PF quer ser a vítima no suicídio do reitor em Santa Catarina

Por Geraldo Seabra – Os Divergentes

A Polícia Federal está procurando um jeito de ficar bem na foto no caso que levou ao suicídio do ex-reitor Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier, ocorrido no dia 2 outubro do ano passado, depois que ele foi acusado e preso sem nenhuma prova por suposta prática do crime de obstrução de Justiça na operação Ouvidos Moucos, que investigava supostos desvios de recursos públicos destinados ao financiamento de bolsas de estudo para alunos de cursos de pós-graduação na UFSC.

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Diante do fracasso das investigações que pudessem incriminar o ex-reitor, a Polícia Federal providenciou uma mudança de foco e passou a investigar o professor de jornalismo e chefe de gabinete da Reitoria da Universidade, Áureo Mafra de Moraes, mas por motivo completamente alheio ao que se destinava a operação Ouvidos Moucos. Desde dezembro do ano passado, após uma festa de aniversário da Universidade, pesa sobre Moraes a acusação de ter atentado contra a honra da delegada federal Erika Mialik Marena, responsável pela prisão do ex-reitor da UFSC, como registra o repórter Walter Nunesem brilhante reportagem na Folha de S. Paulo dessa sexta-feira (27).

O professor Moraes, que foi chefe de gabinete do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier, está sob investigação da Polícia Federal por causa de uma reportagem produzida por alunos do curso de Jornalismo e levada ao ar pela TV da Universidade, nas comemorações dos 57 anos da instituição, em dezembro.  Nessa reportagem, gravada em vídeo com duração de três minutos, e no qual Moraes aparece durante seis segundos, os federais viram indícios de crimes de calúnia e difamação contra a delegada Erika, embora o seu nome não tenha sido proferido pelo professor.

Ao acusar Moraes de atacar a honra da delegada, a Polícia Federal se agarra aos dizeres de uma faixa que havia na Universidade, e captada pela câmera durante a entrevista, denunciando “Agentes públicos que praticaram abuso de poder contra a UFSC e que levou ao suicídio do reitor”. Além da frase, a faixa estampava fotos da delegada Erika Marena, da juíza Janaína Cassol, que decretou a prisão de Cancellier, e do procurador da República André Bertuol, responsável pela operação Ouvidos Moucos no Ministério Público Federal.

Desatento às garantias constitucionais de livre manifestação aos cidadãos, e ao que parece desconhecedor também do ambiente universitário, o delegado federal Germando Di Ciero Miranda resolveu fazer uma devassa na festa de aniversário da Universidade. Cobrou explicações sobre a realização do evento ao seu atual reitor, Ubaldo Balthazar, e ao seu chefe de gabinete. O reitor disse ao delegado não ser responsável pelas manifestações que aconteceram na Universidade, e ressalvou que a academia não sufoca nem inibe qualquer protesto.

Do professor Áureo o delegado queria que ele dedurasse os responsáveis pelo evento, apontando a autoria, quem autorizou a entrada dos cartazes e porque foram posicionados atrás dos entrevistados, como faz a Rede Globo ao entrevistar os jogadores ao final das partidas de futebol que ela transmite. Como o professor negou-se a ser alcaguete dos seus alunos, disse desconhecer as questões levantadas e ainda afirmou que a Universidade não interfere e nem cerceia manifestações dos alunos, recebeu uma reprimenda do delegado, que ainda obrigou Áureo a comunicar à Polícia Federal sobre eventuais mudanças de endereço. O comportamento do delegado Di Cícero Miranda nos remete à Polícia Federal dos tempos da ditadura (1964-1985), quando tinha função de polícia política.

Esse comportamento de polícia política na Polícia Federal, no entanto, nos dias atuais, não tem sido privilégio do delegado Di Ciero Miranda, lá em Santa Catarina. Em São Paulo, o delegado Cleyber Malta Lopes se arrasta há quase um ano na investigação da denúncia de pagamento de propina ao presidente Michel Temer pela Rodrimar, empresa que teria sido beneficiada pela na renovação de seu contrato de concessão portuária pelo chamado Decreto dos Portos, editado pelo presidente da República em maio do ano passado.

Em dobradinha com o ministro Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, e a procuradora-geral da República, Rachel Dodge, o delegado Cleyber tem conseguido sucessivos adiamentos do prazo para concluir a investigação contra o presidente, sugerindo, a exemplo de Santa Catarina, que ele está à frente de uma investigação mal conduzida, com prisões desnecessárias, e com um grande aparato midiático que mantém o acusado sob uma ribalta, numa exposição que teria por objetivo apenas desmoralizá-lo cada vez mais. Está na hora de a Polícia Federal mostrar mais competência nas suas atribuições, sob pena, depois de ter sido profissionalizada nos últimos governos, de voltar a operar na sombra, como naqueles tempos que ninguém quer de volta.

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