito as dificuldades ao me fixar nesses locais. Os médicos brasileiros não têm esse tipo de formação ou de cultura mesmo, solidária e internacionalista, dentro da qual Cuba forma seus profissionais.”

Por isso, para Sarah, por mais que as vagas sejam preenchidas, a perda para a saúde no Brasil será grande com a partida dos médicos cubanos. “A verdade é por mais que eles sejam substituídos por brasileiros, a gente tem menos habilidade para lidar com algumas circunstâncias do que eles. De qualquer forma, vamos perder ótimos profissionais, extremamente capacitados para fazer este trabalho”, afirma.

Falta de valorização dos médicos cubanos

A médica não esconde a insatisfação com a falta de valorização dos trabalhos dos profissionais cubanos no Brasil. Ela também desaprova a propagação de falsas notícias sobre o trabalho que realizaram nos últimos cinco anos no país e o tratamento desses profissionais pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.

“Eu lamento muito que essa decisão tenha sido tomada pelo governo cubano por causa de depoimentos e declarações que acontecem há anos por parte de Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, acho que a decisão de Cuba foi extremamente legítima, tanto diplomaticamente quanto para garantir a segurança de seus profissionais. Até porque essas áreas onde eles trabalham estão sendo ameaçadas hoje, as áreas indígenas, quilombolas, de garimpo, de conflito no campo, periferias com alto grau de violência. Eles estariam correndo risco nestas áreas se permanecessem em meio a essa onda de agressões e intolerâncias”, avalia.

Segundo ela, a maior parte das críticas aos médicos cubanos está baseada no desconhecimento do trabalho que eles desempenharam e na concepção de solidariedade dentro da qual eles foram formados e trabalham. “Eles optaram por vir trabalhar no Brasil, ninguém foi obrigado a vir”, salienta.

“Bolsonaro chegou a duvidar da formação destes profissionais. Isso é de um desconhecimento brutal sobre o programa Mais Médicos. Esses médicos passam por um curso em Cuba, fazem curso aqui com médicos brasileiros. Eles passam por testes e, quem não é aprovado, não vem. Fazem formação em língua portuguesa e passam pela supervisão que fazemos constantemente. Então, é de um desconhecimento e de uma falta diplomacia sem tamanho tratar esses profissionais desta forma, com tantas mentiras e tantos absurdos”, completa.

Os médicos brasileiros não têm esse tipo de formação ou de cultura mesmo, solidária e internacionalista, dentro da qual Cuba forma seus profissionais

Segundo a supervisora, todos os médicos cubanos com quem já teve contato e com quem trabalhou estão conscientes de que o trabalho no Brasil não é feito por dinheiro, mas dentro de uma missão. ““Do mesmo jeito que eles foram tratar pacientes durante a epidemia de cólera no Haiti, que foram ao Paquistão cuidar de vítimas do terremoto, eles vieram ao Brasil atender a população que nunca esteve diante de um médico. Os médicos cubanos não vieram por causa de R$ 3 mil, R$ 10 mil ou R$ 11 mil. Obviamente esse dinheiro ajuda porque os salários em Cuba são mais baixos e com esse dinheiro eles conseguem ampliar um pouco o poder de consumo na ilha, mas eles têm outras motivações”, diz.

No entanto, Sarah Segalla percebe o quanto é difícil para os brasileiros, “criados dentro deste sistema de meritocracia e de individualismo”, compreender o trabalho e a perspectiva de solidariedade destes profissionais. “Os cubanos que vieram para cá cresceram na época da Revolução. Eles cresceram com essa lógica e cultura social de servir o país, de ajudar os latino-americanos e a humanidade. É difícil para parte dos brasileiros conseguir enxergar isso porque esse discurso de que os médicos cubanos são escravos, de que eles foram obrigados pela ditadura cubana a vir para o Brasil, também é um discurso que discorda ideologicamente desta visão de mundo”, conclui.

Baixo astral: para 67% dos brasileiros, situação vai piorar e país está em declínio

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Levantamento realizado pela BBC News mostra uma realidade mais compatível com o resultado dos votos totais das eleições deste anos, em que Bolsonaro obteve 39% dos votos. O novo governo está muito distante de iniciar seu mandato com total confiança popular, obtendo taxa de apoio inferior a 60%.

Para 67% dos brasileiros, ou seja, praticamente 7 em cada 10 pessoas acreditam que a situação do Brasil deve piorar, o que coloca o país entre os mais pessimistas da pesquisa realizada em 24 países. Depois do Brasil, aparecem África do Sul, com 64%, e Argentina, com 58%.

O resultado do levantamento mostra a verdadeira realidade das operações anticorrupção que visou perseguir e derrubar os governos progressistas. No Brasil, a Lava Jato exerceu esse papel. Na África do Sul, ações semelhantes derrubaram o governo Jacob Zuma que renunciou. E na Argentina as ações eleitorais da justiça evitaram uma sucessão mais destrutiva, do ponto de vista da ordem democrática, porém, as políticas ultra-neoliberais de Maurício Macri deterioraram a economia local.

