É esta a minha terra?

Por Edyr Augusto Proença, no Facebook

Por motivos pessoais, estive por três vezes, em duas semanas, no campus do Guamá, UFPA. Amigos, desde 1972, quando entrei na Universidade até bem depois, quando lá também estive como professor, sabia do verdadeiro inferno no trânsito que representa ir até lá. Agora, mais de vinte anos depois, ao retornar, confesso ter ficado ainda mais estarrecido com tudo o que vi e enfrentei pelo caminho. As mais elementares regras de convívio civilizatório. As mínimas condições de ir e vir. Nem isso existe por lá.

Nas ruas, além de motos e bicicletas, feito moscas, transitando em todas as direções, em todas, pilotos sem qualquer aparato protetor, certamente sem documento comprobatório de propriedade ou de condição para conduzir. Há muito mais. Vans caindo aos pedaços na mão, contramão, fila dupla, mesmo quando à frente de um sinal que abre, sugerindo a passagem de carros. Pode buzinar à vontade.

Na ausência das calçadas, pode-se dizer assim, as pessoas circulam pelo asfalto, entre os carros, já que onde haveria calçadas, há desde montes de lixo, atividades profissionais, carros, motos, até viaturas policiais, que parecem estar tomando conta da segurança e eu pergunto qual segurança e apenas rio de meu pensamento. A poluição visual chega a ser um escândalo e me dou conta que sou um ET por ali. Todos parecem muito à vontade. O açougueiro espanta moscas de sua pedra, com milhões de carros tirando fino, motos, o escambau, garantindo a pureza de seu produto, digamos.

Protejo-me, aceito agressões de todos, ao jogarem carros e seus corpos diante da minha passagem, tiro por menos, desvio de buracos profundos, faço que não vejo, aguardo a vontade da Van que está à frente se movimentar, torço para logo chegar ao meu destino. No campus, bem arrumado, há fila longa no restaurante. No térreo da Reitoria, professores ou funcionários debatem alguma revolução contra o novo presidente. O atendimento é muito bom, cordial, educado e eficiente. Que bom!

A volta é outro absurdo contra as mais básicas lições de civilização. É esta a minha terra? Moro no centro da cidade e me sinto morando em Xanadu, comparado a isto.

Penso como nossos políticos são incompetentes, permitindo, com a ausência da autoridade, de ações e principalmente, de Educação e Cultura, as coisas chegarem a isso. É a volta à Selva da ignorância, onde não há lei para nada, a não ser a do mais forte e tudo é feito simplesmente porque se quer. Eu quero eu faço. A moto é o cavalo dos tempos do faroeste. Bang Bang. Todos os dias, nos jornais, mortos por motoqueiros ou carros prata, tudo no Guamá.

Como é triste!

Saída de cubanos do Mais Médicos pode deixar 28 milhões sem assistência

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A Confederação Nacional dos Municípios (CNM), divulgou nota nesta quinta-feira (15), alertando sobre a preocupação de prefeitos de municípios com menos de 20 mil habitantes com a saída dos médicos cubanos do programa Mais Médicos. A nota, assinada pelo presidente da entidade, Glademir Aroldi, ressalta que a saída dos 8,5 mil profissionais cubanos pode deixar cerca de 28 milhões de pessoas pelo país sem assistência médica caso não haja substituição dos profissionais.

Aroldi assinala que, segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), 1575 municípios são atendidos apenas por médicos cubanos, e que 80% dessas localidades têm até 20 mil habitantes. “Dessa forma, a saída desses médicos sem a garantia de outros profissionais pode gerar a desassistência básica de saúde a mais de 28 milhões de pessoas”. O presidente da entidade também alerta que a situação aflige os prefeitos e pode “levar a estado de calamidade pública” e pede solução rápida da questão.

A nota da CNM também destaca que há 8,5 mil médicos vindos de Cuba que atuam na Estratégia Saúde da Família e cuidando da saúde de indígenas. Os profissionais, prossegue a nota, atuam em 2.885 municípios, a maioria em áreas mais vulneráveis, como na região norte do país, no semiárido nordestino, em cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), terras indígenas e periferias de grandes centros urbanos.

