Jornal de Collor demite 30 profissionais e passa a ser semanal. Sindicato aciona MP

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Braço impresso da Organização Arnon de Mello (OAM), um dos maior conglomerado de mídia do Norte-Nordeste brasileiro, o jornal Gazeta de Alagoas deixou de circular diariamente. Nos últimos dias, 30 dos 45 jornalistas da redação do periódico foram demitidos, e os que foram mantidos passarão a acumular funções na versão eletrônica do grupo, o site Gazetaweb. Uma ação civil contra as demissões em massa foi aberta no Ministério Público de Alagoas pelo sindicato local (leia mais abaixo).

Com 88 de anos de circulação e tiragem de cerca de 15 mil exemplares, o jornal é o mais influente de Alagoas e pertence à família do senador Fernando Collor de Mello (PTC-AL). Além do jornal Gazeta e do site Gazetaweb, o conglomerado reúne emissoras de rádio, a TV Gazeta, uma das primeiras emissoras do Nordeste afiliadas da Rede Globo, o Instituto Gape (Gazeta Pesquisa) e o Instituto Arnon de Mello (área de responsabilidade social).

O clima é de consternação no estado. Profissionais de imprensa e o sindicato local têm se manifestado contra a demissão em massa e se dizem em luto pelo jornalismo alagoano. Há a possibilidade de que sejam realizadas manifestações públicas, como passeatas, por iniciativa de entidades de classe como o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal).

Por meio de nota conjunta (íntegra abaixo), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindjornal protestaram contra a direção do jornal e escreveram que “a gestão continuou ignorando os sinais de mudança do mercado e deixou que as dificuldades se agravassem, chegando ao fim que agora se apresenta”. “Repudiamos a decisão de abrir mão de um legado que faz parte da história de Alagoas, ao invés de buscar soluções para viabilizar a empresa”, diz trecho da nota.

Por meio de comunicado publicado na capa da edição de 10 de novembro – o sábado que marcou a última edição diária –, o jornal diz que a ideia agora é manter a atualização diária de seu site e produzir a edição semanal com “caráter opinativo mais reforçado e diversificado nas análises dos acontecimentos”. “Estaremos com duas versões de mídia mais dinâmicas e mais modernas, seguindo a tendência dos principais jornais de todos os países”, acrescenta a nota.

Luto na festa

Presidente do Sindjornal, Isaías Barbosa anunciou a abertura de uma ação civil pública contra o jornal no Ministério Público de Alagoas. Em evento de premiação jornalística realizado neste fim de semana, Isaías fez discurso enfático em defesa da classe e criticou a forma com que as demissões foram executadas, súbita e arbitrariamente.

No mesmo evento, a blogueira Graça Carvalho, uma das jornalistas mais experientes de Alagoas, também lamentou a postura da direção do jornal. Em seu blog, Graça resumiu o clima de tristeza da classe jornalística.

“Como acontece todos os anos, muita expectativa entre os concorrentes, torcidas organizadas, em todas as categorias, mas a comemoração dos premiados foi mais discreta se comparada a edições anteriores. No geral, o clima era de consternação, por conta da demissão em massa ocorrida no jornal Gazeta de Alagoas, às vésperas da premiação. Logo na entrada do local do evento, uma faixa já anunciava: ‘Imprensa alagoana de luto'”, observou.

“O presidente do Sindjornal, Izaías Barbosa, abriu o evento lamentando o episódio e denunciando o descumprimento de direitos trabalhistas dos empregados da OAM, a exemplo do não recolhimento do FGTS e não pagamento de horas extras. No mesmo sentido foi a manifestação da representante da Federação Nacional dos Jornalistas, Valdice Gomes, que reafirmou o compromisso da entidade com a defesa da categoria, sobretudo no conturbado momento político brasileiro”, acrescentou Graça.

Leia a íntegra da nota conjunta Fenaj-Sindjornal:

Neste momento desolador para a história do jornalismo alagoano, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Alagoas (Sindjornal) e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) manifestam total e irrestrita solidariedade a todos que fazem parte da Organização Arnon de Mello (OAM), em especial aos que trabalham, diariamente, no Jornal Gazeta de Alagoas.

Com 88 anos de existência o maior jornal diário de Alagoas passa a ser semanal, a partir deste sábado (10), deixando uma lacuna em toda a sociedade alagoana.

Merecem todo o apoio e respeito os profissionais que, ao longo dos últimos anos, foram muito além do seu papel de funcionários, fizeram concessões e sacrifícios por compreender a importância de manter o impresso funcionando. Com paciência e muito trabalho, viram seus direitos como hora-extra e FGTS serem negligenciados pela empresa, mas sempre optaram pelo diálogo e a manutenção do veículo, que sempre foi entregue, pontualmente, e com qualidade ao leitor.

Por outro lado, a gestão continuou ignorando os sinais de mudança do mercado e deixou que as dificuldades se agravassem, chegando ao fim que agora se apresenta.

Repudiamos a decisão de abrir mão de um legado que faz parte da história de Alagoas, ao invés de buscar soluções para viabilizar a empresa.

Prioritariamente, o Sindjornal já acionou o seu departamento jurídico e vai trabalhar incansavelmente para garantir que todos os direitos dos trabalhadores sejam respeitados. Sobre as possíveis demissões, o sindicato espera que sejam apenas boato. Porque não é justo que pais e mães de família que dedicaram tanto trabalho à empresa sejam penalizados por erros que não cometeram.

