Você também comprou essa narrativa enlatada?

Por Leandro Demori – The Intercept_Brasil

Bolsonaro nomeou Moro, e Moro até pode ser um bom ministro (calma), mas isso é assunto para outra news. Hoje quero falar sobre a armadilha das narrativas.
Bolsonaro já sabia que Moro diria sim. A cena do juiz viajando ao Rio foi apenas um show para a imprensa. Naquele dia, todas as redes de zap (elas não foram desmontadas depois da eleição, e nem serão) e todos os tuiteiros bolsonaristas amanheceram vacinados. Sem argumentos melhores para rebater a tese de que o juiz agiu com parcialidade evidente no caso Lula – e que por isso foi nomeado ministro da Justiça –, os cabos eleitorais pagos ou voluntários espalharam na praça uma tese quase infantil: “Moro só condenou o Lula na 1º instância” então “tudo bem” ele aceitar o convite do Bolsonaro pra ser ministro, “nenhum conflito de interesse” já que a “ficha suja se define a partir da 2º instância”.

Milagrosamente, de tuiteiros assessores de políticos do PSL até aquele cara com 2 seguidores brotaram com a mesma tese ao mesmo tempo, redondinha, empacotada, pronta pra ser vendida na feira livre das obviedades. “Quem delimita a ficha suja é o TRF4!”, eles escreveram, como se até as portas dos banheiros das rodoviárias não soubessem disso.
Acontece que o argumento jurídico é totalmente irrelevante nesse caso, e só se escora nele quem quer fugir do debate real.
O que importa aqui é o papel que o juiz teve na Lava Jato em relação a Lula, e o cheiro grande de “prêmio” que esse cargo tem para alguém que já havia sido convidado para ser ministro ainda durante a campanha. Vocês leram bem: o vice Mourão disse que já tinham convidado Sérgio Moro antes mesmo de vencerem as eleições, no meio da campanha.
Campanha na qual ele soltou publicamente uma delação do Palocci que nem o MPF quis e que, na prática, não deve servir juridicamente pra nada. Sabem quem disse isso? Um dos principais procuradores da… Lava Jato. Leia o que declarou Carlos Fernando dos Santos Lima em uma entrevista:
“Não tinha provas suficientes. Não tinha bons caminhos investigativos. Fora isso, qual era a expectativa? De algo, como diz a mídia, do fim do mundo. Está mais para o acordo do fim da picada. Essas expectativas não vão se revelar verdadeiras.”
Acha pouco? Tem mais: a mulher do juiz, Rosangela Moro, comemorou a eleição do Bolsonaro. No Instagram:

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Ou seja: a mulher comemorou a eleição do cara que já tinha prometido um cargo ao marido.
Não ver nesse enredo todo um enorme conflito de interesses, imoral e antiético, é apenas ridículo e sequer digno de debate. E, de fato, as pessoas da feira de obviedades não estão dispostas a conversar. Para parte delas, é uma questão de fé; para outra parte, se o prejudicado foi o PT, vale tudo; outras são pagas para defender o chefe.
Acostumem-se com isso: veremos com frequência um pacote de argumentos prontinhos entregue todas as manhãs na nossa mesa. Quando nos espantarmos com o novo espanto que substituiu o espanto anterior, eles virão repetindo a mesma ladainha, saindo pela tangente, encobrindo as cenas reais.
A Lava Jato fez um trabalho longo, complexo e que tem muitos pontos positivos. Não sou da turma que acha que ela foi concebida para destruir o PT, salvo melhor juízo. A operação colocou na cadeia gente que sequer sabia onde ficavam os presídios das cidades onde moravam e trouxe técnicas usadas em outros países para bater de frente com ladrões históricos do Brasil. Há um legado nisso, se bem usado. Mas seus integrantes estão longe de serem esses santos imaculados que parte da população bajula. O anti-petismo tem dessas: ele santifica por osmose quem fere o PT.
Moro, depois do episódio do grampo ilegal entre Dilma e Lula (o juiz divulgou um trecho que não tinha autorização para ser gravado), meteu os pés pelas mãos outras vezes, sem o menor pudor em esconder sua fixação por Lula. Virou caso pessoal, briga de rua. Eu lamento por quem aplaude isso e acha que em qualquer país decente do mundo a Justiça se comporta dessa maneira. Isso é coisa de republiqueta.
O juiz “herói” e anti-establishment que “jamais entraria para a política”, como declarou várias vezes, agora se alinha à parte política que (ainda) está em pé e que se beneficiou diretamente de seus atos e furadas de sinal. Deveria ter sido punido, foi premiado. Virou ministro da Justiça de quem defende tortura e morte.
No auge da euforia da vitória eleitoral de Bolsonaro, criticar isso tudo é apenas mau humor. A gente conversa mais tarde.

