Profissionais da violência

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Por Eliane Brum, no El País

“Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”. A frase é do general Hamilton Mourão, candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL). Foi dita à revista Crusoé, após o ataque à faca contra o candidato na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, em 6 de setembro. É uma frase para se prestar toda atenção.

Abalado pela brutalidade do episódio, Mourão poderia ter escolhido pelo menos duas variações que mudariam a intenção: “os profissionais da segurança” ou “os profissionais da proteção”. Palavras como segurança e proteção levariam à ideia de amparo e de defesa —e não à ideia de ataque, de retaliação e de confronto. Mas não. Mourão usou um “nós”— e usou “profissionais da violência”. Ao ser perguntado quem era o “nós”, o general disse que se referia “aos militares e ao uso da força pelo Estado”.

Mourão declarou ainda: “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”. No mesmo dia, o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo: “A guerra está declarada”.

É bastante revelador que um general da reserva, hoje político e candidato, se considere no direito de falar em nome do Estado, em plena campanha eleitoral para se tornar governo. A declaração de Mourão mostra que ele acredita falar pelos militares, como se os representasse e os comandasse. E como se os militares fossem uma força autônoma, uma espécie de milícia de Bolsonaro e de Mourão. E não o que a Constituição determina: uma instituição do Estado, paga com recursos públicos, subordinada ao presidente da República.

Ao fazer essa declaração, Mourão trata as Forças Armadas como se fossem a sua gangue e o país como se fosse a sua caserna. Alguém machucou o meu amigo? Vou ali chamar a minha turma para descer o cacete. E faz isso na condição de político e de candidato, como se o processo democrático fosse apenas uma burocracia pela qual é preciso passar, mas que pode ser atropelada caso se torne inconveniente demais.

Mais tarde, Mourão baixaria o tom, segundo ele a pedido do próprio Jair Bolsonaro. Uma orientação curiosa para um candidato que divulgou uma foto sua na cama do hospital fazendo com as mãos o sinal de atirar. No dia seguinte à agressão, durante entrevista à Globo News, o vice de Bolsonaro afirmou que, em caso hipotético de “anarquia”, pode haver um “autogolpe” do presidente, com o apoio das Forças Armadas.

Ao comentar a convocação à violência por ele e outras pessoas da campanha, Mourão afirmou: “Realmente subiu um pouco o tom (no início), mas temos que baixar, porque não é caso de guerra”. Disse ainda que, se forem eleitos, vão “governar para todos, e não apenas para pequenos grupos”.

As declarações do vice de Bolsonaro no primeiro momento dão pelo menos duas informações sobre ele que vale a pena registrar. Mourão decide baixar o tom depois de elevar (muito) o tom. Poderia se pensar se é esse tipo de reação passional que se espera de um general, uma pessoa numa posição de comando ocupando o posto máximo da hierarquia do Exército, cujas ordens podem afetar milhares de vidas humanas. Pela trajetória de Mourão, a dificuldade de agir com racionalidade em momentos de tensão não parece ter afetado a sua carreira.

Neste momento, porém, Mourão é um político e candidato a vice-presidente. Diante da crise, representada pela agressão a Bolsonaro, aquele que quer ser vice-presidente do Brasil explode, confunde o seu lugar e o lugar das Forças Armadas, e bota gasolina na fogueira que deveria conter. E deveria conter não apenas por ser candidato, mas por responsabilidade de cidadão.

É importante que Mourão tenha finalmente entendido que não se trata de uma guerra e tenha parado de encontrar inimigos entre as faces da população. Mas as declarações irresponsáveis já produziram um efeito cujas consequências são difíceis de prever. Como ele mesmo lembrou, “há um velho ditado que diz: as palavras, quando saem da boca, não voltam mais”.

O que Mourão faria com poder real diante das tantas crises que esperam um governante? Como governará essa dupla, caso eleita, um que invoca mais violência em palavras e outro que, recém operado após sofrer uma agressão, faz sinal de atirar? Como governarão, com sua lógica de guerra, na qual o inimigo não é outro exército, mas a parte da população que discorda deles?

A segunda informação que emerge das declarações é a rapidez e a leviandade com que Mourão julga e condena. De imediato ele responsabilizou o PT pela agressão à faca. Não havia —e não há— um único indício de que o autor da facada tenha qualquer ligação com o PT ou faça parte de um plano do partido. Adelio Bispo de Oliveira afirma ter agido sozinho e “a mando de Deus”. Declarar publicamente uma “fake news” ou mentira, num momento de tanta gravidade para o país, também pode ter consequências imprevisíveis. Não adianta voltar atrás depois de ter afirmado uma mentira como “certeza” justamente na hora em que os ânimos estavam mais acirrados.

