Mídia tradicional entra em parafuso com ‘padrão Bolsonaro de comunicação’

Por Lalo Leal, na Revista do Brasil

O jornal O Estado de S.Paulo demite uma cronista por ter criticado as propostas do então candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro. Toma essa decisão depois de vê-lo eleito, numa atitude nítida de subserviência. A TV Gazeta demite quase toda a equipe de jornalismo e amplia o aluguel ilegal de sua grade de programação para a Igreja Universal, apoiadora do próximo governo.

Folha de S.Paulo, depois da derrota do seu candidato no primeiro turno, parece sem rumo. Chama o gesto repulsivo do presidente eleito, simulando o uso de armas, ao lado do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, de simples gesticulação. Quem ele ameaçava? Os juízes ou os trabalhadores? Essa resposta a Folha não deu.

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São apenas alguns exemplos da situação dos meios de comunicação tradicionais neste momento pós-eleitoral. Todos eles apostavam numa candidatura palatável para os seus interesses empresariais mas não encontraram quem a encarnasse.

De repente se viram às voltas com uma realidade inesperada. Têm pela frente um governo que os despreza, que assusta muitos dos seus leitores, ouvintes e telespectadores, mas do qual não podem se afastar totalmente, como sempre acontece no Brasil. Afinal a dependência das verbas publicitárias oficiais e de outros favores governamentais é muito grande.

O uso do WhatsApp nas eleições foi decisivo para a definição dos resultados. Sobre isso não há dúvida. Mas esse sistema de mensagens não operou sozinho. Foi apenas o último passo de uma sequência iniciada muito tempo antes e operada pelos meios de comunicação tradicionais.

Criminalizaram a política abrindo espaços para o surgimento de aberrações desde o pleito municipal, há dois anos, ampliando-se agora com as eleições do presidente da República, de alguns governadores e de vários parlamentares.

corrupção tornou-se um prato cheio. O Jornal Nacional diariamente tinha como imagem de fundo desse noticiário um duto por onde jorrava muito dinheiro. As TVs nos restaurantes, bares, lojas, salas de espera de consultórios e de hospitais, mesmo sem som, inculcavam as imagens da corrupção nas cabeças de quem olhasse para as telas.

Nada de novo. As massas que saíram às ruas insufladas pela TV para apoiar o golpe de 2016 levantavam as mesmas bandeiras, como sempre ocorre em qualquer parte do mundo quando a direita tenta chegar ao poder por vias transversas.

No caso do Brasil, além da corrupção o outro tema sensível explorado eleitoralmente é o da segurança, sobre o qual rádio e TV deitam e rolam. Num país em que morrem assassinadas por ano mais de 60 mil pessoas, o assunto não pode mesmo ser desprezado.

O problema é a forma como ele é abordado. Os programas policialescos que ocupam amplos horários das emissoras em todo o país pregam ainda mais violência como solução. Claro que para as emissoras não interessa acabar com a violência. É ela que dá picos de audiência e garante boas receitas publicitárias. Daí a transformação de dramas do cotidiano em espetáculos mórbidos.

Especialistas nesse tipo de programa, as redes Record e a Bandeirantes foram contempladas com entrevistas exclusivas do candidato vencedor antes das eleições. Ele é o representante mais bem acabado da ideologia veiculada pelos programas policialescos.

Com sua retórica limitada, o capitão reformado balbucia chavões repetidos pela TV desde a época em que Jacinto Figueira Junior era o “Homem do Sapato Branco” na TV Cultura de São Paulo, àquela altura propriedade de Assis Chateaubriand. “Direitos humanos para humanos direitos” ou “bandido bom é bandido morto” não são novidade, fazem parte da história da televisão brasileira.

A contribuição da mídia tradicional para o resultado das eleições não fica por ai. A “facada de Juiz de Fora”, ainda a espera de uma investigação jornalística mais aprofundada, foi o ponto de virada da campanha eleitoral.

