Dia: 9 de setembro de 2018
A frase do dia
“Ler o que uma Miriam Leitão ou um Carlos Sardenberg escrevem é como voltar ao jardim da infância da progressão textual (com todo o respeito ao jardim da infância).”
Gustavo Conde
O estranho caso da faca que anda
Veja aqui o vídeo censurado por mostrar Lula
Justiça Eleitoral trata Lula como um morto-vivo.
Nota do PT repudia “tutela militar sobre a democracia”
A Comissão Executiva Nacional do PT expediu nota neste domingo rechaçando as ameaças proferidas pelo general-chefe do Exército em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”.
O Partido dos Trabalhadores convoca as forças democráticas do país a repudiar declarações de cunho autoritário e inconstitucional do comandante do Exército divulgadas pela imprensa neste domingo.
A entrevista do general Villas Boas é o mais grave episódio de insubordinação de uma comandante das Forças Armadas ao papel que lhes foi delimitado, pela vontade soberana do povo, na Constituição democrática de 1988.
É uma manifestação de caráter político, de quem pretende tutelar as instituições republicanas. No caso específico, o Poder Judiciário, que ainda examina recursos processuais legítimos em relação ao ex-presidente Lula.
É muito grave que um comandante com alta responsabilidade se arrogue a interferir diretamente no processo eleitoral, algo que as Forças Armadas não faziam desde os sombrios tempos da ditadura.
Depois de dizer quem pode ou não pode ser candidato, de interpretar arbitrariamente a lei e a Constituição o que mais vão querer? Decidir se o eleito toma posse? Indicar o futuro presidente à revelia do povo? Mudar as leis para que o eleitor não possa decidir livremente? O Brasil já passou por isso e não quer voltar a este passado sombrio.
A Constituição diz claramente que as Forças Armadas só podem atuar por determinação expressa de um dos poderes da República, legitimados pelo estado de direito democrático, e nunca a sua revelia ou, supostamente, para corrigi-los.
A sociedade brasileira lutou tenazmente para reconstruir a democracia no país, com o sacrifício de muitas vidas, após o golpe civil e militar de 1964, que acabou conduzindo o país a um regime ditatorial nefasto para o povo e desmoralizante para as Forças Armadas.
A democracia e o estado de direito não admitem tutela alguma, pois se sustentam na soberania do voto popular.
Um governo legítimo, comprometido com o futuro do país, já teria chamado o general Villas Boas a retratar suas declarações de cunho autoritário e tomado as medidas necessárias para afirmar o poder civil e republicano.
Como se trata de um governo nascido de um golpe, decadente e repudiado pela quase totalidade da população, não lhe resta qualquer autoridade para impor a ordem constitucional aos comandos militares.
Compete ao povo e aos democratas do país denunciar e reagir diante de um episódio que só faz agravar a grave crise social, política e econômica do país.
O Brasil precisa urgentemente de mais democracia, não menos, para retomar o caminho da paz e do desenvolvimento com inclusão social.
Cuiabá de Eduardo Ramos atropela Botafogo-SP e vai decidir a Série C
Na partida de volta das semifinais do Brasileiro Série C, o Botafogo-SP recebeu o Cuiabá, neste sábado, no estádio Santa Cruz, e perdeu por 3 a 0. Como a partida de ida havia sido 0 a 0, o Dourado avançou à final da competição e, agora, aguarda o vencedor do jogo entre Bragantino e Operário-PR para saber seu oponente na grande decisão. Está é a primeira vez que a equipe mato-grossense chega à final de uma competição nacional.
Em partida impecável, os visitantes dominaram todas as ações e venceram com muita facilidade. Os comandados de Léo Condé sofreram um gol no início do jogo e não conseguiram reagir. O Dourado se impôs e marcou mais duas vezes para conseguir o elástico placar de 3 a 0.
A equipe visitante abriu o placar aos 3 minutos do primeiro tempo, com Jenison. Após jogada em velocidade pelo lado esquerdo, Danilo cruzou rasteiro e o atacante empurrou para o fundo das redes.
