Normalizar selvageria é ameaça à democracia

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Por Kennedy Alencar

Obviamente, há um lado positivo nas entrevistas dadas por Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) ao “Jornal Nacional” na segunda-feira, dia seguinte ao primeiro turno das eleições. Ambos os candidatos afirmaram ter compromisso de respeito à democracia.

Mas há um nivelamento indevido e também uma cobrança descabida sobre os compromissos de Bolsonaro e Haddad com a democracia. Quando o PT esteve no poder e teve oportunidades nas esquinas da história de trilhar um caminho autoritário, o partido não o fez.

Exemplos: Lula não cedeu à tentação do terceiro mandato, não houve rebelião em relação ao impeachment e o ex-presidente não resistiu à ordem de prisão dada pelo juiz Sergio Moro.

Já Bolsonaro tem um longo histórico de declarações a favor da ditadura militar de 1964, inclusive com a defesa da tortura. Na votação do impeachment da Dilma, ele homenageou um torturador, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Há inúmeras entrevistas do candidato do PSL com ataques aos direitos humanos e das minorias. Já defendeu que mulher ganhe menos do que homem por engravidar. Já manifestou preconceitos contra gays e negros. Ao longo de 30 anos de carreira política, ele deu declarações preconceituosas e antidemocráticas.

Nesse cenário, tratar Bolsonaro e Haddad da mesma maneira normaliza a selvageria do candidato do PSL à Presidência da República.

Bolsonaro está numa estratégia eleitoral para tentar diminuir a rejeição. Compromisso com a democracia é muito bom, mas não pode ser mera tática eleitoral.

Bolsonaro pode ter mudado? Sim. Pode ter mudado da noite de domingo para segunda, porque no dia da eleição ele levantou suspeita de fraude na urna eletrônica para impedir eventual vitória dele no primeiro turno. Isso é um comportamento antidemocrático. Ele questionou a mesma urna eletrônica que deu votação expressiva ao filho dele candidato a deputado federal em São Paulo, Eduardo Bolsonaro.

É lícito suspeitar que esse discurso seja uma tática eleitoral diante de tudo o que Bolsonaro disse e fez ao longo de sua vida política. Uma vez eleito dentro da regra do jogo, será preciso que as instituições e a sociedade civil cobrem respeito às normas legais durante eventual governo.

Tratar desiguais de uma maneira igual acaba sendo bom para o Bolsonaro. Quem precisa jurar lealdade à democracia brasileira é Bolsonaro, porque ele é autoritário. No passado, o candidato do PSL disse que o Brasil precisava de uma guerra civil com a morte de pelo menos 30 mil pessoas, algumas delas inocentes. Pregou o fuzilamento de FHC.

É preciso tomar cuidado para não nivelar candidatos diferentes. No quesito democracia, Bolsonaro está muito atrás do PT e de Haddad nem se fala. É um risco para a democracia comprar pelo valor de face declarações que são mera tática eleitoral. Uma vez empossado, esse discurso pode mudar.

Na entrevista ao “Jornal Nacional”, Bolsonaro fez uma advertência ao general Mourão por ter defendido uma nova Constituição a ser elaborada por notáveis. Mourão rebateu no dia seguinte dizendo que não era vice “anencéfalo”. Bolsonaro também disse que não entendeu muito bem a referência a autogolpe, mas o general Mourão foi muito claro em entrevista à Globonews sobre a possibilidade de golpe em caso de caos social.

O histórico de Bolsonaro não pode ser comparado com o do PT nem com o de Haddad quando se trata de respeitar a democracia. Ao cobrir a disputa política, o jornalismo erra ao tratar desiguais de forma igual. Bolsonaro está em posição de maior fragilidade do ponto de vista das credenciais democráticas.

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Perigo autoritário

Casos de agressões pelo país e a morte de um capoeirista em Salvador mostram o risco da normalização da selvageria de Bolsonaro e de seus guardas da esquina.