Tanto que um dos filhos do candidato proclamou uma vitória em primeiro turno logo após a agressão e apressou-se em dizer que o ferimento era superficial. Estava estabelecido o álibi para tirar o militar da reserva de todos os debates previstos com os demais candidatos.

Sabia ele e os seus apoiadores mais próximos do desastre que seria um confronto cara-a-cara com seus adversários. No único evento desse tipo em que participou, na Rede TV, foi destruído pela candidata Marina Silva, ao discutir sobre o papel da mulher na sociedade.

No segundo turno as emissoras cancelaram os debates sob a alegação de que não poderiam fazê-lo só com um candidato. Embora a Rede Globo tenha feito exatamente isso no Distrito Federal onde um concorrente se ausentou. Dessa forma criou-se uma situação inédita na história das campanhas presidenciais brasileiras.

O candidato Fernando Haddad, disposto ao debate, foi excluído da TV. O outro candidato escondeu-se do confronto mas falou sem contestação em longas entrevistas para a Record e a Bandeirantes. A justiça eleitoral fez vistas grossas para a ilegalidade e a democracia, nesse momento, sofreu um duro golpe.

Resta saber o que temos pela frente. Os meios tradicionais estão desorientados. O novo governo mostra-se inclinado a desprezá-los, jogando todas as suas fichas nas redes sociais e a eleição não interrompeu esse processo. As mensagens continuam circulando, refutando críticas e exaltando as confusas decisões do “governo de transição“.

Os meios convencionais, fragilizados em sua credibilidade e no seu caixa, terão muita dificuldade para se recuperar. A saída mais cômoda é a adaptação à nova ordem, como já mostrou a Rede Globo com uma entrevista apresentada no Fantástico com o candidato eleito.

O que já não era bom em termos de comunicação democrática tende a piorar. Torço para estar errado.

A história do golpe contra Jango

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A sessão Cineclube Prata da Casa, do Cineclube Alexandrino Moreira, exibe na próxima quinta (29), às 19 h, “Jango”, de Sílvio Tendler, com entrada franca. O Projeto Prata da Casa incentiva a divulgação de filmes nacionais, promovendo a exibição das obras em circuito alternativo.

O documentário refaz a trajetória política de João Goulart, o 24° presidente brasileiro, que foi deposto por um golpe militar em 1964. Goulart era popularmente chamado de “Jango”, daí o título do filme, lançado 20 anos após o golpe.

A reconstituição da trajetória de Goulart é feita com a utilização de imagens de arquivo e entrevistas com importantes personalidades políticas, como Afonso Arinos, Leonel Brizola, Celso Furtado, Frei Betto e Magalhães Pinto. O slogan do filme é “Como, quando e por que se derruba um presidente”.

A obra pode ser considerada como uma das mais importantes do Brasil e ganhou diversos prêmios, como o Troféu Margarida de Prata, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1984; o Prêmio Especial do Júri, Prêmio do Público e de Melhor Trilha Sonora no Festival de Gramado (Rio Grande do Sul), no mesmo ano, e o Prêmio Especial do Júri no Festival de Havana (Cuba).

Cineclube Prata da Casa – Exibição do filme “Jango” (1984), de Sílvio Tendler, nos dias 22 e 29 de novembro, às 19 h, no Cineclube Alexandrino Moreira, na Casa das Artes – ao lado da Basílica Santuário de Nazaré. Entrada franca.

Los Angeles não faz bem ao Zé

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Por Marcelo Freixo e Luiz Eduardo Soares 

Nossa amizade com José Padilha é a demonstração de que relações pessoais podem resistir às diferenças políticas. Ele escreveu um artigo, publicado por O Globo (7/11/2018), em que nos apresenta como representantes de uma esquerda derrotada que teria naufragado nas urnas por apegar-se à ideologia em detrimento da ética – como se a ética tivesse vencido a ideologia, no Brasil.

