Julián Fuks ao Guardian: “Nunca pensei que forças do mal me fizessem sair do Brasil”

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Por Julián Fucks, no Guardian

Venho de duas gerações consecutivas de exilados políticos. Avós que partiram da Romênia quando o antissemitismo ameaçava fulminar tudo o que tinham, como logo fulminou seus pais, irmãos, tios – desses avós herdei o sobrenome judeu, de seu destino ganhei meu nome argentino. Pais que partiram da Argentina quando o terror de Estado se fez sinistro, abatendo amigos, colegas, companheiros – deles herdei algum inconformismo, de seu destino ganhei a língua em que escrevo. Nunca na vida sequer cogitei que minha sina viesse a se parecer à deles, que forças obscuras pudessem me impelir a deixar o Brasil. Hoje, pela primeira vez em 36 anos, me pergunto se esse medo será tão disparatado assim.

De súbito, embora nada seja súbito quando se trata de história e de política, vejo se realizar no país onde nasci uma grande distopia. O Brasil elegeu como presidente um defensor da tortura, da milícia, do extermínio, que não se cansa de exaltar em seus discursos a letalidade da polícia e das forças armadas. Nessa não-ficção distópica, ele parece prestes a nos conduzir a uma viagem no tempo, mas, sintomaticamente, como em tantos lugares do mundo, o enredo dessa história nada tem de futurista. A viagem que Jair Bolsonaro propõe tem como destino um passado que nunca superamos, décadas sombrias que não nos abandonam nem nos pesadelos.

Esse futuro carregado de passado é feito de inúmeras promessas: de perseguição dos adversários políticos, extinção de todo ativismo, criminalização dos movimentos sociais como organizações terroristas. É feito de acenos autoritários: um vice-presidente que naturaliza autogolpes, um deputado eleito, filho de Bolsonaro, a afirmar que para fechar o Supremo Tribunal Federal basta um soldado e um cabo. Tão extremo é esse ímpeto que um fenômeno insólito se cria: milhões de eleitores convictos torcem para que seu candidato eleito nunca cumpra as suas promessas.

O futuro carregado de passado é feito também de opressões presentes, indiscretas e corriqueiras. Pessoas que temem sair de casa de camiseta vermelha, atentas a uma possível reação dos amarelos. Famílias que se rompem pelo radicalismo dos defensores da família. Homossexuais e transgêneros que disfarçam em espaços públicos sua voz, seus gestos de afeto, para que não se perceba a suposta inadequação, seus corpos desobedientes. Militantes, jornalistas, professores, ameaçados constantemente. Como meus pais em outro tempo, ouço com espanto os muitos amigos que não conseguem dormir, que choram ao ler notícias, que já se põem a contemplar longínquos horizontes.

Não vivemos, porém, o império do desalento. Contra a distopia que nos cerca, muitos compreendemos nestas últimas semanas que só existe um antídoto possível: a recuperação de alguma utopia. Depois de anos de relativa letargia, ou de imobilidade ante sucessivas crises, econômica, institucional, jurídica, articulam-se enfim diversos grupos de resistência. Assinam-se manifestos, organizam-se campanhas, criam-se redes de apoio a possíveis vítimas. Juntos vamos percebendo que não estamos tão vulneráveis, que não seremos os principais atingidos, que o assombro se espalha bem mais vívido nos bairros pobres, nas comunidades periféricas. Isso não nos tranquiliza e não nos detém: o movimento tem como cerne a solidariedade e a empatia.

As armas não nos interessam, as armas são os símbolos deles, os objetos em que Bolsonaro e seus mais radicais seguidores investem sua libido. A resistência será pacífica ou não será, será democrática ou não será. Em combate às armas, de forma inesperada e espontânea parece ter surgido um novo símbolo: os livros. Milhares foram às urnas no último domingo carregando livros dos mais diversos autores, Orwell, Woolf, Lispector, Drummond. Em oposição aos livros únicos que Bolsonaro incensa – a Bíblia e a autobiografia do torturador Brilhante Ustra –, o que valorizam seus críticos é a multiplicidade de discursos e perspectivas.

A cultura, então, ganha estranha centralidade nos tempos por vir. Nos termos da distopia existe, é claro, a promessa de abatê-la, extinguir o Ministério da Cultura, interromper fontes oficiais de financiamento, acabar com obras que afetem a suposta sensibilidade da maioria, que firam os valores da inefável família brasileira. O que parecem não entender é que, por importantes que sejam os financiamentos, a cultura não definha se um governo a combate, faz-se em vez disso urgente e incisiva.

Reunidos e alertas, escritores, cineastas, artistas, músicos brasileiros temos discutido a necessidade de uma arte pungente, que não ignore as brutalidades do tempo, que se faça discurso e intervenção no presente. Temos discutido também outra ideia indispensável: a necessidade de toda arte, de qualquer arte, sobre qualquer coisa, em qualquer forma. Arte bonita, também, lírica, poética, contra a feiura flagrante do discurso que enfrentamos. Vamos precisar de tudo nos anos por vir. Serão anos para escrever como nunca, produzir livros, peças, filmes, fazer festa, fazer sexo, fazer filhos. Anos para fazer vida. Contra a distopia, vamos precisar de tudo.