A Confederação pede expansão do Mais Médicos para municípios que ainda não têm atendimento básico de saúde ou enfrentam dificuldades para fixar quadro médico, assunto que afirma ter debatido em audiências recentes no Ministério da Saúde. A nota também afirma que um estudo mostra que a área da Saúde sofreu defasagem de 42% nos gastos durante os últimos 10 anos, o que tem gerado uma sobrecarga nas despesas de municípios, que não podem assumir mais gastos.

“Nesse sentido, a CNM aposta no diálogo entre as partes para os médicos cubanos permanecerem no país pelo menos até o final deste ano ou, se possível, por tempo maior a ser acordado entre os dois países. Durante esse período, acreditamos que o governo federal e de transição encontrarão as condições adequadas para a manutenção do Programa”, diz a entidade.

Ontem (quarta, 14), o Ministério da Saúde Pública de Cuba anunciou em nota oficial seu desligamento do programa Mais Médicos mantido pelo governo brasileiro. A ação foi criada em agosto de 2013, durante o governo de Dilma Rousseff (PT) e tem como objetivo ampliar o atendimento nas comunidades mais pobres por meio de parceria com a Opas.

Na nota, o governo cubano afirma que o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), “com referências diretas, depreciativas e ameaçando a presença” dos médicos, “disse e reiterou que vai modificar os termos e condições do programa”.

Bolsonaro questiona a preparação dos profissionais cubanos e condiciona a permanência deles no programa à revalidação do título e como única forma a contratação individual. A condição do envio dos médicos ao Brasil é que parte da remuneração paga a eles pelo governo brasileiro seja repassada ao governo cubano.

Leia a íntegra da nota da CNM:

“O valor do Programa Mais Médicos (PMM), ecoado nos diversos cantos do Brasil, demonstrou ser uma das principais conquistas do movimento municipalista frente à dificuldade de realizar a atenção básica, com a interiorização e a fixação de profissionais médicos em regiões onde há escassez ou ausência desses profissionais. Importante destacar que a estruturação e a organização da Atenção Básica de Saúde é pauta permanente da Confederação Nacional de Municípios (CNM) junto ao Executivo Federal e ao Congresso Nacional.

De acordo com a Organização Panamericana da Saúde (OPAS), atualmente são 8.500 médicos cubanos atuando na Estratégia Saúde da Família e na Saúde Indígena. Esses profissionais estão distribuídos em 2.885 Municípios, sendo a maioria nas áreas mais vulneráveis, como o norte do país, o semiárido nordestino, as cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), as terras indígenas e as periferias de grandes centros urbanos. Entre os 1.575 Municípios que possuem somente médico cubano do Programa, 80% possuem menos de 20 mil habitantes. Dessa forma, a saída desses médicos sem a garantia de outros profissionais pode gerar a desassistência básica de saúde a mais de 28 milhões de pessoas.

Nos últimos meses, a CNM, juntamente com as representações das entidades municipalistas estaduais, organizou inúmeras reuniões com o governo federal sobre a necessidade de manutenção e aprimoramento do Programa Mais Médicos, com adoção gradual de novas estratégias para interiorização e fixação dos profissionais médicos e outras categorias necessárias para o atendimento básico às populações. Em audiências recentes com o ministro da Saúde, a Confederação discutiu inclusive a ampliação do Programa para Municípios e regiões que ainda apresentam a ausência e a dificuldade de fixação do profissional médico.

O anúncio referente à decisão do Ministério da Saúde de Cuba de rescindir a parceria, na última quarta-feira, 14, aflige prefeitos e prefeitas desta Confederação. Imediatamente, a entidade buscou em Brasília o atual governo e o governo de transição para que, em conjunto, fosse possível adotar medidas que garantam a manutenção dos serviços de atenção básica de saúde. Cabe destacar que, na última década, estudo apontou que o gasto com o setor de Saúde sofreu uma defasagem de 42%, o que sobrecarregou os cofres municipais. Os Municípios, que deveriam investir 15% dos recursos no setor, já ultrapassam, em alguns casos, a marca de 32% do seu orçamento, não tendo condições de assumir novas despesas.