Seria por isso que o candidato a deputado estadual mais votado no Rio foi o homem que rasgou a placa de Marielle? O Brasil teria votado pela ética ao eleger quem defendeu grupo de extermínio e tortura? Los Angeles não está fazendo bem ao Zé. Talvez daí o ato falho: ele nos questiona, mas o título de seu artigo é: “E agora, José?” Padilha crê que de um lado está a distinção entre bem e mal, justo e injusto, de outro, a diferença entre ideologias. É como se separássemos o repúdio à corrupção da recusa a que seis bilionários acumulem a riqueza correspondente a 50% da renda nacional, ignorando que essa desigualdade inqualificável é fruto de um tipo de organização social e econômica, garantida e perpetuada por determinado arranjo do poder político. Como se nosso repúdio às desigualdades extremas não fosse ético, mas ideológico.

Esses conceitos são controversos e muito mais complexos do que nosso amigo faz parecer. Poderíamos virar de cabeça para baixo sua avaliação, afirmando que é anti-ético sustentar posições políticas que viabilizem a reprodução das iniquidades sócio-econômicas. Valer-se da retórica “ética” para justificar sua posição política gera ilusão de objetividade e de falsa neutralidade, revelando-se uma clara manifestação ideológica.

Quanto à derrota, Padilha negligenciou alguns fatos: o PSOL cresceu quase 100%, passou de seis a 10 deputados federais, cinco homens e cinco mulheres, ultrapassando a cláusula de barreira. Progressistas e democratas, unidos no segundo turno, alcançaram 47 milhões de votos. As esquerdas, somadas, têm, no Congresso, o mesmo número de representantes que possuíam na legislatura anterior. A ultra-direita cresceu em detrimento do centro. Houve derrota, claro, mas não nos termos sugeridos por Padilha e pelos motivos alegados em seu artigo.

Finalmente, chegamos a Lula. Não somos membros do PT e temos sido críticos duros do partido, ao longo de anos, mas as divergências não nos impediram de reconhecer a escandalosa injustiça a que Lula e o PT foram submetidos. Padilha até parece admitir, ao menos por hipótese, que a condenação de Lula tenha sido injusta, mas, na sequência, refere-se a outras acusações como se já tivessem sido comprovadas, dispensando julgamento. Parece-nos perfeitamente ético refutar a condenação se a consideramos injusta.

Houve inúmeros casos na história de erros judiciais, bem ou mal-intencionados. Além disso, o anti-petismo nada tem a ver com críticas ponderadas e bem informadas sobre o desempenho do partido. O anti-petismo, viralizado como praga por redes sociais, alimentado por fakenews as mais abstrusas, é a crença de que todos os petistas são corruptos e de que esse partido é o foco não só da corrupção, mas de todos os males brasileiros. O que venceu as eleições foi antes essa patologia do que a ética, o justo repúdio à corrupção.

Quanto à Lava-Jato, a operação começou enchendo de esperança quem repelia a corrupção, entretanto, ao longo do caminho perdeu-se em sucessivos vazamentos e delações seletivos. Não nos parece minimamente razoável que se negue o caráter político-eleitoral do vazamento de antiga delação de Palocci, a seis dias do primeiro turno. O ingresso do juiz Moro no governo Bolsonaro, depois dessa intervenção, deixa claro para quem duvidava que Lula foi retirado da competição eleitoral intencionalmente e que foi essa a razão de sua rapidíssima dupla condenação. Veremos como a segunda temporada da série “O mecanismo” lidará com essa evidência.

Médicos brasileiros se recusam a atuar em áreas distantes de centros urbanos

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Dos dez primeiros médicos brasileiros que se inscreveram no Mais Médicos nesta quarta (21) para as 8.517 ocupar as vagas deixadas pelos cubanos, cinco deles escolheram atuar em capitais e municípios de regiões metropolitanas. Apenas um município escolhido é considerado de extrema pobreza. Outro está em área vulnerável e um terceiro em uma cidade com até 50 mil habitantes.

