Os perigos do autoengano

DESENHOS-03

POR GERSON NOGUEIRA

Na viagem do tempo a que estamos todos presos, encapsulados, há muito espaço para surpresas, enganos e desalentos. Nada tão espantoso assim se considerarmos avisos até estridentes no passado recente. Pilhas de livros (desde Alvin Toffler e seu “Choque do Futuro” lá atrás) já previam que o começo do novo século não seria biscoito, pelo menos quanto alguns desejariam.

Isso vale basicamente para todas as áreas, da educação à ciência, da política à religião, passando também pela mais importante das coisas desimportantes da vida: o futebol profissional. No Brasil atual, virado do avesso nos últimos meses, espanta que ainda haja gente capaz de crer na fantasia da rebeldia por parte de setores assumidamente conservadores.

É mais fácil encontrar saci pererê ou mula sem cabeça nas ruas da Marambaia do que algum clube no Brasil encarar confronto direto com as vacas sagradas que dominam o futebol pentacampeão do mundo.

Chama atenção, especialmente, essa falsa briga envolvendo Coritiba, Globo e CBF no Brasileiro da Série B. O confronto cheira a fake porque deriva de um desentendimento sobre acordo contratual envolvendo direitos de TV entre clube e a emissora dona do futebol brasileiro – e de muitas outras coisas também, além da telinha.

É claro que ao Coritiba o que importa é se resguardar de eventuais problemas jurídicos, pois tem pré-contrato com o Esporte Interativo. A Globo quer resolver logo, garantindo acordos com todos até 2022.

Com o impasse, o último repasse de cotas de R$ 400 mil destinados aos outros 18 clubes da Série B (o Goiás tem situação parecida ao Coritiba e ganha acima disso) foi suspenso pela empresa detentora dos direitos de transmissão do Brasileiro e sócia-irmã da CBF em tudo que representa lucratividade com o futebol no país.

Em qualquer outro tipo de relação comercial, os donos do produto iriam acionar as vias judiciais para cobrar o que a emissora tem obrigação de pagar. Acontece que estamos falando da segunda divisão do futebol brasileiro, onde respeito próprio e coragem são moedas sem valor.

O noticiário fala que os presidentes dos clubes discutem a possibilidade de uma “greve” (termo inadequado para a situação, pois não envolve entidades sindicais de trabalhadores), o que é uma licença poética, tomando por base o nível da imensa maioria dos cartolas tapuias.

Esperemos, sentados, incorrendo no pecado do autoengano, que os clubes levem a cabo essa tal paralisação em sinal de protesto, que seria legítima sob todos os pontos de vista, mas absolutamente fora de questão nessa relação desigual entre clubes, Globo e CBF.

Quando as agremiações que proporcionam o espetáculo e que levam público aos estádios – e à compra de pacotes de TV – tomarem consciência de sua força, aí provavelmente poderemos falar em greve ou locaute. Por ora, é sonho de uma noite de verão.

No fim de semana, todos os clubes da Série B estarão em campo, religiosa e passivamente, cumprindo sua parte, mesmo que a Globo mantenha a posição autoritária de reter os pagamentos. Alguém duvida?

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Azulinos convivem com eleitorado fantasma

O Remo vive a expectativa quanto à impugnação da chapa 10, de Manoel Ribeiro, enquanto começam a aparecer os demais problemas típicos de período de eleição no clube. Uma pesquisa na relação de votantes aptos descobriu muitos nomes de pessoas mortas. Quem faz a denúncia é o candidato Marco Antonio Pina.

Velha jogada do caciquismo para se beneficiar das permissividades que o sistema eleitoral à moda antiga permite quanto à fiscalização do cadastro de eleitores – e pensar que tem amalucado por aí defendendo a volta a essa prática obsoleta e botando em dúvida a segurança da urna eletrônica.

A denúncia deve ser apurada para que a irregularidade – ou descuido, vá lá – seja sanada, evitando que a lisura do pleito seja posta em dúvida.

Duvidosa mesmo é a demora do presidente da Assembleia Geral em decidir sobre o recurso de um associado à resolução da Junta Eleitoral quanto à impugnação da chapa situacionista.

Pelo andar da carruagem, no mundo dos desenganos, uma coisa está absolutamente garantida: a eleição remista tem todos os ingredientes que tornam o processo confuso, divisionista e prejudicial ao clube.

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Triunfo argentino expõe limitação dos nacionais

Grêmio e Palmeiras, is representantes brasileiros nas semifinais da Libertadores, desfrutavam de certo favoritismo na disputa, condição concedida pela imprensa de perfil canarinho que se manifesta sempre que surge um duelo contra argentinos. Os jogos contra River Plate e Boca Jrs., respectivamente, mostraram que o buraco é mais embaixo. Os argentinos botaram a bola no chão e, mesmo sem dar espetáculo, foram superiores.

O River ganhou com extrema autoridade dentro do Olímpico. O Boca controlou os chuveirinhos palmeirenses, resistiu à pressão e à pancadaria, acabando por garantir a vaga sem derrota na semifinal.

Precisamos repensar certos favoritismos atribuídos aos limitados times nacionais, cuja distribuição em campo e repertório de ataques não mudam desde os tempos de Dodô no Andaraí.

(Coluna publicada no Bola desta quinta-feira, 01)

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