Bolsonaro vai à guerra pela reforma da Previdência, rejeitada por 71%

Por Paulo Moreira Leite

O esforço da equipe de Jair Bolsonaro para aprovar — antes da posse — as mudanças na Previdência Social e no controle sobre a venda de armas de fogo explica-se por uma questão elementar de estratégia política. São propostas importantes para o programa de governo mas rejeitadas por larga margem pela maioria dos brasileiros e brasileiras. O cálculo aqui é banal. Quanto mais tempo o país puder refletir sobre estes assuntos, mais fácil será organizar a mobilização para derrubar propostas que a população rejeita.

O caso do comércio de armas é típico. Embora tenha sido uma das bandeiras permanentes da campanha de  Bolsonaro, a liberação de venda de armas de fogo continua rejeitada pela maioria dos brasileiros e brasileiras.  Em pesquisa realizada pelo Data Folha três dias antes da votação em segundo turno, com 9.173 entrevistas em todo país, o eleitorado confirmou uma opinião conhecida.  Enquanto 41% se disseram a favoráveis à liberação, 55% ficaram contra.

Essa diferença é equivalente a  14,4 milhões de pessoas, número superior  à diferença de votos entre  Bolsonaro e Haddad no segundo turno. Esse dado mostra que um número significativo de eleitores do próprio candidato do PSL também condena a mudança.  No Sudeste, onde Bolsonaro recebeu 49,2% milhões de votos, os favoráveis a liberação ficaram em 40% — os adversários somaram 57%. A liberação só é maioria nos Estados da região Sul — 58 contra 39 –, enquanto o Nordeste é o lugar onde a rejeição é mais alta: 65 a 30.

No caso da Previdência, a pressa de Bolsonaro equivale a realizar   uma  manobra às costas do eleitor. Até os tapetes do Congresso sabem que uma mudança dessa natureza jamais será aprovada em condições normais. Em 2017 a reforma planejada por Temer-Meirelles foi despachada para o mundo das causas perdidas quando ficou claro que nem um Congresso que  capaz de aprovar a reforma trabalhista teria estômago para mudar a Previdência. Um levantamento do Data Folha (02.05/2017) demonstrou que uma maioria gigantesca de 71% recusava a reforma. Entre a minoria de  21% a favor, a parcela maior eram os brasileiros mais endinheirados.

images_cms-image-000610307

Basta lembrar que Bolsonaro foi eleito por 39% para reconhecer a guerra que será aprovar uma proposta rejeitada por 71%.

Assim que assumiu seu lugar na campanha, o guru Paulo Guedes defendeu um acordo com o governo Temer e a liderança do Congresso para permitir a votação antes do fim do ano. O plano  é simples e volta a ganhar atualidade agora.

Já punidos pelo cidadão comum– 51% dos deputados foram aposentados pelo eleitor em 2018, grande parte como resposta à reforma trabalhista —  parlamentares em fim de mandato demonstram  menor resistência para apoiar projetos impopulares. Em busca de um novo rumo na vida após o percalço nas urnas, boa parte sequer disfarça a disposição de reforçar um projeto que é uma prioridade sagrada do mercado financeiro internacional, há décadas de olho num dos mais ricos e eficientes sistemas de Previdência pública do planeta.

A ideia também pode permitir um casamento de conveniências entre Bolsonaro e Temer, pois é um caso típico de interesses mútuos.

Multiplicando gestos de boa vontade em direção ao sucessor, Temer pode abrir caminho para uma aposentadoria menos tumultuada quando deixar o Planalto e perder as prerrogativas que mantém a Lava Jato provisoriamente longe de seus calcanhares.

Já Bolsonaro pode esconder-se atrás de um governo moribundo para aprovar um projeto que costuma deixar uma marca de ferro no mandato de todo presidente — como aconteceu até com Lula, que enfrentou protestos logo depois da posse, em 2003, quando deu sequência a uma mini reforma da previdência herdada de Fernando Henrique.

O detalhe é que Bolsonaro venceu a eleição em circunstâncias muito mais difíceis e não há garantia de unidade em torno de um projeto tão importante. Apontado como futuro chefe da Casa Civil, o deputado Onix Lorenzoni era contra a reforma de Temer em 2017 e faz reservas contra a ideia de Paulo Guedes de levar o tema a votos antes da posse.