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Crise contratada

O desgaste da relação entre Bolsonaro e Mourão pode ser prejudicial a um futuro governo do candidato do PSL. A história recente do Brasil mostra que desentendimentos entre presidente e vice contribuem para crises ou momentos políticos de tensão.

Itamar Franco rompeu com Fernando Collor de Mello antes da crise do impeachment de 1992 crescer. A relação entre Dilma Rousseff e Michel Temer já era ruim antes do acirramento de divergências que levaria à queda da petista. Seria negativa uma crise entre Bolsonaro e Mourão com o governo já instalado. Há um risco maior porque o vice é um general da reserva respeitado por colegas da ativa.

Nos últimos meses, houve forte ativismo político da parte dos militares, que deram declarações políticas, o que não acontece em democracias avançadas. Não é preciso que militares digam que cumprirão à Constituição porque isso está dado. É isso o que tem de acontecer, sem autorização ou tutela militar. Nas democracias, quem manda é o poder civil.

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Triste fim

É ruim para a democracia brasileira que o PSDB se enfraqueça e se torne um satélite do bolsonarismo. Ontem, Alckmin sugeriu que Doria foi um “traidor” na campanha eleitoral. O candidato do PSDB ao governo paulista fez gesto pró-Bolsonaro enquanto o postulante tucano Palácio do Planalto e seu padrinho político ainda estava na luta.

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Velho truque

O partido Novo dediciu rejeitar Haddad no segundo turno e adotaa posição de neutralidade. Indiretamente, ajuda Bolsonaro.

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Carta branca

Na segunda-feira, o próprio Lula disse a Haddad que o candidato do PT não deveria visita-lo mais em Curitiba devido à repercussão negativa na eleição desses encontros. Os dois conversaram para alinhar a estratégia eleitoral do segundo turno.

Haddad recebeu carta branca para tocar a campanha e mudar o programa de governo elaborado com Lula e o PT. A ideia é criar uma frente ampla e democrática atrair o apoio de Ciro Gomes (PDT) e de FHC (PSDB). Haddad já fez gestos para os dois.

O candidato do PT tirou de campo a proposta de Constituinte, ideia do PT, em sintonia com essa nova estratégia eleitoral. Haddad ganhou mais liberdade para montar o discurso econômico da campanha.

O candidato já disse que pretende indicar um empresário ou economista do setor produtivo para a campanha. Josué Gomes da Silva, do grupo Coteminas e filho de José Alencar, é um nome cotado.

A ideia é fazer contraponto a Paulo Guedes, banqueiro e assessor econômico de Bolsonaro que tem laços com o mercado financeiro. Jaques Wagner pode ser um nome para a Casa Civil ou a articulação política de um governo Haddad. Wagner tem feito a coordenação política da campanha de Haddad no segundo turno.

Radicalismo no Brasil surpreende até a líder da extrema direita francesa

A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, foi convidada a opinar nesta quinta-feira (11) sobre o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL). Ela foi entrevistada no programa “4 Verdades”, do canal France 2. Com habilidade, Marine tomou distância do discurso tosco e discriminatório do militar.

Questionada pela apresentadora Caroline Roux se desejava a vitória de Bolsonaro, Marine Le Pen disse que essa decisão cabia ao povo brasileiro e que ela respeitava a soberania dos povos. O tom evasivo da primeira resposta dominou os minutos seguintes da entrevista.

Sobre o sucesso de Bolsonaro no primeiro turno, Marine atribuiu ao fato dele ter baseado sua campanha no tema da segurança e contra a corrupção. Ela citou dados da criminalidade no Brasil, evocando os 60 mil homicídios por ano no país, contra 700 casos na França, e atribuiu a votação expressiva em Bolsonaro a uma “reação” da população brasileira a esse ambiente de insegurança.

Questionada sobre os excessos de Bolsonaro quando o candidato diz que preferia ver seus filhos mortos em vez de homossexuais e que mulheres grávidas são um fardo para empresas, Marine afirmou: “Não vejo o senhor Bolsonaro como um candidato de extrema direita, ele diz coisas extremamente desagradáveis que são intransponíveis na França, são culturas diferentes”, ressaltou. Marine aproveitou este momento da entrevista para reforçar a distância em relação ao candidato do PSL: “Desde que um candidato fala coisas desagradáveis, na França ele é catalogado de extrema direita”.

