Eletrônica avacalhada

POR GERSON NOGUEIRA

A interferência do chamado árbitro de vídeo (VAR) na decisão da Copa do Brasil, entre Corinthians e Cruzeiro, anteontem, deixou claro que em terras tropicais o equipamento não veio para esclarecer, mas apenas para confundir ainda mais as coisas. Dois erros cabeludos de interpretação em 90 minutos avacalharam com o sistema eletrônico.

Bem verdade que mesmo na Copa do Mundo disputada na Rússia a utilização do monitoramento de vídeo foi muito questionada. Em alguns casos, ficou evidente sua desnecessidade. Afinal, nos momentos mais críticos, como na partida final entre França e Croácia, não ajudou a dirimir dúvidas que poderiam ter mudado a história do jogo.

No confronto final da Copa BR, a tibieza do árbitro Wagner Magalhães acabou contribuindo decisivamente para duas situações patéticas em lances capitais. No primeiro, assinalou um pênalti inteiramente mandrake sobre o volante Ralf , invertendo a realidade. O corintiano se atirou dentro da área chegando a atingir Tiago Neves com um chute nas pernas.

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Um clássico exemplo de pênalti à corintiana, referendado pelo videomonitoramento. Além da desatenção diante de lance que não deixou margem a dúvidas, o árbitro foi olhar na telinha antes de cometer a lambança de confirmar a penalidade. Erro duplo.

O gol de origem irregular alterou a dinâmica do jogo, influiu no comportamento dos times, beneficiando os donos da casa. Empurrado pela torcida, o Corinthians pressionou e chegou ao gol da virada, em belíssimo disparo do garoto Pedrinho da entrada da área. Veio então o segundo desatino.

Wagner atendeu reclamações cruzeirenses e foi de novo ao oráculo. Olhou, olhou e errou feio outra vez. O toque com o braço em Dedé no lance imediatamente anterior não configura falta, mas o árbitro usou esse detalhe para desmarcar o golaço corintiano.

A questão é que, ao recorrer ao VAR, os árbitros sentem-se mais confortáveis. Como se fosse um habeas-corpus preventivo para erros de marcação. Alguns lances não deveriam motivar a consulta, por tão claros e óbvios.

Com a maior premiação dos torneios brasileiros (R$ 70 milhões), a Copa do Brasil merecia uma arbitragem melhor do que o fraquíssimo jogo visto na Arena Itaquera. Dois times caóticos, centrados na correria e no chutão. Sem exibições de técnica ou recursos de habilidade. Aqui e ali, um ou outro jogador tentava uma jogadinha de efeito, mas nada além disso.

Um rachão que valeu apenas pela emoção da torcida presente, em permanente suspense diante do desenrolar do confronto – de olho nas barbeiragens do atarantado árbitro, cujo suporte na cabine do VAR era do experiente Wilton Sampaio.

Fica patente que o vídeo deve ser um recurso extremo. O ideal é que seja preservado da banalidade, a fim de não deslegitimar os méritos de quem tão arduamente chegou à conquista de uma competição. Pois, apesar do pobre futebol mostrado em campo, o Cruzeiro foi altivo e mereceu o título.

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Festa para o Tricolor e oportunidade para o Papão

Os jogadores do Papão têm falado, com boa dose de razão, que o jogo de amanhã em Fortaleza tem características que podem beneficiar o clube paraense. A principal delas é o ambiente festivo criado pelos donos da casa, que festejam aniversário e tentam dar à partida caráter de pré-acesso.

Líder da Série B, o Fortaleza faz campanha excelente, com alto aproveitamento dentro da capital cearense e também nos jogos como visitante. Dificilmente deixará escapar a vaga à Série A, mas o futebol costuma pregar peças em ocasiões desse tipo.

Existem inúmeras histórias de equipes que se deram mal diante de seus torcedores quando não conseguiram separar o caráter festivo do sentido competitivo da coisa. Há previsão de público superior a 50 mil na Arena Castelão. Promoções estão sendo feitas para os sócios torcedores.