Levantamento do pelo Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) indica que pelo menos 285 cidades em 19 Estados do Brasil devem ficar sem médicos dedicados à atenção básica em saúde na rede pública com a saída dos cubanos.

A informação sobre a opção dos médicos brasileiros é da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo. A recusa dos médicos brasileiros de atender a população das periferias das grandes cidades e das regiões mais pobres do país foi um dos motivos que levou o governo Dilma a lançar o Mais Médicos em 2013 e firmar o acordo com o governo cubano e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

O Rio Grande do Sul é o Estado com mais municípios afetados pela saída dos cubanos — são 92. Em seguida vêm São Paulo, com 49, Paraná, com 27, e Minas Gerais, com 24. O Conasems ainda não tem dados sobre o Amazonas, Amapá, Ceará, e Espírito Santo. O Distrito Federal não foi considerado no levantamento. Até a manhã desta quinta, segundo o Ministério da Saúde, havia 6.394 inscritos no Mais Médicos.

A vitimização como estratégia

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Por Gustavo Conde

Vem aí uma série de factoides e de situações fraudulentas que servirão para manter Bolsonaro numa eterna posição de vítima.

Aguardem. Vocês cansarão de ler sobre “ameaças a Bolsonaro”. Falsas tentativas de atentado, vazamentos de conversas fictícias, declarações indignadas de generais e tudo o que se puder imaginar em termos de ‘produção da vitimização’.

A imprensa tradicional vai aceitar tudo e vai repercutir tudo, super bem comportada e acuada.

Política Federal grotescamente aparelhada, Ministério da Justiça monumentalmente aparelhado e ‘inteligência’ militar furiosamente aparelhada. Nunca foi tão fácil criar realidades paralelas.

Blindar a figura de Bolsonaro diante da previsível rejeição popular que tomará conta do país em função do aumento acelerado da pobreza, da violência e do extermínio do patrimônio, portanto, vai ser mais fácil que tomar doce de criança.

O grupo de Bolsonaro já anteviu esse processo (de erosão da popularidade) e já se precaveu. Aliás, super fácil se concentrar na estratégia de comunicação fraudulenta – já que ninguém tem que perder tempo governando mesmo.

Seremos governados por fakenews até 31 de dezembro de 2022. Será uma overdose. Será o sustentáculo do governo – e isso vai enlouquecer muita gente.

O que fazer? É exatamente isso que estou me perguntando neste momento.

(*) Gustavo Conde é linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247

Secretaria de Assuntos Fundiários é criada e entregue à UDR

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, criou a Secretaria Especial de Assuntos Fundiários, que será assumida pelo ruralista Nabhan Garcia. Segundo a futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a estrutura deve ser ligada à sua pasta.

Garcia é amigo de Bolsonaro e presidente da UDR (União Democrática Ruralista). Ele chegou a ser cotado para assumir a Agricultura, cargo que acabou recebendo indicação da FPA (Frente Parlamentar da Agricultura).

Uma beleza… o galinheiro entregue à raposa. 

Bahia de todas as cores, classes, crenças e gêneros

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Por Breiller Pires, no El País

Uma mascote negra. Homenagens a Marielle Franco e Moa do Katendê, assassinados por motivações políticas. Criação do “Bolsa Ídolo”, que ampara ex-jogadores em dificuldades financeiras. Ronda Maria da Penha no estádio da Fonte Nova para proteger as mulheres. Solidariedade a Claudia Leitte após a cantora, torcedora tricolor, sofrer assédio machista do apresentador Silvio Santos. Ao inovar com seu Núcleo de Ações Afirmativas, o Esporte Clube Bahia pretende não apenas promover transformações sociais por meio do futebol, mas se consolidar como o time mais democrático e inclusivo do Brasil.

