Globonews e a miséria do jornalismo

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Por Luis Nassif, no GGN

A entrevista de Fernando Haddad à bancada da Globonews é reveladora de um dos vícios mais entranhados no jornalismo brasileiro: a incapacidade dos entrevistadores de analisar realidades complexas.

Eles fazem um tipo de pergunta padrão e esperam uma resposta padrão para a qual já tem engatilhada uma tréplica padrão. Quando o entrevistado sofistica um pouco a análise e inclui outros elementos na resposta, provoca um curto-circuito nas cabeças dos entrevistadores. E eles não sossegam enquanto não receber a resposta padrão, para poderem rebater com a tréplica padrão.

Foram inúmeros os casos.

O mais insistente foi a história da autocrítica dos erros econômicos de Dilma Rousseff. Haddad admitiu os erros, enumerou-os e procurou situá-los no tempo. Analisou o período PT como um todo, para depois chegar aos erros. Ou seja, admitiu os erros. Mas alegou que só os erros, por si, não explicariam a queda do PIB, que houve um componente político relevante, no boicote conduzido por Aécio Neves e Eduardo Cunha. Ora, seria o gancho para uma belíssima discussão, muito mais rica, muito mais complexa. Mas os entrevistados não aceitavam.

– Quer dizer que o PT não admite os erros? A culpa sempre é dos outros? Como vamos acreditar que agora será diferente?

E não adiantava Haddad explicar os acertos dos dois governos Lula e dos dois primeiros anos do governo Dilma, e os erros posteriores de Dilma, para demonstrar que o erro não é componente intrínseco da política econômica do partido.

A mesma coisa quando confrontado com as propostas da campanha de Lula – coordenadas por ele -, com os entrevistadores pretendendo enquadrá-las na tal matriz econômica do último período Dilma. Ou quando tentaram levantar o fantasma do tal mercado contra as ideias de Haddad, que rebateu com uma reportagem da Reuters, publicada no The New York Times, com CEOs de grandes empresas elogiando suas propostas.

Haddad levantou, em sua defesa, o tratamento das contas da prefeitura de São Paulo, que, no seu mandato, obteve o grau de investimento.

– Estamos discutindo política econômica, rebateu o entrevistador de uma resposta só.

Haddad teve que explicar que grau de investimento e contas fiscais são política econômica. E elas falam mais por ele do que qualquer carta aos brasileiros.

Todos os bordões foram levantados, inclusive a criminalização da política de campeões nacionais, ou os aportes de recursos ao BNDES. Em vez da discussão conceitual sobre a oportunidade ou não de se ter campeões nacionais, em vez de levar em conta a resposta de Haddad, de que os investimentos em campeões nacionais ajudaram a gerar empregos e melhorar o perfil das exportações brasileiras, limitavam-se ao branco-e-preto que difundiram nos últimos anos: toda política industrial é criminosa, e tudo o que o BNDES faz é criminoso.

Em nenhum momento questionaram as afirmações de Haddad de que a matriz econômica, defendida pela Globonews e implementada pela equipe de Temer, não entregou o prometido. Quando chegava nesse ponto, mudava-se o tema.

Nem rebaterem sua afirmação de que os principais delatores da Lava Jato estão soltos e gozando a vida em liberdade. Limitavam-se aos grandes agregados – Lula foi condenado por um juiz de 1ª instância, um colegiado em 2ª instância e prisão mantida por um colegiado do STF, que não analisou o mérito das acusações.

Fosse menos diplomático, Haddad poderia lembrar que todos eles foram estimulados pelo clamor das ruas, do qual o principal combustível é a cobertura enviesada da Globo.

“Abre as asas sobre mim, oh senhora liberdade”

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Ele talvez não fosse tão conhecido, mas é improvável que algum brasileiro nascido nos últimos 50 ou 60 anos não tenha ouvido o seu refrão: “Abre as asas sobre mim/Oh senhora liberdade”. Wilson Moreira, de 81 anos, o autor deste e inúmeros outros sambas gravados por um sem fim de cantores, nos deixou na noite desta quinta-feira (6), após uma luta contra um câncer.

Moreira em 12 de dezembro de 1936 e criado no bairro de Realengo, herdou de família a cultura musical. Seus pais e avós adoravam se divertir ao som de ritmos africanos como o jongo, caxambu e o calango.