Pelo exemplo dos meus antepassados, eu poderia temer o pior para mim e para o país que acolheu meus pais e me emprestou sua alegria, sua disposição ao sorriso. Prefiro, no entanto, viver à luz dos meus antepassados, não sob a sua sombra, e me unir quanto puder aos que cercam, fundindo com o deles o meu próprio destino.

*Julián Fuks (São Paulo, 1981) é um escritor e crítico literário brasileiro, filho de pais argentinos. Em 2012, foi eleito pela revista Granta um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. Em 2016, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria romance e foi 2º colocado do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa com o livro A Resistência.

Conta no Twitter divulga arrependimento de eleitores de Bolsonaro

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Uma conta no Twitter criada logo após o segundo turno das eleições, no último domingo (28), publica “arrependimentos diários de eleitores de Jair Bolsonaro”. perfil se chama “Jair me arrependi!”, tem como descrição “não adianta espumar pq só recebo notificação de quem sigo, aqui você não tem lugar de fala”, sua localização é “cansada em Paris” e já tem mais de 31 mil seguidores.

Na página, são repostados tuítes de pessoas que já estão reclamando das decisões da gestão de Jair Bolsonaro, que terá início em 2019.

“Não estou arrependido de ter votado em Bolsonaro, porque nada é pior ou mais corrupto que o PT, mas to puto por ele estar trazendo ao governo alguém corrupto como Alberto Fraga condenado por propina”, diz um usuário do Twitter. “Eu votei no Bolsonaro. No entanto, leigo sabe que essa junção de meio ambiente com agricultura vai dar merda”, diz outro.

 

A estranha história do juiz que beneficia time e ganha prêmio por isso

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O jornalista Juca Kfouri recorreu ao jogo tido como o mais roubado da história do futebol brasileiro, entre Flamengo e Atlético Mineiro, para explicar, de forma didática, o namoro entre Sergio Moro e Jair Bolsonaro. No futebol, o juiz José Roberto Wright expulsou praticamente todos os atleticanos para que, em 1981, o Flamengo vencesse a Libertadores. Kfouri então propõe uma hipótese: já pensou se logo depois Wright virasse diretor do Flamengo?
No Brasil de 2018, Lula foi condenado sem provas para ser impedido de disputar uma eleição presidencial que, segundo todas as pesquisas, venceria no primeiro turno, mesmo de dentro da cadeia. Sem Lula, Jair Bolsonaro vence a disputa e, num de seus primeiros gestos, convida Moro para chefiar a Justiça. E Moro parece propenso a aceitar o convite.
 
Confira, abaixo, o post de Juca Kfouri:

Imagine se, pouco depois do Atlético Mineiro e Flamengo, disputado no Serra Dourada, pela Copa Libertadores de 1981, na decisão da única vaga da fase de grupos, quando cinco jogadores do Galo foram expulsos, o árbitro José Roberto Wright fosse convidado pelo Flamengo para assumir a Diretoria de Futebol do clube.

O que você acharia disso?

E mais.

E se ele aceitasse?

“Bohemian Rhapsody”: críticos apontam filme raso e homofóbico

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As primeiras críticas sobre “Bohemian Rhapsody”, cinebiografia do Queen sob a visão do vocalista Freddie Mercury, estão sendo divulgadas nesta semana. O filme estreia no Brasil nesta quinta-feira (1°) e, na sexta (2), chega aos cinemas dos Estados Unidos.

Scott Mendelson, da Forbes, disse que “Bohemian Rhapsody” tem um tom homofóbico. “O filme não consegue se libertar da fórmula de cinebiografia, especialmente nos desvios à vida pessoal de Mercury, que, inexplicavelmente, reformula sua história de vida para um ‘Afterschool Special’ sobre os perigos de farrear e sexo gay. Freddie é apresentado como bissexual, mas o film argumenta que ele teria ficado bem se ficasse em um relacionamento heterossexual e monogâmico com Mary Austin. Seja homofóbico ou slut-shaming, é nojento”, afirma.

Steve Rose, do The Guardian, destacou a interpretação de Rami Malek, mas deu apenas duas estrelas ao filme – para ele, o longa tem um “subtexto moralista problemático”. “O filme mostra os anos de selvageria de Mercury como um sintoma de sua homossexualidade. Nós vemos Mercury sozinho em Munique, viciado em drogas, sem seus amigos verdadeiros e explorados por seus novos amigos, que, em maioria, são homens farristas vestidos de couro. Isso reduz a homossexualidade de Mercury a algo como: ‘ele entrou para a turma errada'”, diz.