O desafio surgiu no fim do ano passado, quando o empresário Guilherme Bellintani, então secretário de ACM Neto (DEM), decidiu se afastar do trabalho na prefeitura de Salvador para concorrer à presidência do Bahia. Durante a campanha, ouviu apelos de sócios e torcedores para que o clube dialogasse mais com a torcida e se integrasse melhor à comunidade baiana, fazendo valer a fama de time da massa. Depois de vencer a eleição, não teve dúvidas em instituir, logo nos primeiros dias de mandato, o único departamento de ações afirmativas do futebol brasileiro. “O Bahia representa muito da identidade cultural e socialdo nosso Estado”, afirma Bellintani. “Por isso, temos obrigação de nos posicionar, frear extremismos e apoiar causas que vão além do campo de jogo.”

Com menos de um mês de existência, o Núcleo de Ações Afirmativas lançou sua campanha inaugural no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, destacando religiões de matriz africana e a história do sincretismo religioso na Bahia. Desde então, não parou mais de fazer barulho no estádio e nas redes sociais. Uma das ações de maior repercussão foi a Não há Impedimento, em combate à discriminação de gênero. Rendeu ao clube o troféu Honra ao Mérito da Diversidade Cultural LGBT, concedido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), mas também protestos homofóbicos de alguns torcedores e deboches dos rivais. Porém, nada que abalasse a convicção tricolor de romper o tabu ao enfrentar preconceitos. “A maioria das reações foi positiva”, conta o presidente. “Nossa torcida tem entendido a mensagem de tolerância e respeito às diferenças que o Bahia quer passar.”

Outra bandeira permanente é a Mulheres no Futebol, que incentiva a participação feminina no clube e nas arquibancadas. Em março, mais de 1200 torcedoras – a maioria negra – responderam um questionário que revelou que 43% delas nunca foram sozinhas à Fonte Nova e 38% têm receio de frequentar o estádio por medo de serem assediadas, discriminadas ou agredidas em brigas de torcida. Com base nas principais queixas, o Bahia desenvolve ações práticas para aumentar a frequência de mulheres, como a parceria com a Polícia Militar que levou a Ronda Maria da Penha – composta por muitas oficiais do sexo feminino – para atender exclusivamente às torcedoras na Fonte Nova. Segundo a diretoria, o apoio ao desabafo de Claudia Leitte contra Silvio Santos na semana passada é coerente com a postura do clube em defesa da mulher. “As campanhas de responsabilidade social do Bahia são muito importantes, porque ajudam a agregar mais torcedoras”, afirma Júlia Fraga, integrante da torcida Tricoloucas.

As mulheres também foram lembradas na série de três ações do Novembro Negro que exalta heróis e personalidades negras. Na primeira, jogadores entraram em campo estampando em suas camisas nomes históricos como Dandara, Luiza Bairros, Mãe Menininha do Gantois, Zumbi dos Palmares e Moa do Katendê. Na segunda, os homenageados foram artistas, integrantes do movimento negro e ativistas, entre eles o cantor Gilberto Gil, o repentista Bule-Bule, o antropólogo Kabengele Munanga, a ialorixá Mãe Jaciara e a influenciadora Tia Má. “Fizemos questão de homenagear inclusive torcedores do Vitória, para provar que a luta contra o racismo está acima de qualquer rivalidade”, diz Bellintani. A última ação do mês será nesta quinta-feira, antes do jogo contra o Fluminense, quando 23 ex-jogadores negros que defenderam o clube, como Cláudio Adão, Dadá Maravilha, João Marcelo, Fabão e o camaronês William Andem, serão prestigiados.