O Dourado ampliou a vantagem aos 33 minutos da etapa inicial, com Danilo. O lateral-esquerdo recebeu ótimo passe de Hiltinho, invadiu a grande área e chutou forte. O goleiro João Lucas chegou a encostar na bola, mas não conseguiu evitar o segundo gol do Cuiabá.
O terceiro gol foi marcado aos 29 minutos da segunda etapa, com Jenison. O atacante recebeu bom passe de Doda e chutou com força, para ampliar a vantagem do time comandado por Itamar Schulle.
Agora, o Cuiabá aguarda o vencedor da partida entre Bragantino e Operário-PR, que duelam neste domingo, às 15h30 (de Brasília), no estádio Germano Kruger. (Da ESPN)
Torcida inglesa não perdoa e vaia Ramos em jogo da Liga das Nações
Além da virada da Espanha em cima da Inglaterra na tarde do último sábado pela Liga das Nações, um dos fatos que chamou atenção veio de fora do campo. No Wembley, em Londres, a maioria dos mais de 81 mil torcedores presentes vaiou – e muito – quando o zagueiro Sergio Ramos tocava a bola.
“Gostaria de ser recebido de outra forma. Lembram de um lance da final (da Liga dos Campeões), mas não lembram das ameaças de morte que minha família e meus filhos receberam”, disse na saída de campo.
O episódio citado por Ramos foi aquele em que teve uma dividida com o egípcio Mohamed Salah, que atua no Liverpool, na final da Champions League da última temporada. Na ocasião, o atacante desfalcou a equipe, que acabou perdendo o título, e quase ficou fora da Copa do Mundo. Como muitos torcedores dos Reds estavam no estádio no sábado, a cada vez que o espanhol pegava na bola, o que se ouvia eram muitas vaias.
Em relação à partida, foi a estreia das equipes na Liga das Nações, nova competição da Uefa. Elas fazem parte da Liga A, algo como a “primeira divisão”, e localizam-se no Grupo 4 ao lado da Croácia. Somente o líder da chave passa para as semifinais, algo que ficou mais complicado para os ingleses após a derrota.
Para o lado da Espanha, no entanto, só alegria. Além da vitória contundente, foi a estreia do técnico Luis Enrique, que fez sua carreira no Barcelona. Em relação a ele, Sergio Ramos garantiu que sua experiência poderá ajudar muito a seleção.
“Começamos uma nova era com um treinador que tem muita experiência. Fracasso é quando a equipe não deixa a alma (em campo), mas hoje demos tudo. Estar em um bom nível é o mínimo que se exige no Real Madrid e na seleção espanhola”, finalizou.
Sobre grande arte
Van Gogh, Arles 1888.
Cenas inesquecíveis
Álibi para o autoritarismo e o insulto
Por Ricardo Della Coletta
Há expressões que aparecem de forma tão frequente no nosso dia a dia que as tratamos como se fossem verdades autoevidentes, sem nunca nos perguntarmos por que elas assumiram determinados significados nem desde quando são utilizadas. Moira Weigel (Nova York, 1984), pesquisadora associada da Universidade de Harvard, debruçou-se sobre duas palavras que, embora recorrentes há anos no léxico norte-americano, ganharam especial relevância desde a meteórica ascensão de Donald Trump à Casa Branca: politicamente correto. Afinal, como é possível que uma figura pública se refira a mexicanos como “estupradores” e, diante da indignação coletiva, se esquive argumentando que os seus adversários são politicamente corretos demais? Ou, num contexto mais próximo ao brasileiro, um parlamentar que, depois de afirmar que não estupraria uma deputada “porque ela não merece”, se defenda da reação acusando seus opositores de o perseguirem numa cruzada em nome do politicamente correto?
Em Um álibi para o autoritarismo, artigo publicado na última edição da Serrote, a revista de ensaios do Instituto Moreira Salles (IMS), a pesquisadora de Harvard detalha como a linguagem é parte fundamental da conexão que Trump estabeleceu com seus seguidores. O mandatário americano, diz Weigel, recebe apoios justamente por dizer coisas “ultrajantes”, consideradas inapropriadas pelas convenções que estabelecem os limites do debate público. Cria empatia com parte expressiva da população porque “diz o que pensa” e por denunciar uma suposta conspiração de liberais com a imprensa, que teria o escuso objetivo de controlar inclusive as palavras que as pessoas comuns usam.
