Nota de repúdio à intolerância e ao preconceito na UFPA

Os discentes do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará através do Centro Acadêmico de Ciências Sociais Hecilda Veiga e do Comitê de Resistência Felipa Aranha vêm, por meio desta nota, tornar público o repúdio às manifestações de preconceito e intolerância de duas professoras da Faculdade de Ciências Sociais da UFPA via Facebook.
Em uma publicação em comemoração à vitória do presidente eleito Jair Bolsonaro, uma professora, da cadeira de Ciência Política, publicou o seguinte texto:
Fiquem tranquilos.
Gente Bolsonaro não é ditador, é apenas honesto por isso assusta. Viado vai continuar viado ( só que não vai poder transar na rua). Ladrão vai continuar ladrão (só que vai ser preso). Travesti vai continuar travesti (só que vai fazer programa na boate não na rua). Maconheiro vai continuar maconheiro (só que não vai mais fumar na rua). Jornalista vai continuar mentindo (só que sem dinheiro público). Sapatão vai continuar sapatão (só que não vai ficar pelada na rua). Político corrupto vai continuar corrupto ( só que não terá apoio da lei e o Moro vai pegar). Dinheiro público vai pagar obra (não político). Quem ganha para trabalhar vai ter que trabalhar (chega de ZAP ZAP na hora do trabalho). E assim por diante, isso vai contagiando o país inteiro e por isso assusta, medo de acabar com jeitinho brasileiro, com lei de Gerson. O mundo não é dos espertos, é dos honestos! O RESPEITO COM O CIDADÃO TEM QUE SER RESGATADO SIM!!!” (Ênfases nossas). 
Ainda em comemoração às eleições, outra professora, da cadeira de Sociologia, publicou que “OS ALUNOS ‘VÃO’ASSISTIR AULAS NA CADEIA”.
Entendendo que as falas da primeira professora expressam preconceito às minorias sociais historicamente discriminadas, e também o grande desconhecimento e/ou desprezo pela trajetória do ativismo e dos estudos de gênero e sexualidade no Brasil, que há muito discute a importância de lutar contra os estereótipos: o de vulgaridade associado aos homens e mulheres homossexuais e o de prostituição como o único trabalho desempenhado por travestis e pessoas trans. E as falas da segunda professora expressam a tentativa de criminalizar os estudantes de nosso curso e de cercear a nossa liberdade de expressão, solicitamos que a faculdade/universidade tome medidas cabíveis.
Os discursos expressos via redes sociais pelas professoras também invadem as salas de aulas nas disciplinas que elas conduzem. A professora de sociologia, por exemplo, ao ver uma aluna assistindo aula de “Fundamentos do Conhecimento Científico e Ética” usando shorts disse “você não tem medo que mexam com você no ônibus com esta roupa, não?! Pois se eu fosse homem eu iria apertar a sua bunda!”. Para outro aluno, disse que homossexuais deveriam ser mais discretos e sugeriu ao discente que “voltasse para o armário”. Na disciplina de “Sociologia I – Marx” a docente além de não ter ministrado o conteúdo apropriado, tentou criminalizar os movimentos estudantis insinuando que somos “maconheiros e vagabundos”, dava declarações de senso comum como “se existe uma delegacia da mulher, tem que existir uma delegacia dos homens”, ou “não se pode dizer mais nada hoje em dia que tudo é racismo”, ou ainda “não existe racismo no Brasil”.
Para além da classificação enquanto estudantes de ciências sociais, somos homens e mulheres lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo, queer, negros e negras. Somos a diversidade e estamos na universidade, sobretudo no curso de Ciências Sociais, na tentativa de construir um mundo mais igualitário e não permitiremos discursos que ferem a nossa existência enquanto sujeitos. Estamos em um cenário difícil para os profissionais da área das humanidades com as reformas de Michel Temer e sofrendo ameaças reais pelo futuro presidente Jair Bolsonaro, como o projeto “Escola sem partido” e o fim do ensino de sociologia nas escolas, precisamos mais do que nunca da união dos docentes e discentes do curso, protegendo a ciência e os direitos humanos. Assim, comunicamos à direção da Faculdade de Ciências Sociais da UFPA que, enquanto representações estudantis, gostaríamos que as professoras responsáveis pelos discursos que repudiamos não completassem suas carga-horarias com disciplinas do nosso curso, em nenhuma turma.

Atenciosamente,

Centro Acadêmico de Ciências Sociais Hecilda Veiga;

Comitê de Resistência Felipa Aranha

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