Segundo Owen Gleiberman, da Variety, “Bohemian Rhapsody” não consegue ser um filme melhor mesmo com um desempenho imponente de Rami Malek. “Apesar do assunto eletrizante, é uma cinebiografia convencional, meio-termo e recortada, que percorre por eventos em vez de se aprofundar neles. E trata a vida pessoal de Freddie – sua identidade sexual romântica, sua solidão, suas aventuras irresponsáveis em clubes gays – com a reticência de luvas infantis”, afirma.

Já faz algum tempo que o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor estão com o conceito de “Bohemian Rhapsody” finalizado – eles serão, inclusive, os produtores executivos do longa. Em entrevistas, afirmam que a ideia é fazer um filme mais “familiar”, que pode, de certa forma, ocultar detalhes sobre a vida pessoal de Freddie Mercury.

O cantor era bissexual, mas May e Taylor já revelaram, anteriormente, que a orientação sexual do vocalista não era conhecida por eles nos tempos de Queen. A ausência de menções à sexualidade de Mercury teriam feito, inclusive, com que o ator Sacha Baron Cohen – inicialmente cotado para interpretá-lo no filme – desistisse do papel.

O papel de Freddie Mercury acabou ficando com Rami Malek após Sacha Baron Cohen ter discordado do viés que o longa-metragem teria: Cohen queria que a história mostrasse a vida pessoal de Mercury, com direito a classificação indicativa para maiores de 18 anos, enquanto que o roteiro indicava foco na trajetória profissional do cantor.

Em 2016, Sacha Baron Cohen explicou a Howard Stern por que abandonou o elenco do filme: “Não deveria ter ficado tanto tempo envolvido, pois na primeira reunião, anos atrás, um dos membros da banda disse: ‘Esse filme será ótimo, porque o que acontece no meio é excelente’. Perguntei o que seria e ele respondeu: ‘Freddie morre, ué’. Deduzi que seria como ‘Pulp Fiction’, em que o meio é o fim, mas ele disse: ‘Não, será normal’. Perguntei o que teria na segunda metade e ele explicou: ‘Vamos mostrar como a banda seguiu em frente fazendo sucesso’. Eu falei: ‘Cara, ninguém vai querer ver um filme em que o protagonista morre de Aids no meio e a carreira de seu grupo continua'”.

Em defesa das liberdades democráticas

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Jair Bolsonaro (PSL) foi alvo de protestos nesta terça-feira (30), apenas dois dias depois de sua eleição para o cargo. Opositores convocaram manifestações em pelo menos seis capitais – São Paulo, Rio, Brasília, Porto Alegre, Fortaleza e Recife – com o mote de “resistência” ao futuro governo, que veem como um risco à democracia e à manutenção de direitos. Em São Paulo, o protesto foi convocado pela Frente Povo Sem Medo e pela Frente Brasil Popular, organizações formadas por movimentos sociais e centrais sindicais. O ato saiu do vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo), na avenida Paulista, e ocupou uma faixa da via, rumo à praça Roosevelt, na região da Consolação. Segundo a organização do ato, 30 mil pessoas compareceram. A Polícia Militar não divulgou números.

Ao longo do protesto, os manifestantes gritaram palavras de ordem contra Bolsonaro, como “Ele não, ele nunca, ele jamais”, retomando o lema “Ele não” dos atos organizados por mulheres contra o presidente eleito durante a campanha eleitoral, além de frases como “Não tenho medo” e “Ninguém vai se render”. Apesar do “Ele não”, Guilherme Boulos, que disputou a Presidência pelo PSOL e discursou no ato, descartou que o protesto fosse uma contestação ao resultado da eleição.  “As eleições acabaram no domingo, mas as fake news continuam. Nós lançamos esse ato de resistência democrática e eles se apressaram em dizer que a gente não reconhecia o resultado das eleições, que nós éramos maus perdedores”, disse. “Nós reconhecemos, sim, o resultado das eleições. Nós não somos o Aécio Neves em 2014”.

Eleito deputado federal pelo PSDB mineiro este ano, Aécio perdeu a eleição presidencial para Dilma Rousseff (PT) em 2014, e seu partido pediu uma auditoria na votação. Um ano depois, o PSDB concluiu que não houve fraude na eleição. Boulos também afirmou que Bolsonaro “se elegeu presidente do Brasil, não imperador do Brasil, não dono do Brasil”, e que por isso tem que respeitar “as liberdades democráticas, a liberdade de manifestação, a de expressão.” O político do PSOL criticou diretamente a declaração do presidente eleito no sábado (28), de que “bandidos vermelhos” iriam “para fora ou para a cadeia”.

“Tem que respeitar as oposições, e não dizer que vão para a cadeia ou para o exílio. Nós não vamos para cadeia ou para o exílio, vamos para a rua, que é nosso lugar de lutar por direitos e pela democracia”, afirmou. Boulos também disse que a oposição não aceitaria uma reforma da Previdência “que retire aposentadoria do povo”, nem a criminalização dos movimentos sociais, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), do qual Boulos é um dos líderes. Bolsonaro já disse que todas as “ações” destes dois movimentos devem ser consideradas como “terrorismo”.