Bolsonaro teve uma vitória magra no segundo turno, de 55% a 45% dos votos válidos. Por comparação, em 2002 Lula recebeu 61,2% dos votos válidos —  contra 38,7% para José Serra. Sua vitória abriu caminho a um novo pacto entre as forças políticas do país, coisa que Bolsonaro não quer e não demonstra  interesse em fazer,  empregando a postura bélica do Choque e Pavor, típica das guerras modernas levadas pelos EUA —  como deixou claro na resposta grosseira a uma mensagem bem-educada de Fernando Haddad.

Após uma campanha na qual a distribuição de fake news foi a prioridade número 1, quando recusou todos os convites para participar de debates no segundo turno, coisa inédita na história das eleições após a democratização, Bolsonaro tem  pressa para tocar a Previdência. É a melhor forma de impedir a população de se organizar, como fez há dois anos, para impedir um golpe fatal no Estado de bem-estar social construído pelos brasileiros em quase um século de história.

Alguma dúvida?

Greta Van Fleet: salvação do rock ou Led Zeppelin cover?

greta-van-fleet-live-july-2018-billboard-1548

Por Régis Tadeu

Tem gente que adora Pelé, Xuxa, Roberto Carlos, Paulo Maluf, Raul Seixas e Sílvio Santos ao mesmo tempo. Normal. Cada maluco tem o direito de curtir quem quiser. Da mesma forma qualquer pessoa tem o direito de achar que a “salvação do rock” é um quarteto de moleques que se vestem horrivelmente e que imitam descaradamente o Led Zeppelin. Só não contem comigo para validar essa presepada. Porque o Greta Van Fleet é justamente isso: uma farsa para enganar “viúvos do rock do passado”.

Chegamos a um ponto de “vampirismo” musical que qualquer um que resolva retomar o som de um passado distante é chamado de “a nova esperança do rock”, assim como antigamente todo fã racista de boxe ansiava pela “grande esperança branca”, algum peso-pesado ariano que viesse a derrotar os poderosos lutadores negros que dominavam completamente os ringues.

Cada um constrói a sua própria biografia e arca suas consequências. Por isso, a trajetória de uma banda que sequer tem meia década de existência profissional e que vem sendo apontada como aquela que vai resgatar a paixão pelo rock por parte das novas gerações tem tudo para se transformar em um daqueles casos de ascensão tão fulminante quanto a sua queda. Já vi esse filme acontecer inúmeras vezes. Foi assim com os péssimos Strokes, com os fofinhos do Belle and Sebastian, com o intragável Bush, com o subestimado Jet, com o irregular Kaiser Chiefs, com o ótimo Oasis… Toda “salvação”, mais cedo ou mais tarde, acaba tragada por suas próprias presunções.

Quando você pensa nos dias de hoje no termo “classic rock”, o maior popstar da categoria é justamente um grupo de quatro garotos americanos de Michigan que imita descaradamente o Led Zeppelin e é saudado justamente por isso!

Lembro que um sentimento parecido chegou a atingir certas pessoas aqui no Brasil quando surgiu o The Darkness, que era uma tiração de sarro proposital aos exageros sonoros do Queen e de outras bandas gigantes da segunda metade dos anos 70. Teve muita gente que detestou e amou sem saber que aquilo era uma sátira, como o Massacration fazia com os fãs retardados de Manowar e outras bandas canastronas do heavy metal. Uma música como “I Believe in a Thing Called Love” era quase uma paródia! O Greta van Fleet não. Os moleques realmente se levam a sério na tarefa de “salvar o rock”. Que besteirada da porra!

São três irmãos metidos a hippies: o guitarrista Jake, o baixista Sam e vocalista Josh Kiszka, tão genuínos como uma nota de R$ 73. O vocalista parece o neto do cantor Marquinhos Moura – lembra do hit “Meu Mel”, de 1986? –, se veste com as roupas e chinelos – sim, chinelos! – mais ridículos da história do show business em todos os tempos e canta como se tivesse engolido 26 balões com hélio para conseguir imitar completamente o timbre que o Robert Plant tinha até o Led Zeppelin III.  Os outros se esmeram na arte de tentar tocar exatamente como faziam Jimmy Page e John Paul Jones, chegando ao cúmulo de reproduzir alguns dos timbres característicos de ambos. O baterista Danny Wagner, coitado, sem conseguir imitar a pegada ponderosa de John Bonham, se limita a acompanhar seus amigos do jeito que dá.