É importante observar como esse protagonista se comporta diante da crise, já que governar um país é lidar com várias crises todos os dias. Se sem poder de governo ele encontra culpados, para além do culpado que já está preso, e invoca publicamente a violência como reação imediata, o que fará caso tenha poder de governo e a possibilidade de convocar o que Mourão chama de “profissionais da violência” e a Constituição chama de “Forças Armadas”? Se, quando precisam convencer eleitores de que são a melhor escolha, os homens de Bolsonaro invocam a guerra dentro do próprio país, o que farão quando já não precisarem convencer ninguém?

É importante observar que não conseguem refrear seus instintos nas horas mais duras, mas também é importante acreditar no que dizem quando não são capazes de se conter. Tanto Bolsonaro quanto Mourão têm se esforçado para mostrar que são “profissionais da violência”. Ao pregarem que a população deve se armar, como se esta fosse a melhor estratégia para enfrentar a questão da segurança, é assim que se apresentam.

As declarações contra as mulheres, contra os negros, contra os indígenas e contra os LGBTs também são um exercício da violência que revela uma visão de mundo e a fortalece entre aqueles que dela comungam. Semanas atrás, Mourão chamou os negros de malandros e os indígenas de indolentes. Desta afirmação que saiu da sua boca ele não se arrepende. Como disse Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do candidato: “Tem que botar um cara faca na caveira para ser vice”. Botaram.

No dia seguinte ao atentado, quando segundo ele mesmo o tom deveria baixar, o vice de Bolsonaro enalteceu o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar (1964-85). “Os heróis matam”, justificou ele na TV.

Sempre vale lembrar ao menos um episódio entre as tantas mortes e torturas ordenadas ou executadas pelo “herói” de Bolsonaro e de Mourão. O torturador Ustra levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos infligidos em várias partes do seu corpo e também nos seios e na vagina. Este é o farol de Bolsonaro e Mourão, em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência do Brasil, o que diz bastante também sobre os eleitores.

Armar-se é uma das principais plataformas da campanha de Bolsonaro-Mourão, o capitão da reserva e o general da reserva. E é preciso levá-los a sério. Não só porque Bolsonaro e Mourão lideram as intenções de voto, mas porque é legítimo que os eleitores queiram votar em “profissionais da violência” para governar o Brasil. É possível discordar de quem aposta em “profissionais da violência”, mas o direito de escolher uma pessoa que invoca a violência é legítimo numa democracia.

Há muita gente clamando por “civilização” contra o que nomeiam de “barbárie” que atravessa o Brasil, às vésperas de uma eleição em que o candidato em primeiro lugar nas pesquisas está na prisão e é proibido pelo judiciário de se candidatar e o candidato em segundo lugar leva um facada durante um evento de campanha e precisa passar por uma cirurgia.

Mas o que chamamos de civilização tem sido sustentado pela barbárie cotidiana contra os negros e os indígenas. A civilização sempre foi para poucos. A novidade que uma chapa Bolsonaro-Mourão apresenta é a suspensão de qualquer ilusão. Não é por acaso que alicerçam sua prática antiga, tão velha quanto o Brasil, nas redes sociais, o espaço onde toda a possibilidade de mediação foi rompida e os bandos se fecham em si mesmos, rosnando para todos os outros.

A barbárie dos “profissionais da violência” sempre sustentou a civilização de uns poucos. O que Bolsonaro e Mourão dizem, como “profissionais da violência” que são, é que já não é preciso fazer de conta. Neste sentido, rompem o mesmo limite que a internet rompeu, ao tornar possível que tudo fosse dito. E também ao dar um valor ao dizer tudo, mesmo que este tudo seja o que nunca deveria poder ser dito, já que é necessário um pacto mínimo para a convivência coletiva e o compartilhamento do espaço público.

Ao representar a velha boçalidade do mal expressada na novidade das redes, Bolsonaro-Mourão são os representantes mais atuais deste momento. Eles sabem que a guerra não existe no Brasil. O que sempre existiu foi o massacre. São os mesmos de sempre que continuam morrendo, como os camponeses de Anapu nas mãos dos pistoleiros da grilagem e as crianças das comunidades do Rio em cujas cabeças as balas explodem.

Ao inventarem uma guerra para encobrir o massacre, Bolsonaro e Mourão inventam também a ideia de que as armas serão iguais e acessíveis para todos, bastando para isso o “mérito” de passar em eventuais testes e o “mérito” de ser capaz de pagar pelas melhores. Conheceremos então o discurso da meritocracia aplicado às armas.