A presente situação é de extrema preocupação, podendo levar a estado de calamidade pública, e exige superação em curto prazo. Nesse sentido, a CNM aposta no diálogo entre as partes para os médicos cubanos permanecerem no país pelo menos até o final deste ano ou, se possível, por tempo maior a ser acordado entre os dois países. Durante esse período, acreditamos que o governo federal e de transição encontrarão as condições adequadas para a manutenção do Programa. Enquanto aguardamos a rápida resolução do ocorrido pelo órgão competente, estamos certos de que os gestores municipais manterão o máximo empenho para seguir o atendimento à saúde de suas comunidades.

Os Municípios brasileiros, na missão de prestar serviços públicos à população, representados pela Confederação Nacional de Municípios, não medirão esforços para a resolução deste impasse.

Glademir Aroldi

Presidente da Confederação Nacional de Municípios”

(Do Congresso em Foco)

Mico internacional

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O Brasil já virou motivo de chacota na imprensa internacional por conta da indicação do diplomata Ernesto Araújo para o cargo de ministro das Relações Exteriores do governo eleito de Jair Bolsonaro. O jornal The Guardian, o mais respeitado da Inglaterra, publicou reportagem nesta quinta-feira, 15, cujo título é: “Novo ministro das Relações Exteriores do Brasil acredita que mudança climática é uma trama marxista”.

“Ernesto Araújo – até recentemente um funcionário de nível médio que escreve sobre a ‘criminalização’ da carne vermelha, petróleo e sexo heterossexual – se tornará o principal diplomata do maior país da América do Sul, representando 200 milhões de pessoas e a maior e mais biodiversa floresta da Terra, a Amazônia. Sua nomeação, confirmada por Bolsonaro na quarta-feira, deve causar um arrepio no movimento climático global”, diz o The Guardian.

O jornal inglês lembra que o Brasil foi onde a comunidade internacional se reuniu pela primeira vez em 1992 para discutir reduções nas emissões de gases de efeito estufa. Além disso, os diplomatas brasileiros têm desempenhado um papel crucial na redução do fosso entre nações ricas e pobres, particularmente durante a construção do acordo de Paris em 2015.

“Mas quando o novo governo tomar o poder em janeiro, o Ministério das Relações Exteriores que lidera esse trabalho será encabeçado por um homem que afirma que a ciência do clima é meramente ‘dogma'”, diz o jornal.

O autor da reportagem, Jonathan Watts, que é editor de Meio Ambiente global do Guardian, compartilhou o texto em seu Twitter:

Justiça suíça suspeita que R$ 43,2 milhões bloqueados financiariam campanha do PSDB

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Do Congresso em Foco

A Justiça da Suíça apura uma movimentação de R$ 43,2 milhões em contas bancárias daquele país e cita, pela primeira vez em um documento oficial, a suspeita de que o dinheiro seria para financiar uma campanha presidencial do PSDB. Os valores – que estão bloqueados no país – e o partido são citados em uma decisão do Tribunal Penal Federal da Suíça, informa o jornal O Estado de S. Paulo.

O partido afirmou que não irá se manifestar até saber mais detalhes da investigação, que é mantida em sigilo pelas autoridades suíças.

A decisão da Corte da Suíça é de 26 de setembro e rejeitou recursos apresentados pelos suspeitos, que tentavam impedir o processo de cooperação entre o país europeu e o Brasil. Brasil e Suíça já colaboraram em outra investigação envolvendo o PSDB. No caso, as autoridades dos países apuravam movimentações de Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da empresa paulista de infraestrutura Desenvolvimento Rodoviário S/A (Dersa) apontado como operador de propinas do PSDB.

Desta vez, a investigação não foca em Paulo Vieira de Souza, e o nome dos investigados é mantido em sigilo, informa o correspondente Jamil Chade, do Estadão em Genebra. O Brasil requisitou, em junho de 2017, assistência judicial às autoridades suíças “em um processo criminal instaurado contra B. e outros por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva”. A letra B é referência a um dos suspeitos, mas não é a inicial do nome do investigado.

