Quem atirou em Bob Marley?

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Bob Marley teve sua trajetória como o grande nome do reggae abreviada pelo câncer, em 1981, aos 36 anos. Mas sua vida quase acabou mais cedo, antes mesmo do lançamento do clássico disco “Exodus” (1977). É o que mostra o documentário “Who Shot the Sheriff”, da Netflix, que trata do atentado durante um show de Bob, em dezembro de 1976, que terminou com feridos e o cantor com uma bala alojada no braço, que por décadas se tornou alvo de teorias da conspiração, envolvendo até a CIA.

Em cerca de 1 hora, “Who Shot the Sheriff” faz um retrato social e político da Jamaica ao mesmo tempo em que pincela detalhes da carreira de Bob Marley e de como o incidente foi fundamental no desenrolar de sua carreira e até de seu sucesso internacional. Por meio de entrevistas, inclusive de fontes anônimas que aparecem sem mostrar o rosto, e imagens de arquivo da Jamaica nos anos 1970, somos transportados para a realidade violenta que cercava um cara paz e amor como Marley.

Enquanto duas grandes gangues brigavam e os poderosos tentavam tirar proveito da fragilidade dos mais pobres, uma guerra civil surgiu. O pano de fundo era a Guerra Fria, e o medo de que a Jamaica virasse uma nova Cuba e aderisse ao socialismo causou inclusive a desconfiança, tratada como fato verídico pelo documentário, de que os Estados Unidos, via CIA, lançavam seus tentáculos e até armavam gangues para influenciar na política do país.

Bob Marley, com suas canções de paz, era visto como uma ameaça, o que foi documentado pela CIA e acabou sofrendo na pele os efeitos disso, ainda que dissesse: “Nós não defendemos socialismo, nem capitalismo. Somos apenas rasta”.

O documentário desenha bem os anos de Marley na Jamaica e mostra muitas entrevistas de amigos, colegas e familiares para não apenas traçar o perfil do cantor que levou o reggae e o rastafári ao mundo, mas também para descrever em detalhes como Marley acabou tomando um tiro no braço.

O caso aconteceu em dezembro de 1976, quando Bob já era uma grande estrela local e já chamava atenção no mundo todo com sua música. Ele marcou um show gratuito, chamado de Smile Jamaica, com o intuito de diminuir a tensão entre os grupos políticos que disputavam eleição no país. Dois dias antes do concerto, homens armados invadiram a casa do cantor e dispararam diversas vezes. Sua mulher e seu empresário, Don Taylor, ficaram feridos.

Mesmo atingido no braço, Marley fez o show. “As pessoas que estão tentando fazer o mundo um lugar pior não tiram dia de folga. Como eu poderia tirar?”, disse ele, que cantou para 80 mil pessoas. Apesar de cumprir seu compromisso, o jamaicano decidiu deixar a ilha e se mudou para Londres depois do incidente. Lá, seu refúgio foi a música e ele compôs um dos discos mais importantes da carreira, “Exodus”.

O documentário ainda retrata outro momento polêmico para Bob Marley: sua volta à Jamaica. Ele cantou no festival One Love Concert, mais uma vez em um momento em que o país estava em pé de guerra, entre o Labour Party (Partido do Trabalho) e o People’s National Party (Partido Nacional Popular).

Após sua realização, no entanto, o festival foi acusado de contrabandear armas para o país junto ao equipamento de som, as mortes continuaram (com 889 assassinatos na Jamaica em 1980), e os organizadores do One Love Concert foram mortos, Claude Massop e Aston “Bucky” Marshall, os líderes das facções criminosas rivais, que tentaram uma trégua, sem sucesso.

Por outro lado, ainda que os depoimentos sejam fortes e haja uma posição que o documentário tenta cravar, a resolução da história não é definitiva e fica no ar se o caminho apresentado é realmente o que aconteceu na década de 1970 na Jamaica. (Do UOL)