Não escapa a um brasileiro que leia o texto de Weigel a memória das explosivas declarações de Jair Bolsonaro, candidato à presidência da República, que, mesmo após sofrer um ataque a faca, não se furta de seguir beligerante e sair em fotos simulando ter uma arma nas mãos. Na verdade, mesmo sem encontrar uma única citação ao capitão reformado do Exército no ensaio, cuja versão original foi publicada em 2016 no jornal britânico The Guardian, a associação é quase automática.
— “Sou preconceituoso, com muito orgulho.” (Bolsonaro em entrevista à revista Época, em 2011)
— “O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele.” (Bolsonaro em debate na TV Câmara, em 2010)
— “Não te estupro porque você não merece.” (Bolsonaro para a deputada Maria do Rosário, em 2014)
A partir da gênese do termo, e de como ele foi apropriado por movimentos da extrema direita norte americana nas últimas décadas, Moira Weigel (foto abaixo) revela que o politicamente correto (ou, para ser mais exato, a crítica aos que são politicamente corretos demais) pode ser usado por uma liderança para se justificar por declarações tão ofensivas como as listadas acima. O poder vai mais além, alega a pesquisadora: ser antipoliticamente correto transformou-se numa arma eficaz para um político conectar-se com o seu eleitorado. De repente, ele passa a ser alguém que “não tem medo de dizer a verdade”, mesmo que essa “verdade” seja um ataque aos direitos de mulheres ou homossexuais, para citar dois exemplos.
“O discurso antipoliticamente correto ecoa nos Estados Unidos entre um público que havia sido informado durante décadas de que era inaceitável ser abertamente racista ou misógino. Então, os ataques ao politicamente correto tornaram-se uma forma de expressar antigas formas de sexismo e de racismo, sem que as pessoas sintam vergonha por dizer essas coisas”, diz a pesquisadora em entrevista ao EL PAÍS.
Pergunta. Você argumenta que o termo politicamente correto é relativamente recente. Até quando é possível traças as suas origens?
Resposta. O que eu percebi rapidamente é que, essencialmente, a história do politicamente correto é a história do antipoliticamente correto. O termo aparece somente por pessoas atacando quem elas consideram politicamente correto. Nos Estados Unidos a história da expressão é um pouco misteriosa. Ela aparece em jornais socialistas de tempos em tempos na década de 1930 e só entra com maior força no léxico norte-americano nas décadas de 1960 e 1970. Era usado como uma espécie de brincadeira pelos membros do New Left [movimento de esquerda daquele período nos EUA], quase como uma piada interna, para tirar sarro daqueles que eram tidos como virtuosos ou dogmáticos demais. No início dos anos 90, nós vemos de repente um número grande de artigos de jornais e revistas sobre universidades, afirmando que havia restrições no que os estudantes podiam dizer, algo mais próximo ao sentido que damos ao politicamente correto atualmente. Em 1990, um repórter chamado Richard Bernstein, do The New York Times, escreve um artigo vai na linha: “Os estudantes das universidades estão sendo politicamente corretos demais”. O ponto é que ninguém falava muito no termo até os movimentos de direita começarem a atacar o politicamente correto. Então, eu acho que é uma forma de dar um nome a uma série de mudanças culturais, demográficas e históricas com as quais a direita não está contente
P. Você diz no seu artigo que houve um momento em que os movimentos de direita se apropriaram da expressão. Quando e como isso aconteceu?
R. O termo politicamente correto aparece apenas ocasionalmente na esquerda. É a direta que o eleva a uma coisa massiva. Nos anos 60 e 70, começa um movimento dentro do que era a extrema direita americana para deslegitimar determinadas instituições públicas que produziam conhecimento e para financiar e criar toda uma gama de instituições e think tanks alternativos. E isso começa a se tornar mais mainstream no partido Republicano nas décadas de 1980 e 1990. Eu acho que a narrativa contra o politicamente correto tem um papel muito importante na deslegitimação de universidades e da imprensa tradicional nos Estados Unidos.