Tema do Enem repercute o escândalo das fake news nas eleições deste ano

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O tema da redação do Enem 2018 é “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, divulgou o Inep neste domingo (4). Os candidatos devem elaborar um texto dissertativo de até 30 linhas sobre o assunto. Quem escrever redações que firam os direitos humanos podem perder até 200 dos 1.000 pontos possíveis. Segundo o manual de redação do Inep (responsável pelo Enem), um dos cinco itens que serão avaliados no texto é a capacidade de “elaborar proposta de intervenção para o problema abordado que respeite os direitos humanos”.

Neste domingo, os candidatos farão provas de linguagens, ciências humanas e redação. O exame dura 5h30. No próximo domingo (11), as provas serão de química, física e biologia. Ao todo, 5,5 milhões de pessoas concorrem a vagas em universidades de todo o país.

Até o exame de 2016, quem ferisse os direitos humanos teria a nota zerada. No ano passado, decisão do Supremo Tribunal Federal excluiu esse item entre os critérios que anulavam a prova. No Enem 2017, em uma redação sobre a inclusão de surdos na redação, um candidato escreveu: “a melhor decisão a ser tomada é o sacrifício logo após a descoberta da maldição.”

Em Brasília, o presidente Michel Temer se pronunciou sobre a realização do exame e elogiou o tema da redação, que é “manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, assunto que levanta a discussão sobre “fake news”.

“Estive hoje no Inep para verificar a operação do Enem. Visitei uma sala de monitoramento de aplicação do exame. Tive o prazer de acompanhar o início dos trabalhos dessa grande prova nacional. Verificamos a harmonização dos setores do governo que trabalharam nessa matéria”, começou por dizer o emedebista.

“São 5 milhões e meio de estudantes que prestaram o Enem em todo o país. Isso exige uma logística extraordinária”, acrescentou o presidente, antes de elogiar o tema da redação. “Cumprimentei os organizadores pelo tema da redação, que trata das notícias falsas, assunto atualíssimo. Desejei sorte para todos os estudantes”, finalizou Temer em postagem no Twitter.

Com informações da Folhapress.

Para não pagar dívidas judiciais, Ronaldinho deixa apenas R$ 24,63 na conta

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Reportagem de Felipe Pereira no UOL informa que o processo que culminou na apreensão dos passaportes de Ronaldinho Gaúcho e Assis, seu irmão e empresário, quebrou o sigilo bancário deles para penhorar um valor para pagamento de multas e indenizações milionárias. O Bacenjud, sistema que interliga o Banco Central e demais bancos, respondeu que não havia saldo suficiente. O Ministério Público escreveu em um documento que os dois tinham somente R$ 24,63 em suas contas.

De acordo com a publicação, o montante é irrisório e fica longe do valor das multas e indenizações, que somadas chegam a R$ 8,5 milhões. Outra possibilidade seria hipotecar o terreno que levou Ronaldinho Gaúcho e o irmão a serem condenados por fazer obras em área de preservação permanente. Mas a medida se mostrou inútil por causa do alto valor devido em impostos. “Foi realizada hipoteca legal sobre o imóvel gerador da controvérsia, mas o mesmo já conta com robusta dívida em decorrência de inadimplemento de débitos tributários”, escreveu o Ministério Público.

Ronaldinho Gaúcho e Assis foram condenados em 2015 e até agora não cumpriram a sentença. A Justiça vê descaso da dupla e levou a situação em conta na hora de determinar a apreensão dos passaportes, completa o Portal UOL.

MST e MTST serão declarados ‘terroristas’ e PT pode ser interditado

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Historiadora francesa Maud Chirio, que pesquisa a direita brasileira, rejeita a ideia de que Bolsonaro vá moderar seu discurso ao chegar ao Planalto e se declara cética em relação ao equilíbrio entre Poderes no governo do presidente eleito. A ascensão de Jair Bolsonaro ao poder entrará para os livros de história como marco final da Nova República, iniciada no ocaso da ditadura militar, em 1985, porque o projeto político que impulsionou o presidente eleito contradiz os princípios que a regem.

O diagnóstico é da historiadora francesa Maud Chirio, 37, especialista em história da direita brasileira e na relação desta com a caserna. Em entrevista à Folha, ela diz não acreditar que o capitão reformado vá moderar seu discurso ou abandonar algumas de suas propostas mais radiativas após subir a rampa do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro.