Os suíços mencionam a investigação brasileira sobre a relação com financiamento de campanha presidencial do PSDB. Os R$ 43,2 milhões, bloqueados a pedido dos investigadores brasileiros, corresponde a cerca de 10 milhões de francos suíços e seria fruto de um esquema de corrupção entre 2006 e 2012.

O tribunal suíço descreve ainda que o pedido de cooperação brasileiro se refere a suspeitos que teriam concordado com que um grupo empresarial ajudasse a financiar a campanha presidencial do PSDB em troca de um contrato de empréstimo com uma joint venture (união de entidades para tirar proveito de alguma atividade) de desenvolvimento do serviço rodoviário, controlada pelo estado de São Paulo. Os nomes das empresas envolvidas não foram revelados.

Leia a íntegra da reportagem do Estadão

Empresário afirma que recebeu 6,5 milhões de euros do PSDB em conta na Suíça

Tite faz mistério sobre escalação para amistoso com Uruguai

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A exemplo do que fez no compromisso anterior contra a Argentina, na Arábia Saudita, Tite preferiu não abrir o time que enfrentará o Uruguai, nesta sexta-feira (16), no Emirates Stadium, em Londres. O comandante só deixou escapar que o volante Walace será titular no lugar do lesionado Casemiro. Essa é apenas a segunda vez que o treinador adota o mistério desde que assumiu o comando da seleção brasileira.

O técnico havia liberado o acesso da imprensa apenas ao aquecimento nos treinos de quarta (14) e quinta (15), quando contou com o grupo completo, e evitou dar qualquer pista sobre a escalação ao longo dos últimos dias. “Casemiro não vai (jogar), está machucado, então, o Walace vai jogar, pois é um jogador da função e foi convocado para isso”, afirmou.

A expectativa é que o Brasil entre em campo contra os uruguaios com Alisson; Danilo, Marquinhos, Miranda e Filipe Luís; Walace, Arthur e Renato Augusto (Paulinho); Douglas Costa, Neymar e Firmino. Depois de enfrentar os sul-americanos, a seleção encerra o ano contra Camarões, na próxima terça-feira (20), em Milton Keynes, nos arredores de Londres.

No fim da entrevista, Tite foi perguntado sobre o ambiente interno da seleção e como são abordados, por exemplo, assuntos mais controversos como a situação política do país. A exemplo do que havia feito em outra ocasião, o comandante gaúcho preferiu não divulgar o seu posicionamento, mas disse que é natural que existam discussões a respeito dentro da delegação.

“É claro que existem (diferenças), são humanas. Não somos alienados, podemos até querer manifestar, mas não devemos por respeito às situações. Tenho que falar em relação ao futebol. Nós temos opiniões políticas”, afirmou.

Indagado se elas divergem com a dos demais membros, ele não negou. “(É natural que sim) Como humanos, até mesmo na família, mas sem radicalismo. O radicalismo me incomoda. É isso que não pode acontecer, fazer de conta que ouve e não ouve, é pior. É uma questão difícil”, completou. (Do UOL) 

Saída de cubanos abre primeira crise grave envolvendo Bolsonaro

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A saída dos médicos cubanos do Brasil é uma porrada política forte no novo governo que ainda não começou. Talvez a mais forte delas até agora porque, dessa vez, por mais que tente, Bolsonaro não controla a narrativa.

O problema objetivo: os médicos cubanos atuam, sozinhos, em 1575 cidades (lembrem que o Brasil tem 5.570 municípios). Esses médicos cubanos cuidam de 24 milhões de pessoas. Ainda não há data para que os profissionais parem de atuar no Brasil mas, de uma hora pra outra, muita gente pode ficar sem médico. É uma crise gigantesca sem solução fácil. As bravatas de Bolsonaro, dessa vez, não servirão para nada além de agradar ao fandom. Isso abre as portas para que milhões de pessoas comecem o ano irritadas com o novo governo.

Leiam o que escreveu a repórter Nayara Felizardo em uma reportagem sobre a cidade de Guaribas, no interior do Piauí, publicada no mês passado:

“Outro programa que os moradores temem que termine é o Mais Médicos. Os médicos cubanos, contam, estão disponíveis todos os dias e ainda visitam as famílias em casa, se for preciso. Antes, não havia nenhum médico residente na cidade, e o atendimento acontecia uma vez a cada um ou dois meses.”