Maceió, 10 de novembro de 2018

Enquanto Brasil dispensa médicos, Cuba e EUA se unem contra o câncer

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Distantes no campo político, mas unidos na pesquisa científica: a primeira joint venture em biotecnologia entre Cuba e os Estados Unidos promoverá a eficácia de um tratamento cubano contra o câncer de pulmão e seu possível uso em pacientes americanos.

Ainda em fase experimental, o CIMAvax-EGF deu o que falar nos últimos meses, inclusive antes do anúncio deste acordo inédito. Promovido como milagroso em vários sites da internet, foi elogiado no fim de setembro como uma “vacina contra o câncer de pulmão” pelo líder do partido de esquerda radical França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que depois se retratou.

A realidade é mais complexa: mais que de uma vacina, o pesquisador do Centro de Imunologia Molecular de Havana, Orestes Santos, prefere falar de “imunoterapia ativa” que age sobre a proteína EGF (fator de crescimento epidérmico). “O tumor do câncer de pulmão necessita do EGF para seu crescimento e proliferação, e o que fizemos no nosso centro foi desenvolver um produto que gera anticorpos contra essa proteína”, explica Santos. “É mais uma arma na luta contra o câncer, que se combina com outras armas terapêuticas, como a quimioterapia”, acrescenta.

5.000 pacientes tratados

Interessado neste tratamento, o Roswell Park Cancer Center, com sede em Buffalo (Nova York), contatou o centro cubano em 2015, durante uma missão comercial dos Estados Unidos à ilha em meio ao histórico degelo entre os antigos inimigos da Guerra Fria.

Pouco depois, a relação bilateral voltou a ficar tensa, mas isto não impediu que a associação florescesse e desse origem a esta empresa mista, que será instalada na zona franca do megaporto de Mariel, 45 km ao oeste de Havana. “A empresa cubano-americana tem como intenção financiar o desenvolvimento (do tratamento), e fazer novos ensaios clínicos mais complexos, maiores, no território americano”, indica o vice-diretor do centro cubano, Kalet León.

O objetivo é seu “potencial registro (ante as autoridades sanitárias americanas) e sua aplicação maciça nos pacientes” desse país, acrescenta. Administrado em forma de injeção mensal nos centros de saúde da ilha desde 2011, o tratamento já foi testado no Paraguai, Peru, Sri Lanka, Malásia e Bósnia.

“Hoje mais de 5.000 pacientes ao redor do planeta estão utilizando a imunoterapia ativa com o CIMAvax”, ressalta a médica Soraida Acosta, diretora do departamento de ensaios clínicos em um hospital de Santiago de Cuba.

Não há milagre

A cooperação médica e científica entre ambos os países sempre sobreviveu aos sobressaltos de suas relações. “Apesar do embargo (econômico, vigente desde 1962), esta é uma das últimas alavancas diplomáticas que se manteve”, com “a participação de pesquisadores americanos em colóquios em Cuba e a capacitação de cientistas cubanos nos Estados Unidos”, afirma Nils Graber, estudante de doutorado em antropologia na Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais de Paris.

Para Graber, autor de uma tese sobre a inovação científica cubana, a ilha foi pioneira na luta contra o câncer, mas “o tratamento midiático em relação a Cuba sempre foi binário e maniqueísta, com anúncios da descoberta de um tratamento milagroso (…) e, do outro lado, artigos que buscam imediatamente desqualificar a pesquisa cubana”.

No caso do CIMAvax, “é falso, não há um tratamento milagroso desenvolvido em Cuba, mas similar ao que se faz em outros lugares”, pois muitos cientistas no mundo estão apostando na imunoterapia (que consiste em ativar o sistema imunológico do paciente) para combater o câncer.

Esta técnica, descoberta pelo americano James P. Allison e pelo japonês Tasuku Honjo, acaba de receber o prêmio Nobel de Medicina. O CIMAvax se baseia em um “mecanismo único”, pois deixa “as células cancerosas morrerem de fome”, afirma o diretor de desenvolvimento científico do Roswell Park, Doug Plessinger.

Os resultados dos primeiros testes que foram realizados em 30 pacientes americanos, apresentados no Congresso Mundial de Câncer de Pulmão, realizado recentemente em Toronto (Canadá), são “muito animadores”, “mas sabemos que é necessário produzir muito mais dados” para provar a eficácia do tratamento.

O professor Fabrice André, diretor de pesquisa do Centro de Luta contra o Câncer Gustave-Roussy, da França, pede prudência, porque a “diferença entre a sobrevivência dos pacientes vacinados e os não vacinados (…) não é considerada importante o suficiente para que a comunidade possa afirmar que existe uma prova científica de que a vacina está funcionando”. O tratamento é “interessante”, considera André, “se o medicamento for melhorado e se os pacientes forem bem selecionados”. (Da AFP) 

A Liga das Nações e a Liga Barbante

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Por Alberto Helena Jr.

Mesmo com a baixa performance de algumas das principais seleções da Europa, como Alemanha e Itália, já rebaixadas para a Série B, a Liga das Nações foi a grande sacada da Uefa, que supriu as datas Fifa, antes ocupadas por amistosos sem graça, por um torneio pra valer, com taça e grana em disputa.

E que torneio!

