O bom negócio das palmas

DESENHOS-03

POR GERSON NOGUEIRA

Neymar talvez tenha agora como justificar aquela papagaiada de rolar pelo gramado na Copa do Mundo, simulando faltas e construindo um muro de má vontade no mundo inteiro contra a Seleção Brasileira. Notícia divulgada na sexta-feira pelo Mediapart, publicação que integra a respeitada rede EIC (Colaborações Investigativas Europeias, em português) de jornalistas independentes, especializados em publicar reportagens investigativas de fôlego, mostra que até a emoção dos craques passou a ser custeada por gordas remunerações.

A mais recente façanha da Mediapart é o chamado Football Leaks, contendo informações exclusivas sobre o alto mundo do futebol. Graças à série de matérias bombásticas, o Monaco foi acusado de firmar contratos frios e o Manchester City denunciado por falsear patrocínio da Etihad.

Desta vez, o trabalho mirou o PSG, revelando a montanha de dinheiro que o dono do clube paga a Neymar e outros astros, incluindo um inacreditávelbônus salarial para que os profissionais respeitem uma cartilha ética e comportamental. O mais curioso é o item que prevê saudações e cumprimentos à torcida do PSG ao final de cada jogo.

Neymar, astro maior da companhia, embolsa € 375 mil por mês (R$ 1,6 milhão) para bater palminha para os torcedores. Kylian Mbappé leva € 117 mil (cerca de R$ 500 mil). Daniel Alves e Cavani ganham € 70 mil (R$ 300 mil) cada, e o zagueiro Thiago Silva recebe “somente” € 33 mil (R$ 140 mil) pelas mesuras ensaiadas.

A história do bônus por agradecimento já havia sido noticiada por outros veículos, mas sem discriminar valores. Com a divulgação das minúcias de transações e acordos contratuais no Football Leaks, o próprio PSG se manifestou admitindo a existência do código de ética como forma de garantir a prática de bons hábitos.

Como não poderia ser diferente, os brasileiros Neymar e Thiago Silva mostraram-se irritados com a divulgação, desmentindo o que o próprio PSG não negou. O atacante chegou a acusar a Mediapart de disseminar fake news. Por essa afirmação, corre o risco de perder alguns milhões de euros se for processado pela rede EIC.

O que incomoda aos jogadores, principalmente os brasileiros, é a descoberta da encenação ao final dos jogos, revelando que até um mero agradecimento é contabilizado em euros. Não vai faltar quem coloque em dúvida as crises de choro de Neymar durante a Copa. As lágrimas pareciam de crocodilo, mas o jogador insistiu na cena e ganhou apoio da comissão técnica da Seleção e do pai-empresário.

Atualíssima mirada nas coisas do futebol, a série de reportagens desnuda  os mimos e excessos que alguns clubes concedem a jogadores de primeira linha, tornando mais compreensível certas atitudes infantis vistas até dentro de campo. Para alguns craques, a licenciosidade vivida nos clubes faz crer que no mundo cor-de-rosa do futebol tudo é permitido.

Já no começo da semana, outro destacado atleta do PSG foi alvo de comentários e críticas. Mbappé teve detalhes da negociação, pedidos salariais, influência da família e cifras exorbitantes revelados em documentos obtidos pela revista alemã Der Spiegel junto à Mediapart.

A cada nova descoberta quanto ao moderno tipo de negócio envolvendo estrelas do futebol, o esporte das multidões vai deixando pelo caminho aquele ar encantadoramente simples que tanto encantava as classes mais humildes.

As fortunas movimentadas em transações e mordomias escancaram o que muitos não querem ver: o futebol virou mesmo uma fantástica máquina de fazer dinheiro, onde gestos prosaicos como saudar a galera não têm um pingo de verdade.

De verdadeiro, honesto e puro resta apenas o amor dos torcedores por seus clubes e bandeiras. Embora até mesmo isso já corra algum perigo na forma de grupos uniformizados pagos para comparecer aos jogos.

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Bola na Torre

Com a ilustre presença do bragantino Claudio Guimarães na bancada, ao lado deste escriba baionense, o programa terá apresentação de Giuseppe Tommaso. Começa às 21h, na RBATV, analisando a rodada da Série B e os desdobramentos da Segundinha do Parazão.

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Tempos que não voltam mais

A Fórmula 1 caiu no gosto dos brasileiros quando tínhamos campeões nas pistas. Como se sabe, sendo o futebol a maior prova disso, brasileiro só se interessa por vitórias. Vai daí que Emerson, Piquet e Senna fizeram a alegria de milhões de pessoas ao longo de quase 20 anos, conquistando títulos mundiais e pulverizando recordes.

Quando a safra minguou, gerando projetos que nunca vingaram – Barrichello e Massa –, a audiência da TV despencou e a F-1 passou a viver de seu passado glorioso entre nós. Ainda há insistentes esforços pela recuperação do velho prestígio, mas não há graça em ver os motores a roncar sob o comando de um Hamilton ou Vettel ou Bottas.

Refiro-me ao GP do Brasil, que acontece hoje em São Paulo, sem o glamour e a ansiedade que despertava nos áureos tempos. Ocorre por força do calendário e o faturamento das grandes marcas envolvidas no negócio. Para saudosistas como eu, o encanto perdido não inspira sequer uma olhadela na transmissão.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 11)

2 comentários em “O bom negócio das palmas

  1. A que ponto chegou o futebol moderno. Até o simples ato de saudar os adeptos, o que deveria ser algo sincero com estes que apoiam o clube, agora é comprado.

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  2. Nunca me encantei com F1. Concordo com alguém que disse que corrida de carros não é esporte. Falta competitividade nessa modalidade de corrida. Parece os campeonatos de futebol alemão e italiano, em que somente um clube vence a disputa.

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