Perdeu o pai aos 9 anos, foi vendedor de amendoim, cocada, entregador de marmita, engraxate, guia de cego, guarda de presídio e sambista em tempo integral. Foi um dos primeiros integrantes da ala dos compositores e da bateria da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

Seu primeiro samba-enredo, “Bahia”, parceria com Ivan Pereira, foi um sucesso. Outro famoso, “As Minas Gerais”, foi elogiado pelo mestre Ary Barroso. Transferiu-se para a Portela em 68, onde encontraria grandes parceiros e amigos como Paulinho da Viola, Candeia, Natal e muitos outros, fazendo da escola sua bandeira.

Integrou conjuntos como Cinco Só, Turma do Ganzá e Partido em Cinco. Entre seus maiores sucessos estão “Mel e Mamão com Açúcar” e “Senhora Liberdade”, ambos de parceria com o sambista Nei Lopes.

A parceria com Nei Lopes rendeu dois discos antológico e vários sucessos, como “Mel e Mamão com Açúcar” e “Senhora Liberdade”. O primeiro dos discos foi “A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes”, lançado em 80, contém clássicos como “Goiabada Cascão” e “Gostoso Veneno”. O segundo, “O Partido (Muito) Alto de Wilson Moreira e Nei Lopes”, de 1985, traz “Fidelidade Partidária” e “Eu Já Pedi”, entre muitos outros.

Em 1986 gravou o primeiro álbum individual, “Peso na Balança”. Wilson fez dois discos especialmente para o mercado japonês pela gravadora japonesa Bomba Records: “Peso na Balança” e “Okolofé”. Estes discos contavam com grandes instrumentistas brasileiros.

Teve suas músicas gravadas por Clara Nunes, Elizete Cardoso, Candeia, Alcione, Beth Carvalho, Jair Rodrigues, Emílio Santiago, Martinho da Vila, D. Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Zélia Duncan, Djavan, Sandra de Sá, Dudu Nobre, Leny Andrade, Elza Soares, Moacir Luz, Jorge Aragão, entre outros.

Assista aqui a comovente apresentação de Wilson Moreira durante gravação de DVD ao vivo do Grupo Casuarina, em 2016:

(Transcrito da Fórum)

Da ilusão de coincidências

Por Daniel Malcher

Quem lembra do “sequestro” de Abílio Diniz com um dos “sequestradores” com a camisa do PT em 1989 e da notória bolinha de papel-bigorna na cabeça de Serra em 2010???
O efeito é o mesmo: causar comoção e filiação à causa por consternação seguindo a lógica maniqueísta do bem contra o mal. Já “descobriram” que o cara autor do esfaqueamento em Bolsonaro supostamente foi filiado ao PSOL.
O discurso de “ordem”, “paz” (armada) e autoritarismo fascistóide pode capitalizar pelo efeito causado pelo feito (o atentado). Preparemos-nos para a escalada de violência agora. O pavio foi aceso.
Detalhe: no dia em que a Globo divulga uma pesquisa em que Bolsonaro lidera, mas apresenta altíssimo nível de rejeição no segundo turno na simulação com praticamente todos os candidatos fortes, incluindo Haddad. Na semana em que o “mercado” sinalizou que poderia fechar apoio ao fascista ante a anemia de Alckmin, Meirelles e Amoedo e na mesma semana em que os tribunais deram de ombros com a representação do PT contra o discurso do “fuzilamento de petistas”, uma clara incitação à violência, feito pelo neo-nazi no Acre.
E segundo o portal Infomoney, após o feito, índices da bolsa de valores subiram com a possibilidade de Bolsonaro capitalizar votos com o ocorrido.
Será coincidência? Eu fico com a ilusão de coincidência. É só seguir o fio de Ariadne.

A força

Por Edyr Augusto Proença

Sumiram os criadores. O futebol força está de volta. Inter, São Paulo e Palmeiras são os vencedores. Jogam na força e no erro dos adversários. O adversário erra; eles, não. Meu Flamengo dá raiva. Apostar em Pará, Rodolfo, Rômulo, Marlos Moreno e Matheus é insuportável.

Até aquele Lincoln já está mascarado e não chega na frente em nenhuma dividida. O erro de passe chega a ser terrível. Em um momento do jogo o Inter havia errado 15 vezes e o Flamengo, 35!

O Cruzeiro, quando não está preso pelo técnico, tem alguma técnica, mas teve dificuldade em ganhar do Botafogo, este, infelizmente, em momento terrível.

É crucial para a democracia que o ataque a Bolsonaro não seja tratado como Bolsonaro o faria

Por Kiko Nogueira, no DCM

É crucial para a democracia que o ataque a Jair Bolsonaro não seja tratado como Jair Bolsonaro o trataria.