Dá gosto ver o empenho dos jogadores e as variações de escolas de futebol do Velho Continente em ação, com resultados surpreendentes, como, por exemplo, a goleada da Suíça sobre a Bélgica por 5 a 2 e a virada emocionante da Inglaterra contra a Croácia, neste fim de semana.

Times jogando pra frente, poucas faltas e muita dedicação, em estádios lotados e frenéticos.

E esse parece ser o primeiro passo para algo mais ousado por parte da Uefa: o campeonato europeu de clubes, um torneio que se sobreporia aos campeonatos nacionais, acompanhando a tendência moderna da tal globalização.

Sim, porque o futebol se transformou, nas últimas décadas, num negócio monstruoso, onde o dinheiro jorra pra todos os lados como se saído de gigantesca cornucópia.

Isso o conduz à um nível de exigência de qualidade cada vez maior. É a lei da sobrevivência do mercado, quer gostemos ou não. Nesse processo, a tradição, tão acarinhada pelos europeus em geral, cede lugar à força do progresso, como se diria lá atrás, na época da industrialização.

Pra frente é que se anda. Lá, é de Ferrari; aqui, de Kombi velha, enferrujada.

Aqui, onde a tradição é a desmemória de ontem, vira bandeira nacional pra preservar o atraso, em todos os sentidos, fora e dentro dos campos de futebol.

Exemplo? A insistência em reservar-se um tempo precioso a esses anacrônicos campeonatos estaduais, entupindo um calendário estúpido que, no fim, só serve pra empobrecer o espetáculo, que, por consequência, afasta os investidores de porte. É a política da pobreza, no campo, na cabeça do cartola e nos cofres dos clubes, que vivem à míngua, enquanto essas defasadas federações estaduais nadam em dinheiro chupado dos clubes sem nenhum retorno.

Mas, quando se toca nesse assunto, vem o desavisado amigo clamar pela permanência desse status quo em nome da tradição. Ah, sim, e da sobrevivência dos pequenos, celeiros de craques e tal e cousa e lousa e maripousa.

É mesmo?

Peguemos o caso do futebol paulista. Quantos desses celeiros de craques participam do Paulistão? Dez, doze? Agora some todos aqueles que ficam de fora, de pires na mão. São centenas, muitos de rica história no passado que são obrigados a fechar as portas. E, mesmo os que jogam os três meses do Paulistão, passam o resto do ano penando na amargura, obrigados a desfazerem seus elencos por falta de dinheiro.

A solução óbvia é que se reserve para os grandes centros do Brasil, pelo menos, um mês, se tanto, para uma disputa rápida, abrindo-se no Brasileirão a infinidade de séries que mantenham em ação todas as equipes inscritas na CBF, de maneira regionalizada, de forma decrescente, permitindo aos pequenos clubes desse mundão de Deus se ocuparem o ano todo dentro de suas reais possibilidades financeiras.

É assim que se faz lá na Europa. E foi assim que o futebol europeu em geral se desenvolveu técnica e financeiramente, enquanto por aqui seguimos marcando passo no atraso.

PS: Pra quem não sabe, Liga Barbante era como o povo denominava aquelas associações de clubes, no Rio e em São Paulo, dos tempos do amadorismo marrom. que se criavam e se rompiam a toda hora, entre os que eram a favor do profissionalismo e os que eram contra.

Na festa pelo acesso do Goiás nem policial resiste à animação da torcida

A Polícia Militar de Goiás instaurou um Procedimento Administrativo Disciplinar para investigar a comemoração de um policial que festejou a classificação do Goiás à Série A do Campeonato Brasileiro. Ele foi filmado pulando ao lado de torcedores do clube durante o serviço no aeroporto de Goiânia, onde a torcida esperava a chegada do time.

De acordo com a assessoria de imprensa da PM, o episódio trata-se de “um ato isolado e não representa a corporação”. Em vídeo que circulou nas redes sociais, o policial tenta organizar minimamente a fila de torcedores e começa a pular junto com o público enquanto afastava os fãs do clube alviverde do corredor do desembarque.

O time goiano garantiu o acesso com vitória por 3 a 1 contra o Oeste, no último sábado. Além do Goiás, o Fortaleza, que já conquistou de maneira antecipada o título da Série B, também está classificado.

Briga entre Trump e jornalista da CNN ressalta importância da liberdade de imprensa

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Do Congresso em Foco

O episódio do descredenciamento do correspondente da CNN na Casa Branca, Jim Acosta, é o ápice da briga de Trump com a imprensa norte-americana. Durante entrevista coletiva, Trump foi duro ao responder à pergunta do jornalista sobre a caravana de latino-americanos que se aproximava dos EUA e sobre a investigação de suposto conluio com a Rússia para influenciar a eleição de 2016. O mau relacionamento entre Trump e a a imprensa chegou ao extremo e certamente exigiu uma gestão de crise.

Acosta questionou o fato de terem sido chamados de invasores. Trump respondeu dizendo que as cenas eram reais. E disparou: “Deixe que eu administre o país, você administra a CNN. Chega”, ao mesmo tempo em que uma funcionária tentou tirar o microfone do jornalista.

Os ataques do presidente norte-americano atingiram também colegas do repórter que tentaram interferir. “Eu não te chamei. Me dê licença, não estou respondendo para você”, cortou Trump.

Pouco depois, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, postou no Twitter que o repórter “colocou as mãos” na funcionária que tentava tirar seu microfone, alegando que “não será tolerado comportamento inapropriado claramente documentado neste vídeo”.