Guaribas não é exceção. Muitas cidades não tinham médicos antes do começo do programa, em 2013.

Do ponto de vista da retórica de Bolsonaro, as opções postas na mesa até agora são péssimas:

1. Ele pode voltar atrás de suas declarações (pra variar) estapafúrdias e sem pé na vida real e negociar com Cuba pra manter os 8.612 médicos por aqui – e se tornar automaticamente aquilo que critica, um “financiador de uma ditadura comunista®”, o que deve pôr boa parte de seus eleitores em tilt ideológico.

2. Ele pode ver os cubanos indo embora e começar a lidar nos primeiros meses de governo com a insatisfação de milhões de pessoas em todo o país.

Bolsonaro fala demais. Verba volant, mas às vezes é um bumerangue que volta direto na sua cara.

Bom feriado.

(Transcrito do The Intercept_Brasil)

Carta aberta sobre o Mais Médicos

Por Ary Vanazzi (*)

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Brasília, 14 de novembro de 2018.

A Associação Brasileira de Municípios, entidade municipalista mais antiga do Brasil e da América Latina, vem requerer do presidente eleito, Jair Bolsonaro, ações imediatas para reverter a decisão do Ministério da Saúde Pública de Cuba em retirar-se do Programa Mais Médicos.

O programa Mais Médicos foi criado em 2013 pela então presidente da República, Dilma Rousseff, e pelo então Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para atender a solicitação da ABM e dos municípios brasileiros que não conseguiam contratar médicos para o atendimento básico à população.

Desde então, entre médicos brasileiros e estrangeiros, entre eles muitos cubanos e cubanas, todos os municípios brasileiros puderam atender, muitas vezes pela primeira vez, toda sua população. Particularmente os cubanos têm atuado nas periferias das regiões metropolitanas, nos distritos indígenas, nas pequenas cidades e em regiões distantes dos grandes centros urbanos. São lugares, senhor presidente eleito, que viram, muitas vezes, pela primeira vez um médico. São municípios e regiões em que os médicos brasileiros dificilmente aceitavam ou aceitarão atender, mesmo a prefeitura pagando salários muito mais altos, com muitas dificuldades para fazê-lo.

Os seguintes dados de atendimento nesses cinco anos evidenciam claramente a importância da Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) e dos médicos cubanos para os municípios brasileiros.

– mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira primeira vez graças ao programa;
– em cerca de 1100 municípios o programa Mais Médicos é responsável por 100% da cobertura da Atenção Básica;
– temos cerca de 8.500 médicos cubanos hoje no programa Mais Médicos;
– 95% da população brasileira avalia positivamente o programa, segundo estudo da UFMG;
– os médicos cubanos estão em 2.885 municípios do país, sendo a maioria do Norte do país, semiárido nordestino, cidades com baixo IDH, distritos indígenas, periferias das regiões metropolitanas e municípios afastados dos grandes centros urbanos de maneira geral;
– 1.575 municípios só possuem médicos cubanos do Programa, sendo que 80% desses municípios são pequenos (menos de 20 mil habitantes) e localizados em regiões que foram oferecidos antes a médicos brasileiros, que não aceitaram trabalhar.

Nosso apelo é feito em nome dos prefeitos e prefeitas do Brasil, que querem atender bem a população, que se esforçam por garantir atendimento básico de saúde a seus munícipes e que tiveram, com o programa Mais Médicos, a possibilidade de garantir isso.

Em estudos, debates e visitas que a ABM realizou no ano de 2015 com municípios de todas as regiões do Brasil, através de projeto em parceria com o Ministério da Saúde e a OPAS, ficou muito evidente a satisfação da maioria dos gestores locais do país com a possibilidade oferecida pelo programa Mais Médicos de garantir atendimento básico a toda a população. Encaminhamos, em anexo, a revista publicada com os resultados desses estudos, debates e visitas.