P. E, por tabela, deslegitimar as mudanças sociais e demográficas que estavam ocorrendo nas universidades naquela época?
R. Sim, certamente. Havia mudanças sociais ocorrendo nas universidades. As mulheres estavam entrando; havia mais negros nas universidades. Em 1965, há uma reforma migratória que traz mais pessoas do leste asiático para os Estados Unidos e, no início dos anos 1990, chegam cada vez mais imigrantes latino-americanos. Em certo modo, a narrativa contra o politicamente correto é uma reação a uma série de mudanças sociais e demográficas que estão acontecendo. Mas essa narrativa passa uma ideia de que existe um pequeno grupo, formado por professores e pela própria imprensa, que está forçando essas mudanças de cima para baixo, às custas das “pessoas comuns”. Num momento em que muitos norte-americanos brancos estão perdendo seus empregos em razão da desindustrialização, a história do politicamente correto — sobre um bando de intelectuais judeus ou não brancos tomando controle das universidades e da imprensa e fazendo com que as “pessoas comuns” se sintam desempoderadas ou mesmo envergonhadas — ressoa. É uma narrativa que a direita usa para manter o poder, para a classe trabalhadora embarcar numa aliança com a agenda corporativa do big business em meio às mudanças demográficas e culturais.
P. Existe a impressão de que criticar o politicamente correto é um ato apolítico. Por que você discorda disso?
R. O perigoso nesses ataques ao politicamente correto, o que me parece francamente protoautoritário, é que trata-se de uma manobra retórica que estabelece uma comunidade política baseada na exclusão, o que torna o debate democrático impossível. O termo se confunde com “senso comum”. Quando alguém diz: “todos nós sabemos que é verdade que as mulheres são loucas, que os mexicanos são violadores ou que os muçulmanos são terroristas”, estabelece-se um corpo homogêneo — esse “nós” — e os demais grupos são excluídos. E isso não está aberto à contestação ou ao debate, porque se transforma em algo que “todos sabemos”. Há outra questão que é muito presente na extrema direta norte-americana. Quando alguém fala: “vamos fazer uma piada sobre estupro ou sobre linchamento” e enfrenta reações de mulheres ou de negros, a resposta é: “era só uma brincadeira, por que tanta confusão apenas por uma brincadeira?”. Então, o que a extrema direita norte-americana que o Trump uniu faz é estabelecer-se a si mesma como a autoridade sobre o discurso, sobre o que é uma brincadeira e sobre o que é sério.
P. Você considera que essa confusão entre a oposição ao politicamente correto e o senso comum é o que permite o uso da expressão por líderes autoritários?
R. Certamente. O mais interessante é que, diante de uma crise global do capitalismo, nós estamos vendo isso por toda a parte. Nós vemos isso com o [Rodrigo] Duterte nas Filipinas, com o [Recep] Erdoğan na Turquia; e com a extrema-direita na França e na Alemanha. Nós estamos vendo versões desses impulsos por toda a parte. E é interessante que eles são quase como “ditadores do Twitter”. São pessoas que vão às redes sociais para contornar as universidades e a mídia tradicional, que antes eram as instituições com o poder de decidir o que era permitido dizer e o que não era permitido.
Eu acho que é um gesto proto-autoritário porque é desenhado para criar comunidades homogêneas que podem concordar com base no senso comum, o que impossibilita o debate. Essa retórica é um gesto autoritário porque ela estabelece quem tem o poder de decidir o que é permitido dizer e o que não é. De certa forma, o que uma universidade deveria fazer ou mesmo o que uma comunidade deveria ser deixa de estar aberto ao debate.
P. No Brasil, Jair Bolsonaro, um capitão do Exército reformado, critica muito o politicamente correto para justificar sua linguagem ofensiva. Você considera que é uma retórica similar ao discurso do Trump que você estudou?