Na sequência, perfis de veículos de mídia postaram nas redes sociais o contexto completo do episódio. As imagens do vídeo postado pela Casa Branca tiveram a velocidade dos frames acelerada de modo a fazer parecer agressivo o gesto do jornalista. No registro original ele teria apenas movido o braço após a tentativa de ter o microfone retirado de suas mãos. A crise se instalou.

Poucos dias depois, um juiz federal americano decidiu que a Casa Branca deve devolver a credencial. A CNN havia entrado com ação contra a suspensão e declarado que Jim Acosta tem sido alvo frequente das críticas de Donald Trump.

O incidente não foi o primeiro e nem será o último do embate entre o presidente dos EUA e a mídia, mas deve ser alvo de reflexão sobre a importância do respeito à imprensa. Entidades de classe e a mídia reagiram fortemente ao fato.

Pela Primeira Emenda da Constituição norte-americana é proibido limitar a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. A imprensa deve continuar livre para perguntar e informar à opinião pública. Restrições ao exercício da profissão, fake news e ameaças são retrocessos em qualquer país.

Ícone do mundo corporativo, brasileiro da Nissan é preso no Japão por crime financeiro

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O presidente do Conselho de Administração da Nissan, Carlos Ghosn, foi preso no Japão nesta segunda-feira por suspeita de ter violado leis financeiras locais, informou o canal de televisão público NHK. Logo pela manhã, a montadora – que vinha colaborando com as investigações – divulgou nota dizendo que iria demiti-lo. O anúncio pegou o mercado e executivos do setor de surpresa. O superpoderoso Ghosn era considerado um ícone de sucesso no mundo dos negócios.

A Nissan vinha conduzindo investigações internas para apurar suspeitas de má conduta do executivo e do diretor Greg Kelly. Segundo a Bloomberg, essas investigações mostraram que, por vários anos, ambos informaram à Bolsa de Tóquio ter recebido um valor menor que o efetivamente recebido em compensações financeiras. Além disso, Ghosn adotou outras práticas ilícitas, como o uso de bens da empresa para fins pessoais, disse a Nissan.

Segundo a NHK, esses desvios de conduta fizeram a Procuradoria de Tóquio deter Ghosn sob suspeita de violação da Lei de Instrumentos Financeiros e Cambiais. Ele concordou em prestar depoimento voluntariamente.

Nascido no Brasil, em Porto Velho (RO), filho de pai libanês e mãe francesa, Ghosn acumulava a presidência do Conselho da Nissan com a presidência executiva da Renault. Em junho, os acionistas da Renault aprovaram uma remuneração para Ghosn de 7,4 milhões de euros (US$ 8,45 milhões) para 2017. Além disso, ele recebeu 9,2 milhões de euros em seu último ano como executivo-chefe da Nissan.

Com 64 anos, Ghosn iniciou sua carreira na Michelin, na França, e depois começou a trabalhar na Renault. Ele se juntou à Nissan, em 1999, depois que a Renault comprou uma participação na empresa e se tornou seu presidente-executivo em 2001, ocupando o cargo até 2017. Embora tenha deixado a presidência da Nissan no ano passado, ele permaneceu como presidente do Conselho. Ghosn é bem visto por ter resgatado a Nissan praticamente da falência.

Porta-vozes da Renault e da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi não retornaram imediatamente ligações e mensagens em busca de comentários.

O conselho de administração da Renault “se reunirá o mais rápido possível” para discutir a situação após a prisão de Ghosn, informou a montadora, acrescentando estar ciente das informações divulgadas pela Nissan — parceiro japonês do grupo, que vai se pronunciar na quinta-feira sobre a demissão de Ghosn. O Conselho de Administração da Renault também disse que está “aguardando informações específicas” por parte do executivo, de acordo com um comunicado.

Esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições, diz Jessé Souza

Por Juliana Sayuri – The Intercept_Brasil

“Duas coisas salvariam o Brasil: interpretação de texto e consciência de classe.”

A frase é de um meme das eleições, mas funciona para resumir o pensamento do sociólogo Jessé Souza, professor titular da Universidade Federal do ABC, em seu novo livro, A Classe Média no Espelho (Estação Brasil, 2018), que chega às livrarias na próxima semana. Na obra, Souza analisa os movimentos da classe média brasileira nos últimos anos – especialmente aquela que, segundo sua expressão, se mostrou “dócil e manipulável” ao ir às ruas contra a corrupção política e, mais tarde, engrossou as fileiras de apoio a Jair Bolsonaro. “Um tiro no pé”, descreve.

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Para o sociólogo, faltou à classe média entender as causas reais da crise econômica. Por não compreender a lógica do capitalismo financeiro e erroneamente se imaginar como parte integrante da elite, a classe média abriu mão do pacto democrático para abraçar a ideia de que a corrupção do estado é a fonte de todos os males no Brasil – e não o assalto “legalizado” promovido por bancos e grandes corporações. “O vínculo orgânico entre empobrecimento e corrupção política é uma mentira. É óbvio que a corrupção política é recriminável, mas não foi ela que deixou a população mais pobre. Esta é a grande questão que ficou fora do quadro. E era o que importava nas eleições”, afirma.

Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, entre 2015 e 2016, e autor de títulos como A Ralé Brasileira (2009), A Tolice da Inteligência Brasileira (2015), A Radiografia do Golpe (2016) e A Elite do Atraso(2017), Souza vem criticando duramente a imprensa e os intelectuais alinhados à elite econômica que, a seu ver, “imbecilizaram” a sociedade. Nesta entrevista ao Intercept, o autor martela: “O país inteiro foi feito de imbecil. Não há melhor palavra”.

Você inicia A Classe Média no Espelho com uma parábola sobre verdade e mentira. Em tempos de discussões sobre pós-verdade, fake news e agora “disputa de narrativas”, qual foi o peso da confusão entre verdade e mentira na ascensão de Bolsonaro?

A elite econômica expropria a maior parte da população em seu benefício, e isso só acontece a partir de uma mentira socialmente aceita, isto é, uma visão distorcida sobre o funcionamento da sociedade. É como dizer: o mundo é assim, ponto. A mentira legitima os interesses da opressão econômica e da dominação moral. E uma das mentiras é “querer é poder”: se você fracassa, a culpa é só sua – e não de um sistema injusto e explorador. Se você não compreende as causas de sua miséria econômica no capitalismo, você está condenado a atribuir seu fracasso pessoal a você mesmo ou, como foi feito, a políticos corruptos. Assim, uma dominação econômica de uma classe só se sustenta ao longo do tempo se é moralizada.

Obviamente, a única forma de combater a mentira social é com a prática da verdade, a arma dos frágeis. É disso que trata a parábola, e que vale para o atual contexto: as pessoas são historicamente acostumadas a ouvir a mentira, pois a verdade muitas vezes pode ser bastante incômoda.

Apesar de esforços (de parte da imprensa, intelectuais e movimentos sociais) para esclarecer fatos nas eleições, como a ideia de que o presidente eleito é antissistema e anticorrupção acabou vingando?

Desde que o Brasil é Brasil, e principalmente a partir de 2013 de modo mais insidioso e perverso, a elite econômica conseguiu consolidar, junto a seus intelectuais e sua imprensa, a ideia de que o empobrecimento da população teria sido causado apenas pela corrupção política, o que é uma mentira.

A imprensa e a Lava Jato criminalizaram a Petrobras, deixando-a pronta para vendê-la a preço de banana. O estado deixou de ganhar royalties, o pessoal perdeu emprego. A Lava Jato prendeu meia dúzia e deixou invisível o saque real trilionário de uma elite proprietária e uma alta classe média, que inclusive empobrece a massa da classe média. O foco na corrupção política invisibilizou a continuidade dos juros extorsivos embutidos nos preços, da estarrecedora exploração do rentismo e da corrupção legalizada dos donos do mercado. A boca de fumo da corrupção está no Banco Central, que assalta legalizadamente a população. Mas as classes exploradas economicamente acreditaram na balela: ficamos mais pobres por conta do roubo de políticos. É óbvio que a corrupção política é recriminável, mas não foi ela que deixou a população mais pobre. Esta é a grande questão que ficou fora do quadro. E era o que importava nas eleições.

A esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições. Tanto Haddad quanto Ciro Gomes elogiaram a Lava Jato, o bode expiatório da corrupção política. Na minha visão, o país inteiro foi feito de imbecil, não há melhor palavra. Poderia dizer “falsa consciência” e agir contra os próprios interesses, mas, na linguagem do senso comum, isso é simplesmente ser “imbecil”. Dentro da própria esquerda, ninguém problematizou o rentismo, ninguém questionou: nós todos pagamos juros que vão para o bolso de quem? Esse assalto econômico não é visto como corrupção, como o engano de meia dúzia sobre 200 milhões de brasileiros. O principal dispositivo do poder é se tornar invisível. E o poder econômico é ainda mais invisível.

Qual é a sua definição de classe média?

Classe social não é definida pela renda. Renda é um resultado, considerando a vida adulta. Mas é preciso pensar que diabo acontece na infância e na adolescência de alguém, que faz com que um ganhe mil vezes mais do que o outro? Esta é a questão, que implica a reprodução de privilégios, positivos e negativos. O privilégio da elite econômica é econômico, a propriedade.

O privilégio da classe média, que corresponde a 20% da população brasileira, é principalmente o acesso a capital cultural, isto é, conhecimento, cursos de línguas, universidades etc. Isso explica, por exemplo, a raiva de parte da classe média ao ver pobre entrando na universidade, que era seu “bunker” que garantiria salários melhores, mas também reconhecimento e prestígio.

Você diferencia “alta” (equivalente aos segmentos superiores da classe A) e “massa” da classe média (as chamadas classes A e B). Seguindo esse paralelo, onde estaria a dita classe C?

[A classe C] foi uma bobagem da propaganda do PT. No Brasil, temos quatro grandes classes: uma ínfima elite econômica proprietária, uma classe média de 20%, uma classe trabalhadora majoritariamente precária e uma classe marginalizada que está fora do mercado competitivo. O PT ajudou os marginalizados subirem à classe dos trabalhadores, o que é histórico e extremamente importante. Por miopia política, isso foi interpretado por marketing malfeito como “chegar à classe média”, o que também é uma mentira. E é preciso saber a verdade: seria preciso montar um projeto político de longo prazo e dizer “um dia” vamos chegar a uma sociedade de classe média real. Dizer que renda média é classe média é uma idiotice. Renda média de um país pobre equivale à renda da classe trabalhadora, que é precária.