Lembramos ainda que os profissionais que prestarem e forem aprovados pelo revalida ganham o direito do exercício da medicina no Brasil e, por isso, deixam de serem obrigados a atender apenas no lugar designado pelo programa Mais Médicos, podendo, portanto, ir para qualquer grade centro urbano do país, onde estão a maioria dos médicos brasileiros.

Nesse sentido, vimos apelar ao presidente eleito que busque reverter a decisão anunciada hoje pelo Ministério da Saúde Publica de Cuba de terminar a parceria com a OPAS para envio de médicos ao Brasil.

Certos de contar com a sua atenção.
Atenciosamente,

Ary Vanazzi
Presidente da Associação Brasileira de Municípios (ABM)

(*) Ary Vanazzi (PT-RS) é prefeito de São Leopoldo.

O grande poder de Stan Lee e a nossa responsabilidade

Por André Forastieri

Stan Lee, sinônimo de super-herói, passou por poucas e boas nos últimos anos, agruras da velhice. Morreu rico, aos 95 anos, amado por milhões. Sua morte é chorada em todo o mundo. Mereceu, merece demais. Muitos outros mereciam também. Steve Ditko, conhece? Don Heck? Larry Lieber? Que tal John Romita e Gene Colan? Jack Kirby, pelo menos?

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Você não precisa saber que estas pessoas existiram para se divertir com os super-heróis Marvel, seja no cinema, TV, games, ou gibis. Mas quem sabe da existência delas fica um pouco incomodado de ler que Stan Lee foi “o criador dos heróis Marvel”. Estes e outros artistas da Marvel foram muito pouco recompensados pelo que fizeram.

Em 1961, Stan Lee, como editor, tinha obrigação de publicar nove revistas por mês, com uma equipe reduzida, custos baixos. Atrasar a entrada de um gibi em gráfica significava perder a chance de distribuí-lo aquele mês. A distribuidora, veja só, era da concorrência: da DC Comics.

Para dar conta, ele contratava exclusivamente artistas muito experientes, que seguravam o tranco. E assim foi desenvolvido o “Marvel Style” de criação.

Stan contava a história para o artista: “nessa edição o Quarteto Fantástico encontra uma raça secreta de super-seres, os Inumanos, cada um com um poder diferente” e tal. O artista – na maior parte das revistas, Kirby – fazia os layouts da história completa, conforme bem entendesse. As páginas então iam para arte-final, e Stan completava como diálogo, e bora pra gráfica.

Isso quer dizer que os artistas tinham muita autonomia para contar a história como quisessem, e inclusive modificar o briefing de Lee, introduzir personagens e tal, conforme achassem interessante e necessário. Lee não era contra e pelo contrário: estimulava que isso acontecesse, porque conhecia o talento de seu time.

Uma coisa importante aí: Lee era funcionário da Marvel. Foi contratado nos anos 1940 porque era primo da mulher do dono, Martin Goodman. Goodman vendeu a companhia em 1968. Lee tornou-se mas para frente publisher, e depois presidente. Foi pra Hollywood. Ficou rico e famoso. Uma inspiração de sua “persona”: Hugh Hefner, fundador e editor da revista Playboy. Mas Stan nunca deixou de ser mascate.

Em todo este período, os desenhistas eram freelancers. Ganhavam por página entregue. Nem Lee, nem os artistas jamais foram donos de nenhum personagem que criaram. Está aí a raiz da briga entre Lee e Kirby, em que Lee sempre tomou o lado dos patrões.

Como freelancers, os artistas inclusive não tinham nenhum benefício, seguro-saúde etc. E por muitos anos, não tinham nem direito a receber de volta as próprias páginas que desenharam, o que só conseguiram nos anos 1970, depois de muita briga.

Era o padrão da indústria. A Marvel só era tão injusta quanto todas as outras editoras. Mesmo assim, muitos dos artistas que fizeram o sucesso da Marvel morreram passando necessidade. Da turma original, restam Larry Lieber, irmão de Stan, primeiro desenhista do Thor; e Joe Sinnott, o melhor arte-finalista de Jack Kirby. Há algumas semanas morreu, esquecido do grande público, Steve Ditko, co-criador do Homem-Aranha.