O oportunismo abjeto da direita deu as caras rapidamente. A ideia da turma é reverter a comoção em votos, o que pode funcionar, de fato.

Em nota à imprensa, o general Mourão, vice na chapa de JB, culpou um “militante do Partido dos Trabalhadores”.

Adélio Bispo de Oliveira foi, na verdade, filiado ao PSOL, do qual já se desligou. Trata-se de um caso psiquiátrico.

Ele mesmo afirmou que agiu a “mando de Deus” em seu boletim de ocorrência.

“O dado que se tem é que ele fazia parte da campanha da Dilma em Juiz de Fora”, falou Mourão, sem citar qualquer evidência.

Depois, a uma revista, foi mais taxativo. “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”, afirmou. “Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”. O que diabos isso significa?

A martirização de Bolsonaro vai caminhando.

A Globo cobriu diligentemente o episódio, com direito a lamentos de jornalistas sobre o “clima de ódio” da campanha, como se não tivessem nada a ver com isso.

Em março, quando a caravana de Lula no Sul foi atingida por ovadas, pedradas e, finalmente, baleada, a reação foi de desdém, majoritariamente, com uma ou outra condenação clara por parte de um ou outro colunista. Nunca se encontraram os autores.

Bolsonaro deu sua colaboração à sua maneira.

“Está na cara que alguém deles deu os tiros. A perícia deverá ficar pronta entre hoje e amanhã e vai apontar a verdade”, declarou num comício em Ponta Grossa.

“Lula quis transformar o Brasil num galinheiro e agora está por aí colhendo ovos por onde passa” .

É fácil usar esse raciocínio com ele. Se alguém vive do discurso de ódio e da retórica da violência é Bolsonaro. Mas é uma simplificação que, no momento, não eleva o nível do debate. Isso interessa a eles. 

Que ele se restabeleça, o caso seja elucidado, os ânimos apaziguados, para que Jair Bolsonaro e o que ele representa sejam derrotados nas urnas.

Abaixo a política da porrada!

Por André Forastieri

Jair Bolsonaro foi esfaqueado em um ato de campanha em Juiz de Fora! Felizmente, passa bem. É a última pessoa que eu gostaria de ver como presidente. Mas espera aí! Sim, violência gera violência, truculência chama truculência, estupidez atrai estupidez.

Mas ninguém pode passar pano para um ataque contra um político. Bolsonaro tem direito de defender o que quiser (e você de votar em quem quiser).

Ninguém tem direito de reagir esfaqueando. Política na porrada tem que ser rejeitada – por todos!

Bolsonaro faz campanha com super escolta da PF e da PM

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Do El País

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) é o único presidenciável com escolta da Polícia Federal. Desde o início da campanha, ele é acompanhado por até 30 agentes que se dividem em dois ou três turnos, conforme o EL PAÍS apurou.

(…)

Além desses PFs, há ainda policiais militares da reserva (vários deles militantes do PSL) que ajudam na segurança de Bolsonaro.

Foi o próprio candidato que solicitou essa escolta policial. E, como concorrente à presidência, ele tem direito a receber esse acompanhamento. Em outras ocasiões, Bolsonaro já afirmou estar sob o “máximo risco de morte”. Em todas as cidades pelas quais passa, costuma fazer os deslocamentos por terra em viaturas da PF.

Na carreata realizada na quarta-feira em cidades satélites do Distrito Federal, o EL PAÍS identificou ao menos dez policiais em sua escolta. No ato, enquanto ele estava em um dos trios elétricos que atravessaram as cidades de Taguatinga e Ceilândia uma policial feminina ficava o tempo inteiro atrás do candidato.

Outros quatro cuidavam para que galhos de árvores não tocassem em sua cabeça e miravam as pessoas que estavam ao redor dele para tentar identificar qualquer ameaça. Havia ainda ao menos mais dois que se alternavam correndo a pé atrás do veículo no qual Bolsonaro estava. E outros três dirigiam veículos nos quais o candidato e sua equipe se deslocavam.

Apesar de estar sempre monitorado, o candidato vive em constante desconfiança. Nessa carreata de quarta-feira, um de seus filhos, o também deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), estendeu a mão pelas costas de Jair e lhe deu uma garrafa de água mineral aberta para que ele se hidratasse. Antes de beber, o presidenciável olhou novamente de onde tinha vindo a garrafa e só a levou à boca depois que Eduardo lhe disse: “Pode beber, não está batizada, não”.

Estranho que todo esse aparato de segurança não tenha visto um sujeito se aproximar de arma (faca) em punho…