Bolsonaro e Mourão sabem muito bem que não haverá igualdade ao armar a população. Se Bolsonaro, o “profissional da violência”, teve alguma sorte na tragédia, é a de que Adélio Bispo de Oliveira era um amador e era pobre. Ele tinha apenas uma faca e nenhum plano para depois. Se ele fosse um “profissional da violência” como Mourão, Bolsonaro não teria tido a chance de fazer o gesto de atirar na cama do hospital, depois de ser salvo pelo SUS, sistema público de saúde que ele não se esforça para defender.

Marielle Franco, a vereadora do Rio pelo PSOL, não teve esta sorte. Seus assassinos arrebentaram sua cabeça com arma de alto calibre e uso restrito e até hoje, seis meses depois, não se conhece nem a identidade do executor nem a do mandante. Negra, lésbica e favelada, Marielle está no lado dos que morrem e cujas mortes permanecem impunes. Marielle está no lado dos massacrados, não dos que massacram.

Mas não é sorte o que Bolsonaro teve ao ser atacado por um amador. Tanto ele quanto Mourão sabem o que dizem quando reivindicam serem “os profissionais da violência”. Eles são. Resta saber se a verdade da maioria dos brasileiros é também esta: a de desejar profissionais da violência comandando o país onde vivem.

Se a maioria dos brasileiros mostrar nas urnas que quer esse tipo de político no poder, então é isso que escolheram. Faz parte do processo democrático que as pessoas se responsabilizem por suas escolhas e as consequências que delas resultam. Se você chama “profissionais da violência” para comandar o país onde você e sua família vivem, você deve saber o que terá.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

Papão se prepara para encarar o Boa e ganha reforços

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A 12 rodadas do final, a Série B reserva emoções fortes nas próximas semanas aos times que ambicionam o acesso à Série A e também aos que brigam para escapar ao rebaixamento. O Paissandu, com 29 pontos, ocupa a 16ª colocação e precisará acumular mais 16 pontos para permanecer na Segunda Divisão.

Terá  jogos em casa que permitirão obter esses pontos, desde que mantenha o nível de aplicação demonstrado contra o Avaí, na última sexta-feira, em partida que marcou a estreia do técnico João Brigatti. A próxima partida será contra o Boa Esporte, sábado à tarde, em Varginha (MG).

Em função do longo período de jejum na competição (sete rodadas), o Papão passou a ter a companhia de adversários que estavam muito distantes no final do primeiro turno da competição. O próprio Boa Esporte é um exemplo disso.

Apontado como praticamente rebaixado, amargando uma série de maus resultados, o time se reequilibrou e ensaia uma reação para deixar a zona da degola. Sob o comando do ex-remista Ney da Matta, o time mineiro tem hoje 24 pontos e ocupa a 19ª colocação.

Os mais próximos perseguidores do PSC na classificação são Brasil de Pelotas, com 28 pontos, e Juventude, também com 28.

Na expectativa do jogo em Varginha, a Comissão de Futebol do PSC confirmou a contratação do zagueiro Fábio Alemão e do atacante Romarinho, oriundo da base bicolor, ambos já registrados no BID. (Foto: Fernando Torres/Ascom)

Mano Brown relembra treta e homenageia Mr. Catra

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O rapper Mano Brown fez nesta segunda-feira (10), no Instagram, uma curiosa revelação sobre seu relacionamento com o funkeiro Mr. Catra, que morreu neste domingo, aos 49 anos, em decorrência de complicações de um câncer no estômago.  O vocalista do Racionais MCs lembrou da última vez que viu Mr. Catra, em Minas Gerais.

“Foi numa treta em Minas Gerais. “Foi numa treta em Minas. Eu contra uns seis e, em determinado momento, alguém encostou lado a lado na situação. Eu olhei e era o Negão. Foi tenso, mas saímos ilesos e com o moral muito alto”, escreveu Mano Brown.

“Faria o mesmo por você, pode pah, essa é apenas uma das várias histórias ‘periculozas’ (sic) que dividimos. Estivemos no olho do furacão! Só quem estava lá sabe! Deus te dê um bom lugar, Negão”, completou o rapper.

Vários cantores e artistas famosos usaram as redes sociais para prestar homenagem ao funkeiro. Uma das primeiras a se manifestar foi a funkeira Valesca Popozuda, que chorou bastante em vídeos publicados nos stories do Instagram. A cantora também compartilhou uma foto de Catra sorrindo. O enterro do cantor será nesta terça-feira, no Rio.  (Do UOL)

Para onde vai a velha direita golpista?