A frase do dia

“Meu adversário está soltando mentiras na internet, dizendo que eu distribuí material impróprio para crianças com menos de 6 anos. Eu fui ministro da Educação e o que eu distribuí foi computador, ônibus e bibliotecas… Coisas que ele desconhece da escola pública.”

Fernando Haddad, candidato à presidência da República

Candidato fujão obriga Band e RedeTV! a cancelarem debates

A Rede Bandeirantes cancelou o debate que faria entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) nessa sexta-feira (12). O candidato de extrema-direita rejeitou participar do evento após “recomendações médicas”. Esse seria o primeiro debate televisivo na corrida presidenciável do segundo turno. Segundo a emissora, eles estão avaliando uma nova data para o debate, mas não há um dia certo para que ele ocorra.

Os médicos Antonio Luiz Macedo e Leandro Echenique não liberaram Bolsonaro para o debate. Na quinta-feira, dia 18, eles farão nova avaliação médica em Bolsonaro.

Assim, Bolsonaro não teria de pegar um avião. Haddad, claro, poderia comparecer em qualquer estado. Mesmo com esse esforço, a equipe de Bolsonaro negou participação no evento.

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Já a RedeTV! tinha debate marcado para a segunda-feira, dia 15. Em nota oficial, a emissora também cancelou o evento por conta da falta de Bolsonaro. Em sua página no Facebook, Haddad disse que, para debater, ele poderia ir a uma enfermaria se fosse preciso.Com a falta de Bolsonaro, Haddad poderia ir sozinho ao debate? A TV Band ou a RedeTV! poderiam dar prosseguimento à transmissão televisiva e colocar apenas o candidato do PT sendo questionado ao vivo, ao lado de uma cadeira vazia simbolizando seu adversário?

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as emissoras devem respeitar as resoluções do tribunal e garantir o tratamento igual aos candidatos em debates e entrevistas. Se a Band ou a RedeTV! mantivesse o evento em seu calendário apenas com Haddad, o fato poderia abrir margem para interpretações e denúncias, pois ele representaria tratamento desigual entre os candidatos.

A resolução 23.551/2017 “Propaganda eleitoral e horário eleitoral gratuito” do TSE traz algumas respostas.

O parágrafo primeiro do artigo 40 diz que “é admitida a realização de debate sem a presença de candidato de algum partido político ou coligação, desde que o veículo de comunicação responsável comprove tê-lo convidado com a antecedência mínima de 72 (setenta e duas) horas da realização do debate (Lei nº 9.504/1997, art. 46, § 1º)”.

Mas o parágrafo primeiro do artigo 3 diz que “a participação de filiados a partidos políticos ou de pré-candidatos em entrevistas, programas, encontros ou debates no rádio, na televisão e na internet, inclusive com a exposição de plataformas e projetos políticos, observado pelas emissoras de rádio e de televisão o dever de conferir tratamento isonômico”,

Ou seja, um debate apenas com Haddad poderia não configurar mais um debate, sim uma entrevista individual, onde não há tratamento igualitário para os dois candidatos. Assim, se Haddad tivesse um tempo só dele na Band na próxima sexta-feira (12), o mesmo teria de ser feito com o Bolsonaro.

Especialistas se dividem no caso da entrevista de Bolsonaro na TV Record, pouco antes da eleição do primeiro turno. Enquanto alguns viram ali claro privilégio a Bolsonaro, ferindo o princípio da isonomia, outros viram apenas uma compensação pela falta no debate da TV Globo. Segundo o TSE, é inédita a hipótese de um candidato participar de um debate via internet, mas o fato seria possível.

Se um candidato participasse do debate na TV via link ao vivo, estando casa ou outro local, o evento poderia ocorrer legalmente, se garantindo que os candidatos tivessem condições de igualdade: mesmo tempo para falar, mesmas regras etc.