Enfim, uma verdadeira apoteose para saudar a quase classificação do Fortaleza, que tem hoje 57 pontos e cuja garantia de acesso depende de mais nove pontos. O Papão, com 32, é o 18º colocado e amarga uma sequência de maus resultados.

Um autêntico duelo de opostos, mas a métrica meio anárquica do futebol pode reservar uma boa surpresa para os bicolores. Afinal de contas, toda a carga de responsabilidade da partida estará nos ombros do time tricolor, que tem obrigação de vencer diante de sua torcida.

O PSC entra como o penetra da festa e, assim como quem não quer nada, pode acabar beliscando um precioso pontinho ou até mesmo uma vitória, que daria ânimo novo na incruenta batalha pela salvação.

É tarefa das mais difíceis, mas não impossível, visto que o Fortaleza já teve alguns tropeços como mandante – raros, é verdade. Com sorte e frieza, o Papão pode pregar uma peça e dar partida ao processo de reabilitação tão esperado. A conferir.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 19)

Imprensa mundial repercute Caixa 2 de Bolsonaro; Globo esconde a notícia

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Os principais jornais do mundo, entre os quais The New York Times (EUA) e The Guardian (Reino Unido), deram destaque às revelações feitas hoje de que dezenas de empresários estão envolvidos em um esquema de caixa 2 na campanha de Jair Bolsonaro para disseminar fake news contra Fernando Haddad.

O esquema milionário e ilegal de caixa 2 envolvendo empresários e a campanha de Jair Bolsonaro (PSL) para a disseminação de fake news no Whatsapp contra seu adversário, Fernando Haddad (PT), já é notícia mundial. Sites de todo o mundo repercutiram a notícia, ignorada pelo portal G1, pertencente ao grupo Globo.

“O Brasil luta contra uma tsunâmi de notícias falsas em meio a uma eleição presidencial polarizada. De acordo com as alegações em uma matéria de capa da Folha de São Paulo, um dos principais jornais do Brasil, Bolsonaro tem recebido ajuda ilegal de um grupo de empresários brasileiros que estão patrocinando uma campanha para bombardear usuários do WhatsApp com notícias falsas contra Haddad”, diz a matéria do jornal inglês.

O norte-americano The New York Times foi pela mesma linha. Na matéria, o jornal traz a denúncia da Folha e afirma que o que foi feito pelo candidato viola as leis brasileiras. “A disseminação de informações falsas nas redes sociais se generalizou nos preparativos para o segundo turno presidencial do dia 28 de outubro”, diz o artigo. Jornais Público e Nacional, de Lisboa, também informaram sobre a denúncia.

O ‘Jornal Nacional’, principal telejornal da Globo, minimizou e praticamente escondeu a notícia do dia: o esquema de caixa 2 encampado na campanha de Jair Bolsonaro (PSL) por dezenas de empresas que estariam financiando ilegalmente o impulsionamento e divulgação de fake news contra Fernando Haddad e seu partido, o PT.

O mesmo telejornal que, por inúmeras vezes, destrinchou detalhe por detalhe de matérias de veículos como a revista Veja e a Istoé contra o PT, se limitou na edição desta quinta-feira (18), já no terceiro bloco, a citar que Haddad entrou com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a cassação da chapa de Bolsonaro com base na matéria da Folha.

O apresentador William Bonner narrou de forma vaga o conteúdo da denúncia apenas porque a legislação obriga o telejornal a cobrir a agenda dos candidatos e, como Haddad falou sobre o assunto ao longo de todo o dia, não teria como escapar da pauta.

Por outro lado, veiculou uma entrevista exclusiva com Bolsonaro em que o candidato falou sobre suas propostas e sequer tocou no assunto da denúncia. Como se não bastasse, no intervalo do jornal a emissora veiculou, para algumas regiões do país, um comercial da Havan de apoio a operação Lava Jato. A rede de lojas pertence a Luciano Hang, o empresário que coagiu funcionários a votar no capitão da reserva e que estaria envolvido no esquema de caixa 2.