Crônica da queda anunciada

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POR GERSON NOGUEIRA

Os 14 mil torcedores que lotaram a Curuzu no sábado à tarde estavam lá apostando na possibilidade de um milagre. Fé cega e esperança andam de braços dados no futebol desde sempre. A salvação poderia ter ocorrido. O Oeste, que precisava vencer, ficou no 0 a 0 com o lanterna Boa Esporte.

Faltou o Papão fazer sua parte, item sempre ressaltado antes do confronto decisivo diante do Atlético-GO. No geral, o discurso foi assimilado em público pelos jogadores e comissão técnica, mas na prática não houve em campo a aplicação necessária para superar um adversário tecnicamente superior.

Costuma-se repetir em ocasiões como esta, quase como um clichê, que rebaixamentos são construídos no decorrer de uma competição. Nada mais verdadeiro. Ocorre que, na situação específica do PSC nesta Série B, as circunstâncias da rodada final permitiam evitar o desastre.

Aos 15 minutos do 1º tempo, quando Mike abriu o placar (havia feito um gol, mas a arbitragem anulou incorretamente), a combinação de resultados era perfeita para os bicolores. Além de estar em vantagem na partida, CRB, Criciúma e Oeste empatavam seus jogos.

De repente, porém, tudo passou a conspirar contra os interesses alvicelestes. O time seguia atacando muito e finalizando mal como sempre. Hugo Almeida perdeu chances, Timbó e Diego Ivo também. No meio, a coleção de erros de Nando Carandina e Renato Augusto ajudaram no projeto de reação do Atlético.

Tranquilo, sem se lançar afoitamente à frente, o time goiano se concentrou em explorar a precipitação do time da casa na tentativa de chegar ao ataque da forma mais desastrada possível: esticando passes, insistindo em ligações diretas e entregando a posse de bola a todo instante.

O empate nasceu de maneira meio espírita, com um chute de Moraes que desviou em Maicon Silva, mas o gol da virada já resultou do melhor futebol da equipe visitante e da lerdeza do centro de zaga do PSC.

Nem bem a bola rolou no segundo tempo e o Atlético chegou ao terceiro gol, com João Paulo entrando de novo entre os zagueiros. Prova de que o visitante estava mais plugado. Lento e dispersivo, o PSC ainda descontou com Thomaz, mas o esforço ficou por aí.

O Atlético, sempre cadenciando quando era necessário e acelerando quando possível, marcou mais dois e liquidou a fatura com uma goleada categórica e indiscutível. A queda, desenhada lá atrás, se confirmou da forma mais vexatória. Caso tivesse se preparado para superar o adversário mais qualificado, talvez o PSC estivesse salvo a essa altura.

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Palmeiras decacampeão no velho modelo gaúcho de jogar

Vinte e dois anos depois, Felipão voltou a ser campeão dirigindo o Palmeiras. O título é o décimo da história do clube, o maior campeão brasileiro de todos os tempos. Além da importância natural, a conquista ajuda a resgatar também o técnico, que ainda carrega o peso do maior fiasco do futebol pentacampeão – a surra de 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa 2014.

Absoluto ao longo da competição, após um começo hesitante, o Palmeiras jogou como Felipão gosta. Defesa forte e rebatedora de bola, meio-campo brigador e ataque baseado no jogo aéreo. Um estilo pouco técnico, fiel à escola gaúcha, futebol feio e ainda muito eficiente para consumo interno.

O fato é que o Palmeiras sobrou, terminando com a marca de 22 partidas de invencibilidade. O título confirma também que, cada vez mais, as vitórias dependem de poderio econômico. Conseguiu montar dois bons times, permitindo a Felipão revezar para atender as necessidades de três competições simultâneas – Copa do Brasil, Libertadores e Série A.

Dudu se sobressai como principal peça do elenco palmeirense. Jogador esquentadinho, foi se acalmando com o tempo e cumpriu certamente sua melhor temporada, embora não seja propriamente um craque.

Ainda sobre o 7 a 1, Felipão vai continuar eternamente marcado pela tragédia do Mineirão. O que não significa que isso seja justo, mas, como se sabe, o futebol jamais foi regido por princípios de justiça. Aos 70 anos, recusa a pecha de ultrapassado, mas o modelo tático que adota é datado e só funciona no futebol paupérrimo praticado no Brasil.

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Pikachu: grande temporada e expulsões infantis

Com excelente participação na temporada, fazendo nove gols apesar da pífia campanha do Vasco na Série A, Pikachu tem exibido um lado surpreendentemente temperamental nos jogos. Isso resulta em advertências e expulsões, como ontem, em S. Januário. Irritadiço, lembra até o palmeirense Dudu dos velhos tempos no hábito de peitar árbitros.

Compreende-se a tensão que envolve os vascaínos ante o risco de rebaixamento, mas bancar o xerifão na hora errada gera prejuízos ainda maiores, como a falta que Pikachu fará ao time na última e decisiva partida, contra o Ceará, em Fortaleza.

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Ataque ao ônibus do Boca envergonha a Argentina

Há pouco a dizer sobre as cenas de violência que provocaram o adiamento da final da Libertadores entre River e Boca. Barras bravas argentinos são famosos pela truculência. Ficamos sabendo agora que a polícia de lá é tão fraca quanto a daqui na prevenção de conflitos. Se a Conmebol fosse séria, o Boca seria declarado campeão. Sem discussão.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 26)