Hoje, a indústria americana de quadrinhos paga alguns royalties, para os criadores que trabalham com super-heróis famosos, sem lhes dar direito autoral. E as páginas de arte são deles. É o modelo inevitável quando você está brincando com os brinquedos dos outros. Personagens famosos, propriedades de corporações.

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Na época que os principais heróis Marvel foram criados, os contratos extremamente lesivos para os artistas e roteiristas eram legais, e ponto. Lá chama-se “work for hire”, ou no Brasil CCDA, Contrato de Cessão de Direitos Autorais. Kirby e cia. sabiam o que estavam assinando. Mas não podiam prever as fortunas que seriam geradas a partir de suas criações.

A Marvel foi vendida para a Disney em 2009 por US$ 4,2 bilhões. O investimento já se pagou muitas vezes. Hoje, os artistas que criaram o universo Marvel nos anos 1960/70 estão velhos – quando ainda estão por aí. Muitos mal de saúde, sem grana, sem seguro para cobrir suas despesas.

Vale contar toda essa história porque existe uma fundação, chamada The Hero Iniative, dedicada a levantar fundos para ajudar quadrinistas velhinhos. Visite a Hero Iniative e você vai descobrir vários produtos que todo fã da HQ vai querer ter, e ainda ajudar os criadores que precisam. Tem inclusive uma ótima coletânea das colunas de Stan Lee, “Stan’s Soapbox”. Você pode assumir uma parte da responsabilidade pelo bem-estar desses grandes criadores. Compre já!

Se Stan não pode de jeito nenhum ser chamado de “criador” dos Heróis Marvel, em um certo sentido, ele era a Marvel. Porque dava liberdade para os artistas ousarem, e estimulava eles a serem mais dinâmicos e eletrizantes. Porque os diálogos que colocava na boca dos personagens, com as páginas já prontas, pareciam reais, diferentes dos da DC, e de tudo que tinha vindo antes. Porque eram diálogos que falavam de problemas reais, do aluguel atrasado no fim do mês, e de enfrentar o mal em formas épicas e comezinhas. Porque tinham humor e drama e conflito, e mês após mês as histórias progrediam, e os personagens mudavam.

Stan foi, além do mais, o grande marketeiro da Marvel. Assinava colunas mensais, fazia palestras, dava entrevistas. Foi o grande propagandista de um novo tipo de gibi, que era simultaneamente pra criança e pra universitário, e depois pra adultos. E olha a gente aqui no século 21, avôs e netos no cinema curtindo o novo épico Marvel, com direito sempre a uma pontinha de Stan…

Daqui duzentos anos, talvez ninguém nem lembre que existiu uma coisa chamada revista em quadrinhos. Mas o Homem-Aranha e os X-Men e Hulk e companhia continuarão por aí, garantido. São criações que têm, além do poder arquetípico, e do interesse comercial que atendem, uma perspectiva humana e extremamente humanista. Os criadores originais da Marvel cresceram minoria oprimida, escorraçada. Um bando de “judeuzinhos” pobres, filhos de imigrantes, garotos que pegaram em armas para enfrentar o nazifascismo.

Esta experiência dura, de enfrentar preconceito, de estar por baixo, de não se encaixar no que a sociedade espera de você, está presente em cada página daqueles gibis. É o DNA da Marvel. É irônico e triste que existam fãs da Marvel que simpatizam com a brutalidade, o retrocesso, a tortura, o pensamento autoritário. Na verdade, pensam que são fãs, e não são. Não entendem o que leram ou assistiram.

As palavras que estão nos balões são de Stan Lee: liberal, agnóstico, feminista, anti-racista, anti-fascista. Provocador, derramado e debochado. Pela inteligência, tolerância, diálogo.

Enquanto houver injustiça e perseguição, os heróis Marvel serão necessários. Esses males continuam com a gente em 2018, em posições de poder. Estarão conosco por muito tempo. Vamos lutar para que o bem vença no final, como em um gibi.

Vamos homenagear Stan Lee, e todos os criadores de nossos super-heróis. Vamos celebrar essas histórias maravihosas. Elas têm, e continuarão a ter, grande poder. Honrar seu significado, e seus valores, é nossa responsabilidade.