R. Sim, soa realmente similar.
P. Por que você argumenta que a dinâmica do politicamente correto tem a ver com o sentimento de vergonha?
R. Em termos de política econômica e de política internacional, nos Estados Unidos, os dois partidos [Democrata e Republicano] estiveram muito próximos um do outro, sem muitas diferenças nas suas políticas. E em meio à crise global do capitalismo que estamos vivendo, nós estamos vendo o ressurgimento desses movimentos de extrema direita e o aumento da sua popularidade porque eles falam para um público que sente ter sido excluído da história do progresso que deveria ter começado depois do fim da Guerra Fria. É verdade que os partidos políticos tradicionais não ofereceram muita coisa para as pessoas. Então, muito da dinâmica social ao redor do politicamente correto tem a ver com vergonha. Se você olha para os Estados Unidos, um país extremamente segregado racialmente, há muitas pessoas brancas, e que estão com sérias dificuldades financeiras, que ligam a tevê e veem uma pessoa rica dizendo que o jeito que elas falam é racista. E que elas deveriam aprender a falar como alguém que foi à universidade. Isso cria um sentido real de exclusão política e econômica, que se identifica com a narrativa do antipoliticamente correto. Então eu acho que a linguagem do Trump faz com que essas pessoas sintam menos vergonha do que elas dizem, porque ele próprio não tem nenhum pudor quando fala.
P. Você acredita que o antipoliticamente correto é uma forma que o Trump encontrou para estabelecer uma identificação entre ele e os eleitores?
R. Cria-se uma identificação. Veja o Trump, ele é um showman, sequer é um empresário de sucesso. Ele é um homem da área de entretenimento que consegue fazer com que as pessoas se identifiquem com ele. Nos Estados Unidos, eu acho que muitas pessoas percebem que foram prejudicadas financeiramente pelos dois partidos, que o processo político é muito antidemocrático e não responde muito bem ao que eles querem. Diante disso, a história do politicamente correto permite que alguém diga: “Você sabe de quem é a culpa? É do politicamente correto, dos afro-americanos, dos judeus, das outras pessoas que vieram de fora e fizeram isso com você”.
P. No seu artigo, você argumenta que, nos Estados Unidos, a crítica ao politicamente correto se tornou uma forma de mascarar o racismo e o sexismo nas pessoas.
R. Nos Estados Unidos, desde os anos 60, é politicamente inaceitável ser abertamente racista. Existe um estrategista do partido Republicano que disse numa entrevista que desde 1968 se tornou inaceitável para um político usar a palavra nigger [forma ofensiva de se referir à população afro-americana]. O discurso antipoliticamente correto ecoa nos Estados Unidos entre um público que havia sido informado durante décadas de que era inaceitável ser abertamente racista ou misógino. Então, os ataques ao politicamente correto tornaram-se uma forma de expressar antigas formas de sexismo e de racismo sem que as pessoas sintam vergonha por dizer essas coisas. E eu acho que é uma estratégia muito eficiente. Por exemplo, se uma pessoa afirma: “Eu não sou politicamente correto, então vou dizer que todas as mulheres são menos inteligentes do que os homens”, qualquer pessoa que venha a corrigi-lo parece alguém que está tentando patrulhá-lo, ou que simplesmente está mentindo. Então, eu acho que é uma estratégia muito eficiente porque permite que as pessoas expressem esses preconceitos sem precisarem sentir vergonha de fazê-lo, além de ser uma forma de se proteger, de contra-atacar rapidamente qualquer um que venha a contestá-las.
P. Você considera que existe um sentimento antielitista na campanha contra o politicamente correto?
R. É interessante. Pense no Trump, que consegue se colocar na posição de “homem do povo”. É algo que ele só consegue fazer com a ajuda do discurso do politicamente correto. Esse discurso ajuda a formar uma aliança entre as pessoas comuns e super-ricos como o Trump. É incrível imaginar que um trabalhador normal em Nova York, por exemplo, sinta que tem mais em comum com o Trump do que com um professor universitário que ganha mais ou menos o que ele próprio. Esse é o grande truque que o discurso antipoliticamente correto torna possível: fazer com que as pessoas pobres e brancas nos Estados Unidos acreditem que elas têm mais em comum com os brancos super-ricos do que com as demais pessoas, de outras origens, que vivem em situações econômicas similares às delas.