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Do blog de Carlos Henrique

Reinaldo Azevedo, um dos pais do ódio político, mudou a forma de fazer seus artigos porque sacou que ajudou a construir uma direita xucra enquanto a esquerda qualificava intelectualmente o seu debate. O resultado foi a ascensão de um monstro fascista de extrema direita e o crescimento arrebatador da esquerda, sobretudo do PT, acabando com o espaço do PSDB no debate nacional.

Em apenas uma hora de sabatina na Globonews, Haddad desmontou por completo todo o discurso de ódio que a Globo fabricou em 5 anos.

Com Haddad entrando na cena central e Lula impedido de ser andidato, o clima de ódio arrefecerá. Isso será mortal para o capetão.

Com a retirada imoral de Lula das eleições, acabou a Lava Jato e o judiciário ficará nu em praça pública. Ai começará seu julgamento pela história sem a proteção da mídia e num ambiente acadêmico onde o direito será o grande protagonista. Ou seja, serão massacrados dentro do próprio universo jurídico.

“Brasil não se enxerga como nação e o principal inimigo passou a ser o vizinho”

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Do Sul21

Para o economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pedro Fonseca, “o Brasil não se enxerga como nação e o principal inimigo do brasileiro passou a ser o pensar diferente”. Essa radicalização, disse, o faz lembrar “a Espanha antes da Guerra Civil, quando para um espanhol, o principal inimigo era seu vizinho. Essa fragmentação atrapalha a constituição de um pacto nacional”. A análise foi feita durante a palestra ‘Conjuntura e Projeto Econômico para o Brasil’ realizada dia 5 de setembro, na sede da ADUFRGS-Sindical em Porto Alegre.

Na opinião do professor, o Brasil vive uma crise de identidade e uma ausência de projeto de nação. “Somos diferentes, sim, mas temos um mesmo destino comum, só que não dialogamos”. Para ele, pensar esse projeto depende de consensos construídos dentro de um ambiente democrático, com estabilização econômica e a defesa do meio ambiente. “É inadmissível qualquer projeto sem essas três coisas”.

Impasse

Na palestra, Pedro Fonseca repassou a história econômica do país para contextualizar o cenário atual de “crise econômica, política e ética”. Para isso, o professor analisou as escolhas de cada um dos últimos governos (Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer). E afirmou que o Brasil vive um impasse com uma cisão elite/nação. “Chamo de radicalismo e irracionalismo a falta de conteúdo numa discussão no Brasil. Hoje ela é meramente emocional”. Segundo ele, as redes sociais refletem o quadro de extremismos. “O Brasil hoje é incapaz de qualquer diálogo para chegar em um consenso”.

A problema, afirmou, é que para estabelecer um projeto de nação, ele precisa ser de Estado, não só de um governo, e para isso, a sociedade deve se reconhecer nele. “Não acredito em projeto de cima para baixo. O marco civilizatório é esse, para pensar daqui para diante. Não é repetir o passado. Atualizar um projeto é pensar em novas bases”.

Oportunidade

Um dos caminhos possíveis, a reforma tributária, defendeu, é uma oportunidade de criar um novo pacto social. “Fala-se muito de corte de gastos, mas temos que ver a questão dos impostos. Nem tanto aumentar a carga tributária, mas melhor distribuí-la”.

Hoje, 51% da arrecadação brasileira vem da tributação indireta. “Aquele imposto que a pessoa paga sem sentir, como o imposto sobre o consumo”, explicou. O problema disso é que não interessa a faixa de renda, todos pagam de maneira igual sobre o consumo. “Por isso, nos países desenvolvidos a tributação direta é maior. Paga-se menos sobre o consumo e mais sobre a propriedade, por exemplo”. No Brasil, apenas 22% da arrecadação vem da tributação direta (18% do Imposto de Renda e 4% sobre a propriedade).

O professor apresentou um quadro mostrando a discrepância entre o imposto direto pago no Brasil e em outros países. No Brasil há quatro faixas de renda e uma alíquota máxima de 27,5%. Na China, por exemplo, que na opinião do professor conseguiu executar um projeto de desenvolvimento, há nove faixas e uma alíquota máxima de 45%. Na Holanda, são quatro faixas e alíquota máxima de 60%.