“Não são bravatas, excessos, é um sistema de pensamento”, afirma a professora da Universidade Paris Leste Marne-La-Vallée e autora de “A Política nos Quartéis – Revoltas e Protestos de Oficiais na Ditadura Militar Brasileira” (ed. Zahar). “[Muitos analistas] Não acreditam que Bolsonaro poderia virar do avesso o conjunto de valores morais e políticos preponderante na Nova República. Há aí uma cegueira histórica.”

Para Chirio, no dia 3 de janeiro do ano que vem, o MST e o MTST serão declarados organizações terroristas e, no começo de fevereiro, o PT será interditado. “Haverá também um expurgo na administração pública, que já está em preparação. Só não vê quem não quer.”

A historiadora afirma duvidar da capacidade de Legislativo, Judiciário e imprensa de servirem de contrapeso a eventuais desmandos autoritários do militar da reserva e chama a atenção para a afinidade de Bolsonaro com a ala linha-dura do regime que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

“Ele representa um segmento que sempre rejeitou a República decorrente da Constituição de 1988 e sua apologia da diversidade étnica, religiosa e do pluralismo. Não há razão para acreditar que ele pense diferente”, avalia. Na entrevista a seguir, Chirio também tece paralelos entre as chegadas de Bolsonaro e Adolf Hitler ao topo do Executivo, além de falar sobre o que esperar das relações do presidente eleito com líderes da Europa.

Leia a entrevista completa:

Em entrevista ao jornal Le Monde entre os dois turnos da eleição, a senhora se declarou temerosa pela democracia brasileira. Por quê? E como ficou esse receio diante do resultado da corrida presidencial? 

Ele aumentou, por causa da natureza das reações de uma parcela de eleitores de Jair Bolsonaro. Minha inquietude se apoia em alguns elementos. Em primeiro lugar, em itens do discurso do agora presidente eleito sobre o respeito ao pluralismo político. Grande parte de sua fala é norteada pela [ideia de] repressão violenta da oposição de esquerda –das menções a exílio forçado e prisão até a alusão a agressões físicas e eliminação definitiva de adversários. E não são excessos pontuais, deslizes, mas, sim, uma retórica recorrente a indicar que ele não aceitará a sobrevida política de uma oposição de esquerda, o que já basta para caracterizar como não democrático o regime que vai se instaurar em janeiro de 2019. Em segundo lugar, há o fato de o discurso repressivo de Bolsonaro se estender a outros setores da sociedade, aos quais é negado o direito à diferença. Isso é muito claro com os homossexuais e com os índios –estes, ao que tudo indica, para “virarem brasileiros”, vão ser destituídos de suas especificidades, sofrendo com a supressão de reservas e com a rédea solta para o agronegócio, o que resultará provavelmente em massacre. Ou seja, há uma rejeição da diversidade política e social do país –o que, a meu ver, caracteriza uma sociedade autoritária.

E o que esperar da relação de Bolsonaro com os outros Poderes? 

A capacidade do novo governante de respeitar o equilíbrio entre os Poderes no âmbito de um sistema democrático gera dúvidas. É só lembrar as pressões exercidas sobre o Judiciário pelo grupo de Jair Bolsonaro, que se desenharam de forma clara na fala de Eduardo Bolsonaro [“se quiser fechar o STF, manda um soldado e um cabo”]: a tendência dele e de seu entourage militar de ver a Justiça como obstáculo ao exercício de poder. Em relação à mídia, a disposição do futuro presidente em deixar uma imprensa de oposição se expressar também é mais do que duvidosa. As tentativas da grande mídia de resistir, de questioná-lo, suscitaram reação muito hostil. É incerto, portanto, que Judiciário e imprensa possam de fato desempenhar o papel de contrapesos. Não se sabe se Bolsonaro vai governar com ou sem os legisladores. A visão que ele parece ter do poder não soa compatível com negociações com o Congresso.

Analistas dizem esperar que ele agora modere o discurso, deixe de lado arroubos extremistas e bravatas. Não é realista esse prognóstico? 