Lula recomenda calma e reafirma liderança de Haddad no PT

images_cms-image-000606603

Em seu primeiro recado ao PT depois do final das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao partido para ter calma, esperar a poeira baixar e não se precipitar na avaliação do cenário pós-eleição, e reafirmou a posição de liderança no partido que o presidenciável da sigla, Fernando Haddad, conquistou depois do segundo turno.

Convocada pela presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, a Executiva da sigla, acrescida de parlamentares e outros petistas graúdos, se reúne nesta terça-feira em São Paulo para fazer uma primeira avaliação de cenário. No entanto, embalada pelo recado de Lula, a tendência Construindo um Novo Brasil (CNB) —da qual o ex-presidente e Haddad fazem parte— ecoa a posição lulista.

“A maioria (da CNB) avaliou que a reunião de amanhã é precipitada. Vamos recomendar que não se tenha nenhuma avaliação. Precisamos ter calma”, defendeu o presidente do PT do Rio, Washington Quaquá. “Todo mundo que ganha uma eleição tem legitimidade democrática. Precisamos fazer oposição a coisas concretas.”

Um dos coordenadores da campanha de Haddad, o deputado Emídio de Souza esteve nesta segunda-feira com Lula em Curitiba e fez um relato aos membros da CNB em uma reunião nesta tarde. O recado do ex-presidente foi entendido.

Sua avaliação foi de que o resultado eleitoral não foi bom, obviamente, pela derrota, mas permitiu ao PT liderar um processo que reuniu gente para além dos partidos, em uma frente que envolveu a sociedade, e ir além do que se esperava em uma eleição em que Lula foi impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa.

Antes de definir um discurso de atuação, o partido tem que decidir como trabalhar para manter isso, contou uma fonte.

Haddad foi derrotado no segundo turno da eleição presidencial para Jair Bolsonaro (PSL), que teve 55,1 por cento dos votos válidos, contra 44,9 por cento do petista. Apesar da derrota, foram 47 milhões de votos.

O ex-presidente coloca Haddad, que foi seu substituto na chapa, no centro das discussões daqui para frente. Recomendou que o ex-prefeito de São Paulo seja consultado sobre seus planos e como planeja liderar essa frente de oposição ao governo Bolsonaro.

Alinhada com os desejos do ex-presidente, a CNB —e outros petistas aliados diretamente a Haddad— avaliam que o ex-candidato conquistou um espaço que precisa ser usado para que o PT possa continuar liderando essa frente de oposição.

“Haddad saiu como uma grande liderança, saiu com estatura para ser uma liderança nacional. Antes só tinha Lula”, disse Quaquá. “Haddad passa a ser um grande interlocutor com a sociedade e se credenciou para liderar uma frente democrática. Essa é a posição do Lula também.”

O tamanho e o papel que Haddad irá desempenhar nesse futuro PT está no centro das preocupações de Lula e do próprio partido. Seus defensores crêem que o tempo de resistências ao ex-prefeito acabou e reconhecem que foi a capacidade dele de conversar com diferentes setores que levou o partido a conseguir ampliar seu leque de apoios —além, claro, da rejeição a Bolsonaro.

Ainda assim, reconhecem fontes petistas, há setores no partido que temem a perda de liderança e de holofotes para um “novato”.

“A discussão é mais complexa que uma avaliação de cenário. Que papel Haddad terá? Isso terá que ser discutido mais profundamente. Que espaço tem? Para cumprir esse papel virá para a estrutura do partido?”, disse uma das fontes. “Precisa pensar o que vai ser feito… as coisas precisam ter um compasso.”

Em seu discurso depois do anúncio da eleição de Bolsonaro, Haddad se colocou à disposição para liderar uma oposição mas, lembra a fonte, não foi conversado com ele ainda até que ponto pretende colocar seu envolvimento.

Nesta segunda, o ex-prefeito não foi à reunião da CNB. Pela manhã, saiu de casa apenas para ir até o Insper, onde dá aulas, e perguntado sobre o que faria daqui para frente, disse que voltaria a trabalhar porque tinha apenas tirado uma licença de 90 dias para a campanha.