Se há uma vocação vira-lata da alta classe média, “que considera melhor tudo o que vem de fora”, segundo sua expressão no livro, os alertas de diversos veículos da imprensa internacional, como The Economist, The New York Times e Le Monde, não deveriam ter pesado nas eleições?

Classe não é definida por critérios econômicos. As pessoas procuram se distinguir umas das outras – e se sentir melhores do que as outras. A classe média é moderna, nasce com o capitalismo e começa a ficar realmente importante com o capitalismo industrial. E se cria uma alta classe média, que representa interesses da elite: o CEO de um banco, por exemplo, não é um banqueiro. O primeiro é alta classe média, o segundo é elite.

Mas o CEO tem a ilusão de se considerar parte da elite e, portanto, defende interesses de seus patrões. E assim molda uma distinção diante das outras classes, a partir do alto consumo de bens importados, por exemplo. Ele quer se sentir um pouco europeu, um pouco americano, dentro de seu próprio país. Só que a alta classe média é muito conservadora e faz qualquer negócio para manter seus privilégios. Ela não tem sensibilidade em relação ao restante da sociedade, portando-se como uma elite estranha ao próprio país.

Há ainda divisões dentro da alta classe média: uma fração da indústria mais “democrática”, digamos, que depende e se importa com um mercado interno pujante; e uma fração predominante do agronegócio e mercado financeiro, voltada para o mercado externo, que fica rica independentemente se o país vai bem ou vai mal. Temos, afinal, uma elite de herança escravocrata que pensa a curto prazo: quero o meu agora, não me importa projeto de futuro. Isso amesquinha o país como um todo.

Se antes o escravo era submetido a trabalho desqualificado, agora a maior parte da população brasileira faz trabalho semiqualificado ou desqualificado. E é excluída das benesses do mundo moderno. O que antes era ódio ao escravo, agora é ódio ao pobre. E parte da classe média tem muito medo de descer à condição de pobre. Afinal, classe não é só um cálculo econômico, mas um cálculo moral de distinção social.

No livro, você projetou que muitos se voltariam “ao voto de protesto desesperado e irracional” de apoio a Bolsonaro. Passadas as eleições, pensa a vitória como “voto de protesto”? Ou de uma busca genuína por mudança?

O que está acontecendo hoje faz parte de um processo de luta de classes. Um processo que se estende desde 1930. O que foi que a elite fez? A elite montou, a partir da imprensa e das universidades, o domínio simbólico, moldando a visão de mundo da classe média. Agora, para a alta classe média, esse discurso é racional e pautado pelo interesse econômico: estou ganhando mais. Mas, para a massa da classe média, é irracional: para pensar que está ganhando algo, uma recompensa moral, a massa da classe média protestou e se portou como “ah, sou moralmente superior do que as classes populares, estou escandalizada porque me incomoda e combato a corrupção política”. Foi explorada.

Mas a ideia de que o empobrecimento ou o risco de empobrecimento estaria ligado organicamente à corrupção…

Corrupção política. Desculpe interromper, mas veja que, sem querer, você equalizou corrupção e corrupção política.

Sim, corrupção política. Você diria que a construção desse discurso escapou ao controle de quem o construiu – parte da imprensa, como indica no livro? Se a população brasileira fosse tão “manipulável” por uma imprensa a favor de interesses da elite econômica, como compreender críticas tresloucadas que atribuem à Folha de S.Paulo a alcunha Foice, de referência comunista, e o bordão “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” capturado por militantes de direita a partir de 2013?

Quando se começa uma coisa, só se sabe como ela começa, mas não sabe como termina. Nossa imprensa é venal, desde o início comprada pelo mercado. Nunca tivemos uma rede pública [de comunicação] como existe na Europa – e às vezes alguns até confundem TV pública com TV estatal. Nunca tivemos uma imprensa confrontando o poder de forma plural.

A imprensa atacou o governo, pois a presidenta, um pouco estabanadamente, atacou o juro, o lucro dessa elite, a partir de 2012. Isso foi usado contra o governo eleito e que era tudo menos corrupto – a presidenta não roubou um lápis que seja. Mas o ataque midiático se voltou a todos os consensos morais de uma democracia. Não é a letra legal de uma Constituição que dá sangue à democracia, mas os consensos morais: não se pode expurgar a presunção de inocência, banalizar vazamentos ilegais, banalizar desrespeito de direitos fundamentais. Isso é a base de uma democracia.

A imprensa ajudou a fazer terra arrasada disso e, depois, veio a eleição de Bolsonaro como uma espécie de vingança das classes médias e parte das classes populares contra esse estado retratado como corrupto. Se você ataca a democracia como um todo, obviamente você ataca a liberdade de expressão. Tecnicamente, a imprensa toda foi muito burra. Entenda-se: burrice é pensar a curto prazo, seja para o bem seja para o mal; inteligência é pensar a longo prazo, seja para o bem seja para o mal. Ela pisoteou a democracia, e agora vai ter uma vida muito difícil. Parte da imprensa e setores da alta classe média deram um tiro no pé. Se isso terminará num banho de sangue, numa tribalização da sociedade ou numa tomada de consciência, ninguém sabe dizer. Mas que será problemático, será.

Nos últimos tempos, o caráter fascista ou não das ideias representadas por Bolsonaro foi muito discutido. Você teme que a expressão “fascismo” se desgaste tal qual “populismo”, que a palavra se torne um coringa para desqualificar adversários?