P. Você considera que a retórica contra o politicamente correto é usado apenas por Trump ou se tornou um fenômeno global, do qual outros líderes também se aproveitam?
R. Eu acho que é um fenômeno interconectado. A dinâmica da Internet, a forma como essa mensagem pode ser reapropriada e adaptada a diferentes contextos locais, torna isso muito global. Eu acho que há conexões literais entre entre as pessoas ao redor do mundo que são as estrelas desse movimento da extrema direita, como o Steve Bannon [ex-extrategista de Trump]. A crise do capitalismo à qual elas estão respondendo é global, então nós veremos versões desse discurso em todos os lugares. As mídias sociais que elas usam têm alcance global, basta ver como elas são usadas nas Filipinas ou em Myanmar. Então, como o politicamente correto é um termo muito vago, ele se adapta a situações nacionais muito específicas. Ele pode ser utilizado para falar dos direitos das mulheres; nos Estados Unidos sobre imigrantes mexicanos ou sobre a pobreza da comunidade afro-americana; e na Alemanha tem sido usado para falar sobre a imigração da Síria. O termo politicamente correto é muito vago e os líderes políticos de diferentes países podem usá-lo para atacar o seu inimigo da vez.
Direto do Twitter
Economista diz que EUA apoiaram golpe contra Dilma e em outros países da AL
Em entrevista concedida ao jornalista Brian Mier, o economista norte-americano, colunista e co-diretor do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas em Washington, Mark Weisbrot, diz que a “maré cor-de-rosa” vivenciada pela América Latina com a chegada da esquerda ao poder em diversos países da região resultou em avanços significativos à população, inclusive com a redução da pobreza, que caiu de 44% para 28% entre 2003 e 2013, por exemplo. Segundo ele, o fim da “maré cor-de-rosa” veio por meio da adoção de algumas políticas macroeconômicas errôneas e também pelo apoio dos Estados Unidos a diversos golpes em toda a América latina, incluindo o ocorrido no Brasil, que resultou no afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff em 2016.
“No Brasil, os Estados Unidos desempenharam um papel mostrando sua aprovação ao impeachment de Dilma. Acho que isso foi importante, pois falou para as pessoas no Brasil, especialmente às pessoas que organizaram o golpe, que elas tinham o apoio do Estados Unidos”, diz Weisbrot na entrevista.
“Isso foi mostrado no nível mais importante no dia seguinte ao impeachment, enquanto o chefe do Comitê de Relações Exteriores do Senado, que era líder do movimento do impeachment no Senado (senador e atual chanceler Aloysio Nunes-PSDB) veio para os Estados Unidos e falou com Tom Shannon, que naquele momento era o terceiro mais importante membro do Departamento de Estado dos Estados Unidos”, destaca. Eles se encontraram e ele mostrou aprovação ao golpe naquele momento”, completou Weisbrot.
Ele também ressalta que em agosto, o então secretário de Estado dos EUA, John Kerry, veio ao Brasil onde, ao lado de José Serra, que ocupava interinamente o cargo de ministro das Relações Exteriores, uma vez que Dilma ainda não tinha sido oficialmente deposta do cargo em função da votação do Senado ainda não ter acontecido, afirmou como as “relações seriam ótimas para o Brasil dali para a frente”. “Isso também deixou claro para qualquer senador que tivesse dúvidas que os Estados Unidos iriam apoiar fortemente a remoção da Dilma” emendou.
Weisbrot também destaca que o Departamento de Justiça norte-americano participou ativamente ” de toda a investigação da Lava Jato e de outras investigações sobre corrupção e a gente nem sabe o quanto eles fizeram ou o quanto se envolveram na armação do juiz Sergio Moro na prisão injusta de Lula”. (Do Brasil247)
Assista a íntegra da entrevista na TV 24