“Essas distorções foram se acumulando no Brasil. Costumo dizer para colegas que passam no concurso para professor que eles terão a mesma alíquota que o Neymar. Se você ganha 5 mil reais, 50 mil ou 200 mil, você está na mesma alíquota. Isso tem que ser discutido” O professor defende a progressividade do imposto sobre a renda. “Não dá pra tratar da mesma forma uma pessoa que ganha 10 mil e uma pessoa que ganha 100 mil. Imposto não é só uma questão de arrecadação, é uma questão de justiça social, de vivência em sociedade. É uma questão de pacto social”.

Outro ponto é a isenção de imposto para lucros e dividendos. “O Brasil e a Estônia são os únicos países do mundo que não cobram imposto de renda dos lucros e dividendos de acionistas. Isso significa que o capital financeiro pode aplicar dinheiro com pouquíssimo imposto”. Nessa lógica, os brasileiros super-ricos pagam menos imposto, proporcionalmente a sua renda, do que um cidadão assalariado.

Segundo o professor, o Brasil já teve alíquotas maiores, chegando a 60% no governo Jango. Foi o presidente José Sarney que reduziu para 25% a alíquota máxima e isentou os ricos. “É uma social democracia ao contrário. Quem acaba pagando é a classe média”. O resultado é uma concentração de renda tal que 10% dos mais ricos detém 50% da renda.  “Apenas dois países da América Latina têm distribuição de renda pior do que o Brasil: Honduras e Haiti”.

O batizado

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Por Fernando Brito, no Tijolaço

Estão começando os movimentos finais da corretíssima estratégia política de Lula, algo milagrosa se considerarmos que está sendo comandada por um homem recolhido a uma cela, com acesso limitado a informações e diálogos e quase que completamente impedido de se manifestar por sua própria voz.

A recusa da Ministra Rosa Weber de que fosse concedido o prazo do dia 17 (que está na lei, esta que parece pouco importar) para a substituição da candidatura da coligação do PT, esta madrugada, dá o mote para que a substituição formal da cabeça de chapa, com a designação de Fernando Haddad como candidato à presidência seja feita com o significado que tem: a saída heroica para enfrentar a conspiração político-econômico-midiática e judicial para calar o povo brasileiro pela exclusão de Lula nas urnas.

Haverá ainda o recurso ao STF, sobre o qual não haverá quase esperanças, mas ainda reforçará o absurdo da cassação do líder, disparado, das preferências do eleitorado, que só terá o condão de reafirmar a perseguição e o martírio a que o submetem.

A fonte da legitimidade da candidatura do ex-prefeito de São Paulo fica assinalada: é representar Lula enquanto o impedem de vir em socorro do povo brasileiro.

Um povo arruinado, triste, embrutecido pela ação de elites que, incapazes de se sustentarem pelo voto ou pelo sucesso de suas fracassadas políticas atirou-se no projeto de manter o poder pela força e pelo arbítrio.

Se ainda fosse preciso argumentar sobre a correção do caminho político apontado por Lula, eu me serviria do que diz Ignácio Godinho Delgado, da Universidade Federal de Juiz de fora e professor visitante da  London School of Economics and Political Science:

Se Lula tivesse saído de cena desde o início, com o PT indicando outro candidato ou apoiando Ciro, teria se convertido num banido esquecido em Curitiba, com pouca capacidade de influenciar no processo eleitoral. Ao esticar a corda até o limite, cresceu e, junto, o potencial que tem de transferir votos.
Esticando a corda, Lula tornou ainda mais evidente a injustiça cometida contra ele, o que colaborou para consolidar a intenção de voto em seu nome (e a capacidade de transferir votos para outro candidato), além de evitar um recuo e uma rendição que favoreceriam as forças golpistas e o desmoralizaria junto aos milhões de brasileiros que seguem sua liderança.

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A candidatura Haddad, até agora virtual, desce ao mundo real e passa, de verdade, a ser, de fato, a candidatura de Lula, na forma em que o arbítrio, pela via do Judiciário, não pode impedir.

Ou melhor, não parece poder impedir, pois já não há limites para o papel de censores que os juízes assumiram, ao agirem para tutelar o eleitorado.

Tampouco a mídia terá a liberdade de escondê-lo: a Globo, ainda que minimamente, terá de cobrir sua movimentação, ele participará dos debates televisivos e terá a autonomia para falar de Lula – só concedida, até agora, a seus adversários, para criticá-lo – na propaganda eleitoral.

Os que se apavoram com um suposto ritmo lento de transferência dos votos vão se surpreender com a velocidade com que isso se dará, ainda que as pesquisas, provavelmente, não o registrem de imediato.

Hoje e amanhã são os dias do batizado, para lembrar a frase da Inconfidência Mineira. Desta vez, porém, com um Tiradentes que não irá mansamente ao patíbulo.