Acho que vai acontecer o inverso. Já existe no Brasil uma grande violência social, que atinge as populações rurais e periféricas e se traduz em grande mortalidade. Bolsonaro anunciou gatilhos que vão fazer disparar essa taxa, como o armamento da população para defender a propriedade e o aumento da militarização da segurança pública, acompanhado pela suspensão da ilegalidade de qualquer ato homicida da parte de um agente policial. Isso fará subir a letalidade social. É preciso perceber de onde o futuro presidente vem. Ele é formado no imaginário da linha-dura do regime militar. É cristalina a semelhança entre o que ele propõe para a cena política brasileira e aquilo que sugere a ala de extrema direita da reserva desde o fim da ditadura. Faça o download das edições da revista do Clube Militar dos últimos 20 anos e você verá a íntegra do programa de Bolsonaro a respeito dos homossexuais, da diversidade racial e do pluralismo político. Essa ala criticou a “renúncia” prematura do poder militar e a transição para a democracia, que, aos olhos dela, foi pouco controlada e abriu espaço para um revanchismo esquerdista, que teria conquistado a mídia, a universidade e, por fim, a cena política. É o discurso de Olavo de Carvalho, que afirma que a esquerda tem uma política de ocupação do espaço cultural viabilizada pelo fato de ela, a esquerda, não ter sido aniquilada na ditadura. Então não são bravatas, excessos, é um sistema de pensamento, no âmbito do qual a esquerda vira um inimigo nacional a ser eliminado. Se ele não colocar essa linha ideológica em marcha, será porque houve poderes moderadores que o impediram, não porque ele não tenha querido aplicá-la. Muitos analistas acham que, uma vez que uma democracia se consolida, ela não mais regride a um sistema que lhe seja antagônico. Não acreditam que Bolsonaro poderia virar do avesso o conjunto de valores morais e políticos preponderante na Nova República. Há aí uma cegueira histórica.

As democracias morrem… 

Bolsonaro representa um segmento que sempre rejeitou a República decorrente da Constituição de 1988 e sua apologia da diversidade étnica e religiosa e do pluralismo. Não há razão para acreditar que ele pense diferente. Em seu primeiro pronunciamento depois da vitória, ele surgiu ao lado de exemplares da Bíblia, de uma biografia de Winston Churchill [ex-primeiro-ministro britânico], da Constituição e de um livro de Olavo de Carvalho [“O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota”]. Não se trata de um Trump, de um provocador antissistema politicamente incorreto. Bolsonaro tem, por trás dele, uma estrutura de pensamento muito coerente, em que se articulam corrupção, comunismo e perversão moral. Em 1932, pouco antes de Adolf Hitler chegar ao poder, o discurso da direita na Alemanha era de que ele era um agitador, passível de controle, de enquadramento no sistema. Falava-se que era evidente que ele não poria em prática tudo aquilo que sustentava oralmente. Quando uma figura de fora do sistema fica popular e defende os interesses da classe dominante em diferentes planos (no caso de Bolsonaro, no econômico), verifica-se uma inércia desse sistema. Hitler era um personagem coadjuvante, insignificante, assim como Bolsonaro. Todos achavam que ele assim permaneceria, que seria engolido pelas forças sistêmicas. Nunca acontece isso. Para mim, no dia 3 de janeiro de 2019 [dois dias após a posse de Bolsonaro], o MST e o MTST serão declarados organizações terroristas. No começo de fevereiro, o PT vai ser interditado. Haverá um expurgo na administração pública, que já está em preparação. Só não vê quem não quer.

Por onde vão começar

Por Fernando Brito

Existem coisas evidentes na montagem da estrutura de poder autoritário que se faz sob a égide de Jair Bolsonaro que, tenho insistido aqui, não têm sido devidamente percebidas, olhadas como se fossem movimentos políticos naturais na montagem de um governo dentro dos limites de um estado democrático, algo que não é, em hipótese alguma, o caso deste.

Vejam: embora precise, desesperadamente, da construção de uma maioria suficiente para emendar a Constituição, não existe, senão por algumas conversas mantidas em absoluto sigilo, nenhuma articulação com bancadas partidárias no Congresso com este fim.

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O pouco que aparece é indicativo mais de bajulação do que de articulação. A nomeação, por exemplo, do General Juarez Aparecido de Paula Cunha para a presidência dos Correios é, senão uma ordem, um mimo ao General Hamílton Mourão, seu colega na turma de 1975 da Academia das Agulhas Negras e seu par constante ao longo de anos de serviço.

Já os acenos de Rodrigo Maia para fazer votar antes do fim do ano o afrouxamento das regras para a compra de armas foram solenemente ignorados.

Bolsonaro não quer que se perca a identificação pessoal que deve conter o cardápio de repressão e força que é o prato central do início de seu governo.

Quase todo o resto serão fait-divers, destinados a produzir medidas fátuas e espetaculares, sem guardar relação com o eixo de sua ação.

Neste momento, fuçam-se os escaninhos da Polícia Federal em busca de personagens que possam ser simbólicos para criar o “acompanhamento” com que será servido ao Congresso o pacote de ações autoritárias das “Novas Medidas contra a Corrupção”.

O método de formação da maioria não será apenas o da simples e tradicional cooptação com cargos no governo, mas o da intimidação.

Haverá judeus.