Para o TSE, no caso dessa sexta-feira, se Bolsonaro optasse por essa saída para participar do debate, a TV Band poderia solicitar a aprovação do tribunal, que avaliaria as condições. (Da Revista Exame)

Do exterior, dupla comanda fake news em grupos de extrema direita no whatsapp

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Juntos, eles administram ao menos 50 grupos de whatsapp disseminando fake news em prol da candidatura do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), que atingem cerca de 10 mil pessoas em uma primeira camada. “Diretamente abordamos 10 mil pessoas de todas as partes do Brasil. Daí elas replicam e acaba viralizando na rede WhatsApp”, diz Carlos Nacli, que propaga, da Europa – onde vive atualmente – também mensagens com cunho patriótico e nacionalista para a candidatura do militar da reserva.

Educador físico e ex-empresário de lutas de vale-tudo, Nacli mora atualmente em Portugal e atua na guerra virtual de Bolsonaro ao lado de Newton Martins, brasileiro que vive hoje em Boston, nos Estados Unidos – e se classifica como ativista político, entusiasta das mídias sociais e servidor público em seu perfil no Facebook.

Newton também é administrador da página do Movimento Nas Ruas, que tem mais de 810 mil seguidores e faz campanha abertamente para Bolsonaro, distribuindo memes e convocando protestos. O movimento é um dos que nasceram e ganharam força durante o golpe parlamentar ocorrido em 2016 e depois foram usados para disseminar ideologia da ultra-direita no país, seguindo a cartilha de Stevie Bannon, guru do movimento internacional ultra-liberal, ex-assessor de Trump e conselheiro da campanha de Bolsonaro.

Em entrevista, via whatsapp, ao jornal El País, Nacli diz que a atuação nas redes é “voluntária”, para combater “notícias no mínimo tendenciosas para não falar maldosas no intuito de desconstruir o Bolsonaro”.

Ele admite que há uma guerra virtual nas eleições entre a “grande mídia tendenciosa” e a mídia nas redes sociais, “onde tem de tudo, mas com certeza é mais democrática e está se mostrando mais poderosa”. “Temos a certeza que esse efeito multiplicador das redes sociais é mais forte que qualquer grande grupo, ainda mais quando eles lançam notícias maldosas. Em resumo, nosso trabalho aqui é fazer o feitiço virar contra o feiticeiro”, diz.

Morador de Curitiba até 3 meses atrás, Nacli diz ter se mudado para Portugal – país administrado por uma coalizão política de esquerda – porque o “Brasil está muito ruim”. “Lá, independentemente de ideologias, o básico que todo ser humano deveria ter, tem”, diz, antes de declarar que não pretende voltar ao Brasil, mesmo com uma vitória de Bolsonaro.

Em sua página no Facebook, com pouco mais de 150 seguidores, Nacli é pouco atuante. No entanto, alguns vídeos publicados por ele – identificados como Programa Contra Ataque – aglutinam diversas fake news e mensagens que são disseminadas por apoiadores de Bolsonaro nas redes, sempre acompanhado de hashtags com alusões à candidatura do militar e sob a descrição “Somos o exército de Bolsonaro”.

Ativismo em Boston
No continente americano, Newton se mostra um soldado atuante do exército bolsonarista. Além de convocar passeatas e debates em prol das ideias do militar na terra de Donald Trump, ele se comunica pelas redes sociais e cumprimenta candidatos da extrema-direita, como Janaina Paschoal. “Minha amada venceu”, diz ele em post após a confirmação da eleição de uma das artífices do golpe ser confirmada na Câmara Federal.

Em vídeo divulgado na segunda-feira pós eleição (8), Newton cumprimenta os candidatos da extrema-direita pela eleição. “Parabéns a Carla Zambelli, a Janaina Paschoal, ao Alê Silva, vocês conseguiram, venceram as eleições. E é muito satisfatório saber que nós participamos dessa caminhada juntos com vocês”, diz, antes de anunciar o dia de descanso e “voltar a lutar para eleger Bolsonaro presidente do Brasil no segundo turno”.