Outra forma de reverenciar o passado é o Dignidade ao Ídolo, programa de assistência social a veteranos notáveis da equipe que passam por necessidades. Uma pequena parte da receita anual (0,31% – número simbólico que remete a 1931, ano de fundação do clube), equivalente a cerca de 400.000 reais, é destinada para o pagamento de até três salários mínimos por mês a ex-jogadores em situação de vulnerabilidade. Um dos sete contemplados pelo “Bolsa Ídolo” é o ex-lateral Maílson, que teve o corpo paralisado pela Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). “Além de dar orgulho à torcida, por cuidar da nossa memória, o benefício é um recado aos jogadores atuais”, afirma o presidente tricolor. “Mostramos que vale a pena se tornar ídolo do Bahia, que eles não serão desamparados no futuro.”

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Revolução com democracia e inclusão

O Núcleo de Ações Afirmativas é formado por funcionários do clube, mas também por professores universitários, líderes de movimentos sociais e coordenadores de ONGs. Por abraçar a defesa dos direitos de minorias, o Bahia já foi tachado de “esquerdista” e “comunista”. Mas, de acordo com Bellintani, o Esquadrão de Aço se mantém neutro na política, embora não tenha se omitido de posicionamentos que pudessem gerar discordância entre torcedores durante as eleições. “Não sabíamos que o país estava tão dividido. Tomamos posição de maneira equilibrada, sem nenhum intuito de partidarizar questões. Nossa linguagem é de convergência.”

Para a atual gestão, a abertura às ações afirmativas é fruto do processo de democratização do clube, iniciado com o interventor Carlos Rátis e o mandato provisório de Fernando Schmidt, que interromperam o período de 15 anos em que as famílias Guimarães e Barradas se revezaram no poder. Após a deposição de Marcelo Guimarães Filho por improbidade administrativa, a modernização do estatuto do Bahia se tornou prioridade. Sob o comando de Rátis, ainda em 2013, foi aprovada a eleição direta para presidente. Na gestão de Marcelo Sant’ana, que assumiu em 2015, as finanças foram saneadas, dando fôlego ao sucessor para tocar o futebol e seguir com a “revolução” institucional.

Em maio, o Bahia deu um passo importante rumo à inclusão da população mais pobre em seu quadro de sócios. Com mensalidade de 45 reais, o plano Bermuda e Camiseta abriu 2.000 vagas para torcedores que recebem até 1.500 reais se associarem e, consequentemente, ganharem direito a voto – em agosto, o Conselho Deliberativo aprovou a votação pela internet para tricolores de fora de Salvador. Novas vagas da modalidade popular devem ser abertas em janeiro. Também neste ano, o clube anunciou a própria marca de uniformes e está prestes a lançar um modelo de camisa mais acessível (99 reais) que a oficial, que hoje custa 219 reais.

Ainda assim, grupos de torcedores como a Frente Esquadrão Popular reivindicam ingressos mais baratos e maior diversificação em posições de destaque: “Se os negros são maioria na torcida do Bahia, por que são tão poucos no Conselho Deliberativo?”. As mulheres também são minoria (menos de 10%) entre os 23.000 sócios. O time feminino só foi criado no início de novembro, em parceria com o Lusaca, por exigências do Profut e da Conmebol. Guilherme Bellintani reconhece que o clube ainda está longe de espelhar a sociedade baiana em seus quadros, mas defende o aprimoramento dos mecanismos democráticos para mudar essa realidade nos próximos anos. “Buscamos uma transformação real, não de fachada, como as cotas para mulheres em partidos políticos. Com a manutenção das políticas inclusivas, o Bahia terá mais diversidade no Conselho e na diretoria.”

Dentro do clube, há o consenso de que o bom momento esportivo, na esteira de títulos da Copa do Nordeste e do Campeonato Baiano, somado a duas temporadas consecutivas na Série A do Brasileirão, estimula um ambiente favorável para ampliar as campanhas afirmativas. “Se o desempenho do time fosse ruim, ia ter torcedor mandando a gente cuidar do futebol”, diz Bellintani, convencido de que a revolução no clube será duradoura, independentemente de tropeços e conquistas. “A grande lição do Bahia é provar que democracia combina com resultado em campo. Não promovemos inclusão e ações sociais por marketing. Mas por acreditar que o futebol pode dar sua contribuição para melhorar a sociedade.”