Não. O principal mecanismo do fascismo é a desumanização, o não reconhecimento do outro. Na minha opinião, obviamente há elementos fascistas nas ideias do presidente eleito: apologia da tortura, assassinato de adversário político etc. Historicamente foi assim que o fascismo se expandiu no entre-guerras: pega a raiva e o ressentimento da classe média e do povo e joga num bode expiatório socialmente aceitável. Logo, estamos num contexto de neofascismo, junto a uma dominação do capitalismo financeiro: na economia, invisibiliza, deixa opacos elementos econômicos; na política, provoca desmobilização popular.

Nos Estados Unidos de Donald Trump e no Brasil de Bolsonaro, o capitalismo financeiro quebra e destrói relações sociais e vida associativa, provocando desorientação e isolamento do indivíduo. E, novamente, é dito a ele que o fracasso é culpa dele – e não de um sistema injusto. É uma estrutura fascista, sim, de novo tipo. Que está se internacionalizando e que vive do mesmo tipo de desrespeito e desumanização que fazia o fascismo anterior. Que quer dizer que o outro, por pensar diferente, merece morrer. E a classe média, que sempre odiou o pobre, agora está se sentindo mais à vontade para expressar, explicitar esse ódio. No fim, o ódio é exatamente o que o fascismo produz.

Você usou muito a palavra “golpe” para tratar do impeachment de Dilma Rousseff. Pensa que a palavra foi desgastada?

Não. Foi um golpe de novo tipo, articulado por uma situação econômica. O dado econômico é incrível, porque é sempre o mais invisível. A causa de tudo foi a tentativa de se apropriar do orçamento público e do mercado interno via juros. Foi um golpe parlamentar, mas qual é a independência que esse parlamento tem? Um parlamento de baixíssimo nível, eleito com dinheiro de bancos e grandes corporações. No ano anterior [ao impeachment], a presidenta tinha feito um enorme esforço para diminuir os juros e usado os bancos públicos para isso. De uma hora para outra, empresas deixaram de investir, e a imprensa inteira passou a atacá-la.

Mas, veja, a elite se apropria do que é público mediante parcerias público-privadas – um exemplo, como as estradas. Entretanto, foi ensinada a imbecilidade de que o Brasil é corrupto por causa da herança de Portugal, uma mentira legitimada com prestígio científico nas universidades. Um povo ladrão por conta da herança portuguesa e, agora, ladrão dentro do estado. Sendo que o estado é a esfera que se pode contrapor a um mercado desregulado.

Dias antes do segundo turno, universidades se tornaram alvo de diversas ações de fiscalização – e justamente faixas contra o fascismo foram censuradas. Dias depois do segundo turno, investidas do Escola Sem Partido avançaram com a convocatória de denúncias contra docentes “doutrinadores”. Ainda há pensamento crítico e resistência nesses espaços?

Como você mantém uma população inteira precarizada? Você pega a escola, um elemento de classificação e acesso a conhecimento que está relegado à classe média. O privilégio positivo específico da classe média é este: estímulo para estudo, domínio de línguas, capacidade de concentração. Você chega aos cinco anos na escola particular como um vencedor, pois é aparelhado psicológica e moralmente: espera bons salários e prestígio. O pobre já é tratado como um perdedor, num abandono secular e cumulativo. Depois, você vê a classe média culpando a classe pobre, dizendo que ela é preguiçosa e indolente – e que o mérito do seu sucesso é só seu. Assim, a sociedade brasileira sacramentou dois caminhos: um, da felicidade; outro, do fracasso.

Agora, quais são os dois pilares do desenvolvimento de um país? Indústria e educação. Só que a educação está toda montada dentro de um contexto elitista. É Paulo Freire, pensamento crítico e educação libertadora para a classe média; e trevas para a classe trabalhadora. É loucura dizer que essa estrutura de educação classista é de esquerda. E apenas tende a transformar e sacralizar esse caminho perverso que monta a opressão de classes entre nós: duas educações, duas classes, dois tipos de indivíduo.

Você declarou, certa vez, que o “que provoca efetiva dor de cotovelo nos meus detratores é o fato de ter conseguido, com muito esforço, expor questões complexas de modo simples e compreensível para a maioria das pessoas”. No seu novo livro, a atenção à acessibilidade da linguagem também está presente. Para quem você escreve?

Não quero falar para seis pessoas. Nisso está embutida uma crítica ao próprio saber acadêmico. Passei minha vida juntando capital acadêmico, acumulando trabalho. Penso que estou usando um capital acadêmico de vanguarda com uma linguagem acessível. Nenhum povo pode ser senhor do seu próprio destino sem conhecimento. E conhecimento deve ser compreensível.

Tenho tentado fazer um esforço enorme de dizer coisas complexas que, com boa vontade e interesse, qualquer pessoa possa compreender. Não é por falta de conhecimento prévio e formação acadêmica que a pessoa não vai entender o livro. É por falta de coragem. A gente não nasce sabendo, é preciso aprender: aprender é um ato de coragem. A ciência pode ser libertadora; o conhecimento, empoderador. Imagina se o povo brasileiro compreende que está sendo enganado?

No campo da linguagem, destacaram-se autores de direita como Olavo de Carvalho, tido inclusive como intelectual vencedor dessa eleição. Como ele conseguiu arregimentar tantos adeptos?

A sociedade brasileira está em uma esquina em que uma série de aprendizados são necessários. Algumas pessoas estão começando a compreender o tamanho da fera que está a um metro de nós. Algumas pessoas que estavam muito acomodadas no seu mundinho. E, agora, ou a gente reformula esse comportamento, ou nós todos, como país, vamos perder. Esta questão está muito presente agora. Principalmente entre a esquerda colonizada por uma linguagem que só beneficiou a direita.

Você chegou a ser chamado de ‘Olavo de Carvalho da esquerda’. O que pensa da comparação?

Elite do atraso teve muita repercussão, muito além do que eu imaginava. Retornos de pessoas simples, o público que eu gostaria de atingir, me comoveram muito. A escola de samba Paraíso do Tuituti usou elementos; o presidente Lula leu o livro na prisão. Efetivamente, penso que pude fazer, pela primeira vez, uma interpretação crítica da sociedade brasileira de fio a pavio. Sei que é ambicioso dizer isso, e fico à disposição para quem queira contrapor meus argumentos. [O que propus no livro] compromete toda uma tradição de pensamento, de direita e de esquerda. O núcleo dessa tradição, esse liberalismo chique, aceita a ideia de corrupção política. O que fiz foi articular uma visão crítica, com encadeamento explícito dessas ideias. O novo livro A classe média no espelhoé uma continuidade. Trago uma visão mais sofisticada e crítica do que a tradição intelectual brasileira. Estudei todas as classes anos a fio, dediquei uma vida inteira a isso. Logo, interpreto esse tipo de interpelação como inveja.

Por fim, professor, o livro propõe posicionar a classe média brasileira diante do espelho e revelar suas concepções do mundo. Enquanto integrante da classe média, como você afirma no livro, como você se vê diante do espelho?

No fundo, minha atividade é intelectual. E o intelectual, para criticar e inclusive para se autocriticar, precisa conhecer. Eu também tinha esse academicismo antes. Achava que meu público se limitava a uma dezena de pessoas que poderia compreender o que eu estava dizendo, como se “só eu e mais alguns aqui eleitos entendemos como o mundo funciona”. É isso, afinal, que as classes procuram: se distinguir uns dos outros. Isso move o ser humano tanto quanto dinheiro.

Embora eu tenha vindo de estratos mais baixos da classe média, como professor universitário pertenço à massa da classe média. E me questionei: numa sociedade perversa como a nossa, que peso a massa da classe média tem sobre a pobreza dos pobres?

Foi uma epifania quando compreendi que alguns, pensando que estavam à esquerda, estavam montando de uma forma ideológica o poder de meia dúzia de proprietários. Você cria uma distância em relação a você mesmo, uma autocompreensão. A partir da crítica da minha própria posição e dos pressupostos que ela envolve legitimando uma lógica, tentei a começar uma autocrítica e uma crítica da própria sociedade que tinha me marcado essa visão de mundo.

Médico cubano cria horta para índios resgatarem o uso de plantas medicinais

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O médico cubano Javier Isbell Lopes Salazar chegou à aldeia Kumenê, localizada no Oiapoque, estremo norte do Amapá, em 2014. A aldeia é formada por indígenas da etnia Palikur. Assim que chegou à aldeia, Salazar notou que os habitantes da região faziam uso excessivo e inadequado de antibióticos.

Tudo começou com a chegada de missionários à região, na década de 1960. Por mais de dez anos, os missionários se dedicaram à evangelização da etnia. Os indígenas foram convencidos de que as plantas medicinais que eles usavam para curar suas doenças era “feitiçaria”.

Um dos trabalhos de Salazar foi resgatar esse costume dos indígenas. Ele decidiu criar uma horta com plantas medicinais que poderiam tratar uma série de problemas de saúde existentes na aldeia, como gripes e doenças diarreicas.

Através de palestras e encontros com as lideranças e moradores do local, Salazar conseguiu desmistificar a crença de que as plantas seriam um tipo de “magia”. Na verdade, elas poderiam salvar suas vidas.

No começo, quando eu receitava alguma delas, eles jogavam fora e ficavam bravos comigo porque queriam antibióticos. Antes de ter médico aqui, eles faziam um uso excessivo de antibióticos e, hoje, as bactérias que circulam na comunidade têm resistência aos medicamentos disponíveis. Aos poucos, eles voltaram a acreditar no poder das plantas”, conta Salazar, que é um dos cooperados do Programa Mais Médicos.

Salazar e sua equipe também conscientizaram a população sobre os riscos do contato com a água de resíduos domésticos despejada nos rios. O médico lembra que os indígenas tinham o hábito de construir o banheiro de suas casas próximos às margens dos rios que cercam a aldeia. Consequentemente, isso fazia com que a água fosse contaminada. Para piorar, os poços também eram construídos ao lado dos sanitários.

“Explicando, conseguimos uma melhor qualidade de vida aqui. Um médico não pode se cansar. Eu me sinto bem porque já estou percebendo a mudança. Estou vendo que as medidas que estou tomando dão certo, pois as doenças estão desaparecendo. Estou ‘ganhando’ menos pacientes’”, comenta satisfeito.

O médico também conta que aprendeu algumas expressões da língua nativa da etnia Palikur e garante que a diferença de idiomas não impediu a comunicação e o diagnóstico e tratamento adequados. (De RPA)