Time ficha-suja: mais da metade do ministério responde a processos

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O futuro governo Bolsonaro, surgido no bojo de uma onda “contra a corrupção”, tem mais da metade dos ministros anunciados envolvidos em  denúncias e investigações. Seis dos dez nomes indicados por Bolsonaro estão enrolados: Onyx Lorenzoni, deputado (Casa Civil); Paulo Guedes, economista (Economia); Marcos Pontes, tenente-coronel (Ciência e Tecnologia); Tereza Cristina, deputada (Agricultura); Luiz Henrique Mandetta, deputado e médico (Saúde); e Sérgio Moro, agora ex-juiz federal (Justiça).

Até o momento, não há investigações em curso contra quatro ministros anunciados: Augusto Heleno, general (Segurança Institucional); Fernando Azevedo e Silva, general (Defesa); Ernesto Araújo, diplomata (Relações Exteriores); e Wagner Rosário, atual ministro (Controladoria-Geral da União).

As acusações e denúncias contra cada um:

Onyx Lorenzoni: recebimento comprovado de doações ilícitas em campanha eleitoral (caixa 2); para o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, o uso de caixa 2 em campanhas eleitorais, é “pior que corrupção”.

Paulo Guedes: há investigações por fraudes contra fundos de pensão e fundos de investimentos em valores que podem chegar a mais de R$ 1 bilhão.

Marcos Pontes: acusado de ser sócio oculto de uma empresa quando era militar da ativa -aos militares é vedado serem sócios de empresas.

Tereza Cristina: investigada por conceder incentivos fiscais à JBS quando era secretária estadual de Desenvolvimento Agrário e Produção de Mato Grosso do Sul, na mesma época em que arrendou para si uma propriedade ao grupo.

Luiz Henrique Mandetta: o deputado não reeleito é investigado por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa 2 no contrato para implementar um sistema de informatização na saúde em Campo Grande, no período no qual foi secretário. O futuro ministro teve os bens bloqueados em uma ação civil pública relativa ao caso.

Sérgio Moro: responde a diversos processos disciplinares no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Entre eles estão: vazamento para a imprensa da delação premiada de Antonio Palocci; a divulgação da conversa gravada entre a então presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula; a aceitação do convite para se tornar ministro da Justiça do presidente eleito Jair Bolsonaro, diante da revelação que o convite fora feito ainda durante a campanha eleitora; a interferência indevida de Moro para impedir o cumprimento de um habeas corpus que determinava a soltura de Lula, em julho passada; viagem ao exterior patrocinada por entidade privada (Lide) para participar de evento a convite de João Doria.

A qualidade do ministério de Bolsonaro está surpreendendo até setores da mídia que vinham manifestando neutralidade e até simpatia a Bolsonaro.

Além dos futuros ministros enrolados com a Justiça, Bolsonaro, que havia prometido um ministério desvinculado da política tradicional está compondo um governo alicerçado no DEM. O partido é o único com parlamentares no ministério até o momento e, mesmo com um desempenho pífio nas eleições, já abocanhou 30% do lote já anunciado: três dos dez indicados são “democratas”,  Lorenzoni, Tereza Cristina e Mandetta. O DEM é o sucessor do PFL, por sua vez sucessor do PDS, que surgiu da Arena, o partido que deu sustentação ao regime militar e reúne a casta política mais arraigada no aparelho de Estado e à política clientelista, especialmente no Nordeste.

Em termos de representação parlamentar, o DEM terá uma bancada no máximo média em 2019. Elegeu apenas 29 deputados federais, muito atrás do PT (56), do PSL (52), PP (37) ou MDB e PSD (cada um com 33). A bancada do DEM é menor até que as do PR, PSB e PRB. É apenas a nona babcada na Câmara, empatada com a do PSDB. No entanto, é a força política predominante até agora no Ministério Bolsonaro.